A MORTE E AS MORTES DOS ESCRITORES QUE ADMIRAMOS
por Marco Severo
Quando eu tinha uns 16 anos, me correspondia com
uma escritora que havia publicado, dentre vários livros, uma biografia da Anne
Rice (que na época da publicação deveria ter uns cinquenta anos) e, alguns anos
depois, de Dean Koontz (que rondava a mesma faixa etária), a quem eu endeusava
como uma espécie de Stephen King melhorado, mas que não passa de um pastiche,
embora tenha seus bons momentos.
Nem quero entrar no mérito de se publicar ou não
biografias de escritores que ainda estão no vigor do seu momento criativo, algo
sobre o que eu nem pensava naquele tempo, mas que hoje em dia é fator
preponderante pra eu adquirir ou não a biografia de determinada personalidade.
Que diabos eu vou querer saber da vida de uma pessoa que, em teoria, tem ainda tanto a dar ao mundo (e possivelmente vai)? Que deixem pra
quando esse povo morrer, que sai uma completa e com possibilidade de ser mais
levada a sério, com a vida do cidadão ou da cidadã narrada de Alfredo a
Zuleica.
Pois é justamente na morte desses escribas que eu
quero chegar.
Você termina de ler um livro ótimo como há muito
tempo não. Antes, para e pensa que aquele livro, um de vários outros já lidos
de um autor que você tanto admira, aumentou ainda mais a sua admiração pelo
sujeito. Em seguida, o pensamento: mas fulano já passou dos oitenta.
Se eu me preocupo com a morte deles? Mas é claro que
eu me preocupo! É claro, também, que eu me preocupo ainda mais se eles vão
produzir algo nos anos que lhes resta, num pensamento egoísta que deseja que o
autor esteja ainda escrevendo no leito de morte, sem me dar conta, talvez, que
assim como eu ou você, um dia vamos querer nos aposentar; uns querendo esquecer
completamente aquilo no que um dia trabalharam, outros lembrando com nostalgia,
mas acreditando que há muito mais a se fazer dali em diante.
Foi quando eu coloquei essa questão para a tal
biógrafa da Anne Rice que ela se saiu com a seguinte frase: “Mas por que é que
você se preocupa com a morte dessas pessoas?”.
Eu me preocupo porque eu desenvolvo uma relação
afetiva com essas pessoas, ainda que nós jamais nos conheçamos. Eu me preocupo
porque o ser humano tem um negócio no cérebro que o programa para gostar de
sentir prazer, e a gente tende a repetir tudo aquilo que nos faz se sentir bem
(sexo, comida, livros, oi?), incluindo ler bons autores. Eu me preocupo porque,
por algum motivo transcendental, é comum sentir aquelas pessoas como gente
próxima a mim, se não fisicamente, ao menos no que diz respeito ao humano,
e se essa humanidade delas foi capaz de me tocar estando ela onde estiver no
mundo, então existe amor e amor, sabe-se, é matéria de salvação.
E quando você faz uma lista imaginária e se dá
conta de que tem uma predileção pela ala geriátrica das editoras? Alice Munro,
Philip Roth, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Joyce Carol Oates – todos
beirando os oitenta ou os noventa.
Mas aí entramos na segunda questão: a morte de um
escritor do qual gostamos é realmente uma perda? Em um nível particular,
naturalmente que sim, pelos motivos já mencionados acima.
[Quando Sidney Sheldon morreu, em 2007, aos 89
anos, eu já não era seu leitor há vários anos. Mesmo assim, algumas lágrimas
escorreram quando eu soube de sua morte. Afinal, era acompanhado dele que eu
passava várias das minhas horas de lazer na adolescência].
Num sentido mais amplo, contudo, isso vai depender
de quem era o sujeito e sua representatividade em âmbitos que, muitas vezes,
vão para além das letras. O exemplo mais recente disso é o de Gabriel García
Márquez, que será sentido não unicamente pelas histórias que escreveu, mas por
seu [controverso] posicionamento político e suas amizades em Cuba.
O fato é que o impacto de bons livros e, por
conseguinte, bons escritores, na vida de um leitor, não se limita apenas ao
afeto em si mesmo, o que seria bastante reducionista. Uma obra pode nos atingir
a ponto de nos fazer mudar o rumo de nossas vidas – e essa é a verdadeira
autoajuda da literatura, muito antes desse caudaloso lamaçal que se tornaram as
prateleiras das livrarias com livros dando dicas para revolucionar nosso modus
vivendi. Mas não só. Um livro de ficção pode conseguir nos fazer refletir,
ponderar, descobrir e redescobrir. Como não reverenciar um objeto que vai para
muito além dele próprio? Quantas coisas na vida te dão essa mesma oportunidade?
Poucas. Quase nenhuma.
Tem ainda um outro tipo de morte nessa história, e
que às vezes é também muito doloroso e requer um tempo de luto: quando você
descobre que um autor que você lê há muito tempo já não te toca nem te diz mais
nada. É aquele momento depois que você já tentou ler uns dois livros desde o
último que considerou bom. Será que, de repente, não era essa obra em
particular que era meio ruim?, você se pergunta. Daí tempos depois você tenta
de novo. Será que eu que não estou no momento certo pra ler este livro?, você
se questiona mais uma vez. Na terceira tentativa, a retumbante certeza: o autor
morreu. Morreu pra você. Se um dia aquele escritor te levou à loucura, te fez
caminhar pelos mais belos jardins e apreciar tudo e o todo ao redor, te fez
cancelar compromissos para ficar em casa lendo – agora, não mais. Já era.
Findou-se, como tudo.
Passei por essa sensação algumas vezes na vida, e
admito, foi doído como poucas dores são. Como assim, aquele escritor se calou
para sempre? Não apenas calou-se, como não representa mais nada?
Essa deve ser, na verdade, a grande herança para
nós enquanto leitores. Seja através da morte física, ou seja porque o autor
morreu para a nossa vida de leitor, o ícone está lá. Se em algum momento
determinado escritor te era uma constante e deixa de ser, nunca duvide: algo
dele ficou. Pode ter ficado no seu jeito sonhador de ser, ou no seu jeito
inescrupuloso, ou realista, observador, questionador... mas algo, seguramente,
ficou. Como fica também das pessoas que um dia passaram por nossas vidas e
deixaram alguma marca.
Doer-se pelas mortes possíveis dos escritores que
gostamos requer sempre a elaboração de um luto, a vivência desse momento
melancólico, e a certeza de que ainda há muito a se descobrir, a se ler, a
horizontalizar, porque é observando o que vem adiante que prosseguimos com
nossos próprios projetos de vida – e o que não nos faz desistir da nossa
própria existência.
Quanto ao morrer? Paciência. Mais dia,
menos dia, não há o que vá ficar para sempre sob o sol.

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