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19 de novembro de 2014
Via Crucis do Porco

Via Crucis do Porco


por Sahmaroni Rodrigues

E havia aquele qualquer Jesus.  Nascido ali. No lugar certo. Cercado de movimentos errados. Ou talvez certos. Não vivi lá. Apenas invento. Realizo o que passou. Memória. Um rapaz como outro qualquer. Nem bonito nem feio. Bom. se enternecia com o mundo mas não sabia como enunciar isso. Calava. Até o dia. Madalena passava e era todo seu olhar. Madalena bonita. Forte. Morena. Madalena casada mas sempre desencontrada de seus sentimentos. Daí a fama de homem que ela deteve. Madalena se emporcalhava. Madalena se incorporava. Era tanto amor em si que o amor extravasava. Jesus percebeu. Começou a falar contra a lei. Suas coisinhas lá de dentro também extravasaram e encontravam o eco de tanto amor de Madalena. A incorporada. Madalena sábia. Madalena sofredora. Madalena que não entendia de seu imenso amor. Jesus agora falava de sua voz interior (ecoando Madalena). Falava de amar acima de tudo. Acima do corpo. Acima de qualquer corpo: corpo-pobre corpo-doente corpo-sarna corpo-lepra corpo-demônio corpo-excesso corpo-doente corpo-são corpo-corpo... olhavam-no como louco. A mãe sofria. Sempre imaginou-o como garantia para sua velhice e agora aquelas sandices. Amor custa caro. E Jesus se aproximava dos que eram evitados mas evitava Madalena. Medo de seu amor. Até que um dia. Madalena o olhava. Procurou-o. abraçou e beijou sua boca. O amor de Jesus ficou tão duro e inflexível que ambos se assustaram. Largaram-se: Jesus a chorar por saber que o corpo jamais comportaria tudo isso. O amor. Esse incompreensível. Madalena descabelava-se se feria: sabia que não conseguiria guardar aquilo tudo entre os dois apenas. Madalena era pura bondade. O tempo passou. Jesus cresceu. Sua fama o precedia. Emporcalhava-se de amor pela humanidade. Madalena cresceu. Sua fama ecoava pelos quatro cantos. Emporcava-se de amor pela humanidade. Um dia seu marido a encontrou em roucos gritos de amor. Jogou-a na rua. Entregou-a à vizinhança enfurecida que não distinguia bem se raiva despeito amor ódio. Sente-se tanta coisa que como significar o que se sente? Madalena era ferida arrastada e nada dizia. Chorava. Pensava. E como que por encanto seu pensamento se materializou. Outro milagre não registrado. Vendo Jesus a numerosa multidão comoveu-se de compaixão: então não sabiam do sujo do amor? Jesus veio a seu encontro.  Então exortaram-no a apedrejá-la junto à multidão. Mas Jesus recebeu por ela as pedradas. Recebeu por ela os empurrões. Quando alguém disse: não manda a lei que as adúlteras sejam apedrejadas? Ao que Jesus com grande carinho nos olhos voltados para a multidão e com a mão sobre a mão de Madalena disse: quem nunca errou que atire a primeira pedra! Se compreendêsseis o sentido das palavras: ‘Quero a misericórdia e não o sacrifício’ não condenaríeis os inocentes. Madalena chorava lavando os ferimentos do homem tão amado e por isso tão incabível em si. A multidão aos poucos foi calando se acalmando e inundada por aquele amor e então começaram a chorar e a se lamentar e a praguejar contra o céu. Sentiram o peso do amor e queriam negá-lo. Naquele dia a cidade ficou deserta. Todos entenderam que teriam que aprender a amar. Aprender a sofrer. O sofrimento dos prazeres sem fim. Madalena quis dizer algo. Chorava e limpava com seu longo cabelo as feridas de Jesus. Este a olhava e olhava. Olhos nos olhos e a certeza: não cabe. Se queres me seguir pega tua cruz e me segue. Disseram um ao outro. Dali em diante não se separariam. Ele era dele ela era dela. Num só. E toda noite Jesus gritava seus ensinamentos de amor para não ouvir o amor transbordante de Madalena nos braços de outro. Quando ficou insuportável para todos. Decidiram persegui-lo e mata-lo. Aquela verdade jogada assim. Aquele lamento amoroso. Aquele amor transbordante era uma cruz para todos. Que ele morresse. Amém. E do alto de sua cruz ele olhou e a viu: Madalena inundada em lágrimas aos pés da cruz. Todos haviam fugido. Menos Madalena e seu amor desmedido. Perdoa-me amado. Disse. Ele a olhou sorrindo e disse: tu me fizeste conhecer o nome da beleza. Tu me fizeste sentir. Tu. Apenas tu és todo o caminho verdade e vida. O mandamento maior: amar acima de qualquer corpo. Perdoai-os pois eles não sabem o que fazem.  E foi embora. E da história ficaram as distorções. Mas aquele homem compreendeu o que ainda ninguém compreende: o amor é maior e não cabe num corpo. Eis o meu evangelho.

*Via Crucis do Porco é um dos contos publicados no livro "Cantos", de Sahmaroni Rodrigues, editado pela Editora Substânsia.



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24 de outubro de 2014
"Cantos", de Sahmaroni Rodrigues

"Cantos", de Sahmaroni Rodrigues



O movimento natural do Universo, criação e destruição, que transborda em uma sintaxe explosiva, ecoando em uma polissemia de vozes, fazendo do estranho belo e do belo estranho. Esse é o tom do primeiro livro de Sahmaroni Rodrigues, Cantos. Em seus contos “o tumulto na vida das personagens roda nas engrenagens da carne e da alma”. Com uma sintaxe sofisticada e desconstruída, Cantos é o quinto livro publicado pela Editora Substânsia e o livro de estreia do artista performático, escritor e educador Sahmaroni Rodrigues. A capa é assinada por Lily Oliveira e o projeto gráfico por Nathan Matos. O lançamento ocorrerá dia 29 de outubro às 18:30 horas, Candeeiro Café&Arte, Rua Wanderly Uchôa, 230. Benfica, Fortaleza-CEO livro será vendido a R$ 30,00.

Sahmaroni Rodrigues nasceu em Catarina-CE. Formado em Letras pela UFC. Doutorando em Educação Brasileira: entende a academia como um conjunto de linhagens espirituais, assim como a Umbanda é, as neopentecostais o são e o ateísmo também. Participou até 2012 do coletivo artístico Projeto Cadafalso com trabalhos que transitavam entre literatura e artes visuais. Tem como lema: Amor fati. É feliz.

Abaixo, um dos textos do livro



Um homem honrado

E com os olhos vermelhos fui à sua casa e lhe disse: Devolva-me tudo que é meu! Olhos nos meus abriu sua gaveta de contas pagas e me devolveu uma algema sem as chaves e um pau duro e solitário.

Sahmaroni Rodrigues

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