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19 de novembro de 2014
Via Crucis do Porco

Via Crucis do Porco


por Sahmaroni Rodrigues

E havia aquele qualquer Jesus.  Nascido ali. No lugar certo. Cercado de movimentos errados. Ou talvez certos. Não vivi lá. Apenas invento. Realizo o que passou. Memória. Um rapaz como outro qualquer. Nem bonito nem feio. Bom. se enternecia com o mundo mas não sabia como enunciar isso. Calava. Até o dia. Madalena passava e era todo seu olhar. Madalena bonita. Forte. Morena. Madalena casada mas sempre desencontrada de seus sentimentos. Daí a fama de homem que ela deteve. Madalena se emporcalhava. Madalena se incorporava. Era tanto amor em si que o amor extravasava. Jesus percebeu. Começou a falar contra a lei. Suas coisinhas lá de dentro também extravasaram e encontravam o eco de tanto amor de Madalena. A incorporada. Madalena sábia. Madalena sofredora. Madalena que não entendia de seu imenso amor. Jesus agora falava de sua voz interior (ecoando Madalena). Falava de amar acima de tudo. Acima do corpo. Acima de qualquer corpo: corpo-pobre corpo-doente corpo-sarna corpo-lepra corpo-demônio corpo-excesso corpo-doente corpo-são corpo-corpo... olhavam-no como louco. A mãe sofria. Sempre imaginou-o como garantia para sua velhice e agora aquelas sandices. Amor custa caro. E Jesus se aproximava dos que eram evitados mas evitava Madalena. Medo de seu amor. Até que um dia. Madalena o olhava. Procurou-o. abraçou e beijou sua boca. O amor de Jesus ficou tão duro e inflexível que ambos se assustaram. Largaram-se: Jesus a chorar por saber que o corpo jamais comportaria tudo isso. O amor. Esse incompreensível. Madalena descabelava-se se feria: sabia que não conseguiria guardar aquilo tudo entre os dois apenas. Madalena era pura bondade. O tempo passou. Jesus cresceu. Sua fama o precedia. Emporcalhava-se de amor pela humanidade. Madalena cresceu. Sua fama ecoava pelos quatro cantos. Emporcava-se de amor pela humanidade. Um dia seu marido a encontrou em roucos gritos de amor. Jogou-a na rua. Entregou-a à vizinhança enfurecida que não distinguia bem se raiva despeito amor ódio. Sente-se tanta coisa que como significar o que se sente? Madalena era ferida arrastada e nada dizia. Chorava. Pensava. E como que por encanto seu pensamento se materializou. Outro milagre não registrado. Vendo Jesus a numerosa multidão comoveu-se de compaixão: então não sabiam do sujo do amor? Jesus veio a seu encontro.  Então exortaram-no a apedrejá-la junto à multidão. Mas Jesus recebeu por ela as pedradas. Recebeu por ela os empurrões. Quando alguém disse: não manda a lei que as adúlteras sejam apedrejadas? Ao que Jesus com grande carinho nos olhos voltados para a multidão e com a mão sobre a mão de Madalena disse: quem nunca errou que atire a primeira pedra! Se compreendêsseis o sentido das palavras: ‘Quero a misericórdia e não o sacrifício’ não condenaríeis os inocentes. Madalena chorava lavando os ferimentos do homem tão amado e por isso tão incabível em si. A multidão aos poucos foi calando se acalmando e inundada por aquele amor e então começaram a chorar e a se lamentar e a praguejar contra o céu. Sentiram o peso do amor e queriam negá-lo. Naquele dia a cidade ficou deserta. Todos entenderam que teriam que aprender a amar. Aprender a sofrer. O sofrimento dos prazeres sem fim. Madalena quis dizer algo. Chorava e limpava com seu longo cabelo as feridas de Jesus. Este a olhava e olhava. Olhos nos olhos e a certeza: não cabe. Se queres me seguir pega tua cruz e me segue. Disseram um ao outro. Dali em diante não se separariam. Ele era dele ela era dela. Num só. E toda noite Jesus gritava seus ensinamentos de amor para não ouvir o amor transbordante de Madalena nos braços de outro. Quando ficou insuportável para todos. Decidiram persegui-lo e mata-lo. Aquela verdade jogada assim. Aquele lamento amoroso. Aquele amor transbordante era uma cruz para todos. Que ele morresse. Amém. E do alto de sua cruz ele olhou e a viu: Madalena inundada em lágrimas aos pés da cruz. Todos haviam fugido. Menos Madalena e seu amor desmedido. Perdoa-me amado. Disse. Ele a olhou sorrindo e disse: tu me fizeste conhecer o nome da beleza. Tu me fizeste sentir. Tu. Apenas tu és todo o caminho verdade e vida. O mandamento maior: amar acima de qualquer corpo. Perdoai-os pois eles não sabem o que fazem.  E foi embora. E da história ficaram as distorções. Mas aquele homem compreendeu o que ainda ninguém compreende: o amor é maior e não cabe num corpo. Eis o meu evangelho.

*Via Crucis do Porco é um dos contos publicados no livro "Cantos", de Sahmaroni Rodrigues, editado pela Editora Substânsia.



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24 de outubro de 2014
"Cantos", de Sahmaroni Rodrigues

"Cantos", de Sahmaroni Rodrigues



O movimento natural do Universo, criação e destruição, que transborda em uma sintaxe explosiva, ecoando em uma polissemia de vozes, fazendo do estranho belo e do belo estranho. Esse é o tom do primeiro livro de Sahmaroni Rodrigues, Cantos. Em seus contos “o tumulto na vida das personagens roda nas engrenagens da carne e da alma”. Com uma sintaxe sofisticada e desconstruída, Cantos é o quinto livro publicado pela Editora Substânsia e o livro de estreia do artista performático, escritor e educador Sahmaroni Rodrigues. A capa é assinada por Lily Oliveira e o projeto gráfico por Nathan Matos. O lançamento ocorrerá dia 29 de outubro às 18:30 horas, Candeeiro Café&Arte, Rua Wanderly Uchôa, 230. Benfica, Fortaleza-CEO livro será vendido a R$ 30,00.

Sahmaroni Rodrigues nasceu em Catarina-CE. Formado em Letras pela UFC. Doutorando em Educação Brasileira: entende a academia como um conjunto de linhagens espirituais, assim como a Umbanda é, as neopentecostais o são e o ateísmo também. Participou até 2012 do coletivo artístico Projeto Cadafalso com trabalhos que transitavam entre literatura e artes visuais. Tem como lema: Amor fati. É feliz.

Abaixo, um dos textos do livro



Um homem honrado

E com os olhos vermelhos fui à sua casa e lhe disse: Devolva-me tudo que é meu! Olhos nos meus abriu sua gaveta de contas pagas e me devolveu uma algema sem as chaves e um pau duro e solitário.

Sahmaroni Rodrigues

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24 de setembro de 2014
O núcleo poético de Madjer de Souza

O núcleo poético de Madjer de Souza


A primeira publicação da editora Substânsia foi o livro Núcleo selvagem do dia (2014), do poeta Madjer de Souza Pontes, que também é um dos editores da editora. O título do volume me deixou bastante curioso. Pois qual relação teria o título com os poemas? Eu tenho minhas hipóteses, e, sinceramente, prefiro guardá-las comigo. Acredito que meu trabalho como resenhista seja apenas comentar o livro ou, em outras palavras, apresentar o livro ao leitor. O interessante desta, e de outras obras poéticas, é o jogo-poético que começa logo pelo título.

Em toda a obra, Madjer procura partilhar com o leitor as suas percepções do cotidiano. Não apenas isso, mas também a metalinguagem que poetas como Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto dentre outros da geração modernista pós-45 tanto faziam. Um desses achados metalinguísticos de Madjer pode ser captado no poema:

[estrema]

uma coisa que essencial:
é de uma fratura a quota –
do laminar-se da faca da
alma ferida nas costas –

renúncia – por algum tempo –
da vida cotidiana:
é a reserva do silêncio
quando a voz tudo abocanha –

hiato eterno de relógio
com a medida que cresça
no pulso de cada homem
a liberdade que o expressa

no poema não cabe a vida
é mais um talho preciso
que se grava em cada face
no crispar de cada ricto

Notei, nesse e em outros poemas, a utilização da metáfora da faca. Essa palavra, de uso concreto, foi mais utilizada, especificamente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto. Para ele, o poema devia ser lapidado com golpes de faca e foice, até atingir a linguagem ideal para a escrita. Além desse elemento concreto-metaforico, Madjer, assim como João Cabral, lapida e estrutura os poemas.

Madjer usa com frequência elementos de escrita concreta, com forte influência, como já citei, de João Cabral de Melo Neto. A lapidação, ocorre também, na desenvoltura das temáticas na obra e pela divisão do livro em três partes. É um livro fragmentado e costurado a partir da selvageria influencia de poetas modernos.

A meu ver, O núcleo selvagem do dia, é um achado poético para poetas e amantes da escrita concreta. Não há resquícios de um sentimentalismo ingênuo em Madjer, o poeta apreendeu e bem os conceitos da escrita a corte de faca. É um livro que deve ser lido e relido sempre a angustia do dia atacar o leitor. Eis um jovem poeta que já na estreia, demonstra versos maduros e potentes.

(OBS: Entrevista com Madjer:


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18 de setembro de 2014
Voo feito de fel

Voo feito de fel

(Imagem: David Herrera)
 
Ela sentou-se à calçada porque era aquele seu local preferido. De hoje.
Ela nunca teve locais preferidos. Na verdade qualquer espaço feito de silêncio sólido, daqueles que a maioria das pessoas odeia, ela adora.
Ainda mais hoje.
Hoje era dia grande como uma manhã que já nasce com promessas de demorar-se até alcançar o almoço. E, até chegar a hora do almoço, há um longo caminho de horas que se desfiam inteiras sem desconfiarem o porquê. Horas vãs que vão e que vêm como um voo feito de fel.
Nada se digna a acontecer que ultrapasse o limite das horas ou que as faça parar, ou melhor ainda - pensou ela - que as faça voltar num retroceder de minutos sucessivos em que só ela se dê conta.
As pessoas nos seus afazeres normais, correndo, atravessando as ruas, carregando as compras e os ponteiros a rolar para trás. Só ela, o relógio e o silêncio a dominar o que todos aprenderam com o tempo.
Chegado o almoço, é tarde. A tarde é uma fortaleza de grades em que se prende o sol. Ficam ali os raios a guiarem-se por todos os lados, uma hora em um ponto, às duas, bate na parede, às três, escorre pela porta, às quatro, derrama-se pela calçada e às cinco, como que despedindo-se, alcança a rua. Mas, todos os dias, eles voltam ao mesmo lugar e lamentam-se de não poder correr dali. E assim, a tarde caminha vazia cheia de luzes e barulhos, a não ser pra ela, que carrega nos ouvidos, o mais abissal e feliz dos silêncios.

Ayla Andra In "O Mais Feliz dos Silêncios"
Ed. Sustânsia, 2014. Fortaleza-CE

***

O mais feliz dos silêncios é o livro de estreia de Ayla Andrade. Em suas páginas, o silêncio, como diria o poeta Francisco Carvalho, “essa figura geométrica”, vai tomando diversas formas, tons e cores, perpassando múltiplas personagens femininas e colocando o leitor em uma montanha-russa de emoções com o passar das horas. Com ilustração de Capa da artista Tereza Dequinta, este é o quarto livro publicado pela Editora Substânsia, primeiro de contos. O lançamento ocorrerá dia 9 de outubro às 18:30 horas, na Biblioteca Municipal Dollor Barreira, Av. da Universidade, 2572. Benfica, Fortaleza-CE. O livro será vendido a R$ 30,00.






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9 de julho de 2014
Os golpes poéticos de Talles Azigon

Os golpes poéticos de Talles Azigon


O livro Três golpes d'água (Substânsia 2014), de Talles Azigon, pretendem golpear três coisas: 1) O homem externo a sua poética; 2) o leitor que convive dia a dia com o poeta e 3) os versos de Azigon pretendem golpear a si próprio. Sendo assim, conversemos sobre o livro do poeta seguindo as divisões demarcadas no livro.

1) O golpe no mundo dos homens

Na primeira parte do livro, como já disse, o poeta direciona os seus golpes literários àqueles que não conviveram diretamente com ele. São os homens desconhecidos, e solitários, que caminham por entre a multidão: o fortalezense. O poema que abre essa parte, poetiza a rotina de Fortaleza:

como um passe de mágica
a cidade faz dormir
todos os semáforos.
o caos instalado
obriga-nos a ler o óbvio:
os homens não se entendem,
por isso os sinais.

o mundo relembra
que é mundo
(de pedra, ferro, cimento e gente)

Na verdade o poema acima pode se aplicar a qualquer cidade. O homem “civilizado” necessita de leis para se governar e se organizar. Sem isso, o homem vive em um caos total. Alias, até com as leis vivemos em um caos. Os últimos versos nos fazem refletir sobre a composição concreta do mundo. O poeta segue as indicações de Manuel Bandeira, que sabiamente, fazia poemas a partir de recortes de jornal, ou, de recortes urbanos.

Na epígrafe do livro de Talles já notamos um dos sinais de influência da poesia de Manuel Bandeira:

Esse anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.”
-Manuel Bandeira

Tá certo que colocar uma epígrafe de um autor não indica que todo o livro tenha que, necessariamente, sofrer alguma influência do mesmo. Mas pelo pouco que conheço o poeta dos Três golpes d'água, sei que poderá haver sim um certo diálogo com a poesia de Bandeira. Pois Talles é leitor, full time, de Bandeira. A captação poética, da obra do poeta das Cinzas das horas, se apresenta na percepção do urbano, da conscientização da efemeridade da vida e das referências à memória pessoal do autor fortalezense.

A epígrafe da obra de Talles, sinaliza também a necessidade que o poeta tem de eternizar o que acontece ao seu redor em forma de poesia. No poema Arquitetura do cansaço, Talles a maneira de Alberto Caeiro, faz um poema filosófico sobre a ânsia de sair da cidade. O poeta nessa primeira parte da obra, se sente um cidadão à parte da cidade. E para Platão não há lugar para o poeta em sua república, Talles não encontra seu lugar e por isso despeja o primeiro golpe aos residentes da república/cidade.

2) Golpe no meu mundo

Na segunda parte do livro, Talles Azigon, dirrciona os seus golpes poéticos para si mesmo. Nessa parte encontraremos um poeta exposto que se auto-golpeia com a sua memória. Em um dos poemas, ele nos confessa que há dentro dele um sertão infinito. Essa infinidade interior dará vazão ao lado poético. Nessa parte do livro, desvendamos o sertão interior do poeta.

Sabemos que a introspecção só é válida quando não é transcrita de maneira pessoal, fazendo do poema algo particular, ou, mero recorte pessoal do poeta. Talles se utiliza da introspecção de maneira sutil, pois como todo bom poeta, ele sabe que uma dosagem a mais de introspecção, faria de seus poemas meros textos pessoais.

Concluo comentando que esta parte do livro é importante para o todo da obra, pois a poesia deve primeiro golpear o autor para depois acertar os futuros leitores.

3) Golpe no teu mundo

Comecemos nossa conversa sobre a última parte do livro de Talles, analisando brevemente o poema que abre o terceiro golpe:

fala
teu falo
é meu

falo
o
meu
também
é teu.

Inicialmente, o poeta declara que a sua fala é também a fala do leitor, assim como também a fala do leitor é a fala do poeta. Os golpes dessa sessão, na verdade são feitos por um eu-lírico que se universaliza a partir da sensibilidade do leitor. O lirismo, tão presente na obra de Bandeira, é presença marcante na obra de Talles. O poema abaixo golpeia qualquer leitor desprovido de armaduras:

Fui embora pra dentro de mim
fiz um furo aqui em cima
e deixei escorrer toda crendice
que eu ainda tinha de tu.
nada não,
o amor é assim mesmo
quando não amarga na entrada
amarga na saída.


Sem como se defender, o leitor é golpeado poeticamente nas páginas seguintes desta sessão e de todas as sessões do livro. Se por acaso você se machucar com os Três golpes d'água de Talles Azigon, leia novamente a obra, pois as sucessivas releituras funcionam como antídotos pós-términio de leitura.


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26 de maio de 2014
Entrevista com Madjer de Souza Pontes

Entrevista com Madjer de Souza Pontes



Madjer, o seu primeiro livro, "o núcleo selvagem do dia", é um livro de poemas onde a forma se faz presente, através, principalmente, da rima. Isso é consequência da influência de algum outro escritor?

A rima é um recurso instigante, porém procuro desenvolver a rima dita toante, é um recurso que os poetas trovadores utilizavam, mas isso eu descobri depois de ler João Cabral de Melo Neto. Foi a partir da leitura do livro “Agrestes” que esse tipo de rima me cativou. N"o núcleo", a rima é mais um recurso para mostrar a intensidade das relações entre as palavras, do que criar uma uma harmonia.

Quer dizer, então, que há uma preocupação em como a palavra será percebida?

O núcleo selvagem é a palavra. Desde a epígrafe tive essa preocupação em indicar (sem obviedade) que é a palavra o ente selvagem da vida. E todos nós temos a relação mais íntima e incontrolável com ela. Acredito que escrever é justamente essa convivência, uma intimidade selvagem com aquilo que mais prezamos.

O livro é dividido em três partes. Percebe-se certa relação entre elas. Ao final, tive a sensação de ser um livro cíclico. Há uma preocupação com a estrutura do livro?

A organização do livro segue um roteiro que procurei desenvolver. Na verdade o livro é uma história, tentei realizar uma história cíclica em que a palavra é o elo entre as partes: a percepção de um raio espacial que é exterior ao ser (1ª parte: da totalidade das coisas); o envelhecimento do corpo, a morte, as marcas temporais perceptíveis direta ou indiretamente (2ª parte: da luz e seus avessos) e a percepção do tempo que se afirma tanto no ser quanto no espaço (3ª parte: suficiente ou demais). De certo modo, a minha percepção é o contato com o tempo: o tempo finito e o tempo cíclico, e é a palavra que possibilita unir todos esses elementos.

E como é essa sua convivência com o ato de escrever? Qual a importância dele na sua vida?

Como nós não podemos parar e, por um momento, medir a intensidade da vida, pois é apenas vivendo que sabemos o seu peso ou a sua leveza, creio que a relação com a escrita é semelhante. Ninguém é escritor vinte e quatro horas por dia, isso é ingenuidade e cairíamos em uma contemplação simplória. Somos observadores, e é justamente essa observação que devemos concentrar no ato da escrita, ou seja, não há autor que possa medir a intensidade de sua escrita, é no exercício constante com as palavras, que podemos sentir o quanto ela é importante e necessária.

Você acredita que os escritores contemporâneos, principalmente os poetas, estão preocupados com essa intensidade que a palavra pode obter?

Bem, o José Lins do Rego definiu bem isso, não acerca dos escritores contemporâneos, lógico, mas que cabe muito bem para qualquer época, ele disse mais ou menos isso: os grandes escritores têm uma língua, os medíocres a sua gramática. Não sei desde quando ou até onde visualizar a criação contemporânea, pois com três cliques nós podemos ler uma infinidade de poetas. O que escrevem é o mais importante, porém há autores que trabalham a vida inteira para dizer algo que vale à pena, e os que passam a vida inteira dizendo que o que escrevem deve ser lido.

Você poderia explicar um pouco melhor o final do seu comentário?

Que nós devemos olhar o texto, não a fama que o escritor busca a qualquer custo, acho que pensar a poesia contemporânea é isso, principalmente na época em que vivemos, onde se expõe a vida em busca da glória.

Até que ponto você acredita que a crítica literária é importante para o autor, a editora e o leitor? Você acha que estamos vivendo um momento de “apadrinhamento”, onde todos falam bem de todos, onde todos os escritores sabem escrever muito bem e que não merecem receber uma crítica negativa?

Aí entra mais uma pergunta: onde a crítica está sendo feita? A academia é uma questão que já está desgastada, apesar de os novos estudantes de Letras estarem mais abertos a discutir e analisar autores à margem dos muros, que não são tão altos, mas quase intransponíveis. Todavia, é difícil sair alguma coisa de lá. Lógico que há um apadrinhamento, veja a quantidade de sites, blogs, revistas, o diabo a quatro de canais que apresentam, discutem e colaboram para a divulgação de novos escritores. É velha analogia das faces da moeda: se por um lado a possibilidade de divulgação e reconhecimento desses autores é maior, e cria-se uma corrente de seguidores, "curtidores" e compartilhadores desses textos, por outro lado, há uma liberdade monstruosa do escrever-pelo-escrever. Eu, às vezes, me perco quando vou pesquisar novos textos, novos autores, há muita gente produzindo, e a palavra muito me assusta... Porém sei que há revistas e blogs de qualidade que realizam um trabalho responsável e reconhecido. A crítica negativa é um brinquedo frágil, na mão do que faz e na mão do que brinca... Como disse a Orides Fontela: "Quebrar o brinquedo / é mais divertido. / As peças são outros jogos / construiremos outro segredo".

Você falou em Orides Fontela que, ao lado ao lado de outros poetas, tem sido esquecida. Você, que além de autor, também é editor, como observa o cenário editorial brasileiro, uma vez que até as grandes editoras têm cautela no momento de publicar autores como a própria Orides, como Sousândrade, Pedro Kilkerry, entre outros?

José de Alencar, lá no século XIX, quase chorando, deu sua bênção aos "Sonhos D'ouro", quem leu o prefácio desse romance perceberá que sempre estivemos à mercê de uma torrente de obstáculos para afirmar nossas obras. Você falou em nomes importantes, que estiveram esquecidos durante muito tempo, poderíamos citar muitos outros, há o caso do Alphonsus de Guimaraens e do Lima Barreto, só para citar dois monstros da nossa Literatura! Novamente, veja os nomes que estão sendo citados aqui! E foram esquecidos! Porém, de uns anos pra cá, há um resgate de muitos nomes que marcaram a produção de sua época e estão sendo reeditados, Paulo Leminski, Ana Cristina César, Cacaso, Francisco Alvim, Affonso Ávila, entre várias antologias que resgatam e coligam produções muito interessantes. Agora, há outro movimento que está ganhando mais força a cada dia, o das editoras alternativas e independentes. É justamente esse movimento que, me parece, está enfrentando, de forma organizada, com um discurso bastante afinado, com produções de qualidade, as grandes editoras. Temos essa possibilidade hoje, que deve ser vista e respeitada como um processo vital para a produção e divulgação dos textos de novos escritores. Eu sou um exemplo desse movimento e me sinto honrado por fazer parte dele.

Você falou sobre as editoras independentes. Você acaba de publicar o seu primeiro livro e pela editora a qual você faz parte do corpo editorial, a Editora Substânsia. Você acredita, realmente, que as editoras independentes podem enfrentar os grandes conglomerados, tendo em vista o alto poder aquisitivo delas, e a dificuldade que as pequenas editoras enfrentam com as livrarias?

Se pensarmos que o poder aquisitivo tolherá a ação independente, demos por finalizado os projetos e brinquemos no balanço dos sonhos... Contudo, há muito exemplos que optaram pela ação, quase louca, quase desenfreada... mas é justamente aí que pulsa a nossa força! A Editora Patuá, do Eduardo Lacerda, é, pra mim, um dos propulsores dessa força. Há poetas lançados pela Patuá que concorreram e concorrem os mais importantes prêmios literários do Brasil! Isso mostra a força desses movimentos independentes. A Substânsia começa a dar seus primeiros passos, mas desde a ideia de realizarmos esse trabalho (Nathan Matos, Talles Azigon e eu) quase louco, quase desenfreado, observamos e sentimos que o prazer em realizar os nossos projetos é inestimável!

Voltando à escrita. Forma ou Substância, o que pesa mais mais na construção da sua poética ?

O poema é Forma. A Substância, poesia. Aprendamos com a forma e, parafraseando o Drummond, não percamos tempo em mentir.

Pra finalizar, uma obra e um autor.

A poesia de todos os tempos. Os poetas de todos os tempos.



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14 de abril de 2014
Editora Substânsia - Uma nova editora, uma nova percepção

Editora Substânsia - Uma nova editora, uma nova percepção



Um novo projeto surgiu. Desde o início, o que eu desejava era apenas guardar memórias com minhas resenhas, mas agora, depois de quase 2 anos de atividade com o Blog Literatura Br, consegui, com ajuda de dois amigos, colocar mais um sonho em ação. Aos que procuram publicar o seu livro, surge uma nova editora: Editora Substânsia. A editora pretende trazer novas percepções para o cenário editorial brasileiro, contribuindo efetivamente para o desenvolvimento das artes. Assim, residindo em Fortaleza - Ceará, uma nova vereda na Literatura foi aberta. Sejam todos bem vindos a participar deste novo projeto. Abaixo segue o release da editora:

Não é possível escrever sem plasmar no papel as impressões que existem em cada um de nós. A ânsia, que se forma em nosso íntimo, é algo que move os escritores a criar mundos e contar histórias, que não se perdem, se transformam. É com esse pensamento que surge a Editora Substânsia, como uma vereda no meio do sertão que nos leva ao poço.

Editora Substânsia foi criada com o intuito de publicar livros de autores contemporâneos, nos mais variados gêneros, e perspectivar novas condições de diálogo entre os criadores brasileiros das mais variadas artes; abrindo novas possibilidades no mercado editorial brasileiro. A exemplo de outras editoras independentes, o que nos move é a paixão pela literatura, o prazer de editar livros e criar elos que fortifiquem a intelectualidade dos novos escritores, reconhecendo a contribuição dos que buscam firmar conteúdos de qualidade, abertos para o debate colaborativo.

Idealizada por Nathan Matos, em parceria com Madjer de Souza Pontes e Talles Azigon, a Editora Substânsia pretende contribuir para a ampliação de um cenário literário, ainda escasso, no Ceará. A independência na edição surge não como uma única possibilidade, mas como uma linha editorial a ser seguida.

A ideia de montar uma editora não surgiu do nada, foi um processo lento e demorado, discutido e pensado desde que tivemos a concepção de que necessitávamos contribuir para a difusão de novos escritores seja nas mídias virtuais, seja com a publicação física dos textos que nos chegaram e continuam chegando!

Os editores já atuavam no campo literário, seja escrevendo ou participando e inventando eventos para divulgar a Literatura, incentivar escritores, poetas, ensaístas, contistas, enfim... todos aqueles que de uma forma ou de outra estiveram interessados na concepção do diálogo para a produção literária.

Os três editores, em constantes conversas – em mesas de café ou de bar – pensaram e resolveram se unir para publicar os seus próprios livros, porém, a ideia ganhou energia suficiente, depois de um longo processo de amadurecimento, e decidimos fundar a Editora Substânsia para publicar outros novos autores que, sem dúvida, compartilham do mesmo sonho que dividimos.

Foi da ânsia de fazer e de trabalhar com o que mais gostamos que fundamos a Substânsia.

Esperamos que possa dividir esse Sonho conosco! 

Um abraço,

Os editores

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