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26 de novembro de 2014
A POESOPHIA DO POETA DE MEIA-TIGELA  NUMA ENTREVISTA A LÉO PRUDÊNCIO

A POESOPHIA DO POETA DE MEIA-TIGELA NUMA ENTREVISTA A LÉO PRUDÊNCIO





  1. Com quantos anos você começou a fazer poesia?

A poesia começou a me fazer não sei quando. Costumo convencionar comigo que foram os meus doze anos os responsáveis pelas primeiras experiências intencionalmente poéticas. Digo “intencionalmente” porque para as experiências inadvertidamente poéticas não haverá idade certa a indicar: daí o “não sei quando”. Penso que não é dos livros o aprendizado inicial do que chamamos poesia, mas do mundo de vida, daquilo em que nem suspeitamos estar — e está —, daquilo que nem imaginamos conter — e contém —, daquilo que nem cogitamos ser — e é —a poesia. Vivências de beleza, aprendizagens de dor, ocorrências, Léo: o livro de ocorrências da existência de cada dia — esse o primeiro livro, indatado, imprevisto, de poemas. Quando a poesia começou a me fazer? Não sei. Antes de mim, até; na série de eventos que resultariam neste que me-sou, e’ventos que podem remontar ao incabível, ao mais preciso tempo que posso lhe apontar: o do não-sei-quando. Como disse, convenciono os doze anos (3 x 4 ) como o tempo do começo, mas

Até onde é preciso avançar
Se se quer às origens chegar?
Se necessário ao início recuar
A fim de alfim o começo alcançar —
Onde começa e onde tem fim o começar?

(Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas)
  1. Guarda algo dessa época inicial?

Mantenho a lembrança de alguns textos, sua intenção, sua informidade (em mim moram), porém nenhum papel, nenhum rabisco daquele período. Os manuscritos mais antigos preservados datam dos meus vinte anos e isso de preservar os rascunhos é algo que empreendo na desmedida do possível. Raramente me vem um poema cuja elaboração não se tenha dado com a mediação de minhas mãos, de um lápis, uma caneta. Se a intuição do poema se apresenta a princípio como uma centelha não-verbal e ágrafa, depois — ao se transliterar, ao se consubstanciar, pede a caligrafia, o trabalho — não direi “braçal” mas “manual” — do registro pela escrita em que os três dedos mais à esquerda de minha mão direita se veem diretamente envolvidos. Eduardo Galeano cita, a propósito, um conselho que lhe deu Juan Carlos Onetti: não datilografasse (hoje diríamos, não teclasse), mas escrevesse à mão, se não quisesse abdicar de um dos maiores prazeres da escrita. Sigo esse conselho mesmo no que concerne a textos longos: apor a letra no papel é minha forma de capinar a palavra

Escolhesse por que meneios gestos
ou sinais à minh'alma expressaria
e apenas haveria de almagestos
escreversejar: manulivros. Se
  a
mão se move em prol de outra porfia
além do fazimento de seus textos
desperdiça-se: torne-se grafia
mesmo que em papéis vãos idos aos cestos.


(Trecho do soneto “Profissão de Fé”, do inédito Miravilha: liriai o campo dos olhos)

  1. Ser professor universitário de filosofia influi no trabalho poético?

Não vou lhe dizer que “ser professor universitário” influa no trabalho poético diretamente, se por “trabalho poético” entendemos estritamente a escrita; “ser professor”, universitário ou não, influencia no processo de melhoria do sórumbático (assim, com dois agudos) que fui e venho aos poucos deixando de ser. “Ser professor” ensina, antes de mais tudo. E esse ensino diz respeito à minha inteireza como pessoa, ao procurar me fazer (e espero que conseguindo) um tanto melhor, agindo mais paciententemente, sendo mais atencioso para com os demais e comigo. No meu modo de pensentir, esse aprimoramento me torna alguém menos intratável, menos intragável e, assim, me poetiza. Tem algum tempo, Léo, que eu venho concebendo a poesia como algo além de um gênero literário: por isso, não concebo uma estética que não seja ética e, à inversa, uma ética que não seja estética. Vivo portanto conforme uma est(ética. Agora, o contato com a filosofia, e desde a juventude (o que quer dizer já uns bons vinte e poucos anos de convivência entre mim e Diotima), — o contato com a filosofia sem dúvidas incide diretamente na minha po(ética: seja como sugestionadora temática (você sabe que além de uma Ciranda dostoievskiana há uma Ciranda espinosana?), seja como expressão do próprio teor de meus poemas, via de regra tão interrogativos. Sintetizo da seguinte maneira: vivo uma poesophia

Quem sou? Onde estou? Aonde
Vou e pra quê? Que sentido
Em ser estar ir? Duvido
De tudo e o Nada responde:



  1. Como surgiu a ideia do Memorial Bárbara de Alencar, seu primeiro livro?

Posso preguiçar? Vou transcrever um trecho do texto que encerra o livro Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas: “O Memorial dormia em seu autor, ainda em estágio embrionário, até ser desperto numa tarde de 30 de julho de 2007, quando da realização do Cortejo de Fortaleza. Em comemoração ao Dia do Patrimônio Cultural do Estado do Ceará, o Cortejo relembrara [sob a direção de Oswald Barroso] a execução dos revoltosos republicanos cearenses, partícipes do movimento denominado Confederação do Equador. Num trajeto iniciado na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção e finalizado no Passeio Público, fora simulado o percurso percorrido pelos cinco presos “arcabuzados” em 1825 (embora em realidade Padre Mororó, Pessoa Anta, Ibiapina, Azevedo Bolão e Carapinima tenham sido executados em dias diferentes). Assistir àquela representação repercutiu como o acordar para a escrita de texto há muito premeditado, mas ainda apenas idealizado. Afinal, desde algum tempo já se insurgia o projeto de feitura de um poema dramático acerca de Bárbara de Alencar”. Sou Alencar por parte dos avós maternos: ela, Maria Tenório de Alencar, ele, Manoel Luís de Alencar, ambos de Potengi, cidade do cariri cearense. Atenção para a sincronicidade: depois de decidir pela escrita do poema, descobri ser minha data de nascimento, 28 de agosto, a data de morte de Bárbara de Alencar. Os poemas que compõem o livro Memorial são todos do 2º. Movimento do Concerto

Alguém há cuja origem e viver
Representam o acordo entre os estados
Do Ceará Pernambuco rebelados:
Da vetusta família de Alenquer
Ela Bárbara bárbara mulher
Na cidade de Exu nascida, vinda
Para cá pequenina ainda, linda
Fez-se forte e vistosa mas austera
Respeitada por ser Senhora à vera
Até ser posta à prova na berlinda.

A seguir versaremos sobre o pathos
Do calvário por que passara estoica
Essa mãe essa mártir essa heroica
Prisioneira política do Crato.
Eis que somos chegados ao Relato

(Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas)

  1. Qual a proposta do Concerto Nº 1nico em mim maior para palavra e orquestra?

Amigo Prudêncio, preguiçarei de novo. Com ligeiras alterações, eis algumas das palavras de encerramento da edição do 1º. Movimento do Concerto: “A composição quaternária organiza o Concerto inteiro: cada ¼ constituído de Quatro Livros, cada qual integrado por Quatro Seções, cada Seção preenchida por quatro poemas. É certo que com a partição de algumas Seções ou poemas noutras tantas subdivisões (por exemplo, o poema de número 4 — o de abertura — da Seção “Quatro Minguantes”), temos uma multiplicidade aplicada à ordenação aparentemente fixa, de modo que ganha dinamismo a tessitura, escapando ao risco do automatismo e das limitações ditadas por sua contextura. A Obra Inteira constrói-se, pois, com vistas à estruturação previamente assumida, como à inovação e improviso dentro da instrutura quadrilítera”. É isso: o Concerto é quadrúplice e procura submeter o tempo à reordenação temática — poemas de hoje podem ir ao início do livro e poemas de antes serem alocados no Movimento final: a visão geral é que o orienta. Os fragmentos são ordenados segundo percepção sinótica — e o completório dos meus dias transformados em instantes poéticos que se acumulam conforme prévia integração jamais esgotada definitivamente. O Concerto é minha Santa María. Como em Onetti, a cronologia deve submeter-se à construção — ao alicerçamento e soerguer-se — da obra. Que Juntacadaveres tenha sido escrito depois, mas conte um acontecimento anterior a El Astillero, demonstra que para Onetti-Brausen o delineamento está feito, e tudo mais é cumprimento no tempo, porém consoante plano para além da temporalidade estrita. Que poemas de hoje se agreguem ao 1º. Movimento e poemas de ontem se aloquem no 3º. ou 4º., é transgressão da retilineidade do cronos, em função da confecção e acabamento do todo, extemporâneo, embora temporal

  1. Pretende publicá-lo todo um dia, ou em partes?

Em partes, já o faço. Seja nos poemas esparsos do blog (http://opoetademeiatigela.blogspot.com.br/), seja nos livros publicados e/ou por publicar. Preciso dizer, Léo, que esses livros não passam de uma espécie de prévia do Concerto. Digamos assim: o Todo que o Concerto aos poucos se torna, é composição para — o título o diz — orquestra inteira; e os livros provisórios (o Memorial, já editado; o Girândola, o Miravilha, A fada e o poeta, por virem brevemente) que a partir do todo organizo, são música de câmara, são adaptações “em mim menor”, a fim de que eu possa me dar a ler antes de ver ao menos aproximada a conclusão (não haverá tal) do 1nico (úmnico) livro que realmente escrevo, o Concerto

Era uma vez um poeta
E sua melancolia
De escrever Obra Completa
Mas não ter companhia
De um leitor de um amor uma
Amizade uma alegria

(Trecho do inédito A Fada e o Poeta)

  1. Então o livro Concerto não está finalizado e sempre surgem poemas novos que você nele encaixa?

Sempre surgem. Pra que você ideie, a segunda seção do Livro 1 do Primeiro Movimento do Concerto, a seção “Os Prisioneiros”, era dividida em duas “levas” e integrada por vinte e quatro sonetos (quatro dos quais “incidentais” e um “estropiado” como “introito” às divisões da seção). Agora são quatro “levas” e um total de trinta e oito sonetos, ou seja, trata-se ainda do que assinalei em nota ao livro: o Concerto é word in progress (palavra em andamento)

O poema esse composto
De palavras e vazios —
Mas ocos que em seus estios
Muito dizem. Como um rosto

  1. Acredito que muitos que leem seus livros ficam se perguntando o motivo de assinar com o nome Poeta de Meia-Tigela. Poderia nos explicar?

A outra metade da tigela é O Leitor

Tigelimerick

Era um Poeta só de Meia-
Tigela: bem se lhe nomeia
Talvez até nem
Tivesse também
Essa metade — meio-Meia

  1. Quais são suas referências/influências literárias?

Não direi “influências”, mas — “fruências”. Fruo muito muitos autores e não apenas “literários”. A bem da verdade leio quase compulsivamente (esse “quase” é pra minorar a gravidade da compulsão), e sem me ater a gênero, número ou grau: CAMILO PESSOA OU FERNANDO PESSANHA — HENRY O. MILLER — JORGE AMADO DE LIMA BARRETO — MARIO DRUMMOND DE OSWALD MELO FRANCO DE ANDRADE — OSMAN LINS DO REGO — SINCLAIR LEWIS CARROL — TOLSTOIÉVSKI — WILLIAM BLAKESPEARE — TAGORE VIDAL. Porém, se me pego gostando de um autor em particular, começa a perseguição: o primeiro a quem “persegui” foi Dostoiévski. Foi a partir de Dostoiévski que escrevi meu trabalho de graduação em filosofia, uma monografia que hoje reconheço pretensiosa e imatura, embora sincera e esforçada: chamou-se Os demônios de Dostoiévski. Aliás, demorei muito tempo pra convalescer de Dostoiévski e aceitar que não sou Raskholnikov, tampouco Svidrigailov: ai, ai. Tempos depois veio Julio Cortázar e o cronopismo, acredito que não casualmente: em Cortázar vejo a associação para mim ainda muito grata entre o existencialismo, o surrealismo (vide Teoría del túnel) e o marxismo, contudo na medida incerta, a saber: com um distanciamento que só a leveza de quem no fundo desconfia dos ismos pode apresentar. Tive também a fase Onetti e recentemente a fase Lobo Antunes, benzadeus já transcorridas. Da literatura brasileira, sobretudo Lima Barreto, Guimarães, Clarice, Osman Lins. Dos poetas lusitanos (admito crassa ignorância da poesia que se faz noutros países de língua portuguesa), Camões e Pessoa, claro, Almada e António Gedeão. Dos brasileiros, Cruz e Sousa, Jorge de Lima, Sosígenes Costa, Carlos Nóbrega.

PARA SOSÍGENES COSTA, AS GARÇAS

Para André Ricardo, de quebra

Tanto mais desgarçado desgraçado mundo
Tanto mais menos garças menos mais beleza
neste mundo em que grassa o mal imundo
Que são as garças? Graça e real realeza

Amá-las é de graça não se paga ao Fundo
Vê-las é levitar tamanha a graça delas
As garças são a graça deste feio mundo
tamanha a graça delas levita-se ao vê-las

Garça-azul garça-branca garça-cinza tudo
é modo de ser garça ser além das penas
Garça-vaqueira garça-da-cabeça-preta

mais que forma ser garça é graça é conteudo
Garça-socoí garça-morena ou vermelha
ser garça é dar lição de graça ao mundo imundo

  1. Você acompanha a produção dos novos escritores cearenses?

Não me esforço para isso porque não me esforço para estar na ordem do dia, sabedor das novidades, conhecedor de quem produz o que e onde. Venho conhecendo naturalmente os novos escritores à medida que me procuram (e raríssimos o fazem, e não há razão para ser diferente) ou me são apresentados por amigos; venho conhecendo os novos escritores à medida que me chegam à vista e os leio: mas não os leio muito, confesso, por falta de uma identidade mesmo, por certa distância de sensibilidade minha ante grande parte da mínima parte do que sei estar sendo feito. Às vezes acontece de eu gostar de um livro, de uma página na internet e tomar a iniciativa de contatar o autor/ autora, de solicitar correspondência, troca de material, iniciar uma amizade literária. Foi assim que vim a conhecer e namorar a Nataly [Pinho]. Foi assim que me fiz próximo (fraternalmente) de Hugo Pontes, Irineu Volpato, Nelson Hoffmann, Patrícia Tenório e, dentre os cearenses, de Webston Moura, Dércio Braúna, Jonas Torres, Bruno Paulino, nenhum dos quais conheço pessoalmente. Aqui e acolá escrevo posfácios para os corajosos que mos pedem, em geral jovens: Uirá dos Reis, por exemplo, com o An; Frederico Régis com Os países; Ângela Calou com Eu tenho medo de Górki; Alessandra Bessa com Arcanos maiores e a valsa leve. Ah, e Léo Prudêncio (você já deve ter ouvido falar dele) com o aquarelas, inédito de haicais.
versos e silêncio:
singelas-te. o aquarelas
lês, de léo prudêncio

  1. A literatura cearense perdeu neste ano dois nomes importantes: Nilto Maciel e Artur Eduardo Benevides. Cada um, obviamente, importante à sua maneira. Você tinha contato com esses dois escritores?

Falarei de Nilto Maciel, a quem visitei em três endereços (dois apertamentos e uma casa, a definitiva), algumas vezes indo sozinho ou (mais vezes) em companhia de escritores/artistas: Carlos Nóbrega, Carlos Vaz, Frederico Régis, Lúcio Cleto, Manuel Bulcão (amicíssimo também já ido), Pedro Salgueiro, Raymundo Netto, Silas Falcão. Fui e sou amigo do Nilto (ainda hoje, porque a amizade não se desfaz com a morte) e esse relacionamento resultou em parcerias: em 2009 publiquei uma entrevista feita (em almoço na casa de Mario Sawatani) com ele para o jornalzinho V.O.L.A.N.T.E, edição n. 3, e na edição 5 do mesmo periódico um soneto de que gosto bastante, do livro Navegador, o “Nem sei domar meus próprios cães”. Revisei o livro Luz Vermelha que se azula, de 2011, e o Nilto, por sua vez, foi o autor do posfácio ao Primeiro Movimento do Concerto (o prefácio é de Sânzio de Azevedo) e escreveu outro par de textos que me dizem respeito: um acerca do Memorial, o “Dona Bárbara de um poeta”; e “O Concerto inebriante do Poeta de Meia-Tigela”, este publicado depois em Como me tornei imortal, de 2013, um dos seus últimos livros. Eu o chamava por vezes “Nilto Asperel”: é que ele gostava muito de dizer coisas embaraçantes com a alma risonha porém a cara mais séria e com a intenção irônica de observar a reação desconcertada da vítima. Sabia ser amigo em muitas horas, mas com o Nilto o melhor era estar preparado para o que desse e viesse. Em homenagem a ele, e sob o abalo da morte, o soneto a seguir

PARA NILTO MACIEL

Escrever por quê? Para me saber
menos só. Menos só para quê? Para
me dizer mais jardim menos saara
(e no entanto o deserto em meu dizer)
Escrever por querer sair de mim:
para me saber comunicativo
(e no entanto me sei comum cativo
do deserto que sou: Não e não, sim)
Escrever para escrever escrever
(e no entanto esse não-dizer que paira
em mim em minha fala como espanto
em meu querer sair de mim: mais ser)
Escrever (e no entanto a fala-avara
em mim em meu dizer: esse no entanto

Esse poema faz parte do Miravilha: liriai o campo dos olhos (volume de sonetos por sair pela Confraria do Vento, se Deus e Karla Melo assim o quiserem) e vem ser, quando em livro, nova homenagem ao velho Nilto... MaciAsperel

Grato, poeta Léo Prudêncio


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5 de novembro de 2014
Poemas de Léo Prudêncio

Poemas de Léo Prudêncio

Pintura a óleo de Badida Campos


após ler: sobre heróis e tumbas. de ernesto sabato

1.

é que por acaso
nascem as paixões

(e como corrói por dentro,
silenciosamente, como um câncer)

aquilo que chamas
- paixão, amor ou atração
ainda irá te levar
(cada vez mais)
para o fundo da fossa

2.

há no subterrâneo
ou em praças populares
partículas visíveis de mim

mas

feche a porta ao entrar
no meu ressinto
fique à vontade
o país não é nosso
mas a casa é minha

somos feitos
a partir
de pequenos segredos
e de minúsculos silêncios

3.

te amo tanto
que me torno cinzas
e lembranças
será eterno
-nosso amor-
enquanto as cinzas
de meu corpo
voarem


haicais

*
não é o monte everest
é um pé de siriguela
com formigas nele
*
eu sou esses passos
cansados e rasteiros que
ficaram na praia
*
solitário no galho
de árvore, o passarinho

admira o fim do dia


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24 de setembro de 2014
O núcleo poético de Madjer de Souza

O núcleo poético de Madjer de Souza


A primeira publicação da editora Substânsia foi o livro Núcleo selvagem do dia (2014), do poeta Madjer de Souza Pontes, que também é um dos editores da editora. O título do volume me deixou bastante curioso. Pois qual relação teria o título com os poemas? Eu tenho minhas hipóteses, e, sinceramente, prefiro guardá-las comigo. Acredito que meu trabalho como resenhista seja apenas comentar o livro ou, em outras palavras, apresentar o livro ao leitor. O interessante desta, e de outras obras poéticas, é o jogo-poético que começa logo pelo título.

Em toda a obra, Madjer procura partilhar com o leitor as suas percepções do cotidiano. Não apenas isso, mas também a metalinguagem que poetas como Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto dentre outros da geração modernista pós-45 tanto faziam. Um desses achados metalinguísticos de Madjer pode ser captado no poema:

[estrema]

uma coisa que essencial:
é de uma fratura a quota –
do laminar-se da faca da
alma ferida nas costas –

renúncia – por algum tempo –
da vida cotidiana:
é a reserva do silêncio
quando a voz tudo abocanha –

hiato eterno de relógio
com a medida que cresça
no pulso de cada homem
a liberdade que o expressa

no poema não cabe a vida
é mais um talho preciso
que se grava em cada face
no crispar de cada ricto

Notei, nesse e em outros poemas, a utilização da metáfora da faca. Essa palavra, de uso concreto, foi mais utilizada, especificamente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto. Para ele, o poema devia ser lapidado com golpes de faca e foice, até atingir a linguagem ideal para a escrita. Além desse elemento concreto-metaforico, Madjer, assim como João Cabral, lapida e estrutura os poemas.

Madjer usa com frequência elementos de escrita concreta, com forte influência, como já citei, de João Cabral de Melo Neto. A lapidação, ocorre também, na desenvoltura das temáticas na obra e pela divisão do livro em três partes. É um livro fragmentado e costurado a partir da selvageria influencia de poetas modernos.

A meu ver, O núcleo selvagem do dia, é um achado poético para poetas e amantes da escrita concreta. Não há resquícios de um sentimentalismo ingênuo em Madjer, o poeta apreendeu e bem os conceitos da escrita a corte de faca. É um livro que deve ser lido e relido sempre a angustia do dia atacar o leitor. Eis um jovem poeta que já na estreia, demonstra versos maduros e potentes.

(OBS: Entrevista com Madjer:


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18 de setembro de 2014
Voo feito de fel

Voo feito de fel

(Imagem: David Herrera)
 
Ela sentou-se à calçada porque era aquele seu local preferido. De hoje.
Ela nunca teve locais preferidos. Na verdade qualquer espaço feito de silêncio sólido, daqueles que a maioria das pessoas odeia, ela adora.
Ainda mais hoje.
Hoje era dia grande como uma manhã que já nasce com promessas de demorar-se até alcançar o almoço. E, até chegar a hora do almoço, há um longo caminho de horas que se desfiam inteiras sem desconfiarem o porquê. Horas vãs que vão e que vêm como um voo feito de fel.
Nada se digna a acontecer que ultrapasse o limite das horas ou que as faça parar, ou melhor ainda - pensou ela - que as faça voltar num retroceder de minutos sucessivos em que só ela se dê conta.
As pessoas nos seus afazeres normais, correndo, atravessando as ruas, carregando as compras e os ponteiros a rolar para trás. Só ela, o relógio e o silêncio a dominar o que todos aprenderam com o tempo.
Chegado o almoço, é tarde. A tarde é uma fortaleza de grades em que se prende o sol. Ficam ali os raios a guiarem-se por todos os lados, uma hora em um ponto, às duas, bate na parede, às três, escorre pela porta, às quatro, derrama-se pela calçada e às cinco, como que despedindo-se, alcança a rua. Mas, todos os dias, eles voltam ao mesmo lugar e lamentam-se de não poder correr dali. E assim, a tarde caminha vazia cheia de luzes e barulhos, a não ser pra ela, que carrega nos ouvidos, o mais abissal e feliz dos silêncios.

Ayla Andra In "O Mais Feliz dos Silêncios"
Ed. Sustânsia, 2014. Fortaleza-CE

***

O mais feliz dos silêncios é o livro de estreia de Ayla Andrade. Em suas páginas, o silêncio, como diria o poeta Francisco Carvalho, “essa figura geométrica”, vai tomando diversas formas, tons e cores, perpassando múltiplas personagens femininas e colocando o leitor em uma montanha-russa de emoções com o passar das horas. Com ilustração de Capa da artista Tereza Dequinta, este é o quarto livro publicado pela Editora Substânsia, primeiro de contos. O lançamento ocorrerá dia 9 de outubro às 18:30 horas, na Biblioteca Municipal Dollor Barreira, Av. da Universidade, 2572. Benfica, Fortaleza-CE. O livro será vendido a R$ 30,00.






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1 de setembro de 2014
Queria escrever o mundo, mas resolvi escrever Maria

Queria escrever o mundo, mas resolvi escrever Maria





Para ouvir: Assum Branco, de José Miguel Wisnik, na voz de Gal Costa.
Ou Galos, Noites e Quintais, de Belchior.



Beleza –É algo relativo. Mas, sem dúvidas, não há relatividade alguma na beleza dos olhos dela. Os olhos dela são um pedacinho de mar onde ele não mais existe. A brancura, em castigo do sol, só não encarde pelo talco em pó e pela lavanda de alfazema trazida pelo mascate da feira. Parece morar dentro dela alguma grande guerreira, quem sabe uma Iracema sertaneja disfarçada de mulher branca, ou uma Moura encantada da mitologia Basca.

Eu queria era vê-la moça, lá por volta de 1950, feliz e alva. Os cabelos loiros, soltos e devidamente penteados para mais uma missa de domingo. Consigo até sentir o gosto dos doces das quermesses e a euforia dos bingos e das rifas em festas da padroeira. Pensar nela me enche de saudade. E a saudade dela é a saudade das coisas dela, do passado empoeirado escondido pelos cantos da casa. É a saudade de lavar os collants e anáguas com sabão canoeiro, e com a mesma água refrescar o suor que escorre pelo corpo. É a saudade do canto de canários, nambus e bem-te-vis, que é a mesma saudade do sertão florindo em puberdade. A saudade de pular a cerca e tomar banho no riacho com sabão de aroeira. Saudade dos pés de oiticica, de comer as frutinhas de juá e também os bolos de puba e os chouriços em dia de festa... Ah, saudade dos melaços de cana e do som da rabeca de Seu Quincas Firmino. A nostalgia, que chamo de saudade, talvez venha das lembranças apropriadas dos álbuns e monóculos antigos trazidos do Juazeiro, ou talvez, das histórias repetidas na beira da calçada e das tardes que eu me trancava nos baús forrados de revistas e jornais velhos.

E as dores? E a falta de carne e água limpa? E o vazio solitário que ocupa a gente na desesperança? Isso também está na memória. Pensar nos sofrimentos da terra rachada por onde ela passou é tão amargo quanto a água barrenta do açude. O gado morto. O prato raso de comida. As crianças morrendo de varíola, caxumba, diarreia ou gripe: “Segura na mão de Deus e vai...”.

Sertão de vidas secas. Para ela, uma vida fértil, 14 barrigas, três abortos e um menino que não se criou. Mesmo com toda reza e toda crença, toda mudança e toda reforma – nos dias de agora, água pouca ou água nenhuma. E os filhos bem paridos e bem casados não voltam temendo a seca. A vida agora é um balançar de rede, é colocar comida pros gatos, ver a novela e esperar um pingo de chuva aqui e outro acolá.

Quando viajo para encontrá-la, penso na sorte que tive em ter o mesmo sangue forte de Maria. Na distância, vivo vendo-a por aí. Seja na avó que em uma mão carrega sacolas e na outra segura a mão da neta pelo centro da cidade. Seja na senhora negra e de cabeleira branca, que lava ternamente as mãos da neta com shampoo que retira da sacolinha de plástico, no banheiro da universidade. Ou especialmente vendo Dora, em Central do Brasil. Ah, Dora é a imagem cinematográfica de Maria. Um batom pelo final, uma bolsa lateral bem junta ao corpo, uma pausa na lanchonete da rodoviária para um refrigerante; a mão pregada à mão da criança, a vontade de carregá-la por muito tempo, porém, com a certeza inevitável que a perderá.

Lembro-me da época das especulações em torno do bebê real. Eu só conseguia pensar: pobre criança! Não terá uma vovó real para lhe dar angus, papinhas, chás de erva cidreira e cafunés. Ou mesmo uns bons gritos. Avó é mãe duas vezes, dizem. Avó é alguém que temos um medo bem grande de perder, mas como conforta Drummond, “As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.” Pois que fico enormemente feliz quando chego nos Inhamuns e Maria, minha avó, me olha com um olho cego e o outro brilhando, apesar da catarata. Em seu abraço cabe o sertão, o mar, o azul e o violeta. Não importa a minha idade, serei sempre a criança desprotegida à procura da mão da avó. E não importa a idade dela, Maria será sempre a Moura encantada, com mãos de ferro e unhas de porcelana.



Thalita Gabriele Moura Vieira.
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20 de agosto de 2014
Entrevista com Sânzio de Azevedo

Entrevista com Sânzio de Azevedo




Semana passada, via e-mail, realizei uma pequena entrevista com o escritor Sânzio de Azevedo. O autor cearense é consagrado pelos seus títulos voltados aos estudos literários, em especial sobre a Padaria espiritual, agremiação cearense de maior repercussão nacional. Eis a nossa rápida conversa:

Léo P. Acredito que seu pai, Otacílio de Azevedo, que era poeta e pintor, tenha lhe influenciado na sua escolha pelo mundo das letras. Podemos afirmar isso?

Sânzio de A.  Meu Pai, Otacílio de Azevedo, foi a grande influência, principalmente quando comecei a fazer poemas.

Léo P.  O seu primeiro livro, A terra antes do homem, é de teor filosófico e científico. Depois dele você se dedicou mais a falar sobre literatura, como foi essa mudança de escrita?

Sânzio de A. Comecei com esses poemas, e artigos sobre literatura, mas como gostava de Paleontologia desde criança, em São Paulo fui convidado a escrever um livro de divulgação científica, publicado em 1962, quando eu tinha 24 anos de idade.

Léo P. No mundo acadêmico não se pode falar sobre a Padaria Espiritual sem citar o seu nome, já que você é o teórico que mais se debruçou sobre o assunto. Como você "descobriu" a Padaria Espiritual?

Sânzio de A. Na adolescência, ouvia falar do grêmio, mas tomei conhecimento dele mesmo quando meu saudoso amigo Faria Guilherme me presenteou com um exemplar d'A Padaria Espiritual do Leonardo Mota, de 1938. Depois, passei para as pesquisas em periódicos do século XIX, além dos livros de Mário Linhares, Dolor Barreira e outros.

Léo P. Em uma palestra na UVA, em Sobral, você disse que encontraram a "Ata com o registro das fornadas dos padeiros", tem alguma previsão desse material histórico sair impresso?

Sânzio de A. As Atas da Padaria Espiritual, que passei 40 anos procurando aqui e no Rio de Janeiro, estavam no Instituto do Ceará. Graças a Marinez Alves e ao então presidente da entidade, bibliófilo José Augusto Bezerra, pude ler as atas, com grande emoção. O José Augusto pensa em publicá-las este ano.

Léo P. Você também já publicou livro de poemas, você se considera um teórico ou um poeta?

Sânzio de A.Como poeta, tenho 4 livros publicados e figuro em mais de 10 antologias, mas a maioria de meus livros é de ensaio ou historiografia literária.

Léo P. Esse ano teve a publicação de um livro infantil, poderia falar um pouco sobre ele?

Sânzio de A. Hoje à noite (19 h), no Espaço O POVO de Cultura e Arte, será lançado O Curumim pintor e outras histórias, infantojuvenil, escrito há seis anos. Primeiro livro meu do gênero e talvez o último...

Léo P. Teremos mais livros seus publicados em breve? Alias, você tem algum livro no prelo?

Sânzio de A. No prelo mesmo não diria, mas terminei um livro que chamarei de Relembrando (Escritores que Conheci), falando de prosadores e poetas com quem convivi no Ceará, em São Paulo (onde morei mais de 6 anos) e no Rio de Janeiro (onde fiz o meu Doutorado pela UFRJ). Falo de 54 vultos das letras nacionais.


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18 de agosto de 2014
Sarau do Porto - 2ª Edição - Convidados

Sarau do Porto - 2ª Edição - Convidados

Nesta semana, dia 20 de agosto, quarta-feira, às 19h00m, ocorrerá a 2ª Edição do Sarau do Porto, em comemoração ao 1 ano de vida do Porto Iracema das Artes em Fortaleza. O sarau será mediado pelo poeta e produtor cultural Talles Azigon, responsável também pela página Poesia Brasileira no Facebook.
Nesta edição teremos mais 4 novos convidados: Ayla Andrade (que em breve terá seu primeiro livro de contos publicado pela Editora Substânsia), Ítalo Rovere (Um dos fundadores do Templo da Poesia), Amanda Luiz (poeta e musicista) e o Poeta de Meia-Tigela (poeta conhecido na cena literária cearense com vários livros publicados, como Concerto N. 1Nico em Mim Maior para Palavra e Orquestra — Realidade de Combinações Puramente Imaginárias)



Ayla Andrade: Ayla Andrade, também conhecida nos bares do Benfica, em Fortaleza, como “Dama da Noite”, é uma das fundadoras o grupo “Parafernália”. Publica seus escritos, desenhos e colagens em “zines” e na revista “Gazua”, e também se apresenta fazendo leituras dos poemas e contos em rodas de poesia e projetos culturais. Diz ela: “Eu quero é botar a boca no mundo pra saber que gosto tem".





Ítalo Rovere: Um dos fundadores do Templo da Poesia, o Poeta Ítalo Rovere  percorreu o mundo na busca do humano através da palavra. Seu Livro Tato Amarelo, poema-imagem que constrói artesanalmente há mais de 20 anos, diz um verso que está gravado nos muros de Fortaleza: "O amor de todo mundo Para mudar o mundo".






Amanda Luiz: Poeta e musicista, a cacheada Amanda Luiz, mesmo pequeninha faz música nas alturas e de muitos modos, brinca com palavras e sons, “como se brinca com bola papagaio e pião”.  Vez ou outra faz parte do movimento musical 'Os cacheados”.








Poeta de Meia-Tigela: Nasceu na capital cearense e escreve desde sempre um só livro que ele mesmo intitulado Concerto nº 1nico em Mim Maior e Orquestra, exercício poético em Quatro Movimentos dos quais publicou o primeiro integralmente o Primeiro em 2010. Reza a lenda, quem souber seu nome verdadeiro Vive.










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