Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales
Joe Sales, natural do Mato-grosso, estreou na literatura com a publicação do livro Porta estreita, editado pela Penalux (2014), sua poética é estreitada por temáticas que são cotianas, mas que se alargam a medida que o poeta as aprisiona em seu livro de estreia.
O poema Caminho nos apresenta a poesia saindo de
mansinho:
Lá onde estão as
borboletas
E a voz não encontra
atalho
Lá, mesmo sem
confirmação, está
A estrada que pede para o
espírito se afastar
Da carne.
A partir da fuga de si
mesmo, é que os poemas são construídos. A matéria-prima da poética do livro de
estreia de Joe Sales é sempre a desprisão do ser. A fuga feita pelo eu-lírico é
sempre pela porta estreita da poesia. São poemas concebidos a partir de uma
sensibilidade que poucos possuem, logo, para assimilar os poemas de Porta estreita é preciso estar receptível à
sensibilidade poética. A maioria dos poemas são curtos, demonstrando assim a
fuga estreita, escapando aos poucos do poeta.
O poema Da passagem das horas é um exemplo dessa poética que busca a
fuga:
O tempo a pele fere
O tempo a pele tece
E quando não silêncios
Ganham vozes dadas a
tocaias
Tocaias são feitas de
liberdade.
A liberdade de Joe Sales,
em todo o livro, se apresenta por não se prender a regra alguma sobre
versificação ou se aprisionar a algum movimento literário. O poeta compreende
que é necessário deixar se esvaziar de todo e qualquer movimento aprisionável,
o que é bastante visível até mesmo nas temáticas tocadas no livro. Joe escreve
sobre o que é desaprisionável, ou, sobre o que é preciso estar livre. A
liberdade ao amor também é tocada em poemas como Da não explicação do amor:
Além da necessidade
Ele vinha porque de
alguma maneira
Sentia-se à vontade
Talvez a forma como eu
acolhesse os seus sonhos
Ou do jeito que amava sem
pedir reciprocidade
Ele voltava e fazia
canção no meu peito...
No poema Lirismo o eu-lirico confessa a necessidade de
deixar fugir pela porta estreita o que ele estava sentido:
Nem mesmo a noite
sangrando consegue me curar:
nem mesmo.
Aquém do meu avesso -
possível - eu empobreço
o compasso do sentimento
que diz: há pássaros
que nascem sem dom de
voar...
Estivera calado no
passado. Lá onde as flores
começam vozes.
Vozes que iam me
justificar no futuro de minha
solidão.
Tudo é deprimente, até
mesmo o sangue da noite.
Tenho que comentar o Poema que narra o meu possível fim,
que na minha opinião de leitor é um dos melhores poemas do livro:
Um dia qualquer para
morrer
sem expectativa
sem audiências
dia em que o amor vai
bater à minha porta
eu estarei estatelado no
chão
frio
duro
dia bonito em que
pássaros cantarão
os poucos amigos que fiz
os poucos que ao lado do
meu corpo
lembrar-se-ão de meu
infortúnio:
o mundo que eu quisera
inventar.
O leitor ao longo de todo
o Porta estreita poderá se encontrar em cada página,
pois Joe Sales aprisionou em si o sentimento de cada um e deixou que ele
saísse, estreitamente, pelos versos de seu livro de estreia.

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