"Avesso", crônica inédita de Júlia Sá em sua série de Cartônicas
À
minha frente vejo um rio de águas baldeadas, densas e profundas. Garimpo um
objeto negro e brilhante, beleza única, nunca antes vista por estes olhos. Há
presenças que chegam, têm cheiro forte, embriagantes, e brilham com tamanha
intensidade que nos fazem marcar – sozinhos - o dia do encontro. E quando nos
pegamos estamos presos, amarrado nos passos de alguém que, indecifrável, nos
tem nas mãos e sabe disso. A paixão chega e faz morada, não se deixa ser
entendida, vira doença. Chamamos então amor, e amor é mais bonito. Queremos
vê-lo, o alguém, sempre bem, sorridente, mesmo que em nós corroa o líquido
maldito da indiferença e incompreensão recebida. Vai martelando, doendo,
sangrando. Sara nunca ou sara amanhã? Não se sabe. Quantas vezes os olhos são
fixados e as declarações ridículas se personificam? Quantas vezes as lágrimas
vêm, tímidas, e desembestam, silenciosas, pela face retraída? Existe um desejo
que nos maltrata por sermos iguais. Finaliza-se cá um ciclo vicioso, que tem me
consumido – e a tudo que fiz – nos últimos meses. Sentimento é bicho traiçoeiro
e pode facilmente, quando enraizado na mente, enlouquecer qualquer um(a).
Tentei te mostrar um mar de possibilidades, mas acho que falhei. Despeço-te de
ti, meu bem, pois não suporto mais o fardo de saber que te amo, e tu, que me
admira de longe, não te permites, pois não te moves em ti. Tu demorarás a sarar, decerto, e talvez não
sare nunca – sare amanhã, por favor. De mãos levantadas, olhos marejados, grito:
EU ME RENDO!
Eis
o que tu foste em mim: um tiro certeiro no peito errado.
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