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17 de dezembro de 2014
FLAQ – FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES - PARTE 2

FLAQ – FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES - PARTE 2

Parte 2 (Final)

O sábado amanheceu imperioso, sem caber em todos os espaços, se imiscuindo em frestas, réstias de sol enfeitando o dia, que parecia saber disso, convidando-nos para receber a literatura em Aquiraz. Ou melhor: ir ao encontro dela.

No segundo dia, que seria o meu último por lá, corri para a festa literária com o intuito de encontrar a escritora Socorro Acioli e fazer-lhe uma singela homenagem. Assim, percorri caminhos de asfalto tendo um céu limpo e claro à minha frente, estrada adentro, rumo ao encontro. Esperei pela autora na porta do local da festa, bem na entrada, com a alegria juvenil que só cabe àqueles que se reconhecem parcialmente crianças. Socorro chegou com o marido e a filha, entreguei-lhe o presente e me despedi com uma foto e um beijo carinhoso.

Homenagem feita, corri para o mini-curso de João Anzanello Carrascoza, com dicas de como escrever um conto. João é um cara bastante aberto, solícito, e ter sido seu aluno por algumas horas me encheu de orgulho.

Durante o curso, conheci também um outro escritor, André Argolo, que trabalha para a editora Global e que estava lá para fazer filmagens do evento para a editora. Eu não sabia nada sobre ele, mas logo descobri que ele já tem um livro de poemas publicado (pela editora Patuá), que desempenha um trabalho lindo na editora e escreve para o suplemento literário Rascunho, um dos mais respeitados do país. André é dono de um papo intimista, conversa com afeto e delicadeza e sua visão sobre a literatura daria toda uma crônica em sua homenagem. Enquanto interagíamos, antes, durante e depois do pequeno curso do Carrascoza, guardei a certeza de que ali estava um cara que provavelmente seria um grande amigo, se a distância geográfica não fosse um muro de Berlim ainda erguido (mas sem beligerância a separar as duas partes). E fiquei sorridente o dia todo, por ver e sentir na pele como a literatura é capaz de estreitar laços, ainda que, no nosso caso, tenha sido algo de vida breve. Mas o recado estava dado.

Terminado o curso e as conversas, era a minha vez de voltar a ser professor, e corri para Fortaleza para dar uma aula. De volta, minha aluna chegou e com poucos minutos de conversa, o destino estava traçado. Sendo ela uma grande entusiasta de tudo o que pode trazer novas sensações, descobertas e experiências (ou seja, é das minhas), topou mudar os planos e ir para a FLAQ no período da tarde.

Dirigimos os trinta e poucos quilômetros que separam minha casa do local da festa literária, conversando sobre nossas expectativas a respeito dos eventos que estavam programados, sobre os escritores que eu queria apresentar pra ela e as possibilidades que nos aguardavam.

Ao chegarmos, enfrentamos uma desorganização logo na entrada: as recepcionistas não sabiam informar se quem não estava inscrito, mas não iria usufruir das atividades do parque ecológico onde o evento acontecia, podia entrar sem pagar ingresso ou não. Uma outra disse logo que “não estamos abrindo exceção pra ninguém”. Eu não estava afim de comprar aquela briga, pegamos o crachá no qual é debitado o valor da entrada, a ser pago na saída juntamente com o que quer que se consumisse no local, e fomos adiante.

O tempo fugia – a amiga tinha compromissos em Fortaleza, não podíamos ficar por muito tempo. Como numa espécie de conto de fadas, tínhamos que ir embora antes de um determinado horário, do contrário ela perderia algo muito importante – sem direito a príncipe depois para dar a ela um final feliz.

Por conta disso, procuramos ser objetivos. O que não poderíamos imaginar, entretanto, eram as surpresas que nos aguardava.

Mais uma vez, Ignácio de Loyola Brandão apareceria do nada, como se brotasse do chão. Também tivemos o privilégio de conhecer dois grandes escritores, inesperadamente. E, no meio disso tudo, o roubo de um livro de forma inexplicada.

No mesmo espaço onde no dia interior falara Ilan Brenman, agora encontravam-se Bernardo Kucinski e Rodrigo Lacerda, ambos conversando sobre História e o romance histórico, num debate tão vibrante quanto emocionante, em que ambos defendiam seus pontos de vista com paixão, assertividade e de quebra ainda contavam causos pessoais, que os levaram a escrever suas mais recentens obras – a de Lacerda, narra a vida do avô, Carlos Lacerda. A de Kucinski, a dele próprio e as agruras que viveu na ditadura brasileira.

Terminado este momento, ambos foram a um espaço ao lado da livraria do evento, que por sua vez ficava ao lado do palco onde no dia anterior eu tinha visto Ignácio de Loyola Brandão conversar com seu editor.

Eu e minha amiga caminhamos para o tal espaço, composto de duas mesas postas lado a lado, juntas, dando a parecer que era apenas uma, e uma cadeira em casa uma delas. Quando chegamos lá, Rodrico e Bernardo já conversavam animadamente e atendiam algumas poucas pessoas. Pedi à minha amiga pra tirar uma foto com o Rodrigo, caso ele aceitasse, e outra com o Bernardo. Então, cheguei para o Rodrigo com seu livro na mão, ele autografou, muito simpático, e autorizou que tirássemos a foto. Em seguida fui para o lado de Bernardo. Coloquei minha sacola com os dois livros, um de cada autor, sobre a mesa. Nesse momento, vi que uma sacola branca com a logomarca da livraria ia sair na foto, e afastei-a para o lado. Minha amiga tirou a foto, eu agradeci, peguei a sacola com os livros e fomos a um outro ambiente.

Com a fome já apertando, adentramos ainda mais no parque ecológico, onde havia um restaurante. Sentamo-nos e fizemos os pedidos – comida apenas mais ou menos e um atendimento pífio.

Resolvi dar uma olhada no que havia sido escrito nos meus livros. O do Bernardo Kucinski estava ok, tudo certo. O do Rodrigo Lacerda estava autografado para alguma mulher de nome japonês.

Olhei para a minha amiga, confuso. Disse:

“O Rodrigo Lacerda autografou meu livro para outra pessoa.”
“Como é que é?”, indagou a amiga.

E eu repeti a afirmativa e mostrei o livro. Ela riu, aquela risada gostosa e verdadeira, que vem de algum lugar indizível. Depois disse: “Mas não pode ser. Eu vi a hora que ele escreveu o seu nome no livro!”.

Claro que eu não acreditei nisso. Achei que ela estava delirando. No ângulo em que estava, não tinha como ela ler meu nome sendo escrito no livro, imaginei eu. Falei que não havia problemas, que eu até achava interessante ter um livro que era pra ter sido autografado pra mim e que por alguma confusão mental, o autor escreveu outro nome.

Continuamos a conversar por mais alguns minutos sobre o caso, até que ela aventou a hipótese de que, em algum momento, meu livro fora trocado com o de alguém.

“Em que momento, Angélica? Foi confusão do Rodrigo Lacerda mesmo, sem dúvida. Não tem como ter tido essa troca de livros, eu recebi o livro das mãos dele e enfiei na sacola”.

Parecia mesmo ser um mistério de ordem sobrenatural. Algo para um Padre Quevedo. Tivesse sido um crime de morte, seria algo para Sherlock Holmes desvendar. Empenhados em encontrar uma solução, entre risadas e ideias, confabulávamos.

Até que veio a centelha esclarecedora.

De fato, eu havia recebido o meu livro das mãos de Rodrigo Lacerda e o havia posto na sacola, de onde tirei o do Bernardo Kucinski para que ele o assinasse. Na hora da foto com o Kucinski, entretanto, vi uma sacola sobre a mesa e a coloquei mais para um canto da mesa, para que a foto tivesse uma estética melhor. Tirada a foto, peguei a sacola, enfiei o livro dele dentro e saí de lá.

A solução para o mistério é a seguinte: eu também havia colocado minha sacola sobre a mesa. Ao sair, peguei uma outra sacola que também estava lá – uma sacola da mesma livraria onde eu comprara os livros dos dois autores, a livraria da festa literária, que continha um livro que Rodrigo Lacerda havia autografado para a esposa do Kucinski – o nome feminino japonês – e para o próprio Bernardo – que ele escrevera apenas “Bernardo”, em letras rápidas, daí a dificuldade de compreendê-las. A letra só se tornou legível com o mistério solucionado.

Compreendido o drama, nos levantamos, com um pouco de comida ainda nos pratos, pra ver se dava tempo de ver os dois autores e desfazer o mal-entendido.
Deu, mas foi por pouco.

Nenhum deles se encontrava mais sentado lá. Conversavam, já de pé, com outras pessoas do evento, em tom de despedida. Aproximei-me de Kucinski e fiz uma pergunta estúpida, na tentativa de quebrar o gelo com uma gaiatice:

“O senhor tem alguém na família de nome japonês?”

Ele olhou pra mim atravessado. Demorou dois segundos e respondeu dizendo: “Ah!, você que é o Marco que levou meu livro! Rapaz, precisamos desfazer esse equívoco.” – E sorriu. Pelo menos. Mas eu estava tão cego que demorei para perceber que a mulher de nome japonês estava exatamente ao lado dele. Uma senhora franzina, silenciosa e quieta como imaginamos que são os japoneses. Acabei por me sentir ainda pior. Antes que o sentimento se instalasse, ele já estava caminhando em direção ao caixa da livraria, de onde puxaram um exemplar, que ele me entregou. Chequei e vi meu nome lá dentro. Entreguei o que estava comigo para ele, que quis devolver um outro, que tinha comprado para repor o que havia sido levado, para a livraria. Não sei que fim teve essa parte da história, já que o exemplar já havia sido riscado – o terceiro dessa história – e eu, num misto de constrangimento e culpa, tratei de dar o fora dali o mais rapidamente que pude.

[Em tempo: já conversei brevemente sobre o ocorrido com o Rodrigo Lacerda, que me garantiu que ninguém ficou com raiva e todos foram para suas casas alegres e satisfeitos. Menos mal].

A história ainda não acaba aqui.

Depois de mais umas circuladas pelo espaço, reencontrei Ignácio de Loyola Brandão, a quem eu achava que não iria ver, porque sua despedida da FLAQ seria numa palestra dali a mais de uma hora – e por conta dos compromissos da amiga/aluna que viera comigo em Fortaleza, a tal altura já deveríamos estar de volta.

O encontro foi uma pequena festa. Ele conversava animadamente com uma senhora jovial, muito bonita, na mesma mesa que há pouco estava ocupada por Rodrigo Lacerda e Kucinski. Eu cheguei de mansinho, de mansinho, e mais uma vez ele olhou pra mim interrompendo uma conversa. Desta vez, entretanto, ele me olhou como quem já sabia que havia visto aquela pessoa em algum lugar. Sorri de volta, contei das histórias do dia anterior, pra acelerar o processo de reconhecimento (é querer abusar demais de um autor incansável, que passou dias no Ceará visitando comunidades, escolas, os cantos mais longínquos, mas que também deve ter seus limites) – dentre as quais, o fato de que a amiga que me acompanhara trouxera a edição do romance Zero que foi apreendida pela ditadura, e que muito emocionou o Ignácio quando ela tirou seu exemplar da bolsa para que ele assinasse. Tanto, que ele mencionou este fato durante a sua palestra, a qual assistimos juntos na noite de um dia antes.

Com seu bom humor sempre presente, como se detivesse o conhecimento da fórmula da vida, Ignácio sorriu e disse:

“Eu tenho que ir aqui nesta livraria e comprar um livro pra este rapaz. Foi a pessoa pra quem eu mais autografei livros nessa feira!”

Ao que eu, a esta altura sem saber o que dizer, disse a obviedade esperada, que o presente que ele poderia me dar era escrever mais e mais livros, e rapidamente tratei de entregar a ele os livros que eu acabara de comprar. Uns pra mim, outros para dar de presente. Ele assinou todos, escrevendo pequenos textos personalizados em cada um, com uma atenção e uma diligência inefáveis.

As pessoas chegavam à feira com olhares curiosos. Era nítido que muitos ali não tinham tanto acesso não apenas ao objeto livro, mas também a ver palestras e discussões em torno da arte, do fazer literário. E aquilo tudo era emocionante.

Sentei-me à uma mesa com a amiga que também é aluna. Ainda rindo do roubo involuntário, um pouco atordoados com a multitude de cenas, cores e acontecimentos, paramos e ficamos a observar longamente o que se desenrolava diante de nós. Naqueles minutos, nos isolamos um do outro. Éramos dois à mesa, mas cada qual em seu mundo, com suas próprias impressões do universo ao redor. E que bom que era assim. Ali, aluno e professor se fundiam com amizade e paixão pela leitura, cada qual desfrutando do sabor da vida à sua maneira.

Crianças pulavam e brincavam – e gritavam um pouco, também. Mas só o tanto suficiente para demonstrar que eram saudáveis. Jovens de ambos os sexos, nem tão mais jovens assim. Estavam todos ali, compartilhando do espaço, dos afetos, fazendo(-se) questionamentos, tateando, descobrindo.

E é justamente do descobrir – e do inventar – que a arte se faz e se renova. E é por sermos tão humanos que também seguimos o mesmo processo de descoberta e invenção, para que nós possamos nos renovar, por conseguinte – e através da arte, não morrer jamais.






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11 de dezembro de 2014
FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES

FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES




Parte 1 – Primeiro dia

Quando estacionei o carro em frente ao local onde estava ocorrendo a FLAQ – Festa Literária de Aquiraz – notei prontamente o nome na fachada: COLONIAL. Mais do que nos remeter ao período em que o Brasil era subserviente a Portugal, Colonial é a marca de uma das cachaças mais famosas do estado. Achei aquilo intrigante. A leitura, que pode ser um vício, estimulada dentro de um lugar que representa um outro vício, nem sempre associado a algum positivo. A ironia do momento me passou pelo pensamento e eu sorri, enquanto saía do carro junto com a amiga que me acompanhava e o trancava.

Pouco importava. Afinal, além de incorrer num falso moralismo, eu havia contado cada instante antes de chegar em Aquiraz, cidade que fica a 27 km de Fortaleza e que foi a primeira capital do Ceará. Queria mesmo era conhecer o local e curtir o evento com minha querida companheira.

Ao adentrar o lugar, descobri muito mais do que um museu em homenagem à bebida oriunda da cana de açúcar e seus antepassados que remontam aos engenhos. O local, batizado de “Engenhoca” (o que achei um erro, porque rima com o nome da maior rival deles, a cachaça Ypióca), é um parque ecológico fincado no meio da cidade. Ao caminhar por um espaço que lembra uma estradinha rumo ao que realmente importa, parece que saímos de um túnel estreito, uma espécie de portal, e nos deparamos com um universo grandioso, repleto de luz, espaços arquitetônicos bem pensandos e muitas árvores, mato e cheiro das flores e frutos caídos, em processo de decomposição, exalando seu perfume inebriante.

Uma vez sentido, o espaço me convidou a perscrutá-lo e ler sobre o homenageado da festa: o autor paulista Ignácio de Loyola Brandão. Grandes flanelógrafos ambulantes, posicionados como totens retangulares para onde quer que se olhasse, traziam a foto do autor em diversas fases da vida, capas de seus principais livros nas mais variadas edições, e textos, muitos textos sobre a vida e a obra do autor. Em todos os espaços, os quadros repletos de informações pareciam nos acompanhar, seduzindo o visitante, convidando-o a dar o passo seguinte: sair para qualquer lado, na direção dos livros.

Na verdade, essa era mesmo a ideia. Unir a área ecológica – respirar o ar repleto de verde – ao ar repleto de vida literária. E nesse sentido o evento foi muito feliz. Para um lado, o museu da cachaça, uma capela e uma loja de conveniência do próprio parque; para outro, a simpática livraria montada no local, com livros expostos em prateleiras baixas e em mesas também ao alcance da mão, algumas funcionárias simpáticas e solícitas mas que não dominavam muito bem o acervo do espaço – perguntei se havia um livro da Ana Miranda e recebi um não como resposta. Passados alguns minutos eu descubro por mim mesmo um livro da autora – mas cuja disposição em ajudar tornaram este senão um quase nada.

Perto de lá, um espaço com várias cadeiras e bancos que mais pareciam bancos de igreja, e um palco com um telão atrás.

A tarde já começava a anunciar o prefixo para a noite, que se inseria, ferina.

Ao meu lado, num enorme galpão rústico, com paredes de tijolos aparentes e teto sem forro, falava o autor de livros infantis Ilan Brenman. Sentei-me ao lado de minha amiga, esperando a palestra seguinte, do homenageado Ignácio de Loyola Brandão, enquanto ouvíamos o autor de livros infantis falar sobre seu processo criativo (escrever sempre), sobre de onde vem a inspiração (da sua vida cotidiana, na maioria das vezes) e sobre as dificuldades editoriais (que têm de ser vencidas didaticamente, explicando aos editores o que ele quer e precisa dizer em cada obra).

Ao fim da palestra, resolvemos sentar mais à frente, deixei minha amiga no local que escolhêramos e fui sentir um pouco do ar lá fora. É nesse instante que vejo Ignácio de Loyola Brandão a uns três metros, na calçada, conversando com uma moça cuja beleza chamava a atenção. Ela sorria com os olhos, e os lábios do autor respondiam ao contato visual, enlarguecidos, receptivos.

Aproximei-me vagarosamente, esperando aquele momento de magia esvanecer. Mas um gesto meu fez com que Ignácio desviasse o olhar, e me dirigiu a palavra: “Você quer falar comigo?”, perguntou, num vozeirão firme mas delicado, acessível. Braços abertos através da voz. “Sim”, disse num tom tímido, que nega a forma loquaz pela qual sou conhecido. Mal sabem os que me cercam que excesso de palavras, por vezes, são um esconderijo.

Ele me chamou para perto, e começamos a conversar, já dentro do papo que ele levava com a moça dos encantos.

Ignácio de Loyola Brandão é de uma presença inesquecível. Afável, genuinamente brincalhão, dono de um senso de humor capaz de salvar o dia, Ignácio não se posiciona com o estoicismo, a arrogância e a superioridade que muitas vezes observamos em alguém de sua envergadura. Por ser o oposto disso, a vontade que temos é a de que o tempo não passe, para ficarmos ali, em sua preciosa companhia. Ouvi várias histórias do autor, até que me dei conta de que o tempo não se empresta a caprichos, e dali a cinco minutos era a hora da tal fala do homem.

Perguntei se ele autografaria uns livros que eu trouxera, e se eu poderia tirar uma foto com ele. Um “mas é claro que sim”, foi a resposta. Em pleno calçadão, com os passantes nos seus ir-e-vir, perscrutando suas vontades de ocupação, vivi ali um grande momento. Mas não acabara ainda.

Corri para pegar minha máquina fotográfica e meus livros que eram dele, e já na volta vi, num elevado alguns passos adiante, Pedro Bandeira, o grande escritor juvenil, a alguns degraus de mim. Mais uma virada de cabeça e ao meu lado passava João Anzanello Carrascoza, num ecossistema tão plural quanto fascinante.

Minha atenção, entretanto, voltava-se para o Ignácio, que pediu para que fôssemos até uma mesa, onde estava o Pedro Bandeira, sorridente como só ele, com aquela boca arreganhada a acariciar o mundo, tornando-o o bigodudo mais simpático de todos os tempos.

Livros autografados, foto tirada, a noite finalmente desceu sobre nós.

Vi ao longe e reconheci o editor do Ignácio, Luís Alves, outro homem extremamente amistoso, disposto a um bom papo e trocas de impressões. Fui perturbado por algo que sempre me tira a paz: sou só eu ou mais alguém tem vontade de pedir a alguém que gosta, respeita ou admira, para parar de fumar, quando percebe nela o hálito de cigarro? Não sei se o que mais mexe comigo é o fato da pessoa ir se destruindo aos poucos, ou se o fato de eu querer me meter com algo tão pessoal, com uma vida que não seja a minha. Autocrítica ou egoísmo? Dane-se. Fiquei calado.

Logo mais, ambos foram a um palco conversar sobre a relação de mais de trinta anos que eles têm na editora Global – dessas relações raras, caras e quase sobrenaturalmente longevas no meio editorial de hoje. Foi um papo gostoso, com alguns momentos que demonstraram, entretanto, a desorganização do evento: o primeiro é que o telão por trás das pessoas no palco – Ignácio, seu editor, Luis Alves e o mediador, Jorge Félix – brilhava muito, a ponto de não nos fazer enxergar as pessoas no palco. E o microfone foi trocado umas quatro vezes. Ninguém – nem plateia nem convidados – conseguia se concentrar no momento. Ambos os problemas foram resolvidos com mais de vinte minutos de papo. As pessoas se impacientavam, mas era tão gostoso ouvir aquelas pessoas falando, que muitos, como eu, apenas fechavam os olhos e cegavam para o mundo, apenas ouvindo o que vinha da nossa frente.

Outro momento chato foi quando apareceu um senhor que quis fazer uma pergunta. O louco de palestra está em toda parte, isso não é segredo. Longe de ser um ser único, que floresce a cada eclipse lunar, esta já folclórica personagem, que se transmuta em qualquer formato de corpo, de qualquer sexo, brota como erva daninha. Duvida? Pois coloque alguém num palco pra falar e rapidamente aquela criatura que levanta a mão e faz algum tipo de pergunta absurda fica de pé, ou levanta o braço, anunciando sua presença – e deixando-o lá mesmo, no alto, esteja seu dia já vencido ou não. Ou então começa logo a falar como se ele fosse o convidado.

Foi justamente isso que aconteceu no evento em questão.

O senhorzinho já se levantou com um livro na mão (que só se pôde identificar como tal alguns minutos depois), empunhando-o como quem carrega uma foice. O microfone se fez chegar até ele, que o dispensou com um gesto de “sai pra lá que eu não te quero não”. Mal sinal. Aquilo significava que ele ia bradar alto o suficiente para todo mundo ouvir. Quem faz isso não está disposto a falar pouco. O medo se instalou na plateia. E o que era mesmo aquilo que ele tinha na mão? Dramático, temi pela vida de Ignácio de Loyola Brandão, já me perguntando onde estariam os seguranças. Não vi nenhum, e eu não estava num local em que eu pudesse ser o segurança dele – nem de ninguém, essa é que é a verdade. Então, o homem berrou, como se estivesse ensaindo para uma peça que tivesse Fernanda Montenegro como diretora, observando da primeira fila.

“Senhor editor! Trago aqui um desafio!” As pessoas se entreolhavam. O que era aquilo, alguma pegadinha? Iam fazer uma gincana-surpresa para sortear um livro? Afinal, era um livro aquilo que ele tinha na mãos? Educadamente, Luis Alves se ajeita na poltrona e pergunta: “Qual seria esse desafio?” O tom de voz não denotava outra coisa senão cansaço, mas não era. Ou até poderia ser, mas um outro tipo de cansaço. Um bom observador perceberia que naquela pergunta já estava embutida a frase “Mais um louco de palestra”, seguida de uma longa e pausada respiração. Mas Luís Alves é um lorde, e não disse nem a primeira frase nem bufou ao microfone. Apenas esperou, pacientemente, o senhorzinho se manifestar.

Foi então que o homem atirou, à queima-roupa: “O senhor toparia levar este livro para São Paulo e avaliá-lo para ser editado pela sua editora?”. A esta altura, claro, ninguém falava mais nada. Ouvia-se o zunido de uma muriçoca tomando fôlego pra pegar embalo e voar pros braços e pernas de alguém. Discretamente – e com o conhecimento de quem sabe que aquilo ainda iria render muito – Ignácio de Loyola Brandão repousou o seu microfone ao seu lado no sofá. Acho que ele já tinha a certeza de que dali pra frente, era sono profundo para o aparelho.

Em resumo, o homem contou toda a sua história, se demorando nas partes chorosas e sendo incisivo nas partes em que rogava por uma chance, com trejeitos de quem estava prestes a pedir de joelhos. Antes que essa cena se desse, diante de um mediador que a esta hora devia estar brincando de estátua consigo mesmo, porque não se ouviu nem um pio vindo do seu microfone, Luís Alves, do alto da sua sabedoria de décadas participando ou tendo notícia de tais momentos, disse ao tal candidato a autor publicado, com extrema delicadeza, que não era ele quem decidia se um livro ia ou não ser editado, que existia um conselho, que isso e aquilo, mas que levaria o livro do homem.

Pena que eu havia deixado o meu em casa, repousando num arquivo de Word no computador, pensei, rindo daquilo tudo.

Claro que aquele não era o caminho, e eu jamais entraria nesse jogo do desespero, da ingenuidade e da falta de bom-senso.

Para animar as almas, que viram o fim do espetáculo terminar de forma tão pífia, três músicos adentraram no palco e tocaram Miles Davis e Chet Baker para ouvidos atentos – até que, quarenta minutos depois, uma senhora de prancheta na mão e cara de poucos amigos mandou parar tudo, fazendo gestos em formato de X com os braços, sucessivas vezes, dizendo “encerra, encerra” com os lábios, ao que o povo pedia “só mais uma!”, e ela, agora já falando para todos, “Não dá, o parque tem que fechar. Todas essas pessoas têm de estar aqui de novo 8 da manhã, elas estão mortas!”.

Bom, era nítido que ela mandava ali. Faltava pouco mais de duas horas para aquele dia se transformar num outro. E era bom saber – e sentir – sob a luz da lua que banhava todo o espaço, lembrando-nos que, ao nosso redor, só a natureza em sua esplendorosa majestade imperava naquela cidade do interior, onde éramos acolhidos em um lindo evento literário. Não eram suas falhas que maculariam o todo. De jeito nenhum.

A música parou. Segundo a chefe do local, os funcionários estavam mortos. Mas quem curtiu a festa até ali, sabia que voltaria para casa sabendo-se muito vivo.

E assim fomos.


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1 de dezembro de 2014
NÃO ERA EU, MAS SÓ QUE ERA

NÃO ERA EU, MAS SÓ QUE ERA



Tinha tudo pra ser um dia como outro qualquer.

Você acorda, daquele mesmo jeito entorpecido de sempre, ainda com o barulho do celular que te despertou no ouvido (já são seis horas, você pensa, resignadamente); vai ainda meio cambaleando pra cozinha, a gata se desvia do caminho (ela sabe que pode ser vítima do seu estado de letargia, afinal, já convive com você há três anos), você bebe água e volta pro quarto, onde vai se preparar para começar o seu dia normal de trabalho.

Está tudo dentro dos conformes, até no gesto de descer as escadas apressadamente, como se estivesse atrasado; com o saco de lixo na mão para depositar no local correto. Dirige-se ao carro pensando no pequeno problema que tem de reparar no mecânico, suspira ao lembrar-se do trânsito que tem pela frente, entra no carro, dá a partida e vai. 

Lá pelas tantas, alguém dirigindo um carro de médio porte resolve sair de uma rua lateral e entrar na sua frente. Um motoqueiro se assusta com o veículo que se materializou de súbito, quase se jogando de encontro ao seu próprio carro. E você mesmo, se não freia, teria chocado violentamente no carro alheio. 

É a partir daí que as coisas degringolam. 

Você corta o carro, se posiciona na frente dele e não sai mais. A pessoa atrás de você dá um sinal de luz, e você permanece lá, parado. Dois segundos depois, faz gesto com a mão pela janela, como a dizer "passa por cima agora, seu...". E em seguida, mostra aquele dedo. Os motoristas começam a buzinar. Você, ainda com ódio, bate por fora na porta do seu próprio carro. Sua intenção é assustar e intimidar o motorista que lhe causou tanta ira. 

Em seguida, você, ainda fervendo, passa a primeira e sai dali, deixando um motorista estático  para trás.

Não se levando em conta as inúmeras possibilidades do que poderia ter acontecido a qualquer um dos envolvidos, desde "simples" agressão verbal até a morte de um ou todos os envolvidos, o que ocorre é que, muitas vezes, sem que a coerência seja chamada para a conversa, agimos de uma maneira que, passada a fúria, nos pegamos dizendo a nós mesmos: eu não sou essa pessoa.

A explicação faz sentido: ninguém quer levar fama de ser truculento, grosseiro ou violento. A questão é o auto-engano contido na assertiva. Dizer que você não se reconhece na atitude, que não costuma agir de tal e tal maneira, vá lá. Mas dizer que não é você... sinto muito, mas é. Não tenha dúvidas: é você, completamente você.

Provavelmente um você que precisa ser contido, domesticado, trabalhado. Afinal, não se convive em sociedade com esse tipo de atitude. Pelo menos não se elas vierem com frequência, e numa escala crescente que leve aqueles que nos amam a questionar quem realmente somos.

A questão toda está no fato de que somos aquilo ali também. E sim, há coisas em nós que precisam ser revistas. E se um dos sentidos de estarmos aqui não for evoluirmos, então somos mesmo uma bela escarrada de Deus, algo em que me recuso a acreditar. Não por motivos religiosos, mas pelo simples fato de que não é algo que eu sinta, ao caminhar pela vida. 

Podemos ser muito mais coisas do que pensamos ou acreditamos; algumas dessas coisas talvez até nos fizessem mais felizes do que somos hoje (quem sabe?). Muitas vezes, o medo arraigado de estar transgredindo algo nos torna estático. E o fato é: o medo de transgredir muitas vezes impede a transcendência. 

Se você não estiver fazendo algo que magoe alguém, que destrua laços ou aniquile alguém irremediavelmente, dê o passo seguinte. Qualquer que seja o resultado, sempre será você, ao fim e ao cabo. Só há o que temer quando não buscamos mudar. A estagnação é o que nos mumifica em vida, o que nos impede de nos tornarmos pessoas melhores, se não para outros, para nós mesmos. 


Não importa o que a gente descobrire que existe dentro dos nossos lugares mais escuros. É essa pluralidade que nos move, o que faz as sociedades irem adiante (embora nem sempre pra frente). E, se em toda uma vida, mal começamos a descobrir um mínimo que seja de nós mesmos, é bom que se entenda: quanto menos ínfima for nossa contribuição para o mundo, é porque maior foi nossa transgressão diante das amarras que a vida nos impõe. Medo de se soltar dos grilhões? Todos temos. Mas nos libertar deles já é parte do processo. Sem culpa, como deve ser qualquer ato mínimo em direção ao desconhecido que nos liberta. Sempre.




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16 de outubro de 2014
Revolução

Revolução



Os mártires de qualquer espécie são sempre uma forma de aviso. Se um homem precisar morrer para que outro se salve, não vejo nisso qualquer contradição. Cresci ouvindo isso. Ele era filiado ao partido. E os meios justificam os fins, algumas vezes. Em outras, precisamos atravessar turbulências, gravidade para alcançar o almejado. Tudo aquilo entrava na minha cabeça. O Estado precisa da mentira, ela é útil a determinados manejos. Ele não pode permanecer com a mentira. É legitimo utilizá-la, mas é preciso torná-la real para quando for verificada. A mentira é uma projeção do que será a verdade. Não poupe esforço para alcançá-la.

Minha mãe não poupava críticas a mulher da casa da frente. Chamava-a de uns nomes de reputação duvidosa. Ensinava que era errado o que ela fazia. E tudo aquilo entrava em minha cabeça. A mulher da frente se deitava com vários homens. A mulher da casa da frente tinha filhos com eles. A minha mãe era uma guardiã da moral, saída de passeatas da TFP, carregada de idéias que me pareciam certas. A mulher deve ser casada, conformar-se com o casamento, morrer com o marido, deve se dar ao respeito e não sair por aí se esfregando em homem. Nunca, em minha vida, vi alguém tão vagabunda. Assim minha mãe se referia a mulher da casa da frente. Elas não gostavam uma da outra. Tinham longas discussões. Os filhos viviam em competição. Tudo virava motivo para chacota. Se a filha da mulher da casa da frente era reprovada ou se um de meus irmãos, não importava. Minha mãe tinha a língua afiada e a mulher da casa da frente também. Eu não gostava da mulher da casa da frente.

É mentira. Sonhava com a mulher da casa da frente. Ela com a bermudinha curta, mostrando a polpa da bunda. Ela lavando roupa sem sutiã. Ela limpando o peixe com decote que deixava ver os seios. Sonhava em meter um filho na mulher da casa da frente. Ela me olhava. Minha mãe me recriminava quando me pegava olhando longamente para ela. Está olhando o quê? Aquela piranha? Quando olhava a mulher da casa da frente meu pinto ficava duro. Meu calção estufava. Demorava no banho. Todo pensamento voltado para os seios, pernas e bunda da mulher da casa da frente. Ela era vagabunda, deitava com qualquer um, por que não comigo? Minha mãe via minhas intenções. Quer comer a piranha, não é? Não, não queria apenas comê-la, mas trancá-la em um quarto para servir somente a mim. E todos aqueles homens seriam proibidos de tocá-la. Cortaria o pau de todos. O meu pinto duro embaixo do calção quando ela passava. Ela vai ser minha. Minha mãe, com rédea curta, não me perdia de vista.

Expropriação não é roubo, é empréstimo. Quando a revolução triunfar todos serão ressarcidos. E quando se toma de um tirano repatria-se para o povo. Não há deslize ético nisso. Não se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos, não é? Quem é a menina por quem você está apaixonado? A melhor camaradagem é entre homens. A mulher é para trazer  filhos para a revolução. É a parte mais fraca de uma nação, não sabe? Por que você perde tempo com as mulheres? Dei-lhe os livros, você leu? É improvável. Por que não resolve logo isto? A mulher mora em frente à sua casa, não? Muitos pretendentes. E você a quer só para si mesmo? Tire-a deles, rapaz. Você é mais forte. Obstáculos? Remova-os. Lembra-se do que disse sobre a revolução? Não há nada de errado nisso. É preciso cautela. Além de cautela, planejamento. Se a mulher é tão importante para você, ela é sua revolução. Procure construí-la, rapaz. Às ferramentas, juventude!

A mulher da frente conversa com minha mãe. Ela descartou no lixo um caralho lilás. Minha mãe foi tomar satisfação com a piça na mão. Balançava na cara da rival o membro molenga, exigindo explicação. Parecia resultado de uma amputação. A mulher da frente, ria. Minha mãe a olhava, perguntando qual era a graça. Os vizinhos também riam. De fato, era engraçado. Duas mulheres, no portão, discutindo sobre a propriedade do caralho. A mulher da frente vestia camisola. O cabelo preso brilhava em contato com o sol. Minha mãe de terninho, pronta para ir ao trabalho. Meus olhos pregados na piça molenga, agora, nas mãos da verdadeira proprietária, que a manejava como um chicote. A discussão, encerrada. A mulher da frente viu minha mãe virar-se para entrar, fez uma careta e um gesto: a boca e o brinquedo se conjugavam. Minha mãe se voltou outra vez. Ela reassumiu a postura séria da conversa. Eu esporrei.

Ele me entregou um estojo. Não se faz uma revolução sem armas. Abri o estojo. Está municiada. Segurei o conteúdo do estojo. É um revólver. Não precisarei dele. Claro que precisará, filho. Acha que eles a entregarão facilmente? Não era preciso outro argumento. Lembre-se: os opressores devem morrer. Nada pode se interpor entre você e o seu desejo. Nada. Nem mesmo a sua mãe. Leve-o. Naquele dia ele não me falou mais sobre revolução.

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Mariel Reis é contista, ensaísta e editor. Publicará, pela editora Oitava Rima, no 1º semestre de 2015, o livro Bordel de Bolso (narrativas).


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2 de outubro de 2014
Fé em quê?

Fé em quê?



Sempre que me perguntam se acredito em Deus, eu dou um longo suspiro, que pode ser real ou imaginário, dependendo de quem a faça. Quando não, pergunto: "O que você entende como sendo Deus?". 

Um interlúdio nessa história para começarmos uma outra: há alguns dias, ao voltar do centro da cidade, de ônibus, exerci um hobby particular do qual muito me regozijo: observar as coisas e pessoas ao meu redor. 

Sentada do lado oposto ao meu, uma mulher de aproximadamente trinta anos, morena, cabelos brilhantes e bem cacheados, tira um estojo de maquiagem rosa da bolsa e, entre um solavanco e outro do ônibus, torna-se ainda mais exuberante com o artifício dos múltiplos pós, cores, lápis. Era de uma beleza sofrida, mas, tirando toda aquela camada hostilizada, via-se a beleza tênue da mulher guerreira. 

Por algum motivo, naquele momento, me pus a pensar sobre a beleza do mundo. Não a beleza estética, mas a beleza que se transfigura em tudo o que vemos e, sobretudo, naquilo que não vemos: a bondade, a caridade, a gentileza, a mão estendida naquela hora que mais precisamos. E também na que não. 

Inevitavelmente, também pensei nas agruras do mundo, nas múltiplas formas de violência possíveis de serem observadas. O horror das guerras, os sacrilégios cometidos em nome de Deus (seja lá qual for o Deus. Aliás, ele muda porque a religião muda?), a violência do trabalho escravo, das mulheres que sofrem nas mãos de homens brucutus, a cometida contra crianças; de todas as maneiras, os sofrimentos impostos ao Outro.

Eis que, por algum motivo, ela puxa da bolsa um envelope branco e, de dentro dele, retira uma imagem de um santo, plastificada, colorida como o rosto dela estava colorido, e começa a rezar baixinho. De vez em quando, fazia o sinal-da-cruz, e vez ou outra elevava o braço discretamente em direção ao céu. 

Foi quando, subitamente, comecei a pensar na força daquele gesto. Será, perguntei-me, mesmo sabendo que não teria uma resposta divina, que de alguma forma, com a energia positiva que ela emana do seu gesto, não estaria aquela mulher contribuindo para que o mundo seja menos ruim do que é?

A reflexão existe porque, embora a minha forma de enxergar aquilo a que se convencionou chamar "Deus" seja extremamente particular, creio, de uma maneira vívida, na energia que consigo sentir no mundo, nas pessoas, nos lugares. De modo que não me surpreendi ao me pegar pensando na possibilidade de que, somadas todas as rezas, orações, cânticos, de pessoas que realmente acreditam naquilo que emanam, talvez, ainda que infimamente, tais gestos possam liberar algum tipo de força (Deus?) que torna as coisas por aqui menos ruins.

Claro que não estou considerando aqui o mal que a religião pode fazer àqueles que creem de forma fanática, que não enxergam a multiplicidade da vida, nem do viver, e se arraigam à ideia de Deus como se fosse a tábua de salvação deles, nem das implicações que isso tem em suas próprias vidas, nem na vida daqueles cuja paranoia suas vidas tocam.

Voltemos então ao "acreditar em Deus". 

Sempre penso que a ideia do acreditar no divino que pode ou não tocar nossas vidas se faz de uma escolha; escolha esta que muitas vezes não é feita por aquele que deveria fazê-la, posto que a religiosidade adentra na vida de cada ser humano, na grande maioria das vezes, através de escolhas já feitas por familiares que estavam no mundo antes deles. E dependendo do núcleo dessa família, há aqueles que desejam (e conseguem) questionar, e aqueles que não desejam, nem querem. O problema em si não é não questionar a escolha religiosa dos seus. O problema é não questionar coisa alguma por causa da religiosidade dos seus. 

Deus é justamente essa escolha entre o permitir-se maravilhar-se com o inóspito do mundo, ou enxergar o mundo pelo que ele é: concretos, asfaltos, bichos e gente tentando ganhar a vida. E morrendo ao fim do ciclo. 

Qualquer que seja o seu entendimento do divino, ou do não divino, a vida acontece. Portanto, Deus existe. Não o Deus consciente do seu "rebanho" ou essas palavras traquinas que só existem para consolar ou arrebatar os tolos. 

O Deus que há no mundo é a própria vida e os seus mistérios. 

Assim, Deus nasce e morre. Todos os dias.
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11 de setembro de 2014
Apocalipse particular

Apocalipse particular


O fim do mundo já passou.

O fim do mundo aconteceu quando os renascentistas descobriram que a Terra não era redonda e que não era o centro do Universo. A igreja já sabia, mas fazia segredinho e quis calar a boca dos homens do Renascimento com veneno. Não deu certo! Cá estamos, Terra redonda, o Sol, outras galáxias e todos sobrevivemos, menos o Copérnico porque o mundo particular dele – esse sim – acabou!

O fim do mundo aconteceu quando a moça menstruou a primeira vez. Absorventes, espinhas, adeus bonecas, adeus jogar bola na rua porque dava varizes, adeus liberdade, adeus andar direito porque todo mundo sabia que ela estava “naqueles dias”. Como se o absorvente estivesse colado na testa, não na calcinha dela.

O fim do mundo também ocorreu quando a mulher, 30 anos, saudável, casada, linda e feliz ficou grávida. Ai, que susto! Mas logo passou, fez as contas das horas que passaria sem dormir, as fraldas que teria que trocar, as mamadeiras preparadas na madrugada, o resguardo, o enjoo, o cansaço, o parto – natural ou cesariana? –, o plano de saúde, a babá, o enxoval, o bercinho...  Mas, por complicações genéticas, o neném não veio. O mundo caiu para sempre!

O mundo acabou junto com o casamento mal-amado, a falta de olhar no olho, o sentimento pela metade, a roupa suja que deixou de incomodar, o cheiro no travesseiro que não interessava mais, as contas acumuladas debaixo do tapete junto com a poeira, o amor que virou sexo que virou obrigação que virou ausência de... Assim o mundo foi pelo ralo, os presentes do casamento pela janela e o amor descartado como um bicho morto que fede.

O mundo acaba todos os dias, sem nos perguntar se pode, sem querer saber dos nossos planos, dos nossos sonhos que adiamos infinitamente. O mundo acaba porque não prestamos atenção nele, pois isso dá muito trabalho. O mundo é simples e não conseguimos lidar com sua leveza, complicamos demais, racionalizamos demais ou de menos e esquecemos que o fim do mundo é inevitável.

Simples assim!

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4 de setembro de 2014
A SIMPLICIDADE COMO ARTIGO DE LUXO

A SIMPLICIDADE COMO ARTIGO DE LUXO

by qin tianzhu


Lembro como se fosse hoje: época de férias era sinal de ir para a casa dos meus avós paternos, em uma cidade no interior onde eu e meus primos levávamos o tempo a andar de bicicleta por estreitas estradas de areia, através da qual chegávamos a um açude de águas refrescantes, onde podíamos ficar até tarde apenas existindo na poesia do bem-viver.

Era também quando vivíamos a caminhar com minha avó pra todos os lados da cidade – e eu sempre tive certeza de que se ela tivesse inclinações políticas, ganharia com certeza, tal era a sua popularidade por onde passávamos. De volta a casa, as portas estavam sempre abertas, a ponto de me irritar, já que eu sempre gostei de privacidade e o entra-e-sai de conhecidos por lá não dava espaço pra descanso porque, além de tudo, eu era a atração da casa naqueles dias, atenção que eu sequer podia compartilhar com meus primos, que ficavam na casa dos outros avós.

Nessa movimentação quase ininterrupta (a casa ficava em silêncio apenas ao cair da noite), eu observei algo que me fascinava: as pessoas vinham, deixavam coisas e partiam, ou pediam coisas e levavam. O que acontecia ali era um escambo saudável entre vizinhos, que eles carinhosamente chamavam de “compadres” e “comadres”.  Em dias mais amenos, outros vinham jogar cartas até altas horas, até que chegava o momento de despedir-se, armar a rede, colocar o penico ao lado, mas não tão perto dos pés por riscos óbvios, rezar e dormir. E no dia seguinte, tudo outra vez. E era de uma felicidade que só parecia finita quando alguém lembrava que as férias estavam perto do fim. Eu queria aquela realidade por perto sempre, queria conhecer pessoas, entendê-las, comer daquelas iguarias que eu só tinha naquela cidade.

Olho para o retrovisor da minha própria história e vejo aqueles móveis de um marrom escuro, pesados, que precisavam de muitas pessoas para arrastar de um lugar a outro, aquelas portas antigas, o teto dando vistas às telhas. E novamente o estranho hábito lindo, ainda que estranho apenas para mim, de chegarem na casa da minha avó e deixar um saco de feijão, alguns litros de leite numa embalagem que não me parecia tão limpa, milho, água. E minha avó cedendo coisas a essas pessoas, numa via de mão dupla tocante. E era dessa simplicidade que se fazia a vida por aquelas paragens.

Com o passar do tempo, as mudanças aparentemente inexoráveis.

Minha mãe vinha almoçar em casa às pressas, engolia o que havia no prato e levava a mim e minha irmã para a escola, num tempo em que ainda se podia percorrer vários quilômetros em vinte minutos nas cidades brasileiras. Porque a verdade é que ela não tinha muito mais do que isso.

Entretanto, mesmo aí, quando eu sempre estava entre mais de um lugar, conseguia ter a sensação de que essa correria não me atingia diretamente. E talvez não me atingisse, mesmo. Com uma mãe que fazia de tudo para evitar que víssemos sofrimento ou dor, e as noites passadas brincando na rua com os vizinhos, parecia que a realidade piorara um tantinho, mas a sensação de estar crescendo e adquirindo outras responsabilidades compensavam esse buraco causado pelo ato de existir e ter de ir vivendo.

A coisa chegou a tal ponto que, recentemente, um famoso plano de saúde, observando essas fatídicas mudanças, lançou uma campanha cujo slogan (“Esse é o plano”), num interessante jogo de palavras entre a palavra plano significando “projeto” e “plano de saúde”, se propõe a listar coisas que seriam bons planos para a vida de alguém. Coisas como “envelhecer com a certeza de nunca ficar velho”, “cuidar hoje do amanhã” – e a mesma voz que diz isso faz uma pausa pra dizer o slogan.

Minha estupefação veio quando um dos “planos” mencionados foi “conseguir almoçar em casa”.

Hoje em dia, quando outros mais de vinte anos se passaram desde a correria da minha mãe para me levar e buscar, fica a certeza dolorosa de que precisamos valorizar novamente hábitos perdidos. Ir a um restaurante, sentar, pegar o cardápio, escolher, fazer o pedido, esperar o tempo de preparo, comer, para só então pagar a conta, levantar e ir. Parece um ritual, não é? E é mesmo. Não duvido nada que as gerações mais recentes talvez achem que isso é quase tribal. Avançamos nos anos, mas regredimos cada dia mais como povo, como civilização, como sociedade. Como podemos? Em que momento foi que sucumbimos ao consumismo desenfreado e começamos a chamar dinheiro de “deus”? Quando a ideia de fazer tudo no menor tempo possível para que supostamente tenhamos tempo para fazermos outras tornou-se o objetivo de vida da maioria de nós?

São perguntas que exigem muita reflexão e um estudo complexo dos movimentos que criaram a sociedade e a geraram – e a geriram – tal como ela é hoje.

Se precisamos “fazer um plano” para conseguirmos almoçar em casa, é sinal de que há algo muito, muito errado. Não se concebe que com todos os avanços, com tudo o que temos para ter uma sociedade menos injusta e tecnologias que facilitam nossa vida, conseguir, no intervalo do primeiro para o segundo turno de trabalho, fazer uma refeição em casa e ter de considerar isso um privilégio. Ou talvez se conceba, sim, afinal, chegamos onde estamos justamente por conta dessa histeria coletiva que a vida se tornou. Esse frenesi pelo sempre ter mais, e quem quer se ver fora disso é julgado pelos que estão à sua volta.

Foi-se para sempre o tempo que tínhamos para sentar na calçada, cozinhar sem pressa, ler um bom livro sem a correria de terminá-lo para começarmos o seguinte, viajar sem lembrarmos de tudo que temos pra resolver quando voltarmos, conversar amenidades com os amigos, amar vagarosamente, admirar a beleza dos animais, assobiar uma canção ou cantar no chuveiro, sentar à uma mesa de bar e conversar amenidades com colegas e amigos sem sequer lembrar do dia seguinte, observamos o crescimento de um filho, de um animal ou de um relacionamento, e ver o que existe a partir dali?

Aparentemente, sim. No molde como a vida em sociedade hoje está configurada, a impressão-quase-certeza é essa. Esquecemos que aquilo a que chamamos “Deus” está nos detalhes, nas pequenas coisas, e a nossa megalomania continua a nos levar aos abismos da inconsequência.

A vida não requer de nós apenas coragem; o que a vida quer mesmo, e precisa, é de nossos pequenos atos revolucionários no dia a dia. Não existe realidade transformada passivamente, e se não estamos satisfeitos com o que nos rodeia, precisamos ser, como diz o pensador, exatamente aquela mudança que queremos ver no mundo.

A simplicidade tem que permanecer como algo simples, que delineia e substancia a nossa necessidade de desenvolvermos a nossa própria sensibilidade, força vital para termos os olhos para enxergar além do que está posto diante de nós, e nunca, de forma alguma, a expressão de um sentimento calado, obtuso, que virou artigo de luxo porque não sabemos ou não podemos mais voltar a como era antes.

Enquanto o nosso olhar para o mundo for permeado pelo interesse em acumularmos coisas, estamos fadados ao destino mais cruel, ao câncer mais nefasto e renitente a se espalhar por cada lugar do nosso corpo, a caminho do não-existir. Afinal, parece-me que no fundo a sanha destruidora do homem tende a ser um desejo da extinção dele mesmo.


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1 de setembro de 2014
Queria escrever o mundo, mas resolvi escrever Maria

Queria escrever o mundo, mas resolvi escrever Maria





Para ouvir: Assum Branco, de José Miguel Wisnik, na voz de Gal Costa.
Ou Galos, Noites e Quintais, de Belchior.



Beleza –É algo relativo. Mas, sem dúvidas, não há relatividade alguma na beleza dos olhos dela. Os olhos dela são um pedacinho de mar onde ele não mais existe. A brancura, em castigo do sol, só não encarde pelo talco em pó e pela lavanda de alfazema trazida pelo mascate da feira. Parece morar dentro dela alguma grande guerreira, quem sabe uma Iracema sertaneja disfarçada de mulher branca, ou uma Moura encantada da mitologia Basca.

Eu queria era vê-la moça, lá por volta de 1950, feliz e alva. Os cabelos loiros, soltos e devidamente penteados para mais uma missa de domingo. Consigo até sentir o gosto dos doces das quermesses e a euforia dos bingos e das rifas em festas da padroeira. Pensar nela me enche de saudade. E a saudade dela é a saudade das coisas dela, do passado empoeirado escondido pelos cantos da casa. É a saudade de lavar os collants e anáguas com sabão canoeiro, e com a mesma água refrescar o suor que escorre pelo corpo. É a saudade do canto de canários, nambus e bem-te-vis, que é a mesma saudade do sertão florindo em puberdade. A saudade de pular a cerca e tomar banho no riacho com sabão de aroeira. Saudade dos pés de oiticica, de comer as frutinhas de juá e também os bolos de puba e os chouriços em dia de festa... Ah, saudade dos melaços de cana e do som da rabeca de Seu Quincas Firmino. A nostalgia, que chamo de saudade, talvez venha das lembranças apropriadas dos álbuns e monóculos antigos trazidos do Juazeiro, ou talvez, das histórias repetidas na beira da calçada e das tardes que eu me trancava nos baús forrados de revistas e jornais velhos.

E as dores? E a falta de carne e água limpa? E o vazio solitário que ocupa a gente na desesperança? Isso também está na memória. Pensar nos sofrimentos da terra rachada por onde ela passou é tão amargo quanto a água barrenta do açude. O gado morto. O prato raso de comida. As crianças morrendo de varíola, caxumba, diarreia ou gripe: “Segura na mão de Deus e vai...”.

Sertão de vidas secas. Para ela, uma vida fértil, 14 barrigas, três abortos e um menino que não se criou. Mesmo com toda reza e toda crença, toda mudança e toda reforma – nos dias de agora, água pouca ou água nenhuma. E os filhos bem paridos e bem casados não voltam temendo a seca. A vida agora é um balançar de rede, é colocar comida pros gatos, ver a novela e esperar um pingo de chuva aqui e outro acolá.

Quando viajo para encontrá-la, penso na sorte que tive em ter o mesmo sangue forte de Maria. Na distância, vivo vendo-a por aí. Seja na avó que em uma mão carrega sacolas e na outra segura a mão da neta pelo centro da cidade. Seja na senhora negra e de cabeleira branca, que lava ternamente as mãos da neta com shampoo que retira da sacolinha de plástico, no banheiro da universidade. Ou especialmente vendo Dora, em Central do Brasil. Ah, Dora é a imagem cinematográfica de Maria. Um batom pelo final, uma bolsa lateral bem junta ao corpo, uma pausa na lanchonete da rodoviária para um refrigerante; a mão pregada à mão da criança, a vontade de carregá-la por muito tempo, porém, com a certeza inevitável que a perderá.

Lembro-me da época das especulações em torno do bebê real. Eu só conseguia pensar: pobre criança! Não terá uma vovó real para lhe dar angus, papinhas, chás de erva cidreira e cafunés. Ou mesmo uns bons gritos. Avó é mãe duas vezes, dizem. Avó é alguém que temos um medo bem grande de perder, mas como conforta Drummond, “As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.” Pois que fico enormemente feliz quando chego nos Inhamuns e Maria, minha avó, me olha com um olho cego e o outro brilhando, apesar da catarata. Em seu abraço cabe o sertão, o mar, o azul e o violeta. Não importa a minha idade, serei sempre a criança desprotegida à procura da mão da avó. E não importa a idade dela, Maria será sempre a Moura encantada, com mãos de ferro e unhas de porcelana.



Thalita Gabriele Moura Vieira.
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27 de agosto de 2014
"NO TERMINAL DE JEFERSON", crônica de Alex Costa para o LiteraturaBr

"NO TERMINAL DE JEFERSON", crônica de Alex Costa para o LiteraturaBr




Hoje o acaso me levou à Faixa de Gaza fortalezense, ao ponto de encontro de mãos que negam centavos e dos que morrem pelas bombas invisíveis jogadas constantemente em seus olhos, suas vidas. Cheguei naquele terminal por volta das 18:20, encontraria uma amiga às 18:50. Por sorte andava na companhia de um livro e matei esses trinta minutos sem problemas. Mas, neste ínterim, fui surpreendido por um dos diálogos mais lindos que tive na vida. Ao chegar, senti vontade de tomar um sorvete e me encaminhei, segurando o livro na mão direita, a um ponto rosa no qual uma placa anunciava: “Casquinha – 1,50”. “Uma mista, por favor” – pedi à atendente, que tinha sua testa brilhosa de suor, e Deus sabe desde que horas aquela moça trabalhava naquele cubículo quente e desconfortável. Notei que, um pouco afastado, a chupar o dedo polegar, um menino, que vestia uma blusa cinza com a imagem de um Mickey Mouse sorrindo, me observava e olhava fixamente para o livro que estava na minha mão, mas logo mirou no dinheiro que a atendente me entregava – troco de vinte reais.

“Ei, tio, me dá as mueda ai, vá lá!” – pensei em um turbilhão de coisas em fração de dois segundos. 1) Cheirar cola? 2) Inteirar a pedra? 3) Comprar comida? Não fazia ideia em qual alternativa deveria arriscar, mas temia ser uma das duas primeiras. “Deixa pra próxima, beleza?” – saí de lá com o coração na mão, mas não podia arriscar colaborar com a destruição daquele menino – que eu, preconceituosamente, achava que estava a se destruir. Voltei ao banco onde estava sentado antes de ir comprar aquele sorvete, já com o sorvete pela metade, e fiquei refletindo nos olhos pidões daquele menino. Por um lado, algo me dizia que eu havia feito o certo, por outro, poderia ter sido eu o provedor da janta (refeição única?) daquele jovem. Dei a última dentada na casquinha e joguei o guardanapo na lixeira ao meu lado, abri o livro na página 92.

Li dois parágrafos de um ensaio chato e escrito somente para a exaltação do ego de quem se achava muito conhecedor da arte do cinema, escrevendo três “achismos” ainda no primeiro parágrafo. Fechei o livro e só então me dei conta de que eu estava cercado por uma atmosfera propiciadora a inspirações para a escrita, uma loca cheia de frutos do Determinismo de Taine e das exceções com as quais não podemos justificar as (ainda) poucas mudanças sociais; inspira-me o contato com a pele de um povo que tão injustiçado foi e ainda não recebeu indenização, que sustenta esse país nas costas e são escrachados todos os dias por não terem o cabelo liso. Deixemos estes comentários e indignações para um comentário posterior, hoje me interessa contar outra história.

De pé, com os olhos fixados em mim (há quanto tempo?), ainda chupando o dedo, o menino das muedas (porque muedas, com U, é mais coerente) me olhava ainda com os mesmos olhos pidões com os quais recebeu meu não. Dei um sorriso de canto de boca para ele e o gesto foi recíproco. Ele veio caminhando em minha direção, limpando o dedo polegar no calçãozinho azul sujo e furado. “Como é esse livro ai?” – apontando para a capa colorida. “É um livro de ensaios sobre cinema” – ele fez um sinal positivo com a cabeça, mas percebi que ele não fazia ideia do que era um ensaio. “Você sabe o que é isso, ensaio?” – ele voltou a colocar o dedo na boca e balançou a cabeça em sinal de negação. “Pois senta aqui, macho, vou te explicar”

Descobri que seu nome era Jeferson (com um F só, segundo o mesmo) e que não estava estudando. Quer trabalhar na Petrobrás quando for “grande” e morar no Conjunto Ceará (?). Tinha três irmãos e não quis dizer onde morava, respeitei. “Antigamente” ele vendia amendoim, mas agora não vendia mais porque acabou (?). Jeferson, depois de três minutos de conversa, disse que havia entendido o que era um ensaio, e até me explicou quando pedi: “é quando o cara escreve pra dizer o que tá pensando” – não foi bem isso que expliquei a ele, mas tá valendo! “Mas, tio, tô com fome ó! Compra um salgado pra mim, vá lá!?” – pediu, com um olho aberto e outro fechado, com meio sorriso na boca de dentes alvinhos. “Certeza que é pra comprar salgado?” – perguntei olhando nos olhos dele, embora já tivesse decidido a dar. “É sim, é sim! Vou comprar bem ali, ó!” – apontou para uma lanchonete à nossa frente.

Tirei dois reais do bolso e já ia me levantando para ir com ele comprar o salgado, mas ele disse que eu não precisava ir, podia deixar que ele comprava sozinho, porque ele sabia. Entreguei o dinheiro e disse que ele fosse mesmo, que eu estava olhando dali. Ele tirou o dedinho da boca e saiu correndo com a nota de dois reais levantada e sacudindo em euforia. De repente, Jeferson parou no meio do caminho, olhou para trás e foi voltando com os olhos caídos. “Ei, tio, é dois e vinte e cinco, e o homem não deixa não ó!” – sorri e tirei mais vinte e cinco centavos do bolso e o entreguei. Novamente a carreira com a cédula azul levantada.

Jeferson, que era menor que o balcão, chegou todo dono de si para comprar seu salgado com suco, e logo foi rodeado por outros cinco meninos do seu tamanho, e arrancou um pedaço do seu salgado para cada moleque daqueles. Como sou besta que só eu mesmo, enxuguei as duas lágrimas que caiam na minha blusa bem lavada com amaciante e passada a ferro, vendo um minúsculo salgado sendo repartido com tanta alegria entre seis Jefersons.





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