O núcleo poético de Madjer de Souza
A
primeira publicação da editora Substânsia foi o livro Núcleo
selvagem do dia (2014), do poeta Madjer de Souza Pontes, que também é
um dos editores da editora. O título do volume me deixou
bastante curioso. Pois qual relação teria o título com os poemas?
Eu tenho minhas hipóteses, e, sinceramente, prefiro guardá-las
comigo. Acredito que meu trabalho como resenhista seja apenas
comentar o livro ou, em outras palavras, apresentar o livro ao
leitor. O interessante desta, e de outras obras poéticas, é o
jogo-poético que começa logo pelo título.
Em
toda a obra, Madjer procura partilhar com o leitor as suas percepções
do cotidiano. Não apenas isso, mas também a metalinguagem que
poetas como Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto dentre outros
da geração modernista pós-45 tanto faziam. Um desses achados metalinguísticos de Madjer pode ser captado no poema:
[estrema]
uma
coisa que essencial:
é
de uma fratura a quota –
do
laminar-se da faca da
alma
ferida nas costas –
renúncia
– por algum tempo –
da
vida cotidiana:
é
a reserva do silêncio
quando
a voz tudo abocanha –
hiato
eterno de relógio
com
a medida que cresça
no
pulso de cada homem
a
liberdade que o expressa
no
poema não cabe a vida
é
mais um talho preciso
que
se grava em cada face
no
crispar de cada ricto
Notei,
nesse e em outros poemas, a utilização da metáfora
da faca.
Essa palavra, de uso concreto, foi mais utilizada, especificamente,
pelo poeta João Cabral de Melo Neto. Para ele, o poema devia ser
lapidado com golpes de faca e foice, até atingir a linguagem ideal
para a escrita. Além desse elemento concreto-metaforico, Madjer,
assim como João Cabral, lapida e estrutura os poemas.
Madjer
usa com frequência elementos de escrita concreta, com forte
influência, como já citei, de João Cabral de Melo Neto. A
lapidação, ocorre também, na desenvoltura das temáticas na obra e
pela divisão do livro em três partes. É um livro fragmentado e
costurado a partir da selvageria influencia de poetas modernos.
A
meu ver, O núcleo
selvagem do dia, é um
achado poético para poetas e amantes da escrita concreta. Não há
resquícios de um sentimentalismo ingênuo em Madjer, o poeta
apreendeu e bem os conceitos da escrita a corte de faca. É um livro
que deve ser lido e relido sempre a angustia do dia atacar o leitor.
Eis um jovem poeta que já na estreia, demonstra versos maduros e
potentes.
(OBS: Entrevista com Madjer:

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