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26 de novembro de 2014
A POESOPHIA DO POETA DE MEIA-TIGELA  NUMA ENTREVISTA A LÉO PRUDÊNCIO

A POESOPHIA DO POETA DE MEIA-TIGELA NUMA ENTREVISTA A LÉO PRUDÊNCIO





  1. Com quantos anos você começou a fazer poesia?

A poesia começou a me fazer não sei quando. Costumo convencionar comigo que foram os meus doze anos os responsáveis pelas primeiras experiências intencionalmente poéticas. Digo “intencionalmente” porque para as experiências inadvertidamente poéticas não haverá idade certa a indicar: daí o “não sei quando”. Penso que não é dos livros o aprendizado inicial do que chamamos poesia, mas do mundo de vida, daquilo em que nem suspeitamos estar — e está —, daquilo que nem imaginamos conter — e contém —, daquilo que nem cogitamos ser — e é —a poesia. Vivências de beleza, aprendizagens de dor, ocorrências, Léo: o livro de ocorrências da existência de cada dia — esse o primeiro livro, indatado, imprevisto, de poemas. Quando a poesia começou a me fazer? Não sei. Antes de mim, até; na série de eventos que resultariam neste que me-sou, e’ventos que podem remontar ao incabível, ao mais preciso tempo que posso lhe apontar: o do não-sei-quando. Como disse, convenciono os doze anos (3 x 4 ) como o tempo do começo, mas

Até onde é preciso avançar
Se se quer às origens chegar?
Se necessário ao início recuar
A fim de alfim o começo alcançar —
Onde começa e onde tem fim o começar?

(Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas)
  1. Guarda algo dessa época inicial?

Mantenho a lembrança de alguns textos, sua intenção, sua informidade (em mim moram), porém nenhum papel, nenhum rabisco daquele período. Os manuscritos mais antigos preservados datam dos meus vinte anos e isso de preservar os rascunhos é algo que empreendo na desmedida do possível. Raramente me vem um poema cuja elaboração não se tenha dado com a mediação de minhas mãos, de um lápis, uma caneta. Se a intuição do poema se apresenta a princípio como uma centelha não-verbal e ágrafa, depois — ao se transliterar, ao se consubstanciar, pede a caligrafia, o trabalho — não direi “braçal” mas “manual” — do registro pela escrita em que os três dedos mais à esquerda de minha mão direita se veem diretamente envolvidos. Eduardo Galeano cita, a propósito, um conselho que lhe deu Juan Carlos Onetti: não datilografasse (hoje diríamos, não teclasse), mas escrevesse à mão, se não quisesse abdicar de um dos maiores prazeres da escrita. Sigo esse conselho mesmo no que concerne a textos longos: apor a letra no papel é minha forma de capinar a palavra

Escolhesse por que meneios gestos
ou sinais à minh'alma expressaria
e apenas haveria de almagestos
escreversejar: manulivros. Se
  a
mão se move em prol de outra porfia
além do fazimento de seus textos
desperdiça-se: torne-se grafia
mesmo que em papéis vãos idos aos cestos.


(Trecho do soneto “Profissão de Fé”, do inédito Miravilha: liriai o campo dos olhos)

  1. Ser professor universitário de filosofia influi no trabalho poético?

Não vou lhe dizer que “ser professor universitário” influa no trabalho poético diretamente, se por “trabalho poético” entendemos estritamente a escrita; “ser professor”, universitário ou não, influencia no processo de melhoria do sórumbático (assim, com dois agudos) que fui e venho aos poucos deixando de ser. “Ser professor” ensina, antes de mais tudo. E esse ensino diz respeito à minha inteireza como pessoa, ao procurar me fazer (e espero que conseguindo) um tanto melhor, agindo mais paciententemente, sendo mais atencioso para com os demais e comigo. No meu modo de pensentir, esse aprimoramento me torna alguém menos intratável, menos intragável e, assim, me poetiza. Tem algum tempo, Léo, que eu venho concebendo a poesia como algo além de um gênero literário: por isso, não concebo uma estética que não seja ética e, à inversa, uma ética que não seja estética. Vivo portanto conforme uma est(ética. Agora, o contato com a filosofia, e desde a juventude (o que quer dizer já uns bons vinte e poucos anos de convivência entre mim e Diotima), — o contato com a filosofia sem dúvidas incide diretamente na minha po(ética: seja como sugestionadora temática (você sabe que além de uma Ciranda dostoievskiana há uma Ciranda espinosana?), seja como expressão do próprio teor de meus poemas, via de regra tão interrogativos. Sintetizo da seguinte maneira: vivo uma poesophia

Quem sou? Onde estou? Aonde
Vou e pra quê? Que sentido
Em ser estar ir? Duvido
De tudo e o Nada responde:



  1. Como surgiu a ideia do Memorial Bárbara de Alencar, seu primeiro livro?

Posso preguiçar? Vou transcrever um trecho do texto que encerra o livro Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas: “O Memorial dormia em seu autor, ainda em estágio embrionário, até ser desperto numa tarde de 30 de julho de 2007, quando da realização do Cortejo de Fortaleza. Em comemoração ao Dia do Patrimônio Cultural do Estado do Ceará, o Cortejo relembrara [sob a direção de Oswald Barroso] a execução dos revoltosos republicanos cearenses, partícipes do movimento denominado Confederação do Equador. Num trajeto iniciado na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção e finalizado no Passeio Público, fora simulado o percurso percorrido pelos cinco presos “arcabuzados” em 1825 (embora em realidade Padre Mororó, Pessoa Anta, Ibiapina, Azevedo Bolão e Carapinima tenham sido executados em dias diferentes). Assistir àquela representação repercutiu como o acordar para a escrita de texto há muito premeditado, mas ainda apenas idealizado. Afinal, desde algum tempo já se insurgia o projeto de feitura de um poema dramático acerca de Bárbara de Alencar”. Sou Alencar por parte dos avós maternos: ela, Maria Tenório de Alencar, ele, Manoel Luís de Alencar, ambos de Potengi, cidade do cariri cearense. Atenção para a sincronicidade: depois de decidir pela escrita do poema, descobri ser minha data de nascimento, 28 de agosto, a data de morte de Bárbara de Alencar. Os poemas que compõem o livro Memorial são todos do 2º. Movimento do Concerto

Alguém há cuja origem e viver
Representam o acordo entre os estados
Do Ceará Pernambuco rebelados:
Da vetusta família de Alenquer
Ela Bárbara bárbara mulher
Na cidade de Exu nascida, vinda
Para cá pequenina ainda, linda
Fez-se forte e vistosa mas austera
Respeitada por ser Senhora à vera
Até ser posta à prova na berlinda.

A seguir versaremos sobre o pathos
Do calvário por que passara estoica
Essa mãe essa mártir essa heroica
Prisioneira política do Crato.
Eis que somos chegados ao Relato

(Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas)

  1. Qual a proposta do Concerto Nº 1nico em mim maior para palavra e orquestra?

Amigo Prudêncio, preguiçarei de novo. Com ligeiras alterações, eis algumas das palavras de encerramento da edição do 1º. Movimento do Concerto: “A composição quaternária organiza o Concerto inteiro: cada ¼ constituído de Quatro Livros, cada qual integrado por Quatro Seções, cada Seção preenchida por quatro poemas. É certo que com a partição de algumas Seções ou poemas noutras tantas subdivisões (por exemplo, o poema de número 4 — o de abertura — da Seção “Quatro Minguantes”), temos uma multiplicidade aplicada à ordenação aparentemente fixa, de modo que ganha dinamismo a tessitura, escapando ao risco do automatismo e das limitações ditadas por sua contextura. A Obra Inteira constrói-se, pois, com vistas à estruturação previamente assumida, como à inovação e improviso dentro da instrutura quadrilítera”. É isso: o Concerto é quadrúplice e procura submeter o tempo à reordenação temática — poemas de hoje podem ir ao início do livro e poemas de antes serem alocados no Movimento final: a visão geral é que o orienta. Os fragmentos são ordenados segundo percepção sinótica — e o completório dos meus dias transformados em instantes poéticos que se acumulam conforme prévia integração jamais esgotada definitivamente. O Concerto é minha Santa María. Como em Onetti, a cronologia deve submeter-se à construção — ao alicerçamento e soerguer-se — da obra. Que Juntacadaveres tenha sido escrito depois, mas conte um acontecimento anterior a El Astillero, demonstra que para Onetti-Brausen o delineamento está feito, e tudo mais é cumprimento no tempo, porém consoante plano para além da temporalidade estrita. Que poemas de hoje se agreguem ao 1º. Movimento e poemas de ontem se aloquem no 3º. ou 4º., é transgressão da retilineidade do cronos, em função da confecção e acabamento do todo, extemporâneo, embora temporal

  1. Pretende publicá-lo todo um dia, ou em partes?

Em partes, já o faço. Seja nos poemas esparsos do blog (http://opoetademeiatigela.blogspot.com.br/), seja nos livros publicados e/ou por publicar. Preciso dizer, Léo, que esses livros não passam de uma espécie de prévia do Concerto. Digamos assim: o Todo que o Concerto aos poucos se torna, é composição para — o título o diz — orquestra inteira; e os livros provisórios (o Memorial, já editado; o Girândola, o Miravilha, A fada e o poeta, por virem brevemente) que a partir do todo organizo, são música de câmara, são adaptações “em mim menor”, a fim de que eu possa me dar a ler antes de ver ao menos aproximada a conclusão (não haverá tal) do 1nico (úmnico) livro que realmente escrevo, o Concerto

Era uma vez um poeta
E sua melancolia
De escrever Obra Completa
Mas não ter companhia
De um leitor de um amor uma
Amizade uma alegria

(Trecho do inédito A Fada e o Poeta)

  1. Então o livro Concerto não está finalizado e sempre surgem poemas novos que você nele encaixa?

Sempre surgem. Pra que você ideie, a segunda seção do Livro 1 do Primeiro Movimento do Concerto, a seção “Os Prisioneiros”, era dividida em duas “levas” e integrada por vinte e quatro sonetos (quatro dos quais “incidentais” e um “estropiado” como “introito” às divisões da seção). Agora são quatro “levas” e um total de trinta e oito sonetos, ou seja, trata-se ainda do que assinalei em nota ao livro: o Concerto é word in progress (palavra em andamento)

O poema esse composto
De palavras e vazios —
Mas ocos que em seus estios
Muito dizem. Como um rosto

  1. Acredito que muitos que leem seus livros ficam se perguntando o motivo de assinar com o nome Poeta de Meia-Tigela. Poderia nos explicar?

A outra metade da tigela é O Leitor

Tigelimerick

Era um Poeta só de Meia-
Tigela: bem se lhe nomeia
Talvez até nem
Tivesse também
Essa metade — meio-Meia

  1. Quais são suas referências/influências literárias?

Não direi “influências”, mas — “fruências”. Fruo muito muitos autores e não apenas “literários”. A bem da verdade leio quase compulsivamente (esse “quase” é pra minorar a gravidade da compulsão), e sem me ater a gênero, número ou grau: CAMILO PESSOA OU FERNANDO PESSANHA — HENRY O. MILLER — JORGE AMADO DE LIMA BARRETO — MARIO DRUMMOND DE OSWALD MELO FRANCO DE ANDRADE — OSMAN LINS DO REGO — SINCLAIR LEWIS CARROL — TOLSTOIÉVSKI — WILLIAM BLAKESPEARE — TAGORE VIDAL. Porém, se me pego gostando de um autor em particular, começa a perseguição: o primeiro a quem “persegui” foi Dostoiévski. Foi a partir de Dostoiévski que escrevi meu trabalho de graduação em filosofia, uma monografia que hoje reconheço pretensiosa e imatura, embora sincera e esforçada: chamou-se Os demônios de Dostoiévski. Aliás, demorei muito tempo pra convalescer de Dostoiévski e aceitar que não sou Raskholnikov, tampouco Svidrigailov: ai, ai. Tempos depois veio Julio Cortázar e o cronopismo, acredito que não casualmente: em Cortázar vejo a associação para mim ainda muito grata entre o existencialismo, o surrealismo (vide Teoría del túnel) e o marxismo, contudo na medida incerta, a saber: com um distanciamento que só a leveza de quem no fundo desconfia dos ismos pode apresentar. Tive também a fase Onetti e recentemente a fase Lobo Antunes, benzadeus já transcorridas. Da literatura brasileira, sobretudo Lima Barreto, Guimarães, Clarice, Osman Lins. Dos poetas lusitanos (admito crassa ignorância da poesia que se faz noutros países de língua portuguesa), Camões e Pessoa, claro, Almada e António Gedeão. Dos brasileiros, Cruz e Sousa, Jorge de Lima, Sosígenes Costa, Carlos Nóbrega.

PARA SOSÍGENES COSTA, AS GARÇAS

Para André Ricardo, de quebra

Tanto mais desgarçado desgraçado mundo
Tanto mais menos garças menos mais beleza
neste mundo em que grassa o mal imundo
Que são as garças? Graça e real realeza

Amá-las é de graça não se paga ao Fundo
Vê-las é levitar tamanha a graça delas
As garças são a graça deste feio mundo
tamanha a graça delas levita-se ao vê-las

Garça-azul garça-branca garça-cinza tudo
é modo de ser garça ser além das penas
Garça-vaqueira garça-da-cabeça-preta

mais que forma ser garça é graça é conteudo
Garça-socoí garça-morena ou vermelha
ser garça é dar lição de graça ao mundo imundo

  1. Você acompanha a produção dos novos escritores cearenses?

Não me esforço para isso porque não me esforço para estar na ordem do dia, sabedor das novidades, conhecedor de quem produz o que e onde. Venho conhecendo naturalmente os novos escritores à medida que me procuram (e raríssimos o fazem, e não há razão para ser diferente) ou me são apresentados por amigos; venho conhecendo os novos escritores à medida que me chegam à vista e os leio: mas não os leio muito, confesso, por falta de uma identidade mesmo, por certa distância de sensibilidade minha ante grande parte da mínima parte do que sei estar sendo feito. Às vezes acontece de eu gostar de um livro, de uma página na internet e tomar a iniciativa de contatar o autor/ autora, de solicitar correspondência, troca de material, iniciar uma amizade literária. Foi assim que vim a conhecer e namorar a Nataly [Pinho]. Foi assim que me fiz próximo (fraternalmente) de Hugo Pontes, Irineu Volpato, Nelson Hoffmann, Patrícia Tenório e, dentre os cearenses, de Webston Moura, Dércio Braúna, Jonas Torres, Bruno Paulino, nenhum dos quais conheço pessoalmente. Aqui e acolá escrevo posfácios para os corajosos que mos pedem, em geral jovens: Uirá dos Reis, por exemplo, com o An; Frederico Régis com Os países; Ângela Calou com Eu tenho medo de Górki; Alessandra Bessa com Arcanos maiores e a valsa leve. Ah, e Léo Prudêncio (você já deve ter ouvido falar dele) com o aquarelas, inédito de haicais.
versos e silêncio:
singelas-te. o aquarelas
lês, de léo prudêncio

  1. A literatura cearense perdeu neste ano dois nomes importantes: Nilto Maciel e Artur Eduardo Benevides. Cada um, obviamente, importante à sua maneira. Você tinha contato com esses dois escritores?

Falarei de Nilto Maciel, a quem visitei em três endereços (dois apertamentos e uma casa, a definitiva), algumas vezes indo sozinho ou (mais vezes) em companhia de escritores/artistas: Carlos Nóbrega, Carlos Vaz, Frederico Régis, Lúcio Cleto, Manuel Bulcão (amicíssimo também já ido), Pedro Salgueiro, Raymundo Netto, Silas Falcão. Fui e sou amigo do Nilto (ainda hoje, porque a amizade não se desfaz com a morte) e esse relacionamento resultou em parcerias: em 2009 publiquei uma entrevista feita (em almoço na casa de Mario Sawatani) com ele para o jornalzinho V.O.L.A.N.T.E, edição n. 3, e na edição 5 do mesmo periódico um soneto de que gosto bastante, do livro Navegador, o “Nem sei domar meus próprios cães”. Revisei o livro Luz Vermelha que se azula, de 2011, e o Nilto, por sua vez, foi o autor do posfácio ao Primeiro Movimento do Concerto (o prefácio é de Sânzio de Azevedo) e escreveu outro par de textos que me dizem respeito: um acerca do Memorial, o “Dona Bárbara de um poeta”; e “O Concerto inebriante do Poeta de Meia-Tigela”, este publicado depois em Como me tornei imortal, de 2013, um dos seus últimos livros. Eu o chamava por vezes “Nilto Asperel”: é que ele gostava muito de dizer coisas embaraçantes com a alma risonha porém a cara mais séria e com a intenção irônica de observar a reação desconcertada da vítima. Sabia ser amigo em muitas horas, mas com o Nilto o melhor era estar preparado para o que desse e viesse. Em homenagem a ele, e sob o abalo da morte, o soneto a seguir

PARA NILTO MACIEL

Escrever por quê? Para me saber
menos só. Menos só para quê? Para
me dizer mais jardim menos saara
(e no entanto o deserto em meu dizer)
Escrever por querer sair de mim:
para me saber comunicativo
(e no entanto me sei comum cativo
do deserto que sou: Não e não, sim)
Escrever para escrever escrever
(e no entanto esse não-dizer que paira
em mim em minha fala como espanto
em meu querer sair de mim: mais ser)
Escrever (e no entanto a fala-avara
em mim em meu dizer: esse no entanto

Esse poema faz parte do Miravilha: liriai o campo dos olhos (volume de sonetos por sair pela Confraria do Vento, se Deus e Karla Melo assim o quiserem) e vem ser, quando em livro, nova homenagem ao velho Nilto... MaciAsperel

Grato, poeta Léo Prudêncio


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5 de novembro de 2014
Poemas de Léo Prudêncio

Poemas de Léo Prudêncio

Pintura a óleo de Badida Campos


após ler: sobre heróis e tumbas. de ernesto sabato

1.

é que por acaso
nascem as paixões

(e como corrói por dentro,
silenciosamente, como um câncer)

aquilo que chamas
- paixão, amor ou atração
ainda irá te levar
(cada vez mais)
para o fundo da fossa

2.

há no subterrâneo
ou em praças populares
partículas visíveis de mim

mas

feche a porta ao entrar
no meu ressinto
fique à vontade
o país não é nosso
mas a casa é minha

somos feitos
a partir
de pequenos segredos
e de minúsculos silêncios

3.

te amo tanto
que me torno cinzas
e lembranças
será eterno
-nosso amor-
enquanto as cinzas
de meu corpo
voarem


haicais

*
não é o monte everest
é um pé de siriguela
com formigas nele
*
eu sou esses passos
cansados e rasteiros que
ficaram na praia
*
solitário no galho
de árvore, o passarinho

admira o fim do dia


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15 de outubro de 2014
Os contos de Anderson Henrique - pequena nota

Os contos de Anderson Henrique - pequena nota



Anelisa sangrava flores é um livro de contos publicado em 2014 pela Editora Penalux. A orelha do livro e o seu prefácio anunciam ao leitor que se trata de um livro que se norteia na literatura fantástica latina. Ao ler o livro, percebi que havia de fato essa influência na obra. Mas não me pareceu ser um livro exclusivamente fantástico.

São 13 contos que abordam diversas narrativas, como por exemplo a estória de um garoto que cresceu além do normal, uma mulher que envelhecia os namorados, um pescador que ao encontrar um garoto, misteriosamente, pesca centenas de peixes. Etc.

O autor, Anderson Henrique, deixa em suas narrativas alguma mensagem ao leitor. Seja essa mensagem de caráter social ou amorosa. Os fatos fantásticos que acontecem entre os personagens as vezes são explicados ao leitor e as vezes não são explicados. Lembrando que a literatura de caráter fantástica acontece quando os fatos surreais acontecem de maneira inexplicada. Portanto, afirmar que esta obra é essencialmente fantástica, seria um equívoco.



O desenrolar de cada conto é o que prende o leitor. Pois sempre estamos nos perguntando sobre o que acontecerá na próxima página. Prender um leitor hoje é algo difícil para alguns autores, mas Anderson Henrique me prendeu por todos os 19 contos de Anelisa sangrava flores. E você, caro leitor, permita-se prender também a esse livro.

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1 de outubro de 2014
Galáxias - poemas para viagem

Galáxias - poemas para viagem


A poética de Galáxias, livro de Haroldo de Campos, antes de tudo propõe a ruptura com o verso tradicional. Quando eu falo em verso tradicional me refiro ao uso linear da escrita e o uso recorrente da métrica e da linguagem sentimental-subjetiva. Sendo assim, um leitor acostumado com a poesia clássica sentirá certa dificuldade para ler o Galáxias, mas vale lembrar que a linguagem do livro não é complexa. Um leitor de qualquer faixa etária pode, e deve, aventurar-se pelas linhas galácticas dessa obra que foi escrita durante os anos 1963 a 1976. Haroldo publicou alguns fragmentos do livro em revistas antes da publicação definitiva da obra em 1984.

O livro é todo fragmentário, sendo que cada página ocupa um poema-galáxia. Acredito que o título da obra remeta ao universo galáctico, e múltiplo, da linguagem. Pois toda a obra tem por base a linguagem. Nos deparamos portanto com um livro experimental. É inconcebivel rotular o livro como sendo apenas um livro que comporta poemas, ou, rotulá-lo como um livro de prosa-poética. A obra, devido a sua potencialidade poética esperimental, foge a todo tipo de rótulos. Caetano Veloso após a leitura do livro o chamou de proesia, devido a sua múltipla categorização de gêneros. Alias, a definição de gênero é impensável em um livro como esse.

O livro deve ser lido sem seguir um roteiro de viagem, isso é percebido ao não-numerar as páginas da obra. Como também não há separação de parágrafos nem títulos nos poemas, e não há sinais de pontuação. Estamos, portanto, diante de um livro de viagem. Inês Oseki-Deprê comenta sobre o livro intercalando a sua fala com a de Haroldo abaixo:


No momento da publicação integral de Galáxias, em 1984, Haroldo de Campos fez a seguinte apresentação: “O formante inicial de Galáxias (início/ fim) é de 1963, o terminal de 1976.” Trata- se de um “texto imaginado no limite extremo da poesia e da prosa, pulsão bioescritural em expansão galáctica entre estes dois formantes cambiáveis e cambiantes”, e tendo por ímã temático a viagem como livro ou o livro como viagem, e por isso mesmo entendido também como um “livro de ensaios, hoje retrospectivamente eu tenderia a vê-lo como uma insinuação épica que se resolveu numa epifânica.”


Eu sempre costumo dizer que é um livro que nunca se lê, sempre relemos, pois nunca chegamos no ponto final da absorção do livro. A cada leitura nova descobrimos algo que não tínhamos percebido antes. Por isso a alcunha de livro-viagem, pois sempre o leitor retorna a sua 'viagem' relendo a obra.

Em uma conferência, na Biblioteca Freudiana Brasileira, Haroldo de Campos comentou sobre o Galaxias fornecendo um roteiro de leitura:


Nesse texto ideal, as redes são múltiplas e se entrelaçam sem que nenhuma possa dominar as outras; este texto é uma galáxia de significantes e não uma estrutura de significados; não tem início; é reversível; e nela penetramos por diversas entradas, sem que nenhuma delas possa qualificar-se como principal; os códigos que mobiliza perfilam-se a perder de vista; eles não são dedutíveis (o sentido nesse texto nunca é submetido a um princípio de decisão e sim por um processo aleatório); os sistemas de significados podem apoderar-se desse texto absolutamente plural, mas seu número nunca é limitado, sua medida é o infinito da linguagem


'Uma leitura infinita' é assim que muitos dizem ser o livro de Haroldo. A infinitude de seu livro, como percebemos no depoimento acima, é a linguagem. Antonio Cícero, em Poesia e filosofia, defende o poema como “a escrita centrada na linguagem, a linguagem opaca e obscura, a linguagem como grade que impede a entrada no mundo, a resistência, a incompreensibilidade, o silêncio, o desaparecimento da poesia”. É nesse desaparecimento que surge o Galáxias. Livro-mundo, livro-objeto ou livro-jogo.

Ainda sobre a questão do subtítulo isto não é um livro de viagem, o autor Antônio Sérgio Bessa contrapõe essa ideia afirmando ser SIM um livro de viagens:


As Galáxias são ricas em referências específicas aos eventos vividos por Campos em suas muitas viagens. Como as suas páginas não numeradas sugerem, a leitura de Galáxias não se destina a ser sequencial, e as referências a lugares e pessoas espalhadas por toda a série criam uma narrativa circular. A maior parte da ‘informação’ dispersa pelos cantos consiste em referências obscuras a experiências pessoais, e essas alusões e referências podem parecer irrelevantes ao leitor, como a pequena rua Budé na Île St Louis, em Paris, que é mencionada no Canto 13. Outras referências, no entanto, rememoram eventos importantes para o poeta, como “o prédio na via mameli terça-feira às 4 da tarde” no Canto 33, que evoca um encontro com Ezra Pound em Rapallo. O terceiro canto, que começa com um verso de Macbeth, de Shakespeare (“multitudinous seas incarnadine”), trata mais provavelmente de suas impressões ao atravessar o Atlântico pela primeira vez, enquanto outros cantos sugerem sua passagem por cidades europeias – Granada (Canto 2), Córdoba (Canto 5), Stuttgart (Canto 6), o País Basco (Canto 12), e assim por diante. Seu apreço pela viagem, é preciso ressaltar, não deve ser compreendido apenas como uma urgência de wanderlust, mas sim como um desejo de conhecer e aprender com os “grandes homens de seu tempo”, como Pound certa vez encorajou Hugh Kenner a fazer. Codificados nestas narrativas estão encontros com Max Bense, Eugen Gomringer, Karlheinz Stockhausen, Octavio Paz, Hélio Oiticica, Marshall McLuhan e Guimarães Rosa, entre outros.


Cada fragmento do livro nos liga a algum fio condutor da memoria do autor. O livro torna-se portanto expansivo. O mesmo autor, do trecho acima, comenta que o fragmento Circuladô de fulô, tem a sua origem nas viagens que Haroldo fez ao nordeste. E que este canto tem a sua origem em alguma canção nordestina de autor ainda não identificado. O mesmo trecho, Circuladô de fulô, foi musicado por Caetano Veloso. Encerro este debate-galáctico com o fragmento Circuladô de Fulô na íntegra:


circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgosto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordados rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pira ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoente como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circulado de fulo circulado de fulôôô porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus aedomodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas chamadas de ninharias com veremos verbenas acúcares açucenas ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não sei mas ouça como canta louve como conta prove como dança e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desarmargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento de miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui dextro sendo avesso pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça memente mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim ponha o não o não será tua demão




ARQUIVOS CONSULTADOS

OSEKI-DÉPRÉ, Inês. Leitura finita de um texto infinito: Galáxias de Haroldo de Campos.

CICERO, Antonio. Poesia e filosofia. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.

BESSA, Antônio Sérgio. Rupturas de estilos em Galáxias de Haroldo de Campos

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24 de setembro de 2014
O núcleo poético de Madjer de Souza

O núcleo poético de Madjer de Souza


A primeira publicação da editora Substânsia foi o livro Núcleo selvagem do dia (2014), do poeta Madjer de Souza Pontes, que também é um dos editores da editora. O título do volume me deixou bastante curioso. Pois qual relação teria o título com os poemas? Eu tenho minhas hipóteses, e, sinceramente, prefiro guardá-las comigo. Acredito que meu trabalho como resenhista seja apenas comentar o livro ou, em outras palavras, apresentar o livro ao leitor. O interessante desta, e de outras obras poéticas, é o jogo-poético que começa logo pelo título.

Em toda a obra, Madjer procura partilhar com o leitor as suas percepções do cotidiano. Não apenas isso, mas também a metalinguagem que poetas como Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto dentre outros da geração modernista pós-45 tanto faziam. Um desses achados metalinguísticos de Madjer pode ser captado no poema:

[estrema]

uma coisa que essencial:
é de uma fratura a quota –
do laminar-se da faca da
alma ferida nas costas –

renúncia – por algum tempo –
da vida cotidiana:
é a reserva do silêncio
quando a voz tudo abocanha –

hiato eterno de relógio
com a medida que cresça
no pulso de cada homem
a liberdade que o expressa

no poema não cabe a vida
é mais um talho preciso
que se grava em cada face
no crispar de cada ricto

Notei, nesse e em outros poemas, a utilização da metáfora da faca. Essa palavra, de uso concreto, foi mais utilizada, especificamente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto. Para ele, o poema devia ser lapidado com golpes de faca e foice, até atingir a linguagem ideal para a escrita. Além desse elemento concreto-metaforico, Madjer, assim como João Cabral, lapida e estrutura os poemas.

Madjer usa com frequência elementos de escrita concreta, com forte influência, como já citei, de João Cabral de Melo Neto. A lapidação, ocorre também, na desenvoltura das temáticas na obra e pela divisão do livro em três partes. É um livro fragmentado e costurado a partir da selvageria influencia de poetas modernos.

A meu ver, O núcleo selvagem do dia, é um achado poético para poetas e amantes da escrita concreta. Não há resquícios de um sentimentalismo ingênuo em Madjer, o poeta apreendeu e bem os conceitos da escrita a corte de faca. É um livro que deve ser lido e relido sempre a angustia do dia atacar o leitor. Eis um jovem poeta que já na estreia, demonstra versos maduros e potentes.

(OBS: Entrevista com Madjer:


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17 de setembro de 2014
Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales

Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales



Joe Sales, natural do Mato-grosso, estreou na literatura com a publicação do livro Porta estreita, editado pela Penalux (2014), sua poética é estreitada por temáticas que são cotianas, mas que se alargam a medida que o poeta as aprisiona em seu livro de estreia.

O poema Caminho nos apresenta a poesia saindo de mansinho:

Lá onde estão as borboletas
E a voz não encontra atalho
Lá, mesmo sem confirmação, está
A estrada que pede para o espírito se afastar
Da carne.

A partir da fuga de si mesmo, é que os poemas são construídos. A matéria-prima da poética do livro de estreia de Joe Sales é sempre a desprisão do ser. A fuga feita pelo eu-lírico é sempre pela porta estreita da poesia. São poemas concebidos a partir de uma sensibilidade que poucos possuem, logo, para assimilar os poemas de Porta estreita é preciso estar receptível à sensibilidade poética. A maioria dos poemas são curtos, demonstrando assim a fuga estreita, escapando aos poucos do poeta.

O poema Da passagem das horas é um exemplo dessa poética que busca a fuga:

O tempo a pele fere
O tempo a pele tece
E quando não silêncios
Ganham vozes dadas a tocaias
Tocaias são feitas de liberdade.

A liberdade de Joe Sales, em todo o livro, se apresenta por não se prender a regra alguma sobre versificação ou se aprisionar a algum movimento literário. O poeta compreende que é necessário deixar se esvaziar de todo e qualquer movimento aprisionável, o que é bastante visível até mesmo nas temáticas tocadas no livro. Joe escreve sobre o que é desaprisionável, ou, sobre o que é preciso estar livre. A liberdade ao amor também é tocada em poemas como Da não explicação do amor:

Além da necessidade
Ele vinha porque de alguma maneira
Sentia-se à vontade
Talvez a forma como eu acolhesse os seus sonhos
Ou do jeito que amava sem pedir reciprocidade
Ele voltava e fazia canção no meu peito...

No poema Lirismo o eu-lirico confessa a necessidade de deixar fugir pela porta estreita o que ele estava sentido:

Nem mesmo a noite sangrando consegue me curar:
nem mesmo.
Aquém do meu avesso - possível - eu empobreço
o compasso do sentimento que diz: há pássaros
que nascem sem dom de voar...
Estivera calado no passado. Lá onde as flores
começam vozes.
Vozes que iam me justificar no futuro de minha
solidão.
Tudo é deprimente, até mesmo o sangue da noite.

Tenho que comentar o Poema que narra o meu possível fim, que na minha opinião de leitor é um dos melhores poemas do livro:

Um dia qualquer para morrer
sem expectativa
sem audiências
dia em que o amor vai bater à minha porta
eu estarei estatelado no chão
frio
duro
dia bonito em que pássaros cantarão
os poucos amigos que fiz
os poucos que ao lado do meu corpo
lembrar-se-ão de meu infortúnio:
o mundo que eu quisera inventar.


O leitor ao longo de todo o Porta estreita poderá se encontrar em cada página, pois Joe Sales aprisionou em si o sentimento de cada um e deixou que ele saísse, estreitamente, pelos versos de seu livro de estreia.


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