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7 de agosto de 2014
A MORTE E AS MORTES DOS ESCRITORES QUE ADMIRAMOS

A MORTE E AS MORTES DOS ESCRITORES QUE ADMIRAMOS




 por Marco Severo

Quando eu tinha uns 16 anos, me correspondia com uma escritora que havia publicado, dentre vários livros, uma biografia da Anne Rice (que na época da publicação deveria ter uns cinquenta anos) e, alguns anos depois, de Dean Koontz (que rondava a mesma faixa etária), a quem eu endeusava como uma espécie de Stephen King melhorado, mas que não passa de um pastiche, embora tenha seus bons momentos.

Nem quero entrar no mérito de se publicar ou não biografias de escritores que ainda estão no vigor do seu momento criativo, algo sobre o que eu nem pensava naquele tempo, mas que hoje em dia é fator preponderante pra eu adquirir ou não a biografia de determinada personalidade. Que diabos eu vou querer saber da vida de uma pessoa que, em teoria, tem ainda tanto a dar ao mundo (e possivelmente vai)? Que deixem pra quando esse povo morrer, que sai uma completa e com possibilidade de ser mais levada a sério, com a vida do cidadão ou da cidadã narrada de Alfredo a Zuleica.

Pois é justamente na morte desses escribas que eu quero chegar.

Você termina de ler um livro ótimo como há muito tempo não. Antes, para e pensa que aquele livro, um de vários outros já lidos de um autor que você tanto admira, aumentou ainda mais a sua admiração pelo sujeito. Em seguida, o pensamento: mas fulano já passou dos oitenta.

Se eu me preocupo com a morte deles? Mas é claro que eu me preocupo! É claro, também, que eu me preocupo ainda mais se eles vão produzir algo nos anos que lhes resta, num pensamento egoísta que deseja que o autor esteja ainda escrevendo no leito de morte, sem me dar conta, talvez, que assim como eu ou você, um dia vamos querer nos aposentar; uns querendo esquecer completamente aquilo no que um dia trabalharam, outros lembrando com nostalgia, mas acreditando que há muito mais a se fazer dali em diante.

Foi quando eu coloquei essa questão para a tal biógrafa da Anne Rice que ela se saiu com a seguinte frase: “Mas por que é que você se preocupa com a morte dessas pessoas?”.

Eu me preocupo porque eu desenvolvo uma relação afetiva com essas pessoas, ainda que nós jamais nos conheçamos. Eu me preocupo porque o ser humano tem um negócio no cérebro que o programa para gostar de sentir prazer, e a gente tende a repetir tudo aquilo que nos faz se sentir bem (sexo, comida, livros, oi?), incluindo ler bons autores. Eu me preocupo porque, por algum motivo transcendental, é comum sentir aquelas pessoas como gente próxima a mim, se não fisicamente, ao menos no que diz respeito ao humano, e se essa humanidade delas foi capaz de me tocar estando ela onde estiver no mundo, então existe amor e amor, sabe-se, é matéria de salvação.

E quando você faz uma lista imaginária e se dá conta de que tem uma predileção pela ala geriátrica das editoras? Alice Munro, Philip Roth, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Joyce Carol Oates – todos beirando os oitenta ou os noventa.

Mas aí entramos na segunda questão: a morte de um escritor do qual gostamos é realmente uma perda? Em um nível particular, naturalmente que sim, pelos motivos já mencionados acima.

[Quando Sidney Sheldon morreu, em 2007, aos 89 anos, eu já não era seu leitor há vários anos. Mesmo assim, algumas lágrimas escorreram quando eu soube de sua morte. Afinal, era acompanhado dele que eu passava várias das minhas horas de lazer na adolescência].

Num sentido mais amplo, contudo, isso vai depender de quem era o sujeito e sua representatividade em âmbitos que, muitas vezes, vão para além das letras. O exemplo mais recente disso é o de Gabriel García Márquez, que será sentido não unicamente pelas histórias que escreveu, mas por seu [controverso] posicionamento político e suas amizades em Cuba.

O fato é que o impacto de bons livros e, por conseguinte, bons escritores, na vida de um leitor, não se limita apenas ao afeto em si mesmo, o que seria bastante reducionista. Uma obra pode nos atingir a ponto de nos fazer mudar o rumo de nossas vidas – e essa é a verdadeira autoajuda da literatura, muito antes desse caudaloso lamaçal que se tornaram as prateleiras das livrarias com livros dando dicas para revolucionar nosso modus vivendi. Mas não só. Um livro de ficção pode conseguir nos fazer refletir, ponderar, descobrir e redescobrir. Como não reverenciar um objeto que vai para muito além dele próprio? Quantas coisas na vida te dão essa mesma oportunidade? Poucas. Quase nenhuma.

Tem ainda um outro tipo de morte nessa história, e que às vezes é também muito doloroso e requer um tempo de luto: quando você descobre que um autor que você lê há muito tempo já não te toca nem te diz mais nada. É aquele momento depois que você já tentou ler uns dois livros desde o último que considerou bom. Será que, de repente, não era essa obra em particular que era meio ruim?, você se pergunta. Daí tempos depois você tenta de novo. Será que eu que não estou no momento certo pra ler este livro?, você se questiona mais uma vez. Na terceira tentativa, a retumbante certeza: o autor morreu. Morreu pra você. Se um dia aquele escritor te levou à loucura, te fez caminhar pelos mais belos jardins e apreciar tudo e o todo ao redor, te fez cancelar compromissos para ficar em casa lendo – agora, não mais. Já era. Findou-se, como tudo.

Passei por essa sensação algumas vezes na vida, e admito, foi doído como poucas dores são. Como assim, aquele escritor se calou para sempre? Não apenas calou-se, como não representa mais nada?

Essa deve ser, na verdade, a grande herança para nós enquanto leitores. Seja através da morte física, ou seja porque o autor morreu para a nossa vida de leitor, o ícone está lá. Se em algum momento determinado escritor te era uma constante e deixa de ser, nunca duvide: algo dele ficou. Pode ter ficado no seu jeito sonhador de ser, ou no seu jeito inescrupuloso, ou realista, observador, questionador... mas algo, seguramente, ficou. Como fica também das pessoas que um dia passaram por nossas vidas e deixaram alguma marca.

Doer-se pelas mortes possíveis dos escritores que gostamos requer sempre a elaboração de um luto, a vivência desse momento melancólico, e a certeza de que ainda há muito a se descobrir, a se ler, a horizontalizar, porque é observando o que vem adiante que prosseguimos com nossos próprios projetos de vida – e o que não nos faz desistir da nossa própria existência.

Quanto ao morrer? Paciência. Mais dia, menos dia, não há o que vá ficar para sempre sob o sol.



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