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8 de outubro de 2014
"A Cartomante" é o primeiro poema de Alex Costa para o LiteraturaBr

"A Cartomante" é o primeiro poema de Alex Costa para o LiteraturaBr






















Quando ontem me olharam e disseram
Que o mundo hoje findar-se-ia,
Ri na cara daquela pobre infeliz
Sem saber que sina triste eu teria.

Cheguei em casa. Bati na porta. Ninguém abriu.
Dei a volta para entrar pelos fundos, logo pensei:
“que milagre, o Rex ainda não latiu!”
Mas eles estavam em casa - D. Nice me garantiu.

A porta entreaberta, as roupas estendidas no varal,
A casa em fúnebre silêncio - estranhei;
Rex deitado ao lado do fogão, um osso
Que não terminou de roer. Chamei:

- Berenice, cadê você, minha nega?
E o pesar do silêncio no ar. Corri avexado à sala,
E quando fui à cortina levantar,
Foi como um tiro: três corpos sem vida,

Um mar de sangue e a Morte, toda faceira, deitada no sofá. 







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24 de setembro de 2014
O SUICIDA, Conto de Alex Costa

O SUICIDA, Conto de Alex Costa





        Quando finalmente decidi, ainda hoje pela manhã, que tiraria minha própria vida, decidi em paralelo que não me acovardaria. Mas o que faria, mesmo, antes? Foi quando pensei em telefonar a um amigo, contar-lhe sobre a corda que agora vejo pendurada no caibro mais alto desse quarto sem graça. Como ele mora perto, decidi não arriscar, pois ele chegaria depressa e correria o risco fatal de salvar minha vida: ser salvo é o que eu menos preciso neste momento. Foi quando, em segundo plano, decidi que tinha o dia toda para morrer, e, embora sombria, sabemos que a Morte não escolhe hora marcada para os que desejam deitar-se em seus braços magros e ossudos no ápice da juventude – suponho.
          Decidi, então, às nove e trinta da manhã, que escreveria uma série de cartas que eu imaginava que iriam chorar sobre meu caixão de luxo, no qual minha mãe - perua como ela só - faria questão de me enterrar. Minha mãe. Juro que se fechar os olhos neste exato momento consigo vê-la, de vestido preto, com um enorme decote [que, decerto, quase chega ao umbigo], fingindo enxugar os olhos cagados de maquiagem preta com um lenço bordado, a alisar meus cabelos loiros e lisos, coloridos pelo sol das praias cearenses.
          Sobre as cartas, escrevi dezessete. Enderecei-as às minhas mais intensas relações, sendo três delas a inimigos [que um dia chamei amigos]. Deixei com a missão de entrega-las o amigo Jorge Xavier, um fato cômico, tendo em vista que Jorge passou no último concurso dos Correios e trabalha como carteiro, e odeia sua profissão: fica, então, como última gozação com esse sacana que pega todas as madames ricas e solitárias as quais lhe oferecem chá da tarde no vai e vem das cartas e envelopes. Ah, Jorge... o garanhão do “Clube da Prancha”. Mal sabem as menininhas onde Jorge coloca aquela boquinha de lábios suculentos antes de beija-las, o que espirram em sua carinha de barba por fazer – eu que o diga. Mas Jorge [ou Jorgeco, para o macharal do Clube da Prancha] não terá o trabalho de entregar todas essas cartas, pois queimei-as todas.

          Troquei todas essas cartas por este papel no qual agora escrevo, somente esta lauda que me faz suficiente para despedida. Deixo-lhes o motivo da minha ida que, decerto, logo dirão que foi precoce: aos vinte e um anos de idade, a vida não tem mais a mínima graça e enjoei do mundo faz tempo. Estou disposto de decidido a escrever minhas últimas duas linhas eu, que gostei tanto de escrever, e por isso ofereço-lhes o penúltimo ponto final. A última linha reservo para descrever somente a brisa suave e gélida que agora entra pela janela aberta do meu quarto, fazendo a corda balançar num ritmo tão convidativo que me apresso em colocar aqui o último ponto final [em mais de um sentido] em mais de uma dor.      



    
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10 de setembro de 2014
"LAGARTA DE FOGO" é o novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr

"LAGARTA DE FOGO" é o novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr





          Certo dia eu caminhava por uma calçada mal feita, esburacada, numa rua sem graça que visitara algumas vezes. Era quase meio dia, pois o sol a pino brilhava debaixo do meu queixo – e aquela luz me incomodava, prefiro sombras. A rua parecia um deserto em todos os seus aspectos, na quentura, no espalhar da areia pelo vento, na solidão. Avistei, em outra calçada feia, uma menininha magra, de cara chupada, braços finos e blusinha suja e de alça caída. Ela estava acocorada ao pé do portão de uma casa que imaginei ser a sua, e cutucava com um palito de dente algo que se movia no chão. Sei que este algo se movia por dois motivos: ela, a menina, não descia a mão das agulhadas mortais em um ponto fixo, além do quê, a sensibilidade de ouvir as últimas súplicas de tudo que respira me é comum. 
          Curiosa que sou, aproximei-me e juro, não minto, ouvi uns risinhos na prática da maldade. Poucas vezes presenciei uma cena tão cruel, tão horrenda euforia na retirada de uma vida. A menina, que era um pedacinho de gente, tinha brilho nos olhos ao enfiar violentamente o palito de dentes em uma formosa lagarta de fogo, que se retorcia e gemia [gemidos de bicho] a cada espetada que recebia. A menina, que era perversa e magra de ruim, tinha como objetivo perfurar toda a lagarta de fogo, e, confesso, sua alegria por estar tão perto de tal feito era tamanha que me contagiou. Parecia haver uma maldade naquela menina que ela tinha facilidade em acessar. Ainda com muita pena da pobre lagarta, eu agora queria apenas ver seus pedaços espalhados pela calçada, e amiudei os olhos para ver a mutilação com maior nitidez.
          Quando dei por mim, Eu, que sou Senhora tão reservada e silenciosa, pulava em euforia ao redor da menina, que nem parecia assim tão ossuda e perversa, e seu rostinho pueril até era cheinho de carnes. Ela, repentinamente, ficou de pé e, com os bracinhos levantados, gritava: “Yes, yes, yes!” E quando olhei para seus pés, que obra de arte! A lagarta estava bem dividida em doze pedacinhos miúdos, e seu sangue – verde - espalhava-se por um pedaço da calçada, uma das cenas mais lindas que vi em minha longa trajetória de vida. Eu estava plena de gozo, extasiada em meus negros véus. Cheguei atrás da menina linda, a qual eu admirava agora e já não queria mais apenas como conhecida, queria aquela pequena como minha amiga, e alisei seus cabelos [que não eram lisos] e ela então começava a notar minha presença.
          Notei os pelinhos loiros dos seus braços levantados, e ela passava a mão na tentativa de acalmá-los, e Eu, na tentativa de ajudá-la, apenas fazia com que a intensidade dos calafrios [pois dizem que é isso que se sente quando estou por perto] aumentava. Percebi que minha magrelinha tinha pressa – decerto para andar de mãos dadas comigo. Apressei-me também. Girei a cabeça e vi, num quarteirão próximo, um motorista conduzindo um enorme caminhão de lixo. Inclinei-me em seus ouvidos e sussurrei: “você me conhece?” Ele, o motorista, então fez uma curva brusca e entrou a toda velocidade na rua deserta, na qual acabara de acontecer a atrocidade artística da lagarta de fogo. Segurei firme na mão da minha mais nova amiga e companheira, soprei uma lágrima que descia pelo seu rosto ossudo e bem corado; de bochechas cheinhas e quase perfuradas. Eu pulava em euforia, ela nem tanto. O caminhão se aproximava a 130 por hora, soprou uma suave brisa gélida ao sol do meio-dia, atravessamos a rua de mãos dadas, consciente e inconscientemente.


Horas mais tarde voltamos para brincar sobre o caminhão virado, ao som de choros e gemidos arrastados, enquanto separavam o lixo podre da carne pueril esfacelada, e passeávamos entre o ajuntado de pessoas que se reunia para entender o caso. Minha última observação, naquele dia, foi marcante: já era noite quando os pedaços da lagarta de fogo ainda continuavam intactos na calçada morna.   




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5 de setembro de 2014
"ESTRELAS" é a nova Cartônica de Júlia Sá para o LiteraturaBr

"ESTRELAS" é a nova Cartônica de Júlia Sá para o LiteraturaBr




Hoje assisti a um filme, oriundo de um livrinho da capa azul e que, lembro-me bem, espantou-me à primeira lida em seu título, pois simplesmente colocava a culpa em astros que nada podem fazer para se defenderem. Retratava o amor de dois jovens, ambos doentes. Um pleonasmo? Talvez. O amor é uma doença - perigosa. Deixa de cama, com dores no peito e indisposição. Em seu processo de evolução, pode maltratar ou mesmo matar. Aqueles dois jovens foram covardemente traídos pelas brincadeiras da vida, mas, como os mesmos entenderam, viveram um infinito (particular) juntos - e há uns infinitos maiores que outros, é verdade. O filme causou-me por vezes desconfortos, nós na garganta e um aperto no peito. Identifiquei-me com a doença sentimental sofrida pelos dois. Não parei de imaginar um certo alguém me dando a mesma notícia que Gus deu à Hazel, deve ser di-la-ce-ra-dor. 

Por vezes quis abdicar-me por completo do amor, visitá-lo apenas nas páginas de ficção, onde a idealização toma as rédeas da narrativa e eu apenas observo. Talvez porque hoje amo houve tamanha identificação, e por mais de uma vez o amor me chamou, e em todas elas eu fui, igual a um cachorrinho atrás do osso, receoso de pancadas fortes, cuidadoso, sendo mal compreendido, gostando apenas de quem me admira de longe, não me deixa amar de perto. Fernando Pessoa dizia que "todas as cartas de amor são ridículas, ao contrário, não seriam cartas de amor". Não me arrependo de nenhuma que enviei, todas as que enviei a apenas ao caso que tive certeza ser amor, ao que tenho certeza amar. Quando ele chega o mundo para e o ar fica em suspensão; o tempo parece se render a nós e não quero ver outra coisa senão teus olhinhos infantis, teus cachos - negros. Saí daquela sala de cinema tendo a certeza de que teu beijo será o meu infinito, que valerá as mil possibilidades de números que há entre um e dez. 

Arrisco todas as minhas fichas sem pensar meia vez, porque paixão não se explica, e quando ela vira amor, não se entende. Prefiro as declarações de agora, sem culpar nada nem ninguém, nem mesmo a ti, e se eu partir amanhã, virar estrela, parto feliz, pois não guardei para mim um sentimento que tu, que amo e desejo, precisavas saber, e não me acompanhará o dilema de Manuel Bandeira: "uma vida inteira que poderia ter sido e não foi."

Okay?
Okay.




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29 de agosto de 2014
"COMPARAÇÕES" é a nova Cartônica inédita de Júlia Sá para o LiteraturaBr

"COMPARAÇÕES" é a nova Cartônica inédita de Júlia Sá para o LiteraturaBr




“Metáfora: é a palavra ou expressão que produz sentidos figurados por meio de comparações implícitas. Ela pode dar um duplo sentido à frase”. Meu erro, decerto, tenha sido este: comparar-te a tantas coisas, sem me dar conta do quão singular és. Diante de ti me dispo; lanço-te as mais ridículas declarações de sentimentos que, desconhecidos, receio a precocidade em nomear.  Ora me firmando em metáforas para não te deixar ser descoberto; ora chegando a gritar teu nome, revelando-te o que mais desejo em ti - no teu corpo. Foste então posseiro, desbravador e, por último, um pássaro, quando percebi que este tem asas não em vão: merece a liberdade dos voos livres, escolher a janela que melhor lhe acomode, que lhe deixe mais confortável para tornar mais audível teu canto. Não me alongo neste escrito, que encerra este ciclo de clamores por um sorriso teu; a curiosidade de saber qual foi a expressão do teu rosto ao ler a última linha, em saber quais foram as primeiras palavras que cruzaram teus lábios, se um elogio ou crítica.

Sim, sou um pecador; sim, sou um santo. Deixo-te então minha maior desconfiança, que tem me confundido ultimamente na busca tola de arranjar-lhe uma definição, que loucura! Ao iniciar, trazendo-te o conceito de metáfora, desculpando-me por tantas comparações feitas a ti, bem sabia como iria terminar: na busca infinita por tentar entender quando, exatamente, uma amizade transforma-se em algo que nos deixa com as tais borboletas no estômago, com o pensamento longe, querendo saber por onde andarás; que nos faz chorar, soluçando e chamando por teu nome; que nos faz saber que, mais uma vez, falhando em tentar entender o amor.    





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27 de agosto de 2014
"NO TERMINAL DE JEFERSON", crônica de Alex Costa para o LiteraturaBr

"NO TERMINAL DE JEFERSON", crônica de Alex Costa para o LiteraturaBr




Hoje o acaso me levou à Faixa de Gaza fortalezense, ao ponto de encontro de mãos que negam centavos e dos que morrem pelas bombas invisíveis jogadas constantemente em seus olhos, suas vidas. Cheguei naquele terminal por volta das 18:20, encontraria uma amiga às 18:50. Por sorte andava na companhia de um livro e matei esses trinta minutos sem problemas. Mas, neste ínterim, fui surpreendido por um dos diálogos mais lindos que tive na vida. Ao chegar, senti vontade de tomar um sorvete e me encaminhei, segurando o livro na mão direita, a um ponto rosa no qual uma placa anunciava: “Casquinha – 1,50”. “Uma mista, por favor” – pedi à atendente, que tinha sua testa brilhosa de suor, e Deus sabe desde que horas aquela moça trabalhava naquele cubículo quente e desconfortável. Notei que, um pouco afastado, a chupar o dedo polegar, um menino, que vestia uma blusa cinza com a imagem de um Mickey Mouse sorrindo, me observava e olhava fixamente para o livro que estava na minha mão, mas logo mirou no dinheiro que a atendente me entregava – troco de vinte reais.

“Ei, tio, me dá as mueda ai, vá lá!” – pensei em um turbilhão de coisas em fração de dois segundos. 1) Cheirar cola? 2) Inteirar a pedra? 3) Comprar comida? Não fazia ideia em qual alternativa deveria arriscar, mas temia ser uma das duas primeiras. “Deixa pra próxima, beleza?” – saí de lá com o coração na mão, mas não podia arriscar colaborar com a destruição daquele menino – que eu, preconceituosamente, achava que estava a se destruir. Voltei ao banco onde estava sentado antes de ir comprar aquele sorvete, já com o sorvete pela metade, e fiquei refletindo nos olhos pidões daquele menino. Por um lado, algo me dizia que eu havia feito o certo, por outro, poderia ter sido eu o provedor da janta (refeição única?) daquele jovem. Dei a última dentada na casquinha e joguei o guardanapo na lixeira ao meu lado, abri o livro na página 92.

Li dois parágrafos de um ensaio chato e escrito somente para a exaltação do ego de quem se achava muito conhecedor da arte do cinema, escrevendo três “achismos” ainda no primeiro parágrafo. Fechei o livro e só então me dei conta de que eu estava cercado por uma atmosfera propiciadora a inspirações para a escrita, uma loca cheia de frutos do Determinismo de Taine e das exceções com as quais não podemos justificar as (ainda) poucas mudanças sociais; inspira-me o contato com a pele de um povo que tão injustiçado foi e ainda não recebeu indenização, que sustenta esse país nas costas e são escrachados todos os dias por não terem o cabelo liso. Deixemos estes comentários e indignações para um comentário posterior, hoje me interessa contar outra história.

De pé, com os olhos fixados em mim (há quanto tempo?), ainda chupando o dedo, o menino das muedas (porque muedas, com U, é mais coerente) me olhava ainda com os mesmos olhos pidões com os quais recebeu meu não. Dei um sorriso de canto de boca para ele e o gesto foi recíproco. Ele veio caminhando em minha direção, limpando o dedo polegar no calçãozinho azul sujo e furado. “Como é esse livro ai?” – apontando para a capa colorida. “É um livro de ensaios sobre cinema” – ele fez um sinal positivo com a cabeça, mas percebi que ele não fazia ideia do que era um ensaio. “Você sabe o que é isso, ensaio?” – ele voltou a colocar o dedo na boca e balançou a cabeça em sinal de negação. “Pois senta aqui, macho, vou te explicar”

Descobri que seu nome era Jeferson (com um F só, segundo o mesmo) e que não estava estudando. Quer trabalhar na Petrobrás quando for “grande” e morar no Conjunto Ceará (?). Tinha três irmãos e não quis dizer onde morava, respeitei. “Antigamente” ele vendia amendoim, mas agora não vendia mais porque acabou (?). Jeferson, depois de três minutos de conversa, disse que havia entendido o que era um ensaio, e até me explicou quando pedi: “é quando o cara escreve pra dizer o que tá pensando” – não foi bem isso que expliquei a ele, mas tá valendo! “Mas, tio, tô com fome ó! Compra um salgado pra mim, vá lá!?” – pediu, com um olho aberto e outro fechado, com meio sorriso na boca de dentes alvinhos. “Certeza que é pra comprar salgado?” – perguntei olhando nos olhos dele, embora já tivesse decidido a dar. “É sim, é sim! Vou comprar bem ali, ó!” – apontou para uma lanchonete à nossa frente.

Tirei dois reais do bolso e já ia me levantando para ir com ele comprar o salgado, mas ele disse que eu não precisava ir, podia deixar que ele comprava sozinho, porque ele sabia. Entreguei o dinheiro e disse que ele fosse mesmo, que eu estava olhando dali. Ele tirou o dedinho da boca e saiu correndo com a nota de dois reais levantada e sacudindo em euforia. De repente, Jeferson parou no meio do caminho, olhou para trás e foi voltando com os olhos caídos. “Ei, tio, é dois e vinte e cinco, e o homem não deixa não ó!” – sorri e tirei mais vinte e cinco centavos do bolso e o entreguei. Novamente a carreira com a cédula azul levantada.

Jeferson, que era menor que o balcão, chegou todo dono de si para comprar seu salgado com suco, e logo foi rodeado por outros cinco meninos do seu tamanho, e arrancou um pedaço do seu salgado para cada moleque daqueles. Como sou besta que só eu mesmo, enxuguei as duas lágrimas que caiam na minha blusa bem lavada com amaciante e passada a ferro, vendo um minúsculo salgado sendo repartido com tanta alegria entre seis Jefersons.





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22 de agosto de 2014
"POESIA", nova Cartônica de Júlia Sá para o LiteraturaBr

"POESIA", nova Cartônica de Júlia Sá para o LiteraturaBr




Um salve à
Desconstrução
Da métrica.


Das metáforas e metonímias que estão escritas na negritude dos teus olhos miúdos bebo. E alimento-me da intensidade dos últimos versos dos teus poemas, que são sempre os que me consomem e trazem consigo os tiros mais certeiros. Teu corpo é por inteiro poesia, e teus lábios são as rimas que chegaram para desconstruir a métrica que haviam nos imposto, amantes. Tu és poesia em acordes, em estrofes, em melodias e há arte também no sal do teu suor. Teu toque levanta os pelos da minha nuca, e vejo no teu corpo arte, e divino é o Artista que te fez - artista também. Foi contigo que descobri que sonho também tem cheiro, gosto e deixa manchas terríveis nas roupas. E tu és ainda o objeto caro que eu, criança pobre, não posso levar para casa. E a vitrine que nos separa parece ser límpida e forte, e até os meus olhos ela encanta. Se tu soubesses do carinho que lateja no meu peito, do anseio que tenho por te dá-lo, não se manteria assim, tão distante, e correria aos meus braços, quebraria esta vitrine e conheceria o calor de um corpo diferente dos que te iludiram e te deixaram neste mesmo lugar, objeto secundário. No interior do meu peito algo sangra. Não te culpo, ao contrário: inocento-te. E neste peito uma dor fremente liquida a vontade de sorrir que me surge de quando em vez. Sou teu à hora que tu quiseres. E quando quiseres, acena-me e me chama: levantar-me-ei desta calçada que agora estou, limparei meus olhos e te sorrirei, e cínico te direi que está tudo bem. 




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15 de agosto de 2014
"LEVEM ESTAS ESPUMAS, PASSARINHOS", nova cartônica de Júlia Sá para o LiteraturaBr

"LEVEM ESTAS ESPUMAS, PASSARINHOS", nova cartônica de Júlia Sá para o LiteraturaBr





Paixão não se explica, decerto. As marcas deixadas pelo amor nem sempre podem ser apagadas, é sabido. Nem todos os elogios que derramam constantemente aos meus pés foram capazes de impedir que eu visse meu orgulho inteiro nas tuas mãos – e tu a gargalhar dele. E não é esta faca encravada no peito que mais me machuca, mas a frieza que escorre da tua boca e a ironia que há nos teus olhos enquanto continuas a enfiá-la lentamente, navalha envenenada. Grito enlouquecido e me olham de banda, e vejo nos olhos alheios o mal - pena e escárnio. Um dia teus abraços, de tão quentes, fizeram-me imaginar que o inferno seria uma possibilidade de morada. Não mais. Paro por aqui com tamanha imbecilidade e me refaço homem, que prende as lágrimas nos olhos e as derrama quando bem quer. Perdes nesta noite um mendigo teu, que deixa agora esta calçada imunda onde tu pisas e vais embora - indiferente. Cansado de ser tua prostituta imaculada, sempre rastejando aos teus pés, mas nunca por ti tocada, hoje me despeço. Se acreditarás ou não no que relato, um problema só teu; mas deixe-me te contar o quão saboroso foi descobrir que o sentimento de tantas confissões parece ter se revertido – fortemente. Cambaleante, deixo as marcas das minhas mãos sujas de sangue pelos muros e postes nos quais tento me apoiar. Alguns passam e me olham com indiferença, dó e compaixão. Digo-lhes: “a culpa é minha, sou viciado em me machucar”. E tu, sabendo que me acertou, me mostras um sorriso quase cerrado e levanta a mão por pura bondade, tendo em vista que sou caça tua – flechada por acaso. E o poeta me diz: “o tempo não para”. Cansado, vendo que não me queres para companhia - nem refeição, seguro agora firme no corpo dessa faca, repleta de sangue seco em volta, e vou arrancando-a e fazendo ferida na minha carne madura. Brado. Respiro. Finalizo esta última coisa que escrevo para ti escutando um poeta que me aconselha e me segreda – então descubro: tua pela (tornou-se) crua






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13 de agosto de 2014
"CASA DE CALÇADOS", conto inédito de Alex Costa para o LiteraturaBr

"CASA DE CALÇADOS", conto inédito de Alex Costa para o LiteraturaBr





          Ficava numa esquina suja e pouco movimentada – além de mal iluminada à noite. Não chegava a ser exatamente uma casa, estava mais para um quartinho abafado e repleto de calçados jogados pelo chão, à espera de conserto ou lixeira. A “Casa de calçados”, como era conhecida no bairro e redondezas, era um mistério e por vezes usada pelos pais quando queriam fazer medo aos filhos: “olha que eu te jogo dentro do quartinho dos calçados, peste!” A verdade é que ninguém via quem entrava e quem saía de dentro do quartinho, mas sabiam que havia gente que trabalhava lá, ouviam as batidas do martelo e a luz acesa, muitas vezes até tarde da noite. Diziam que um homem de meia idade, muito rabugento e sujo trabalhava lá, mas que o ponto era alugado. Acontece que, quando se tem uma lenda assim, tão pertinho de casa, é difícil controlar-se quando se é possuído por um espírito aventureiro e corajoso como o de Mariana. E Mariana era uma menininha de cabelos cacheados, testa grande e muito exibida, sempre dona das brincadeiras e a mãe de todas as bonecas suas e das amigas – e estas, se quisessem, se contentassem em serem apenas tias.
          Certo dia, Mariana, curiosa que só ela, resolveu aproximar-se do portão enferrujado e carcomido do quartinho escuro, e encantou-se com uma sandalinha cor de rosa que estava emborcada, solitária sem seu par, próxima ao portão. Queria eu poder descrever com exatidão a intensidade com que os olhinhos de Mariana brilharam quando viram aquela sandália, tão meiga e conservada no meio daquelas quinquilharias, uma belezura! Decidiu que teria que haver um par, e que seriam suas, as duas, fosse como fosse!  Espirituosa, bateu palmas por duas vezes:

- Moço, ou moço... Tem alguém ai? – esticava o pescoço, como que procurando um velho amigo.

Parecia não ter ninguém naquele quarto abafado e amontoado de sapatos e velhas sandálias, e, se havia, parecia não ouvir – ou não querer atender – Mariana. Pensou em novamente insistir nas palmas, mas gritaram por seu nome no final da rua, e Mariana nem mais lembrava que estava em plena brincadeira de corre-corre. Despediu-se daquela sandália como quem deixa um cachorrinho abandonado no meio do mato, e havia um aperto em seu peitinho esquerdo - de tanta dó.
          A noite foi mal dormida. Por vezes pensou em levantar-se e ir ao quarto da mãe, pedir a ela de presente aquelas sandalinhas, que nunca mais lhe pediria nada, mas que, por tudo que mais amasse, comprasse-lhe aquelas belezinhas rosa para exibi-las em seus pés. Na escola, na manhã seguinte, ficou quietinha no canto da sala, e mesmo todos estranhando seu comportamento, que era sempre de inquietude e elétrico, ela dizia: “não é nada, estou com uma dorzinha de barriga” – não queria nem podia dizer a ninguém sobre sua sandalinha, decerto iriam querer toma-la, comprar antes que pudesse fazer aquele negócio. Decidiu, ainda antes de sair da escola, que àquela noite falaria com o dono daquela Casa, que decerto venderia para ela baratinho se ela fizesse uma carinha triste, pois todos diziam que ela era uma coisinha fofa e lhe adulavam com mimos e regalos sempre que merecia – ou simplesmente queria algo. 
          Jantou cedo, faltava ainda dez pras sete da noite quando arrotou um arrotinho de menina e pediu a benção à mãe:

- Tu já vai pra onde, bicha mal educada? Eu quero é que tu não chegue aqui antes dessa novela acabar, tu escutou?

O portão da frente já havia batido duas vezes quando Dona América terminou de gritar o último verbo. Passou por entre os amigos e fez que nem os viu, tão cega que estava em um só pensamento, pois algo mais importante a esperava ali na esquina. A luz estava acesa, o que já era um bom sinal, e grande foi a surpresa que estava reservada à Mariana: no mesmo lugar, próximo ao portão, estava não somente a sandalinha rosa, emborcada e suja, que Mariana vira no dia anterior, mas agora estava juntinha a seu par, as duas corzinha de morangos. Deu dois saltinhos leves de alegria, estava realizada! Palmas, palmas:

- Moço, seu moço, o senhor tá ai? – aflita, mas àquele dia houve resposta. Um vulto vindo de um canto escuro do quarto fez de pé ante a menina.  

- Diga, boneca. – era uma lenda que se transfigurava ali na sua frente.

Mariana quis travar, parecia que a voz não iria sair da garganta à fora.

- O s-senhor vende essa sandália aqui é? – nervosa.

O homem coçou a barba, era realmente como haviam dito, um tanto rabugento, não tão sujo. Aproximou-se do portão, era alto e usava uma velha bermuda esverdeada e rasgada. Olhou para todos os ângulos da rua, que parecia ainda mais mal iluminada justamente aquele dia, o que era quase proposital.

- Você mora aqui mesmo, boneca? – mastigava um chiclete – ou fazia que mastigava.

- Moro lá na outra esquina, e eu vim aqui ontem, mas o senhor não estava, né? – precisava ganhar a simpatia do moço das sandálias.

- Era, eu não tava não. – disse, destrancando o cadeado – Você quer qual sandalinha? Essa rosinha aqui? Entre, mocinha, que lá dentro tem mais – convidativo.

Mariana foi, taciturnamente, entrando no quartinho abafado. Quase chorou quando viu à sua frente como que um corredor cheinho de sandalinhas e sapatilhas de todas as cores, das mais bonitas, que parecia milimetricamente feito para o encanto das apreciadoras de calçados coloridos.

- Meu jesuizinho! Como são lindas! Quero levar todas! – exultava de alegria.

- Vai, você vai levar todas, tudinha! – o escarnecedor.

O homem, da Casa de calçados, que era realmente sujo e maltrapilho, deu uma última olhada para as ruas que lhe rodeavam e nada via, embora ainda cedo. Algumas crianças caretas brincavam de corre-corre no final da rua e, empolgadas, não se atentavam aos locais mal iluminados e desinteressantes por onde não podiam correr. Voltou a colocar o cadeado no portão velho e carcomido de ferrugem e com manchas de sangue seco em algumas das dobradiças, fechando vagarosamente a porta de enrolar atrás de si, enquanto Mariana media seu pezinho nas sandálias amareladas que fechavam com tirinhas.

- Qual seu nome, meu benzinho? Qual sandalinha você vai querer? Venha aqui que tem um bocado que você ainda não viu! – disse o homem, com a mão grossa e peluda no ombrinho da menina realizada, a conduzir-lhe com certa pressa em direção ao canto escuro e sombrio do quarto lendário dos calçados, e Mariana já percebia que não era mais tão encantador o caminho alegre das sandálias coloridas – queria voltar.

Sabe-se que naquela noite a brincadeira das crianças caretas foi até um pouco mais tarde, as mulheres não dormiram e ninguém comprou nem consertou calçados no dia seguinte, pois a Casa de Calçados não abriu: fechou por excesso de encomendas.   





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8 de agosto de 2014
 "Avesso", crônica inédita de Júlia Sá em sua série de Cartônicas

"Avesso", crônica inédita de Júlia Sá em sua série de Cartônicas



À minha frente vejo um rio de águas baldeadas, densas e profundas. Garimpo um objeto negro e brilhante, beleza única, nunca antes vista por estes olhos. Há presenças que chegam, têm cheiro forte, embriagantes, e brilham com tamanha intensidade que nos fazem marcar – sozinhos - o dia do encontro. E quando nos pegamos estamos presos, amarrado nos passos de alguém que, indecifrável, nos tem nas mãos e sabe disso. A paixão chega e faz morada, não se deixa ser entendida, vira doença. Chamamos então amor, e amor é mais bonito. Queremos vê-lo, o alguém, sempre bem, sorridente, mesmo que em nós corroa o líquido maldito da indiferença e incompreensão recebida. Vai martelando, doendo, sangrando. Sara nunca ou sara amanhã? Não se sabe. Quantas vezes os olhos são fixados e as declarações ridículas se personificam? Quantas vezes as lágrimas vêm, tímidas, e desembestam, silenciosas, pela face retraída? Existe um desejo que nos maltrata por sermos iguais. Finaliza-se cá um ciclo vicioso, que tem me consumido – e a tudo que fiz – nos últimos meses. Sentimento é bicho traiçoeiro e pode facilmente, quando enraizado na mente, enlouquecer qualquer um(a). Tentei te mostrar um mar de possibilidades, mas acho que falhei. Despeço-te de ti, meu bem, pois não suporto mais o fardo de saber que te amo, e tu, que me admira de longe, não te permites, pois não te moves em ti.  Tu demorarás a sarar, decerto, e talvez não sare nunca – sare amanhã, por favor. De mãos levantadas, olhos marejados, grito: EU ME RENDO!

Eis o que tu foste em mim: um tiro certeiro no peito errado. 






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7 de agosto de 2014
"Sujeito, Verbo e Predicado", novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr

"Sujeito, Verbo e Predicado", novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr

Ilustração: Felipe Campos



Incontáveis as vezes que foram aqueles três danados, grudados no seroto um do outro, para a sala da diretoria. Ninguém sabia ao certo o que eles faziam na escola, pois todos e todas cochichavam que não tinham o mínimo interesse em passar de ano, embora fossem participantes fiéis da fila da merenda. O apelido surgira em uma aula de português, quando a professora, na tentativa convencê-los a cessarem a conversa e prestar a atenção em sua aula, os utilizou como exemplo de revisão: “os elementos básicos da frase são quase tão inseparáveis como vocês: sujeito, verbo e predicado” – disse a professora, apontando para cada um deles.
          Os demais professores há tempos não permitiam que os três sentassem próximos dentro de sala, mas bastava separá-los para a situação tornar-se ainda pior: uma incessante chuva de bolinhas de papel uns nos outros, nos extremos da sala. A solução parecia ser sempre a mesma: que fossem os três se resolver com a diretora, que professor não era obrigado a aguentar vagabundinho a atrapalhar suas aulas não, havia quem queria aprender!
          Os outros alunos tinham receio em olhar para os três, rolavam soltas umas lendas sobre eles que espantavam e circularam da diretoria à biblioteca; nada concreto, mas este ridículo temor era talvez o motivo da não expulsão dos três. A verdade é que os meninos eram um tanto mal encarados, e sempre tiravam as blusas da farda na saída do colégio, antes de dobrar a esquina da casa de fogos, na direção contrária a de suas casas. 
          Tudo o que conseguiam com os assaltos nos bairros distantes era dividido entre os três, sempre uma partilha na qual se preservava pela igualdade, para não haver desavença entre o trio. Eram viciados no que faziam, e faziam com excelência, pois nunca haviam sido pegues em suas aventuras de final de tarde. E começaram a correr as notícias de três “mirins” que estavam tocando o terror no bairro da Nascença, diziam que a situação estava ficando terrível e que os residentes do local já não aguentavam mais. Um grupo de moradores se juntou para tomar providências quanto ao caso dos moleques da favela, e então decidiram pela contratação de um policial aposentado que havia se mudado do bairro há alguns anos, mas havia resolvido problemas como aquele incontáveis vezes.
          Era um fim de tarde de sexta-feira, que nem era treze, quando os meninos abordavam, no final da rua, uma moça branquinha, que tinha nas mãos duas sacolas de uma loja grã-fina, e só faltava que ela entregasse o celular importado quando, no outro extremo da rua, apareceu Seu Fardêncio, o tal policial aposentado matador de “guri malandro.” Verbo, o mais taludo dos três, que se chamava Jeferson, foi o primeiro a gritar: “Correr, negrada!” Sujeito e Predicado - Cláudio e Iago, respectivamente – soltaram as facas enferrujadas no chão e correram atrás do Verbo, que estava mais à frente. Dobraram a esquina com a hiena em seus calcanhares, com um arma cor de prata (porque ele tinha nojo de preto) empunhada e pronta para matar menino sem identidade, mas os meninos corriam ligeiro, até que se viram no final de um beco sem saída, que tinha os muros bem altos e impossíveis de ser escalados. Estavam nervosos. Sujeito até parecia querer chorar, mas mantiveram-se firmes e, juntos, como sempre estiveram, correram como espartanos para cima dos pipocos das aves-balas que vinham zunindo da entrada do beco. “Bora pra cima que ele não pega nós três não, negrada!”  


          Dia seguinte deu no noticiário que a gangue do bairro vizinho havia matado os ladrõezinhos que estavam tirando o sossego da Nascença, “três marginaizinhos” – enfatizou o apresentador do noticiário das 18:00h. Vestida de falso luto, a escola continuou as atividades normalmente. Na segunda-feira da semana seguinte, a mesma professora de português, nas turmas de sétimo ano, anotava no quadro uma das classes gramaticais: “hoje veremos Adjetivo, que qualifica os seres bonitos, igual a você, minha flor” – disse a professora, alisando os cabelos de Marina, a menininha nova da escola, que todos diziam ser esquisita e estranha por sentar com as perninhas um pouco mais abertas que o normal, mas ninguém nunca se interessou em saber o porquê.  



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3 de agosto de 2014
"DECEPÇÃO", um microconto inédito nesta tarde de domingo

"DECEPÇÃO", um microconto inédito nesta tarde de domingo





Ao adentrar o quarto, percebi que a cama não era redonda e no teto não havia um enorme espelho – como haviam me dito que eu veria. Aqui e acolá se via algo no tom avermelhado, que é a cor do desejo. A porta de um pequeno frigobar, com marcas de ferrugem nas dobradiças, rangeu quando abri e me deparei com um mar de garrafinhas de água mineral, somente. Ela havia se deitado sobre a cama – quadrada – e dava pequenos gemidos, rolando por cima da cocha não tão macia nem limpa, como uma égua que se banha na areia. A televisão não funcionava, o ventilador empoeirado (não havia sequer ar-condicionado!) fazia um barulho agonizante e, sem divã ou poltrona, havia apenas duas cadeiras de plástico duro naquele quarto apático. Que situação desagradável aquela! Apenas uma curiosidade minha e a obrigatoriedade de estar acompanhado havia me levado àquele lugar. Ela estrebuchava-se sobre a cama à minha espera, chamava-me, mordendo os lábios, tentando sensualizar com os dedos a esfregar os grandes lábios – encardidos. Eu olhava ao redor e não acreditava na burrada que havia feito: adiantei o pagamento de três horas que teria que passar naquela pocilga! E agora teria que fazer meu dinheiro valer a pena. Olhei para aquela vagabunda e fui desabotoando a camisa e a bermuda. Entendi que a decepção maior não seria o dinheiro mal investido, mas pior ainda era o incômodo da ideia de agora ter que foder alguém que eu nunca quis, maldita que era, que me fazia sentir raiva por não estar em seu lugar, deitado à espera de um homem que desabotoasse o short na minha direção.      




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30 de julho de 2014
ROXO-MUNDO, novo conto de Alex Costa

ROXO-MUNDO, novo conto de Alex Costa



A comparação com os giz de cera foi imediata: como era colorida a roda-gigante! Era um sábado de aniversário, era Miguel fazendo seis aninhos.

- Olha, pai... depois a gente pode ir naquele? – mirava um brinquedo chamado espalha-brasas.

- Sim, podemos. Mas segure a minha mão! Pare de querer correr, Miguel. Não vai ser fácil te procurar aqui, no meio dessa multidão, danadinho.

O menino Miguel, de tão hesitado com o brilho das cores e o funcionar dos brinquedos, parava de quando em vez só para dar uns pulinhos de felicidade e agarrar-se à perna do pai, agradecendo pela promessa cumprida.

- Olha a baaaaaa-la-la-la-la-la! – era o palhaço Defim, vendedor de balas e algodão doce.

- Pai, quero uma bala, dessas de mastigar. – ganhou duas, porque era seu aniversário.

O resto da noite foi um corre-corre pr’ali, um “agora nesse aqui” que não acabava mais. Até que o cansaço foi chegando, as pernas ficando esmorecidas, os olhos pesando de sono. A volta pra casa foi um resumo da maravilhosa noite no parque: “o mais legal foi aquele que girava bem rapidão, né, pai?” – e as risadas de Seu Abílio, afagando os cabelos em cachinhos do pequeno Miguel. Ao chegar em casa:

- Agora é tomar banho e ir dormir, viu, mocinho! E não se esqueça de escovar os dentes... mas antes cuspa fora esse chiclete, vai acabar estragando os dentes, rapaz! – Miguel queria saber se era diferente ou não o gosto do segundo chiclete, que guardava no bolsinho da camisa.

Um beijo na testa. Um boa-noite. O cuidado em distribuir bem a coberta para proteger do frio o filhinho querido.

Três e quarenta da madrugada. Duas tosses secas e a procura de ar:

- É o Miguel, vai lá olhar o que foi – disse dona Giselda, empurrando a cabeça do marido.

- É nada não, criatura. Criança é assim mesmo, sempre tosse depois que se dana muito.

O domingo amanheceu nublado, de luto pelo embrulhinho roxo que amanheceu onde Miguelzinho dormiu e não mais acordou.      




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4 de julho de 2014
PARAÍSO, crônica quentinha da série Cartônicas.

PARAÍSO, crônica quentinha da série Cartônicas.



PARAÍSO
Se realmente existir - e acredito nisto - deve ser um lugar onde as flores exalam teu cheiro e as camas são feitas com teus abraços. Decerto lá não haverá dor, não haverá apertos repentinos no peito nem noites mal dormidas com lágrimas no travesseiro; deve ser um lugar onde os pássaros cantam afinadas valsas para que a natureza dance, e cantarão um dia para nós, habitantes únicos do paraíso que idealizei para nossa morada. Quando lá chegarmos, no nosso paraíso, terá uma admirável fartura de frutas doces e saborosos vinhos; teremos paz do deitar ao levantar, e dançaremos por entre as árvores carregadas de frutos proibidos. Permita-me, meu bem, derrubar-te, carinhosamente, na grama macia dos nossos jardins, para te fazer cócegas e te beijar a boca, sem a preocupação de sermos observados e, totalmente despidos, banharmo-nos nos rios de águas claras e puras, como cada palavra que sai da boca tua. Apenas peço-te, meu anjo, que não me ofereças o fruto da árvore que nos proibiram de comer, pois males terríveis aconteceram em outros paraísos que tentaram tal feito. Espera mais um pouco, e teremos então nossos saborosos frutos, os quais plantaremos com nossas próprias mãos e colheremos para saciar nossa mais terrível fome. Então espera, por mais difícil que seja a espera neste terreno que agora estamos, que cada dia mais se parece com um pedaço do inferno, espera.



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2 de julho de 2014
LORI LOIRA, microconto de Alex Costa

LORI LOIRA, microconto de Alex Costa


LORI LOIRA
Não era das mais bonitinhas, decerto, mas sabia andar de bicicleta nas ruas de asfalto. Tinha dois dentinhos podres no alto da boca, e dizia para as amigas que eram pintados com lápis para serem diferentes dos outros, que eram amarelados. O irmão do meio: um fino ladrão de feira. Este, maldito que era, não se contentando mais somente com a feira, certo dia pulou um quintal alheio para furtar pertences de outrem, mas caiu no quintal de Zezão, traficante-chefe das redondezas. Tiveram que mudar-se para um interior no pé da serra, que era para não ter a trabalheira de um velório perto do final do ano, que é quando se tem mais sapatos e sandálias a pagar. 
O local não era de todo ruim, tinha seus atrativos (raros). O principal era a barragem de Cosme e Damião, localidade próxima.
Era um domingo pela manhã quando, depois da tapioca com leite espumado, foram de shortinho para o banho. A chuva desfiava do outro lado da serra e os respingos já se faziam sentir no meio da criançada e das madames que batiam a roupa em cima das locas.
- Sai do mêi que eu vou dá um cangapé, Lorimeyre! – gritou Lorianne, de cima da barragem.

Ao calar a boca, ao longe, um estrondo: era a comporta principal da barragem rompendo e a cara de assustada de Lorimeyre, que por causa de seus cachinhos louros era também chamada Lori Loira, quando a correnteza medonha a fez retirar da boca o gosto de tapioca e leite espumado, quando foi achada no sangradouro do açude na manhã do dia seguinte, de cor meio arroxeada, quase toda coberta de lama e de folhas, que se emaranhavam por entres seus dentinhos de grafite. 



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5 de janeiro de 2014
Uma crônica vespertina

Uma crônica vespertina


Disseram-me uma vez que se eu lesse demais eu acabaria por ficar louco. Não sei se foi minha mãe ou algum amigo-transeunte quem disse. Eu nunca liguei muito pra isso, mas mesmo assim eu acreditava que poderia ser verdade. Afinal, vários escritores e pensadores enlouqueceram. Se a leitura não foi a culpada, o pensar deve ter sido, quase com certeza afirmo isso.

Ainda hoje, depois de alguns poucos anos lendo, me pergunto por que gosto de ler e por que me enveredo neste mundo da escrita ou em tentar dissipar “conteúdo literário” de várias pessoas, que conheço ou não, pelo mundo, principalmente pela internet. E a resposta pra isso é que não sei. Talvez seja a simples falta do que fazer, como afirma a maioria das pessoas, talvez eu queira aparecer, ser conhecido, talvez eu queira fazer contatos com pessoas que são portadores de algum sucesso ou simplesmente faço isso porque me dá prazer. Vai saber.

O que importa pra mim é perceber que o tempo que gasto lendo ou escrevendo é algo que me faz bem, e talvez seja isso que incomode as pessoas. Este espaço que criei na internet, com um nome quase-feio “LiteraturaBr” surgiu há alguns anos e foi ficando, fincando-se como uma estaca ao longe demarcando o meu terreno. Depois, muito depois uma frase, no meio da noite, no meio do nada, surgiu “aqui o quixote tem vez”, e várias pessoas, amigas, pessoas perto de mim, que eu gosto e gostava, disseram que era uma frase ruim, mas eu mais uma vez teimei e coloquei como subtítulo do meu blog literário.

Hoje, pouco mais de 1 ano e meio no ar, algumas pessoas me conhecem pela “casa” que ergui, de início, sem ninguém, e aos poucos com ajuda de alguns pedreiros-literatos que perdem o seu tempo, o pouco tempo livre que possuem aqui, enviando-me textos para que possamos dissipar para quem gosta de ler e para quem tem tempo para ler. Os que não possuem tempo, uma hora ou outra, na frente da tela do computador irão se deparar com alguma frase de efeito, compartilhada por algum conhecido, e talvez isso o faça ler um parágrafo do texto publicado por nós, talvez ele leia o texto inteiro, talvez, e melhor ainda, ele consiga ler o livro que apontamos como algo que pode trazer algum benefício (quem é que sabe?) na vida dele.

É isso que buscamos, que com as contribuições que são aqui repassadas possam ter algum acolhimento, por quem quer que seja, enquanto houver um leitor vivo talvez, talvez, teremos salvação.


Nathan Matos
Criador do LiteraturaBr


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20 de julho de 2012
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Dizendo de passagem

Olá,

Voltamos!

Bom, para quem já havia visto esse blog por aí já sabe que estávamos parado a quase dois anos ou mais. Resolvemos voltar a ativa agora. Por qual motivo? Bem, seriam várias as respostas para isso, mas isso não importa, o que importa é que tentaremos escrever, de início, semanalmente por aqui.

Escreveremos, como diz o título do blog, sobre Literaturabr(asileira), mas resolvemos, com essa volta, escrever sobre livros teóricos, livros estrangeiros, e quem sabe até mesmo alguns filmes que nos chamarem a atenção. Esperamos que o espaço seja aconchegante para todos que puserem os dedos por aqui. Em breve criaremos um espaço para contato, no qual poderão nos dar sugestões, criticar-nos e mandar-nos alguma ideia. No mais, acho que é isso. Até mais ver.

P.S.: Todos as postagens de 2006 até o ano presente estarão passando por um processo de revisão. Tendo em vista que foram escritas enquanto eu ainda me iniciava no mundo da escrita.

Nathan Matos
Administrador e criador do LiteraturaBr


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