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24 de setembro de 2014

O núcleo poético de Madjer de Souza


A primeira publicação da editora Substânsia foi o livro Núcleo selvagem do dia (2014), do poeta Madjer de Souza Pontes, que também é um dos editores da editora. O título do volume me deixou bastante curioso. Pois qual relação teria o título com os poemas? Eu tenho minhas hipóteses, e, sinceramente, prefiro guardá-las comigo. Acredito que meu trabalho como resenhista seja apenas comentar o livro ou, em outras palavras, apresentar o livro ao leitor. O interessante desta, e de outras obras poéticas, é o jogo-poético que começa logo pelo título.

Em toda a obra, Madjer procura partilhar com o leitor as suas percepções do cotidiano. Não apenas isso, mas também a metalinguagem que poetas como Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto dentre outros da geração modernista pós-45 tanto faziam. Um desses achados metalinguísticos de Madjer pode ser captado no poema:

[estrema]

uma coisa que essencial:
é de uma fratura a quota –
do laminar-se da faca da
alma ferida nas costas –

renúncia – por algum tempo –
da vida cotidiana:
é a reserva do silêncio
quando a voz tudo abocanha –

hiato eterno de relógio
com a medida que cresça
no pulso de cada homem
a liberdade que o expressa

no poema não cabe a vida
é mais um talho preciso
que se grava em cada face
no crispar de cada ricto

Notei, nesse e em outros poemas, a utilização da metáfora da faca. Essa palavra, de uso concreto, foi mais utilizada, especificamente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto. Para ele, o poema devia ser lapidado com golpes de faca e foice, até atingir a linguagem ideal para a escrita. Além desse elemento concreto-metaforico, Madjer, assim como João Cabral, lapida e estrutura os poemas.

Madjer usa com frequência elementos de escrita concreta, com forte influência, como já citei, de João Cabral de Melo Neto. A lapidação, ocorre também, na desenvoltura das temáticas na obra e pela divisão do livro em três partes. É um livro fragmentado e costurado a partir da selvageria influencia de poetas modernos.

A meu ver, O núcleo selvagem do dia, é um achado poético para poetas e amantes da escrita concreta. Não há resquícios de um sentimentalismo ingênuo em Madjer, o poeta apreendeu e bem os conceitos da escrita a corte de faca. É um livro que deve ser lido e relido sempre a angustia do dia atacar o leitor. Eis um jovem poeta que já na estreia, demonstra versos maduros e potentes.

(OBS: Entrevista com Madjer:


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