Apocalipse particular
O
fim do mundo já passou.
O fim do mundo aconteceu quando os
renascentistas descobriram que a Terra não era redonda e que não era o centro
do Universo. A igreja já sabia, mas fazia segredinho e quis calar a boca dos
homens do Renascimento com veneno. Não deu certo! Cá estamos, Terra redonda, o
Sol, outras galáxias e todos sobrevivemos, menos o Copérnico porque o mundo
particular dele – esse sim – acabou!
O fim do mundo aconteceu quando a moça menstruou
a primeira vez. Absorventes, espinhas, adeus bonecas, adeus jogar bola na rua
porque dava varizes, adeus liberdade, adeus andar direito porque todo mundo
sabia que ela estava “naqueles dias”. Como se o absorvente estivesse colado na
testa, não na calcinha dela.
O fim do mundo também ocorreu quando a mulher,
30 anos, saudável, casada, linda e feliz ficou grávida. Ai, que susto! Mas logo
passou, fez as contas das horas que passaria sem dormir, as fraldas que teria
que trocar, as mamadeiras preparadas na madrugada, o resguardo, o enjoo, o
cansaço, o parto – natural ou cesariana? –, o plano de saúde, a babá, o
enxoval, o bercinho... Mas, por complicações genéticas, o neném não veio.
O mundo caiu para sempre!
O mundo acabou junto com o casamento mal-amado,
a falta de olhar no olho, o sentimento pela metade, a roupa suja que deixou de
incomodar, o cheiro no travesseiro que não interessava mais, as contas
acumuladas debaixo do tapete junto com a poeira, o amor que virou sexo que
virou obrigação que virou ausência de... Assim o mundo foi pelo ralo, os
presentes do casamento pela janela e o amor descartado como um bicho morto que
fede.
O mundo acaba todos os dias, sem nos perguntar
se pode, sem querer saber dos nossos planos, dos nossos sonhos que adiamos
infinitamente. O mundo acaba porque não prestamos atenção nele, pois isso dá
muito trabalho. O mundo é simples e não conseguimos lidar com sua leveza,
complicamos demais, racionalizamos demais ou de menos e esquecemos que o fim do
mundo é inevitável.
Simples assim!

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