"Sujeito, Verbo e Predicado", novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr
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Ilustração: Felipe Campos
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Incontáveis
as vezes que foram aqueles três danados, grudados no seroto um do outro, para a sala da diretoria. Ninguém sabia ao
certo o que eles faziam na escola, pois todos e todas cochichavam que não
tinham o mínimo interesse em passar de ano, embora fossem participantes fiéis
da fila da merenda. O apelido surgira em uma aula de português, quando a
professora, na tentativa convencê-los a cessarem a conversa e prestar a atenção
em sua aula, os utilizou como exemplo de revisão: “os elementos básicos da frase são quase tão inseparáveis como vocês:
sujeito, verbo e predicado” – disse a professora, apontando para cada um
deles.
Os demais professores há tempos não
permitiam que os três sentassem próximos dentro de sala, mas bastava separá-los
para a situação tornar-se ainda pior: uma incessante chuva de bolinhas de papel
uns nos outros, nos extremos da sala. A solução parecia ser sempre a mesma: que
fossem os três se resolver com a diretora, que professor não era obrigado a
aguentar vagabundinho a atrapalhar
suas aulas não, havia quem queria aprender!
Os outros alunos tinham receio em
olhar para os três, rolavam soltas umas lendas sobre eles que espantavam e
circularam da diretoria à biblioteca; nada concreto, mas este ridículo temor
era talvez o motivo da não expulsão dos três. A verdade é que os meninos eram
um tanto mal encarados, e sempre tiravam as blusas da farda na saída do
colégio, antes de dobrar a esquina da casa de fogos, na direção contrária a de
suas casas.
Tudo o que conseguiam com os assaltos
nos bairros distantes era dividido entre os três, sempre uma partilha na qual
se preservava pela igualdade, para não haver desavença entre o trio. Eram
viciados no que faziam, e faziam com excelência, pois nunca haviam sido pegues
em suas aventuras de final de tarde. E começaram a correr as notícias de três “mirins” que estavam tocando o terror no
bairro da Nascença, diziam que a situação estava ficando terrível e que os
residentes do local já não aguentavam mais. Um grupo de moradores se juntou
para tomar providências quanto ao caso dos moleques
da favela, e então decidiram pela contratação de um policial aposentado que
havia se mudado do bairro há alguns anos, mas havia resolvido problemas como
aquele incontáveis vezes.
Era um fim de tarde de sexta-feira,
que nem era treze, quando os meninos abordavam, no final da rua, uma moça branquinha,
que tinha nas mãos duas sacolas de uma loja grã-fina, e só faltava que ela
entregasse o celular importado quando, no outro extremo da rua, apareceu Seu
Fardêncio, o tal policial aposentado matador de “guri malandro.” Verbo, o mais taludo dos três, que se chamava
Jeferson, foi o primeiro a gritar: “Correr,
negrada!” Sujeito e Predicado - Cláudio e Iago, respectivamente – soltaram
as facas enferrujadas no chão e correram atrás do Verbo, que estava mais à
frente. Dobraram a esquina com a hiena em seus calcanhares, com um arma cor de
prata (porque ele tinha nojo de preto) empunhada e pronta para matar menino sem
identidade, mas os meninos corriam ligeiro, até que se viram no final de um
beco sem saída, que tinha os muros bem altos e impossíveis de ser escalados.
Estavam nervosos. Sujeito até parecia querer chorar, mas mantiveram-se firmes
e, juntos, como sempre estiveram, correram como espartanos para cima dos
pipocos das aves-balas que vinham zunindo da entrada do beco. “Bora pra cima que ele não pega nós três não,
negrada!”
Dia seguinte deu no noticiário que a
gangue do bairro vizinho havia matado os ladrõezinhos que estavam tirando o
sossego da Nascença, “três marginaizinhos” – enfatizou o apresentador do
noticiário das 18:00h. Vestida de falso luto, a escola continuou as atividades
normalmente. Na segunda-feira da semana seguinte, a mesma professora de
português, nas turmas de sétimo ano, anotava no quadro uma das classes
gramaticais: “hoje veremos Adjetivo, que
qualifica os seres bonitos, igual a você, minha flor” – disse a professora,
alisando os cabelos de Marina, a menininha nova da escola, que todos diziam ser
esquisita e estranha por sentar com as perninhas um pouco mais abertas que o
normal, mas ninguém nunca se interessou em saber o porquê.

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