
Ficava numa
esquina suja e pouco movimentada – além de mal iluminada à noite. Não chegava a
ser exatamente uma casa, estava mais para um quartinho abafado e repleto de
calçados jogados pelo chão, à espera de conserto ou lixeira. A “Casa de
calçados”, como era conhecida no bairro e redondezas, era um mistério e por
vezes usada pelos pais quando queriam fazer medo aos filhos: “olha que eu te
jogo dentro do quartinho dos calçados, peste!” A verdade é que ninguém via quem
entrava e quem saía de dentro do quartinho, mas sabiam que havia gente que
trabalhava lá, ouviam as batidas do martelo e a luz acesa, muitas vezes até
tarde da noite. Diziam que um homem de meia idade, muito rabugento e sujo
trabalhava lá, mas que o ponto era alugado. Acontece que, quando se tem uma
lenda assim, tão pertinho de casa, é difícil controlar-se quando se é possuído
por um espírito aventureiro e corajoso como o de Mariana. E Mariana era uma
menininha de cabelos cacheados, testa grande e muito exibida, sempre dona das
brincadeiras e a mãe de todas as bonecas suas e das amigas – e estas, se
quisessem, se contentassem em serem apenas tias.
Certo dia, Mariana, curiosa que só
ela, resolveu aproximar-se do portão enferrujado e carcomido do quartinho
escuro, e encantou-se com uma sandalinha cor de rosa que estava emborcada,
solitária sem seu par, próxima ao portão. Queria eu poder descrever com
exatidão a intensidade com que os olhinhos de Mariana brilharam quando viram
aquela sandália, tão meiga e conservada no meio daquelas quinquilharias, uma
belezura! Decidiu que teria que haver um par, e que seriam suas, as duas, fosse
como fosse! Espirituosa, bateu palmas por
duas vezes:
- Moço, ou moço...
Tem alguém ai? – esticava o pescoço, como que procurando um velho amigo.
Parecia não ter
ninguém naquele quarto abafado e amontoado de sapatos e velhas sandálias, e, se
havia, parecia não ouvir – ou não querer atender – Mariana. Pensou em novamente
insistir nas palmas, mas gritaram por seu nome no final da rua, e Mariana nem
mais lembrava que estava em plena brincadeira de corre-corre. Despediu-se
daquela sandália como quem deixa um cachorrinho abandonado no meio do mato, e
havia um aperto em seu peitinho esquerdo - de tanta dó.
A noite foi mal dormida. Por vezes
pensou em levantar-se e ir ao quarto da mãe, pedir a ela de presente aquelas
sandalinhas, que nunca mais lhe pediria nada, mas que, por tudo que mais
amasse, comprasse-lhe aquelas belezinhas rosa para exibi-las em seus pés. Na
escola, na manhã seguinte, ficou quietinha no canto da sala, e mesmo todos
estranhando seu comportamento, que era sempre de inquietude e elétrico, ela
dizia: “não é nada, estou com uma dorzinha de barriga” – não queria nem podia
dizer a ninguém sobre sua sandalinha, decerto iriam querer toma-la, comprar
antes que pudesse fazer aquele negócio. Decidiu, ainda antes de sair da escola,
que àquela noite falaria com o dono daquela Casa, que decerto venderia para ela
baratinho se ela fizesse uma carinha triste, pois todos diziam que ela era uma
coisinha fofa e lhe adulavam com mimos e regalos sempre que merecia – ou
simplesmente queria algo.
Jantou cedo, faltava ainda dez pras
sete da noite quando arrotou um arrotinho de menina e pediu a benção à mãe:
- Tu já vai pra
onde, bicha mal educada? Eu quero é que tu não chegue aqui antes dessa novela
acabar, tu escutou?
O portão da frente
já havia batido duas vezes quando Dona América terminou de gritar o último
verbo. Passou por entre os amigos e fez que nem os viu, tão cega que estava em
um só pensamento, pois algo mais importante a esperava ali na esquina. A luz
estava acesa, o que já era um bom sinal, e grande foi a surpresa que estava
reservada à Mariana: no mesmo lugar, próximo ao portão, estava não somente a sandalinha
rosa, emborcada e suja, que Mariana vira no dia anterior, mas agora estava
juntinha a seu par, as duas corzinha de morangos. Deu dois saltinhos leves de
alegria, estava realizada! Palmas, palmas:
- Moço, seu moço,
o senhor tá ai? – aflita, mas àquele dia houve resposta. Um vulto vindo de um
canto escuro do quarto fez de pé ante a menina.
- Diga, boneca. –
era uma lenda que se transfigurava ali na sua frente.
Mariana quis
travar, parecia que a voz não iria sair da garganta à fora.
- O s-senhor vende
essa sandália aqui é? – nervosa.
O homem coçou a
barba, era realmente como haviam dito, um tanto rabugento, não tão sujo.
Aproximou-se do portão, era alto e usava uma velha bermuda esverdeada e
rasgada. Olhou para todos os ângulos da rua, que parecia ainda mais mal
iluminada justamente aquele dia, o que era quase proposital.
- Você mora aqui
mesmo, boneca? – mastigava um chiclete – ou fazia que mastigava.
- Moro lá na outra
esquina, e eu vim aqui ontem, mas o senhor não estava, né? – precisava ganhar a
simpatia do moço das sandálias.
- Era, eu não tava
não. – disse, destrancando o cadeado – Você quer qual sandalinha? Essa rosinha
aqui? Entre, mocinha, que lá dentro tem mais – convidativo.
Mariana foi,
taciturnamente, entrando no quartinho abafado. Quase chorou quando viu à sua
frente como que um corredor cheinho de sandalinhas e sapatilhas de todas as
cores, das mais bonitas, que parecia milimetricamente feito para o encanto das
apreciadoras de calçados coloridos.
- Meu jesuizinho!
Como são lindas! Quero levar todas! – exultava de alegria.
- Vai, você vai
levar todas, tudinha! – o escarnecedor.
O homem, da Casa
de calçados, que era realmente sujo e maltrapilho, deu uma última olhada para
as ruas que lhe rodeavam e nada via, embora ainda cedo. Algumas crianças
caretas brincavam de corre-corre no final da rua e, empolgadas, não se
atentavam aos locais mal iluminados e desinteressantes por onde não podiam
correr. Voltou a colocar o cadeado no portão velho e carcomido de ferrugem e
com manchas de sangue seco em algumas das dobradiças, fechando vagarosamente a
porta de enrolar atrás de si, enquanto Mariana media seu pezinho nas sandálias
amareladas que fechavam com tirinhas.
- Qual seu nome,
meu benzinho? Qual sandalinha você vai querer? Venha aqui que tem um bocado que
você ainda não viu! – disse o homem, com a mão grossa e peluda no ombrinho da
menina realizada, a conduzir-lhe com certa pressa em direção ao canto escuro e
sombrio do quarto lendário dos calçados, e Mariana já percebia que não era mais
tão encantador o caminho alegre das sandálias coloridas – queria voltar.
Sabe-se que
naquela noite a brincadeira das crianças caretas foi até um pouco mais tarde,
as mulheres não dormiram e ninguém comprou nem consertou calçados no dia
seguinte, pois a Casa de Calçados não abriu: fechou por excesso de encomendas.