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2 de outubro de 2014

Fé em quê?



Sempre que me perguntam se acredito em Deus, eu dou um longo suspiro, que pode ser real ou imaginário, dependendo de quem a faça. Quando não, pergunto: "O que você entende como sendo Deus?". 

Um interlúdio nessa história para começarmos uma outra: há alguns dias, ao voltar do centro da cidade, de ônibus, exerci um hobby particular do qual muito me regozijo: observar as coisas e pessoas ao meu redor. 

Sentada do lado oposto ao meu, uma mulher de aproximadamente trinta anos, morena, cabelos brilhantes e bem cacheados, tira um estojo de maquiagem rosa da bolsa e, entre um solavanco e outro do ônibus, torna-se ainda mais exuberante com o artifício dos múltiplos pós, cores, lápis. Era de uma beleza sofrida, mas, tirando toda aquela camada hostilizada, via-se a beleza tênue da mulher guerreira. 

Por algum motivo, naquele momento, me pus a pensar sobre a beleza do mundo. Não a beleza estética, mas a beleza que se transfigura em tudo o que vemos e, sobretudo, naquilo que não vemos: a bondade, a caridade, a gentileza, a mão estendida naquela hora que mais precisamos. E também na que não. 

Inevitavelmente, também pensei nas agruras do mundo, nas múltiplas formas de violência possíveis de serem observadas. O horror das guerras, os sacrilégios cometidos em nome de Deus (seja lá qual for o Deus. Aliás, ele muda porque a religião muda?), a violência do trabalho escravo, das mulheres que sofrem nas mãos de homens brucutus, a cometida contra crianças; de todas as maneiras, os sofrimentos impostos ao Outro.

Eis que, por algum motivo, ela puxa da bolsa um envelope branco e, de dentro dele, retira uma imagem de um santo, plastificada, colorida como o rosto dela estava colorido, e começa a rezar baixinho. De vez em quando, fazia o sinal-da-cruz, e vez ou outra elevava o braço discretamente em direção ao céu. 

Foi quando, subitamente, comecei a pensar na força daquele gesto. Será, perguntei-me, mesmo sabendo que não teria uma resposta divina, que de alguma forma, com a energia positiva que ela emana do seu gesto, não estaria aquela mulher contribuindo para que o mundo seja menos ruim do que é?

A reflexão existe porque, embora a minha forma de enxergar aquilo a que se convencionou chamar "Deus" seja extremamente particular, creio, de uma maneira vívida, na energia que consigo sentir no mundo, nas pessoas, nos lugares. De modo que não me surpreendi ao me pegar pensando na possibilidade de que, somadas todas as rezas, orações, cânticos, de pessoas que realmente acreditam naquilo que emanam, talvez, ainda que infimamente, tais gestos possam liberar algum tipo de força (Deus?) que torna as coisas por aqui menos ruins.

Claro que não estou considerando aqui o mal que a religião pode fazer àqueles que creem de forma fanática, que não enxergam a multiplicidade da vida, nem do viver, e se arraigam à ideia de Deus como se fosse a tábua de salvação deles, nem das implicações que isso tem em suas próprias vidas, nem na vida daqueles cuja paranoia suas vidas tocam.

Voltemos então ao "acreditar em Deus". 

Sempre penso que a ideia do acreditar no divino que pode ou não tocar nossas vidas se faz de uma escolha; escolha esta que muitas vezes não é feita por aquele que deveria fazê-la, posto que a religiosidade adentra na vida de cada ser humano, na grande maioria das vezes, através de escolhas já feitas por familiares que estavam no mundo antes deles. E dependendo do núcleo dessa família, há aqueles que desejam (e conseguem) questionar, e aqueles que não desejam, nem querem. O problema em si não é não questionar a escolha religiosa dos seus. O problema é não questionar coisa alguma por causa da religiosidade dos seus. 

Deus é justamente essa escolha entre o permitir-se maravilhar-se com o inóspito do mundo, ou enxergar o mundo pelo que ele é: concretos, asfaltos, bichos e gente tentando ganhar a vida. E morrendo ao fim do ciclo. 

Qualquer que seja o seu entendimento do divino, ou do não divino, a vida acontece. Portanto, Deus existe. Não o Deus consciente do seu "rebanho" ou essas palavras traquinas que só existem para consolar ou arrebatar os tolos. 

O Deus que há no mundo é a própria vida e os seus mistérios. 

Assim, Deus nasce e morre. Todos os dias.
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