Tentando parecer plausível ao fingir que não estou copiando descaradamente o Dostoievski
por João Lucas Dusi
Sofro da cabeça. Meu caso é clínico. Meu fígado
inchado, meu coração sofre e meus pulmões têm câncer. Tomo todos os remédios
possíveis que me são desnecessários. Me recuso tomar o medicamento certo. Sou
um hipocondríaco teimoso que logo irá morrer. E assim pretendo que seja. Meu
caso é clínico, mas nenhum doutor quer me estudar. Eles me evitam. A boa gente me evita. Sou repugnante. Meu
corpo é repleto de queimaduras de cigarros. Fumo muito, daí o câncer. Bebo pra
pensar e meu fígado insiste em inchar. Vomitei sangue duas vezes. Tenho
úlceras. Desconfio, na verdade, que já estou morto. Uma técnica revolucionária
da ciência moderna bastou para me devolver à vida, por isso os médicos me
evitam! Sou um experimento. Dos médicos e de deus. Sou ateu. Sofro das pernas,
uso muletas. Minhas muletas não são aceitas pela sociedade. Não faço ideia do
motivo. Todos olham pra elas de forma diferente e comentam sobre elas. Eles
acham que não sei que falam das muletas. Eu sei. Eu sei e não ligo. Eu sei e
choro. Sempre estou gritando por dentro. Preciso de um novo par de muletas, mas
não tenho vontade de ir atrás. Não tenho vontade de mais nada.

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