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17 de setembro de 2014
Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales

Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales



Joe Sales, natural do Mato-grosso, estreou na literatura com a publicação do livro Porta estreita, editado pela Penalux (2014), sua poética é estreitada por temáticas que são cotianas, mas que se alargam a medida que o poeta as aprisiona em seu livro de estreia.

O poema Caminho nos apresenta a poesia saindo de mansinho:

Lá onde estão as borboletas
E a voz não encontra atalho
Lá, mesmo sem confirmação, está
A estrada que pede para o espírito se afastar
Da carne.

A partir da fuga de si mesmo, é que os poemas são construídos. A matéria-prima da poética do livro de estreia de Joe Sales é sempre a desprisão do ser. A fuga feita pelo eu-lírico é sempre pela porta estreita da poesia. São poemas concebidos a partir de uma sensibilidade que poucos possuem, logo, para assimilar os poemas de Porta estreita é preciso estar receptível à sensibilidade poética. A maioria dos poemas são curtos, demonstrando assim a fuga estreita, escapando aos poucos do poeta.

O poema Da passagem das horas é um exemplo dessa poética que busca a fuga:

O tempo a pele fere
O tempo a pele tece
E quando não silêncios
Ganham vozes dadas a tocaias
Tocaias são feitas de liberdade.

A liberdade de Joe Sales, em todo o livro, se apresenta por não se prender a regra alguma sobre versificação ou se aprisionar a algum movimento literário. O poeta compreende que é necessário deixar se esvaziar de todo e qualquer movimento aprisionável, o que é bastante visível até mesmo nas temáticas tocadas no livro. Joe escreve sobre o que é desaprisionável, ou, sobre o que é preciso estar livre. A liberdade ao amor também é tocada em poemas como Da não explicação do amor:

Além da necessidade
Ele vinha porque de alguma maneira
Sentia-se à vontade
Talvez a forma como eu acolhesse os seus sonhos
Ou do jeito que amava sem pedir reciprocidade
Ele voltava e fazia canção no meu peito...

No poema Lirismo o eu-lirico confessa a necessidade de deixar fugir pela porta estreita o que ele estava sentido:

Nem mesmo a noite sangrando consegue me curar:
nem mesmo.
Aquém do meu avesso - possível - eu empobreço
o compasso do sentimento que diz: há pássaros
que nascem sem dom de voar...
Estivera calado no passado. Lá onde as flores
começam vozes.
Vozes que iam me justificar no futuro de minha
solidão.
Tudo é deprimente, até mesmo o sangue da noite.

Tenho que comentar o Poema que narra o meu possível fim, que na minha opinião de leitor é um dos melhores poemas do livro:

Um dia qualquer para morrer
sem expectativa
sem audiências
dia em que o amor vai bater à minha porta
eu estarei estatelado no chão
frio
duro
dia bonito em que pássaros cantarão
os poucos amigos que fiz
os poucos que ao lado do meu corpo
lembrar-se-ão de meu infortúnio:
o mundo que eu quisera inventar.


O leitor ao longo de todo o Porta estreita poderá se encontrar em cada página, pois Joe Sales aprisionou em si o sentimento de cada um e deixou que ele saísse, estreitamente, pelos versos de seu livro de estreia.


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