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9 de dezembro de 2014
A sombra

A sombra



por Mikaelly Andrade

O claro e o escuro se confundiam na parede do quarto através de linhas desenhadas pela luz fosca da lua, as venezianas da janela se faziam modelo. As roupas espalhadas pelo chão de forma aleatória não explicavam tal acontecimento. Os corpos se moviam de maneiras disformes, o dela na quietude desesperada da dor; o dele no desespero cruel de se servir. O corpo dela sobre a cama estava em pose de defunto e os cabelos desgrenhados lhe davam um aspecto selvagem. Suas lágrimas se faziam chuva silenciosa que caia sobre o desconhecido. Percorrendo a marca seca que um dia fora rio. Ele se levantou, apanhou suas roupas e as vestiu delicadamente, olhou para trás tentando encarar a outra face enquanto andava a caminho da porta. Chovia suavemente, e ele sem sensibilidade não pôde perceber. Ela queria esquecer, se refazer. A melancolia de um piano tocava dentro da sua cabeça. Porém, a invasão que sofrera destruiu qualquer resquício do seu ser.

Pela manhã, sua mãe deu cascudos na porta do quarto, já passava do horário da escola e ela não havia levantado para tomar banho e nem café da manhã. Deve estar pensando que vai faltar aula só por causa do aniversário já passado! A mãe não sentira a dor, não teve pressentimentos, como dizem que só as mães sentem quando o filho está sofrendo. Continuou a bater na porta. Nada. Lá dentro, a outra sofria dores do mundo todo, havia sido invadida, não aguentava o espelho, ele lhe tinha guardado tudo. Pois além do momento já presenciado, assistiu cenas de sua própria tragédia. Não era mais ela, nunca mais conseguiria ser. O dia corria, mas os ponteiros do relógio que flutuava sobre a parede pareciam girar ao contrário: quanto tempo teria que esperar para fechar a ferida que acabara de ser feita?

Quando com sete anos, uma vez brincando de boneca, insinuou que beijava a boca dela, com a mesma fúria e devoção que os atores faziam na novela, mas dentro dela o que a fazia imitar os atores era sua inocência e não desejo sexual pela boneca – era uma criança, nem sabia o era desejo. Do sofá, o tio assistia a brincadeira empolgado, mas não deixou transparecer seu estado de espírito, seria condenado, tinha certeza. Assim, seguiu observando a sobrinha. Mas o desejo lhe consumia a alma, e queria possuir a sobrinha de qualquer jeito. Teria paciência. Essa pequena puta um dia será minha.

Aline desde novinha mostrava-se com uma personalidade forte, difícil de modificar. Então tinha opiniões formadas, de que, por exemplo, a mulher não é inferior ao homem. Não compreendia por que a maioria das pessoas achava errado uma garota jogar uma simples partida de futebol, já que seus pés sempre souberam chutar e driblar muito bem. Ou o porquê de nos dias quentes, os meninos ficarem apenas de bermuda, enquanto ela não poderia usar somente short. A mãe ficava nervosa com o jeito “diferente” da menina e vivia sussurrando com os vizinhos: será que ela vai ser sapatão? Um dia Aline escutou e na sua inocência infantil achou que seu pé cresceria exacerbadamente.

Crescia rápido, seu corpo tomava formas e recebia olhares gulosos. Mas não gostava, nunca gostara da invasão desrespeitosa que as pessoas têm em olhar, como se fossem tirar-lhes a pele ou nesse caso, suas roupas. Odiava o “fiu-fiu” obsessivo que os homens insistem em assobiar, e acima de todos os atos machistas odiava e temia a invasão do seu corpo. Era diferente ser elogiada por uma colega ou o namoradinho, pois ao fazê-lo sentia uma suavidade nas palavras.

Iria completar quinze primaveras! Adorava dizer isso. Estava saltitante, realmente feliz. Havia promessa de um emprego adorável na pequena livraria que o tio tinha em Quixadá e iria se concentrar nos estudos para cursar Medicina. Já tinha o plano de sua vida todo traçado. - 15 anos:

Começar os estudos para o vestibular/ arranjar um emprego/ começar um curso de língua estrangeira/ gastar meu primeiro salário com livros / começar a juntar dinheiro para a minha casa própria.

Tinha metas anotadas até os trinta anos.

Finalmente chegou o grande dia. A festa era em casa mesmo, mas queria que fosse grandiosa e inesquecível. E foi. Os convidados começaram a chegar aos poucos, falando timidamente e cada pessoa se acomodava com outras formando grupinhos pela sala. As crianças corriam arrodeando a mesa com as lembrancinhas e às vezes faziam isso em torno de alguns convidados. Alguns mosquitos também quiseram fazer parte, já que algumas pessoas se queixavam de ferroadas enquanto passavam as mãos nervosamente no local pinicado.

- Aline! Parabéns! – gritava um de vez em quando.

- Você tá ficando velha hein! – lembrava um pessimista.

Enquanto não chegava o momento de cantar os parabéns e ver para quem a aniversariante iria dá seu primeiro pedaço do bolo, os convidados se distraiam com o que podiam. Até algumas fotografias penduradas na parede serviam e ajudou gratuitamente na decoração.

Os menos tímidos buscavam um desacompanhado para dançar ou se beijarem quando o diálogo já não era tão interessante. Aline passeava pela festa cumprimentando todos, não queria levar o nome de metida ou antipática. Até que encontrou o tio da livraria:
- Olá, querida! Meus parabéns! – dizia ele com voz perfumada a álcool com uma felicidade toda disfarçada.

Aline achou esquisito, mas preferiu agradecer pela presença, antes que ele mudasse de ideia e quisesse lhe tirar a vaga de empego. Nunca iria conseguir outro emprego assim, junto aos livros, seu segundo amor. A medicina estava em primeiro.

Alguém gritou um pouco esganiçado pelo nome da aniversariante, Aline virou rapidamente e reconheceu a face. Minha mãe.

- Vamos querida! Vamos cantar os parabéns. – gritava histericamente, mesmo depois do som desligado.
            
Todos se juntaram ao redor do bolo como puderam. Queriam todos estar junto de Aline. Cantaram, vibraram por mais um ano de vida, pediram discurso e depois de tudo se empanturraram. Era tudo que mais queriam.
            
Aline saiu da sala onde estava todo mundo para ir até seu quarto trocar a sandália. Seus pés se tivessem boca, gritariam mais alto que sua mãe. Percebeu um vulto passando, sentiu medo e se apressou a entrar no quarto, morria de medo de almas. Porém, quando entrou no quarto, encontrou o tio totalmente despido.


- Agora vou lhe dar seu presente de aniversário.
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20 de novembro de 2014
FUTURE

FUTURE



por Jeovane Cazer


"O futuro não é previsível, é preciso resistir e construir o improvável."
Edgar Morin
                  
I
                       
Hoje eu vi algo que me deixou intrigada.
Li a mensagem abaixo nas mensagens públicas e fiquei muito curiosa...
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J Birthday!!
Dear Future
Parabéns pelos seus 35 anos, amigo! São quase 10 anos após esse final de tarde calma de quinta-feira, sentando em minha mesa e escrevendo essa carta , enrolando até dar o horário de sair do trabalho. Hoje eu ainda tenho que passar no shopping pra comprar o presente do dia das mães.  Como será que você está aí no futuro? Onde você estará, com quem?
É! Pode ser que, agora trintão, esteja mais conservador.  Conquistou objetivos na vida, casou (aproveitou a vida? Conheceu a mulher da sua vida?), teve filhos  - eu não queria ter filhos antes de viajar o mundo todo! No momento, ainda não encontrei alguém com quem eu sinta ter uma conexão. Alguém com quem eu queira dividir bons momentos da vida. Que mexa comigo, com quem eu me identifique pra valer. Se ainda não a encontrou, bastar ter paciência e apostar em você, que o universo irá conspirar a seu favor. Eu sei, às vezes  ele parece contra. Mas eu lhe digo, é impressionante como a vida pode mudar quando a gente muda um pensamento...

Acho que no futuro – o futuro do seu ponto de vista – as pessoas ficarão juntas, por algum tempo, só enquanto estiverem interessadas e apaixonadas uma pela outra, e ponto. Quando acabar, por que dizer que “não deu certo”? Claro que deu certo. Encontrar uma pessoa e achar uma conexão com ela é dar muito certo. Se acaba, é porque a relação deu o que tinha que dar, por assim dizer. Ninguém é feliz pra sempre.

Não canso de dizer, e você sabe disso muito bem: não deixe de aprender, estudar, ler, viver as oportunidades que aparecerem pra você. Ontem mesmo vi num livro que estou lendo uma frase que me chamou a atenção: Don’t despise your inner world (algo como “não despreze o seu mundo interior”). É de uma filósofa norte-americana chamada Martha Nussbaum. Fica com isso caso você tenha se perdido durante esse tempo. Quem sabe, o eu do passado não esteja salvando  o eu do futuro agora no seu presente? Louco isso rs

Mas eu acho que o tempo é uma invenção... não existe o passado, o presente e o futuro...o que existe é o hoje, o agora, não é?
Então, vou ficando por aqui. Espero que esteja vivo e bem.

Feliz!?
Deixa eu voltar pro passado, que lá é o meu lugar...
Grande abraço e sucesso!
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Eu li sua carta hoje (11/02/2015). Fiquei muito curiosa para saber quem é você.  Hesitei um pouco, mas finalmente decidi escrever.
Pode parecer loucura minha, mas acho que eu já te conheço... Será muita sorte se ler a minha mensagem - são 2.950.000 cartas!! Se achar a minha entre milhares delas, é muita coincidência.
Então, caso isso ocorra e você encontre essa mensagem, escreva pra mim ok!? lubella28(...)gmail(...)com

Até breve! 
:)



II 

Dear Future,

Escrevo esta mensagem dia 26/04/2020 (15: 43), um domingo de sol e calor. Faz quase três anos que recebi o seu último email. Estou em casa, no meu quarto, recostado na cama e digitando esta carta. Minha filha está na sala jogando Binary Ghost.

Gostaria de dizer muito em poucas palavras.

Levei um susto quando recebi sua resposta, porque achei que você não responderia. Primeiro, pensei que o e-mail não existia (só verifiquei o contrário quando o que eu mandei não voltou). Depois, achei que poderia ser o e-mail de qualquer outra pessoa.

 Sei lá, faz quase seis anos de sua mensagem no Future; pelos poucos e-mails que trocamos em 2017 dá para ver que sua vida mudou muito desde aquela mensagem de 2014.

Ontem, depois desse tempo todo, mandei um e-mail só pra testar. Voltou com mensagem de erro: não foi possível entregar sua mensagem - caixa cheia.

Então, decidi escrever essa carta mensagem para o futuro --- se algum dia, em algum lugar, você chegar a ler isto ---- para lhe dizer que eu não sou a pessoa que você estava procurando na sua mensagem de 2014.
Entretanto, eu a encontrei dentre milhões de cartas, três anos depois, e isso me torna, de fato, essa pessoa. Você mesma disse que seria muita coincidência.

 Eu vi que ali havia uma conexão, por isso lhe escrevi logo em seguida. Na verdade, fiquei pensando se também a sua carta original não teria sido inventada - a Internet é o lugar perfeito para a ficção.

Provavelmente nunca saberei o que aconteceu de fato. Quem é você e quem sou eu nessa trama maquinada pelo tempo.

Bem, vou parar aqui: sobre aquilo que não se pode dizer, melhor guardar silêncio.

Se algum dia se deparar com essa carta, me conta sobre o futuro, eu quero muito saber sobre o futuro. Se fosse possível enviar um e-mail para o passado...quem sabe isso seja possível aí do futuro.
Assim, estou esperando sua resposta aqui em 2020.
Será que ainda podemos reinventar essa história?

Então é isso.
Se cuida.

Para lubella28


                               
III
Dear Future,
Li a sua mensagem acima no dia 01/01/2033, sábado, início da primeira noite do ano novo. Passei a virada do ano aqui em Londres, porque esta semana estarei fazendo um treinamento para o meu trabalho. Viemos para cá porque a base de operações da empresa na Europa fica aqui na The City. Estamos aperfeiçoando um sistema de spidering com drones para o nosso mecanismo de busca, concorrente da líder.

Estou no hotel, no meu quarto, e acabo de ouvir uma música velha chamada “Drive-In Saturday” de David Bowie do ano 1973! O locutor explicou, em inglês, que a música se passa em 2033, como o próprio Bowie afirmou uma vez. A letra narra um mundo onde as pessoas desaprenderam a se reproduzir e vão ao drive-in assistirem a filmes pornôs antigos pra aprender como se faz! rs

Se quiser ouvir, pede drive-in saturday + david bowie. É som das antigas, mas eu gostei do ritmo e da melodia. Tem guitarra. Lembro do meu pai ter uma dessas em casa...

Quanto à letra da canção, a “previsão” acerta até certo ponto. A pornografia está em todas as partes. O autoprazer  é a grande onda. Há videogames de realidade virtual que proporcionam prazer imediato com a pessoa que você imaginar. Consegue-se isso através da estimulação do sistema nervoso. Muitos pensam que vale mais um bom sexo na máquina do que uma transa ruim com o parceiro e todas as consequências ligadas a esse tipo de envolvimento real. Outras só conseguem chegar ao clímax sozinhas.

Claro, muita gente ainda prefere o modo natural. Eu, pessoalmente, gosto mais do contato humano, pele na pele. Sexo é 50% corpo e 50% cabeça.  Rejeito a objetificação dos corpos. Bem, ainda sabemos nos reproduzir, e muito. A população mundial cresceu dois bilhões desde o começo do século – graças, sobretudo, à Índia.

Em 2033, há gente velha e com medo do céu, olhando para cima, onde hologramas e drones pairam no ar. Temem que algum lixo espacial caia sobre suas cabeças...o último causou um grande estrago no Canadá e deixou todo o mundo assustado, mas a maioria se desintegra no choque com a atmosfera. Ouve-se falar muito em meteoros, ameaçando a Terra com uma hecatombe. Sempre tem os malucos que preveem o fim do mundo. Esse ano acaba de novo... Enquanto isso, meus olhos perscrutam os céus por discos voadores rs

Em 2035 a CNSA planeja lançar uma missão espacial tripulada à Marte - os americanos estão ficando mesmo pra trás.
Viagens físicas no tempo só na ficção, por enquanto.
Estou programando esse e-mail para entrega em 2083. Como será o futuro daqui 50 anos? Ainda estaremos por aqui ou iremos estragar tudo!?

Como eu estarei? Espero que vivo, com rosto e corpinho de 30, se conseguir pagar o tratamento :P

Então, vou ficando por aqui, no passado. Deixei uma pizza calabresa imprimindo - é o que tenho pra jantar nesta noite chuvosa, longa e solitária...

Um grande abraço e até o futuro!
P.S. Esse David Bowie até que era legal. Parece alguém que eu vi em Camden Town. Veja o vídeo da Life on Mars. Pergunta por  “video - life on mars – david bowie”. 
                                                             In memoriam of Luciana Belaqui
                                                                                Com muitas saudades
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Observação:
<<< Mensagens enviadas ao futuro poderão perturbar o espaço-tempo continuum >>>


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19 de novembro de 2014
Via Crucis do Porco

Via Crucis do Porco


por Sahmaroni Rodrigues

E havia aquele qualquer Jesus.  Nascido ali. No lugar certo. Cercado de movimentos errados. Ou talvez certos. Não vivi lá. Apenas invento. Realizo o que passou. Memória. Um rapaz como outro qualquer. Nem bonito nem feio. Bom. se enternecia com o mundo mas não sabia como enunciar isso. Calava. Até o dia. Madalena passava e era todo seu olhar. Madalena bonita. Forte. Morena. Madalena casada mas sempre desencontrada de seus sentimentos. Daí a fama de homem que ela deteve. Madalena se emporcalhava. Madalena se incorporava. Era tanto amor em si que o amor extravasava. Jesus percebeu. Começou a falar contra a lei. Suas coisinhas lá de dentro também extravasaram e encontravam o eco de tanto amor de Madalena. A incorporada. Madalena sábia. Madalena sofredora. Madalena que não entendia de seu imenso amor. Jesus agora falava de sua voz interior (ecoando Madalena). Falava de amar acima de tudo. Acima do corpo. Acima de qualquer corpo: corpo-pobre corpo-doente corpo-sarna corpo-lepra corpo-demônio corpo-excesso corpo-doente corpo-são corpo-corpo... olhavam-no como louco. A mãe sofria. Sempre imaginou-o como garantia para sua velhice e agora aquelas sandices. Amor custa caro. E Jesus se aproximava dos que eram evitados mas evitava Madalena. Medo de seu amor. Até que um dia. Madalena o olhava. Procurou-o. abraçou e beijou sua boca. O amor de Jesus ficou tão duro e inflexível que ambos se assustaram. Largaram-se: Jesus a chorar por saber que o corpo jamais comportaria tudo isso. O amor. Esse incompreensível. Madalena descabelava-se se feria: sabia que não conseguiria guardar aquilo tudo entre os dois apenas. Madalena era pura bondade. O tempo passou. Jesus cresceu. Sua fama o precedia. Emporcalhava-se de amor pela humanidade. Madalena cresceu. Sua fama ecoava pelos quatro cantos. Emporcava-se de amor pela humanidade. Um dia seu marido a encontrou em roucos gritos de amor. Jogou-a na rua. Entregou-a à vizinhança enfurecida que não distinguia bem se raiva despeito amor ódio. Sente-se tanta coisa que como significar o que se sente? Madalena era ferida arrastada e nada dizia. Chorava. Pensava. E como que por encanto seu pensamento se materializou. Outro milagre não registrado. Vendo Jesus a numerosa multidão comoveu-se de compaixão: então não sabiam do sujo do amor? Jesus veio a seu encontro.  Então exortaram-no a apedrejá-la junto à multidão. Mas Jesus recebeu por ela as pedradas. Recebeu por ela os empurrões. Quando alguém disse: não manda a lei que as adúlteras sejam apedrejadas? Ao que Jesus com grande carinho nos olhos voltados para a multidão e com a mão sobre a mão de Madalena disse: quem nunca errou que atire a primeira pedra! Se compreendêsseis o sentido das palavras: ‘Quero a misericórdia e não o sacrifício’ não condenaríeis os inocentes. Madalena chorava lavando os ferimentos do homem tão amado e por isso tão incabível em si. A multidão aos poucos foi calando se acalmando e inundada por aquele amor e então começaram a chorar e a se lamentar e a praguejar contra o céu. Sentiram o peso do amor e queriam negá-lo. Naquele dia a cidade ficou deserta. Todos entenderam que teriam que aprender a amar. Aprender a sofrer. O sofrimento dos prazeres sem fim. Madalena quis dizer algo. Chorava e limpava com seu longo cabelo as feridas de Jesus. Este a olhava e olhava. Olhos nos olhos e a certeza: não cabe. Se queres me seguir pega tua cruz e me segue. Disseram um ao outro. Dali em diante não se separariam. Ele era dele ela era dela. Num só. E toda noite Jesus gritava seus ensinamentos de amor para não ouvir o amor transbordante de Madalena nos braços de outro. Quando ficou insuportável para todos. Decidiram persegui-lo e mata-lo. Aquela verdade jogada assim. Aquele lamento amoroso. Aquele amor transbordante era uma cruz para todos. Que ele morresse. Amém. E do alto de sua cruz ele olhou e a viu: Madalena inundada em lágrimas aos pés da cruz. Todos haviam fugido. Menos Madalena e seu amor desmedido. Perdoa-me amado. Disse. Ele a olhou sorrindo e disse: tu me fizeste conhecer o nome da beleza. Tu me fizeste sentir. Tu. Apenas tu és todo o caminho verdade e vida. O mandamento maior: amar acima de qualquer corpo. Perdoai-os pois eles não sabem o que fazem.  E foi embora. E da história ficaram as distorções. Mas aquele homem compreendeu o que ainda ninguém compreende: o amor é maior e não cabe num corpo. Eis o meu evangelho.

*Via Crucis do Porco é um dos contos publicados no livro "Cantos", de Sahmaroni Rodrigues, editado pela Editora Substânsia.



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6 de novembro de 2014
A fuga

A fuga


por Lucas Vinícius da Rosa
 

Mesmo que as janelas estivessem abertas, as portas com suas fechaduras não emperradas, e os portões com cadeados cujas chaves estivessem dispostas num molho pendurado à parede, ainda assim V. não conseguia fugir.

Um vento sombrio batia contra a janela, ao amanhecer. Trazia consigo os primeiros raios de um Sol indiferente à presença dos astros que a ele circulavam. Expurgava de V. um radiante sorriso, contudo. Isso porque, talvez naquele dia, em especial, pudesse ele, quiçá, ser sábio o suficiente para enganar-se com desenvoltura melhorada; e construir plano deverás bem elaborado para arregaçar as amarras que ele próprio lhe impusera às mãos cansadas, e os grilhões que tanto lhe faziam caminhar pesadamente, como a horda dos outros seres que diziam perseguir a felicidade; os mesmos ilustres cidadãos que, nas farmácias, formavam numerosa fila, sedentos por mais uma cartela de analgésicos que lhes dopasse os sentidos.

A cidade calmamente acordava, nas ruas que cercavam as prisões espontâneas – ou, em palavras mais verídicas, meras propriedades financiadas pela cultura da ilusão da conquista, para que fossem herdadas por nomes borrados em escrituras de tabelionato. A cidade, em si, em grande verdade, toda ela, parecia-se como um manicômio obscuro de portas abertas, tal qual a casa em que tanto V. como os outros habitantes se achavam. Isso significava, de modo profundamente intrigante, que não se tinha para onde fugir; sequer para a direita; ou para a esquerda.

Quem sabe retroceder o ponteiro da vida, tal qual num sonho como aqueles sonhados em cenas cinematográficas, a lotarem cinemas com telespectadores ávidos por máquinas do tempo que lhes faça esquecer que envelhecem mais do que gostariam; ou, uma vez descidos todos os grãos de areia para a cavidade inferior, inverter a ampulheta, e fingir que o tempo conta-se de forma jovial e inversa.

Os sons que V. ouvia eram cândidos, apenas se silenciosos ou perpetuados pela natureza. Os cânticos dos pássaros, no entanto, mesmo estes belos animais silvestres, eram aprisionados como fora seu coração trancafiado pelas normas dos sentimentos civilizados. "Como posso fugir destas gaiolas, nas quais colocaram-me desde muito pequeno, ensinando-me como, quando e o que amar e repudiar?", pensava insistentemente. O homem travava de classificar como selvagem aquilo que não podia colocar em grades. E o que em grades não estivesse, domesticado era definido. Mas, V. não se sentia domesticado; ou selvagem; V. era apenas humano. "Por que ser humanos precisariam empregar fuga de outros companheiros de espécie?", V. matutava, enquanto assistia ao vento levar, para longe, algumas folhas de um árvore, sem que o vegetal por isso se queixasse da fuga de um de seus membros; "a morte, para a natureza", continuou, "é muito mais aceitável do que para nós".

V. via na sociedade tantas contrariedades quanto em si, porém todas elas distintas das suas. Havia originalidade maltratante em todos os ambientes, em todos os amores e em todas as tragédias; Shakespeare, Goethe e Ésquilo assinalaram apenas pequena porção delas. "Talvez por isso eu não consiga fugir, mesmo tendo acesso ao molho universal de chaves; talvez por isso...", V. hesitava. E assim a manhã transcorria com o acordar dos vivos que cumpriam suas rotinas, prestes a desenrolar mais um segundo, em sequência a completar outras horas, e dias e vidas e padecimentos.

A parca Nona havia dado-lhe nove meses lunares, mesmo que sem sua conivência; a Décima cortado-lhe o fio, com uma tesoura afiadíssima. O que não compreendia, no entanto, era como o ato de fugir das casas que habitava (não se sentindo verdadeiramente em seu lar em nenhuma delas, tanto quanto o fossem aconchegantes à sua alma suas paredes e delimitações) poderia lhe fazer escapar da Morta, a fates inevitável.




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13 de outubro de 2014
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Pianíssimo

 

por Caio Russo




Roda pião. Na mão do menino o giro soa. Aos céus o olhar ergue. Quente dia quente. Seus dedos escorregam enquanto escorre o caldo do cansaço. Salgado corre. No asfalto queima os pés descalços. Chamuscado pé chia. — Mais um trago moleque. Detrás do balcão tamborila seus dedos em dura madeira. Nota a nota toca sem saber que toca. Dança com o trago. Serpenteia entre os corpos. — Que lerdeza moleque. Em glissando a porta do bar desce. Escorrega para rua. Cai. Caminha no frio asfalto da noite. Fria noite fria. Na casa em flautato compassado toca a virtuosi panela de pressão. Feijão. Pão que com ferro sustenta os famintos. Negros dedos negros. Andejam suas teclas pretas na branca pia. Com os semitons na mão forma sobre papel de pão seu próprio piano humano. Inquietos salpicam seus dedos o branco sal no bife a crispar. Na preta chapa preta. Dorme em alvos lençóis o barroco anjo de madeira escura. Seus dedos vão noite adentro a tocar sem nunca conhecer o piano.



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29 de setembro de 2014
O CASAMENTO

O CASAMENTO

http://zip.net/blpB8c


por Claudia Marczak

O planejamento era absolutamente necessário. Um bom planejamento garante um bom resultado. Embora a situação não fosse um negócio comercial, a máxima citada exaustivamente pela sua avó era uma verdade, até porque era um projeto audacioso. Pronto, novamente o pensamento formal, do qual tentava se desvencilhar e conseguiria. Estava fazendo tudo certinho para isso. Nada mais dentro de padrões. Tudo novo.

Primeiro seria o lugar. Pensou em praia ou campo, mas com certeza um lugar aberto. Os ares de liberdade seriam os únicos a serem respirados por ela a partir daquele momento.  Praia seria interessante pela presença e o som do mar que dariam um toque especial ao evento, mas a areia poderia incomodar alguns convidados. Campo seria até melhor, mas teria que ver com algum colega a possibilidade de um sítio ou chácara que, imprescindivelmente, deveria ter um gramado extenso e folhagens generosas. Teria que pensar melhor sobre isso. Teria um tempo, os demais detalhes exigiam mais no momento. O que servir? Frutas, ponche, vinho branco. O casamento seria pela manhã, quando tudo está mais fresco, mentes e clima. Alguns acepipes (olha aí mais uma vez sua avó e seu vocabulário de palavras e expressões arquetípicas) fáceis de pegar, diferentes e saborosos. Crepes crocantes com recheios variados e exóticos. Tudo da melhor qualidade. Frutos do mar seriam uma boa pedida para o almoço. Talvez a praia fosse realmente uma boa opção. Comidas frias e saladas, por conta do casamento ser de manhã. Algumas cadeiras, espreguiçadeiras e mesinhas ficariam espalhadas pelo lugar. A mesa com os acepipes (ai, vó, me deixa!) e a comida ficaria ao fundo, com uma toalha branca bordada e muitas flores decorando. Flores era outro detalhe muito importante. Pesquisaria o significado de cada uma delas para que só estivessem na mesa aquelas que representassem exatamente aquele momento tão especial. Algumas orquídeas raras, angélicas, flores do campo, não sabia ainda, a certeza era apenas de muitas cores se espalhando pela mesa e por toda a decoração. Logicamente a cerimônia seria realizada de forma ecumênica. Nada de estarem vinculados a alguma religião. Uma benção com palavras bonitas e citações de poemas. Já tinha até escolhido alguns, que aguardavam o momento exato de serem falados. Momento exato. Importante isso. Ela e o noivo vestiriam roupas iguais: túnicas brancas de algodão cru. Sim, nada poderia ser maior que o brilho que os dois emanariam, nem mesmo as roupas roubariam a atenção dos convidados. Nada de véus ou coisas que se colocassem no meio do caminho. Apenas uma guirlanda de flores ornaria seus cabelos. Poderia distribuir similares para as convidadas. Ou não. Pensaria melhor nisso. Entraria sozinha como sempre fora, um buquê simples nas mãos e um sorriso aberto nos lábios. Ele estaria lá, aguardando por ela, sorrindo também. Seriam abençoados por todos e aproveitariam a festa junto com os convidados. Voz e violão fariam o som, sentados ali mesmo junto a todos. Voz, violão e percussão, assim dariam um pouco mais de impacto. Todo mundo dançaria e riria feliz com o enlace. Iriam embora ao final da festa. Viajariam para algum lugar simpático e aconchegante. Estava definido. Apesar de faltarem alguns detalhes técnicos, seria assim.

- Já deu o horário. Você vai ficar aí?

Assustou-se com a voz da colega. Também a idiota não precisava invadir seus pensamentos dessa maneira tão sem cerimônia. Nem sabia se a convidaria. Era meio antipática a dita cuja, sempre preocupada com as disposições formais do escritório e com uma certa grosseria inconveniente a qual autodenominava de sinceridade. Disfarçou a surpresa e os devaneios matrimoniais que a entretinham:

- Estou terminando aqui. Pode ir que eu fecho tudo.

A outra não discutiu e se despediu antes que alguém a pedisse para ficar. Olhou para o relógio. Seis em ponto. A danada da colega não ficava um minutinho além do horário. Estava certa. Não se pode dar moleza para o patrão. Não era o momento de pensar nessas coisinhas pequenas de escritório. Tinha planos maiores. O que estava faltando mesmo... Ah, tantas coisas! O esquema estava pronto, mas tudo precisava ainda ser mais organizado, afinal quem não tem competência não se estabelece (vó, não vou mais discutir com você...). A música. Sim, a música. Além do pessoal para tocar precisaria elaborar uma lista com as suas preferências. Era bom misturar um pouquinho também para agradar todos os gostos. Começaria com músicas mais leves, uma bossa nova, um MPB anos 60 e 70, quando ainda se fazia coisa boa e todos sabiam as letras de cor. Depois um pop rock dos anos 80 e 90, porque lembrava sua adolescência. Sentiu-se velha.  Melhor nem pensar. Música boa é aquela que toca a alma e no seu casamento tocaria o que ela bem entendesse. Olhou para o relógio de novo. Seis e meia. Esses pensamentos comem as horas mesmo. Hora de ir para casa.

O caminho de casa era o habitual. Nada de novidades por enquanto. Depois do casamento aí sim sua vida mudaria. Passou na padaria para comprar alguma coisa para o lanche. Caminhou na rua úmida da última chuva, com cuidado para não escorregar. Do trabalho para casa era bem rápido, uma condução e um tantinho a pé. Não tinha pressa para chegar. Subiu as escadas escuras. Terceiro andar sem elevador. Pensaria melhor na hora de alugar um apartamento. A porta se abriu exalando um silêncio ensurdecedor. Ligou a TV para ouvir alguma voz. Preparou o lanche com esmero, pão, ovo pochê e uma xícara de chá. Comeu despida de pensamentos. Um banho longo, uma leitura curta de uma autoajuda qualquer de sua coleção infindável. Trocou-se para dormir. Era bom mesmo dormir cedo, Deus ajuda quem cedo madruga (nem vou falar mais nada, vó). Olhou para o telefone. Não iria tocar naquela noite. Nem na próxima. Nem nas próximas. Cobriu-se por hábito. Estaria só. Como sempre.


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26 de setembro de 2014
Namoros virtuais

Namoros virtuais

 
madame butterfly - retirado de http://zip.net/bfpCBY

“Ok”.

Depois de tudo o que dissera, num desabafo doloroso, num turbilhão de palavras, ouvira apenas isto. Esperava explicações satisfatórias para o término, um motivo coerente que justificasse o súbito fim, e ainda através de uma mensagem em rede social. “Nem sequer um telefonema!” – admirava-se.

Mas os telefonemas tornaram-se cada vez mais dispersos. As desapegadas mensagens por chat, os emoticons que ela tanto odiava, eram parte da comunicação entre eles. Sempre esperava por algo mais, um convite imprevisto para saírem, um “eu te amo” inesperado.

Sabia que era a pessoa mais interessada no relacionamento. Desde o início, tomara conhecimento disso, e doía. Tinha a impressão de que, ao ser a mais dedicada à relação, ficava sobre o poder dele. Perceber que ele demorava horas para responder uma mensagem, às vezes até um dia ou dois, incomodava-a profundamente. Dizia que não tinha tempo, que a faculdade e o trabalho ocupavam-no demais.

“Quem gosta, procura, arruma um tempinho pelo menos para dar um oi, perguntar como está...”, remoía. Não entendia joguinhos psicológicos. Às vezes, imaginava que ele não respondia às mensagens intencionalmente, mas não atinava para o motivo disso. Queria acreditar que era uma forma de fingir que não estava nem aí, de não se mostrar interessado demais. Outras vezes, pensava que ele realmente não estava nem um pouco interessado na relação e, por isso, não retornava as mensagens e telefonemas, dizia que a ligação não havia chegado, que provavelmente houve algum problema com a operadora.

Não entendia o porquê dele não expressar o que sentia ao estar com ela; ao invés disso, publicava em redes sociais onde estiveram e fotos dos dois, com belas frases e letras de músicas românticas. Tinha a impressão de que cada vez importava menos a sua presença, sua companhia, contanto que ela gerasse fotos e frases e postagens em redes sociais, para mostrar aos outros que ele tinha uma namorada bonita, que viajavam para belos lugares, que eram felizes.

E terminou, após oito meses, por meio de uma longa mensagem em rede social. Talvez por não ter coragem de encará-la ou de sentir a dor em sua voz, através de uma ligação.  Sem brigas, sem demonstrar que estava incomodado com a relação. “Mas por quê?”, questionava-se insistentemente. Na mensagem ele dizia que não tinha tempo para um relacionamento, que seu dia a dia era muito corrido, que não estava mais na vibe... 
E não era a primeira vez que um relacionamento acabava assim. Possivelmente por sair tão pouco, pela timidez e sua personalidade introspectiva, tinha dificuldades em travar conhecimento com pessoas “ao vivo”, e buscava conhecê-las pela internet. Mas nunca dava certo. Constatou que a maioria buscava apenas sexo, parecia ter medo de um compromisso, e preferia manter um relacionamento não definido, que quase nunca evoluía para algo mais sério. Talvez para não perder possibilidades, ficar com outras mulheres, mais bonitas e mais interessantes que ela. Dessa forma, não seria uma traição, já que não estavam “namorando”, refletia.

E cada vez menos entendia os relacionamentos. Um “Topa sair?”, um “Vamos fazer alguma coisa?”, que no início pensava ser um convite para um cinema, uma praia, shopping, geralmente significava um convite para sexo. Um “Talvez”, um “A gente vai se falando”, quando os chamava para sair, poderia ser interpretado como um “Pode ser, se não aparecer alguém melhor ou algo mais interessante para fazer”.

Após o término do relacionamento – o mais longo até então –, chegou à conclusão de que não queria mais se relacionar com ninguém, que as incontáveis tentativas mostraram-se sempre frustradas, que o “juntos para sempre” era coisa do passado, do tempo dos pais e avós, dos filmes românticos e contos de fada. Em seu quarto, no escuro, iluminado apenas pela tela do computador, sem ninguém para ver as lágrimas que escorriam pelo seu rosto, compreendeu que teria que aprender a ser feliz sozinha, lidar com a solidão. Desiludida, via-se no futuro: velha, sozinha, na casa cheia de gatos, o dia inteiro vendo TV. Mas havia alternativas, havia como fugir desse futuro? Sim, pensou, existem outras possibilidades...

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25 de setembro de 2014
Ninfo

Ninfo

por DanielaBdo


Ela terminou de tomar banho e foi se enxugar. A toalha passeava pelo corpo despreocupadamente quando o atrito entre as pernas a fez sentir algo mais. Não soube o que era na hora, não tinha maldade, apenas uma educação conservadora que não a deixava nem ver novela. Tinha nove anos.

Aos treze, procurando no dicionário o significado de uma palavra qualquer para concluir a redação da escola encontrou a palavra porra. Passou a procurar muitas outras do mesmo universo e descobriu que as palavras tinham o poder de atiçar a sua imaginação. Passava horas com o dicionário. 

Aos quatorze, menstruou e as colegas de sala, todas já mocinhas, disseram que agora ela já podia namorar. Não conseguiu associar uma coisa a outra, a mente ainda não tinha desencasulado, mas os livros de biologia falavam de hormônios e ciclo menstrual, gravidez e sistema reprodutor.

Aos dezesseis, beijou pela primeira vez, ela quem tomou a iniciativa, não aguentava mais esperar. Sentiu uma cosquinha boa na barriga, vontade de mais, de passar  a mão onde a vó desmaiaria só de pensar. Passou, gostou, repetiu. Aos 17, não era mais virgem.

Leu toda a literatura proibida antes de completar dezoito: Primo Basílio, O crime do padre Amaro, Lucíola, O cortiço e a obra completa de Jorge Amado. Decorou na teoria e se pôs a colocar na prática. Descobriu o corpo, suas entranhas e o pompoar. Tinha uma versão ensebada no Kama Sutra que levava dentro da mochila do colégio para o caso de surgir uma oportunidade para usar. E sempre surgia. E ela nunca dizia não.

Aos 23, descobriu a palavra ninfomaníaca, um amante lhe jogou na cara perversamente. Tirou a própria vida alguns minutos depois.
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24 de setembro de 2014
O SUICIDA, Conto de Alex Costa

O SUICIDA, Conto de Alex Costa





        Quando finalmente decidi, ainda hoje pela manhã, que tiraria minha própria vida, decidi em paralelo que não me acovardaria. Mas o que faria, mesmo, antes? Foi quando pensei em telefonar a um amigo, contar-lhe sobre a corda que agora vejo pendurada no caibro mais alto desse quarto sem graça. Como ele mora perto, decidi não arriscar, pois ele chegaria depressa e correria o risco fatal de salvar minha vida: ser salvo é o que eu menos preciso neste momento. Foi quando, em segundo plano, decidi que tinha o dia toda para morrer, e, embora sombria, sabemos que a Morte não escolhe hora marcada para os que desejam deitar-se em seus braços magros e ossudos no ápice da juventude – suponho.
          Decidi, então, às nove e trinta da manhã, que escreveria uma série de cartas que eu imaginava que iriam chorar sobre meu caixão de luxo, no qual minha mãe - perua como ela só - faria questão de me enterrar. Minha mãe. Juro que se fechar os olhos neste exato momento consigo vê-la, de vestido preto, com um enorme decote [que, decerto, quase chega ao umbigo], fingindo enxugar os olhos cagados de maquiagem preta com um lenço bordado, a alisar meus cabelos loiros e lisos, coloridos pelo sol das praias cearenses.
          Sobre as cartas, escrevi dezessete. Enderecei-as às minhas mais intensas relações, sendo três delas a inimigos [que um dia chamei amigos]. Deixei com a missão de entrega-las o amigo Jorge Xavier, um fato cômico, tendo em vista que Jorge passou no último concurso dos Correios e trabalha como carteiro, e odeia sua profissão: fica, então, como última gozação com esse sacana que pega todas as madames ricas e solitárias as quais lhe oferecem chá da tarde no vai e vem das cartas e envelopes. Ah, Jorge... o garanhão do “Clube da Prancha”. Mal sabem as menininhas onde Jorge coloca aquela boquinha de lábios suculentos antes de beija-las, o que espirram em sua carinha de barba por fazer – eu que o diga. Mas Jorge [ou Jorgeco, para o macharal do Clube da Prancha] não terá o trabalho de entregar todas essas cartas, pois queimei-as todas.

          Troquei todas essas cartas por este papel no qual agora escrevo, somente esta lauda que me faz suficiente para despedida. Deixo-lhes o motivo da minha ida que, decerto, logo dirão que foi precoce: aos vinte e um anos de idade, a vida não tem mais a mínima graça e enjoei do mundo faz tempo. Estou disposto de decidido a escrever minhas últimas duas linhas eu, que gostei tanto de escrever, e por isso ofereço-lhes o penúltimo ponto final. A última linha reservo para descrever somente a brisa suave e gélida que agora entra pela janela aberta do meu quarto, fazendo a corda balançar num ritmo tão convidativo que me apresso em colocar aqui o último ponto final [em mais de um sentido] em mais de uma dor.      



    
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18 de setembro de 2014
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Enquanto meu pai não vem


Em criança, não tínhamos muito como escapar de rotinas pré-determinadas pelos nossos pais, uma vez que eram eles que ditavam as regras, do corte de cabelo à roupa que vestir e aonde ir e com quem.
Estudávamos na mesma escola, minha irmã e eu. Ela, um ano mais nova, saía da sua última aula e ia me esperar no portão de saída do colégio, onde ficávamos, raramente juntos, aguardando nosso pai, que saía do trabalho e nos pegava, geralmente uns quarenta minutos depois.
Era nesse intervalo de tempo, contudo, que as coisas aconteciam, e foi num desses momentos que eu me lembro de ter me apaixonado pela primeira vez.
Ela era alta, tinha um corpo curvilíneo sem ser magro, – o tipo de corpo que eu tenderia a apreciar também em adulto, de pessoas que tivessem onde apertar – cabelos longos e pretos, como uma índia, e uns olhos claros que, aliados ao sorriso, seduziam mais do que o canto de uma sereia. E eu tinha a ilusão de que ela sorria para mim, quando a via passar em direção ao portão, indo buscar sua filha, que descobri ser uma das melhores amigas da minha irmã. Enquanto as duas ficavam conversando às minhas costas, eu sentava no batente do portão, pra que ela nunca deixasse de me ver, pra que eu pudesse sorrir para ela e receber um sorriso de volta, e ir pra casa feliz, satisfeito, e com ainda mais fome, essa coisa de bicho, incontrolável, que aumentava vorazmente quando eu a via – eu, que naquele tempo nada entendia das fomes do corpo.
Eu abria um sorriso e ela sempre sorria de volta, e era assim que nosso jogo de conquista se cumpria. Até que um dia eu a vi ao lado do marido, que parecia ser bem mais alto e forte do que eu – portanto, meu desejo de tirá-la dele aos murros, e levá-la comigo como só nas cavernas se fazia, liberando todo o meu primitivismo inconsequente, murchou ali mesmo. Como eu faria para tê-la comigo, então?
Estava claro que eu não faria coisa alguma. Tinha era que me contentar em sofrer minha paixão à distância. Estava fadado ao padecimento de amor romântico, no auge dos meus 11 anos. Mas a fome era insaciável, e eu continuava comendo. E por causa dela, também, continuava ébrio de amor.
Aos poucos, foi ficando claro para a filha que eu tinha algum tipo de paixão pela sua mãe, e até mesmo minha irmã notou, quando certo dia disse, dentro do carro: “O Lauro está apaixonado pela mãe da Rafaele. É um idiota, mesmo. Tu num viu que ela é casada, não?”. Na cabeça da minha irmã, este era o grande problema, e não os mais de vinte anos que nos separavam, o que a tornaria uma pedófila de acordo com os padrões atuais.
Não custa lembrar que estudávamos num colégio católico.
A amizade entre minha irmã e a filha do alvo da minha paixão foi ficando cada vez mais sólida. Elas iam fazer trabalhos de colégio juntas, às vezes a Rafaele dormia em nossa casa, às vezes ela dormia lá, e eu ia vivendo minhas coisas de menino, curtindo esse samba cuja letra era marcada pela solidão.

Um dia, minha mãe foi nos pegar, ao invés de meu pai. Era raro, mas acontecia. E ela já chegou anunciando: “A Rafaele vai com a gente”. Minha irmã ficou logo animada, achando que a amiga ia almoçar em casa, conosco. Mas a mãe tratou logo de dispersar a alegria: “Não, Isabel, nós vamos deixá-la em casa e depois vamos pra nossa”.
Eu não tinha ainda ideia do que estava por vir, mas naquele instante fiquei amuado, porque não veria minha musa. E minha irmã ficou igualmente calada do outro lado, porque a amiga não iria lá pra casa. E a amiga também foi em silêncio, talvez por não saber como quebrá-lo, talvez por ela mesma estar quebrada, depois de cair em seus abismos.

Deixamos Rafaele na casa de sua avó, e eu perguntei à minha mãe, ansioso que estava por notícias da minha amada: “Por que a gente teve que ir deixar a Rafaele em casa hoje?”. Fiquei sabendo que a mãe dela tinha precisado fazer uns exames, e que isso levaria o dia todo. Mas foi aí que tive a notícia que me fez ganhar meu dia: “E os pais dela estão se divorciando, e por algum motivo ele não pôde ir pegá-la”. Então agora ela poderá ser minha!, pensei de modo incoercível, até chegar em casa. Eu fazia planos, eu queria arranjar um emprego, queria poder sustentá-la e à filha, fazê-la feliz, já que aquele homem não conseguira, não quisera ou não pudera. Talvez amanhã, quando ela fosse buscar a Rafaele, eu pudesse juntar coragem e ir falar com ela, oferecer meu ombro, meu carinho, e quem sabe?

Juntei toda a minha coragem para, no dia seguinte, não apenas sorrir pra ela, mas me levantar, apertar sua mão, e aos poucos ir tentando puxar assunto, conversar, e adentrar no processo de sedução máxima entre dois seres humanos: o convite para sair. Estava tudo arquitetado na minha cabeça, só ia depender da receptividade dela aos meus planos.
Só que no dia seguinte, ela não foi. Nem no outro. No terceiro dia, foi a Rafaele quem faltou, então eu sabia com certeza que não veria sua mãe. Minha vontade de comer passava. Em casa, meu pai me forçava a ingerir alguma coisa, com as velhas ameaças de que eu não teria sucesso na escola, nem cresceria, se não me alimentasse direito. Eu pouco me importava em passar na escola ou crescer. Que se dane tudo!, eu pensava. E não aparecia ninguém para me dar notícias. Eu passava o dia inteiro na escola esperando a hora da aula terminar pra ver se a mãe da Rafaele apareceria, mas nada. Nem a própria Rafaele, nem ninguém. Perguntei pra minha irmã, que me respondeu com um seco “parece que a mãe dela tá doente”, e não disse mais nenhuma palavra.
Na semana seguinte, Rafaele voltou às aulas. Esperança renovada de que a gripe da sua mãe tivesse curado e eu pudesse colocar meu plano em prática. Mas quem apareceu foi uma senhora baixa e atarracada, com um olhar de quem já tinha desistido de viver. Ela chegou, fez um gesto com a mão e Rafaele a seguiu, bichinho acuado e obediente, rumo a algum carro que eu não via do lugar onde estava, provavelmente estacionado na outra esquina.
E assim os dias viraram semanas e meses. Por algum motivo, a mãe de Rafaele não vinha mais pegá-la, só a avó. Normal, pensei, lá em casa mesmo às vezes, quando um não podia vir, por causa do trabalho ou algum outro contratempo, quem vinha era o outro.

Perto do final do semestre, eu soube de tudo.
Enquanto almoçávamos para ir à escola, minha irmã caiu no choro. Um choro convulsivo e incompreensível. Será que ela estava ficando doida?, pensei na mesma hora em que vi minha irmã soluçando diante de um prato de comida que ela gostava. Não fazia sentido.
Não, não estava. Eu, o futuro marido, fui o último a saber. Senti-me traído, dilacerado, acabado, mas era como se as pessoas estivessem escondendo tudo de mim deliberadamente, numa tentativa esdrúxula de me poupar de algo – quando, na verdade, o pouco que se sabia até então não me era dito porque lá em casa cada qual vivia no seu próprio mundo, e o mundo de um não se interseccionava com o do outro. Portanto, se Rafaele não era minha amiga, eu não tinha motivo pra querer saber o que quer que se passasse em sua vida particular. Nada me impedia, porém, de me sentir arrasado.
Minha mãe correu para acudir minha irmã Isabel, que a esta altura já babava com a boca cheia de comida, e dizia que não conseguia engolir o que tinha na boca, que isso e aquilo, num ataque dramático-histérico que parecia que a mãe era a dela.
Sem nada entender, olhei para a minha mãe, que conseguiu me explicar depois de limpar minha irmã e fazer com que ela trocasse a camisa da uniforme para ir à escola, que a mãe da Rafaele estava com C.A.
Eu não fazia ideia do que fosse aquilo, mas pela situação que se criara ali, não era nada bom, nada bom. E as duas, minha mãe e minha irmã, pareciam saber mais detalhes do que fosse esse tal de C.A., e do destino que aguardava quem tinha esse negócio. Perguntei a ela o que aquilo significava.
“Sua vó, Lauro, a minha mãe, morreu de C.A. também. A avó que você mal conheceu, que lhe botou no colo e disse ‘é uma pena que não vou vê-lo crescer’, morreu bem novinha também. E eu fico morrendo de pena – e nessa hora ela também não se fez de rogada e seguiu o exemplo da minha irmã, que quando viu a mãe chorar voltou a fazer o mesmo – que a Rafaele vá ficar sem mãe tão cedo. Não é justo, meu Deus, não é justo!” – disse, chorando.
Meu coração parou de bater por alguns segundos. Eu estava perplexo. Depois de ver toda aquela cena, ainda ser informado de que a mulher da minha vida morreria. Eu mal conseguia conceber tudo aquilo. Aliás, eu não conseguia de jeito nenhum. E minha reação ao lidar com algo que não posso compreender era aos 11, como é até hoje, parar com cara de estupefação, para só depois do que parecem longas conjeturas, agir. Mas eu não consegui. Naquele dia, eu tive a certeza de que jamais veria a mãe de Rafaele novamente.

E de fato, nunca mais a vi. Soube, anos depois, que o pai de Rafaele se divorciou dela no ápice do tratamento contra o câncer. Sem condições de cuidar da filha e com vergonha de si mesma por ter sido mutilada ao retirar as mamas, numa época em que reconstruí-las custava muito dinheiro, e dinheiro esse que ela não tinha, Rafaele foi deixada com os avós maternos, que cuidavam dela como se filha fosse, enquanto esses mesmos avós tinham que lidar com a certeza cada vez mais premente da perda da própria filha.
Por fim, ela morreu. Dali em diante, Rafaele se transformou em mulher. Ninguém passa incólume a uma perda tão precoce, e não foi diferente com ela. Porque minha irmã ainda tinha mãe e não amadureceu tão rapidamente, as duas seguiram caminhos distintos, assim como eu, viúvo de um amor que não pôde ser concebido.
Cresci com a certeza de haver aprendido, com aquele episódio, muito mais sobre o amor e a morte do que poderia aprender se a vida tivesse me ensinado aos poucos. Aprendi outras coisas também. Eu não conseguia entender como alguém poderia ser tão pouco humano como foi o pai de Rafaele. Compreendi que eu jamais abandonaria um amor. E que se a vida, o amor e a morte são todos fatores profundamente interligados, entendi também que quem não consegue lidar com a grandiosidade desses três, só entende de coisas desnecessárias.  

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