Via Crucis do Porco
E
havia aquele qualquer Jesus. Nascido
ali. No lugar certo. Cercado de movimentos errados. Ou talvez certos. Não vivi
lá. Apenas invento. Realizo o que passou. Memória. Um rapaz como outro
qualquer. Nem bonito nem feio. Bom. se enternecia com o mundo mas não sabia
como enunciar isso. Calava. Até o dia. Madalena passava e era todo seu olhar.
Madalena bonita. Forte. Morena. Madalena casada mas sempre desencontrada de
seus sentimentos. Daí a fama de homem que ela deteve. Madalena se emporcalhava.
Madalena se incorporava. Era tanto amor em si que o amor extravasava. Jesus
percebeu. Começou a falar contra a lei. Suas coisinhas lá de dentro também
extravasaram e encontravam o eco de tanto amor de Madalena. A incorporada.
Madalena sábia. Madalena sofredora. Madalena que não entendia de seu imenso
amor. Jesus agora falava de sua voz interior (ecoando Madalena). Falava de amar
acima de tudo. Acima do corpo. Acima de qualquer corpo: corpo-pobre
corpo-doente corpo-sarna corpo-lepra corpo-demônio corpo-excesso corpo-doente
corpo-são corpo-corpo... olhavam-no como louco. A mãe sofria. Sempre imaginou-o
como garantia para sua velhice e agora aquelas sandices. Amor custa caro. E
Jesus se aproximava dos que eram evitados mas evitava Madalena. Medo de seu
amor. Até que um dia. Madalena o olhava. Procurou-o. abraçou e beijou sua boca.
O amor de Jesus ficou tão duro e inflexível que ambos se assustaram.
Largaram-se: Jesus a chorar por saber que o corpo jamais comportaria tudo isso.
O amor. Esse incompreensível. Madalena descabelava-se se feria: sabia que não
conseguiria guardar aquilo tudo entre os dois apenas. Madalena era pura
bondade. O tempo passou. Jesus cresceu. Sua fama o precedia. Emporcalhava-se de
amor pela humanidade. Madalena cresceu. Sua fama ecoava pelos quatro cantos.
Emporcava-se de amor pela humanidade. Um dia seu marido a encontrou em roucos
gritos de amor. Jogou-a na rua. Entregou-a à vizinhança enfurecida que não
distinguia bem se raiva despeito amor ódio. Sente-se tanta coisa que como
significar o que se sente? Madalena era ferida arrastada e nada dizia. Chorava.
Pensava. E como que por encanto seu pensamento se materializou. Outro milagre
não registrado. Vendo Jesus a numerosa multidão comoveu-se de compaixão: então
não sabiam do sujo do amor? Jesus veio a seu encontro. Então exortaram-no a apedrejá-la junto à
multidão. Mas Jesus recebeu por ela as pedradas. Recebeu por ela os empurrões.
Quando alguém disse: não manda a lei que as adúlteras sejam apedrejadas? Ao que
Jesus com grande carinho nos olhos voltados para a multidão e com a mão sobre a
mão de Madalena disse: quem nunca errou que atire a primeira pedra! Se
compreendêsseis o sentido das palavras: ‘Quero a misericórdia e não o
sacrifício’ não condenaríeis os inocentes. Madalena chorava lavando os ferimentos
do homem tão amado e por isso tão incabível em si. A multidão aos poucos foi
calando se acalmando e inundada por aquele amor e então começaram a chorar e a
se lamentar e a praguejar contra o céu. Sentiram o peso do amor e queriam
negá-lo. Naquele dia a cidade ficou deserta. Todos entenderam que teriam que
aprender a amar. Aprender a sofrer. O sofrimento dos prazeres sem fim. Madalena
quis dizer algo. Chorava e limpava com seu longo cabelo as feridas de Jesus.
Este a olhava e olhava. Olhos nos olhos e a certeza: não cabe. Se queres me
seguir pega tua cruz e me segue. Disseram um ao outro. Dali em diante não se
separariam. Ele era dele ela era dela. Num só. E toda noite Jesus gritava seus
ensinamentos de amor para não ouvir o amor transbordante de Madalena nos braços
de outro. Quando ficou insuportável para todos. Decidiram persegui-lo e
mata-lo. Aquela verdade jogada assim. Aquele lamento amoroso. Aquele amor
transbordante era uma cruz para todos. Que ele morresse. Amém. E do alto de sua
cruz ele olhou e a viu: Madalena inundada em lágrimas aos pés da cruz. Todos
haviam fugido. Menos Madalena e seu amor desmedido. Perdoa-me amado. Disse. Ele
a olhou sorrindo e disse: tu me fizeste conhecer o nome da beleza. Tu me
fizeste sentir. Tu. Apenas tu és todo o caminho verdade e vida. O mandamento
maior: amar acima de qualquer corpo. Perdoai-os pois eles não sabem o que
fazem. E foi embora. E da história
ficaram as distorções. Mas aquele homem compreendeu o que ainda ninguém compreende:
o amor é maior e não cabe num corpo. Eis o meu evangelho.
*Via Crucis do Porco é um dos contos publicados no livro "Cantos", de Sahmaroni Rodrigues, editado pela Editora Substânsia.
*Via Crucis do Porco é um dos contos publicados no livro "Cantos", de Sahmaroni Rodrigues, editado pela Editora Substânsia.

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