Perfil Poesia Brasileira, Helena Kolody: "Somos ilhas no mar desconhecido"
“Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.”
(Helena Kolody)
Para começo de texto: SIM! Helena Kolody é brasileira.
Filha de ucranianos e tendo sua obra publicada na língua
nativa dos pais, a autora tem sua nacionalidade – muitas vezes – confundida.
Apesar de ter tido, desde sua estreia, grande espaço no âmbito estadual e
nacional da literatura ela, paranaense de Cruz Machado, continua pouco
conhecida do público, levando em conta sua relevância para o campo da poesia.
Helena Kolody, nos anos 40, foi a
pioneira no Brasil a publicar haicais. Apesar de vários poetas brasileiros
utilizarem a forma, nenhuma mulher havia feito o mesmo até Helena Kolody. Fruto
da paixão por haicais, a amizade entre ela e Paulo Leminski floresceu de forma
imediata ao se descobrirem vizinhos de apartamento. Helena referia-se ao jovem
Paulo como “o verdadeiro haikaísta” e Paulo correspondia essa admiração ao chamá-la
de "Padroeira da Poesia". O vínculo com o haicai deu a ela o título
de “Reika” pela Sociedade Japonesa em 1993, que significa “perfume de poesia”.
A convivência em meio à cultura ucraniana
- compartilhando costumes, língua e ensinamentos – fez com que Helena se
sentisse desconexa em parte de sua vida, trazendo uma estranheza incomum em
relação a sua identidade. Tal evento fez com que os temas de migração e exílio
surgissem em sua obra (“Ensimesmados/ olham a vida / como exilados/ fitando o
mar”). A palavra “raízes” é bastante encontrada nos trabalhos da poeta, a dupla
nacionalidade de sua alma impulsionou-a a publicar livros no idioma natal de
sua família, o ucraniano. Além disso, ainda falando em “familiaridade”, outro
tema recorrente na poesia de Helena é a infância, da qual se lembra com uma
grande saudade desse tempo que passou tão rápido.
O efêmero, a memória, os desejos,
os sonhos, os reflexos e até a religiosidade são partes facilmente encontradas
na obra kolodiana, que é carregada de imagens e símbolos, captando com muito
bem a atenção do leitor. O religioso nos poemas trazem à tona a ideia de
existência, vida e morte (“Concede-me, Senhor, a graça de ser boa”). O amor também
é indispensável e carrega uma densidade muito alta para Helena, afundando nas
profundezas líquidas extremamente leves do ser humano.
Falecida em 2004, completaria 100
anos em 2012. Por seu centenário, sua obra ganhou maior alcance nos últimos
anos. Helena nasceu no dia 12 de outubro e deixou grandes livros de poesia para
engrandecer a literatura brasileira. A dona de olhos de um azul extremo
conquistou, além do carinho de Leminski e outros grandes nomes, a admiração de
Carlos Drummond de Andrade por ter uma obra muito ímpar. Sempre ligada às artes,
estudou piano e pintura ainda pequena. Mas a grande paixão de Helena, além da
poesia, dizia respeito ao magistério. Apesar de trabalhar a poesia desde muito
cedo, só se lançou firme no campo literário em 1941, com o livro Paisagem
Interior. Sobre sua relação com a poesia, escreveu em Sinfonia da Vida a
seguinte declaração:
“No alvorecer da adolescência,
que é como um novo nascer, senti necessidade de fazer versos, mesmo sem saber
fazê-los. Nunca os mostrei a ninguém. Mais tarde, destruí-os, o que hoje
lamento. Nos primeiros livros, os poemas eram mais espontâneos, mais
descritivos, com vivas tonalidades emocionais. Até hoje, é a poesia dessa fase
que mais agrada ao leitor, que com ela facilmente se identifica.”
GRAFITE
Meu nome,
desenho a giz
no muro de tempo.
Choveu,
sumiu.
ALEGRIA DE VIVER
Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.
Quero viver a magia
de cada instante,
embriagar-me de alegria.
Que importa a nuvem no horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.
SONHAR
Sonhar é transportar-se em asas
de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da
harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o
espaço
Num vôo poderoso e audaz da
fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que,
sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e
calunia;
Encastelar-se, enfim, no
deslumbrante Paço
De um sonho puro e bom, de paz e
de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens
um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol
pequeno e belo;
É alçar constantemente o olhar ao
céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória
lida:
Tão grande que não cabe inteiro
nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas
deste mundo.
MIGRANTES
em cinquenta e cinco
chegamos à ferroviária
as malas e os filhos
ante o súbito pinheiro
primeiro pasmo do exílio
SEM AVISO
Sem aviso,
o vento vira
uma página da vida
VOZ DA NOITE
O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.
A voz da noite,
diz baixinho:
esquece... esquece...
MERGULHO
Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude.
IDENTIFICAÇÃO
Eu me diluí na alma imprecisa das
coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do
infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente
das chuvas
E percorri o espaço no sopro do
vento;
Marulhei na corrente inquietadora
dos rios,
Penetrei a mudez milenária das
montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos
abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do
mesquinho;
Inebriei-me da alegria do
venturoso;
E deslizei dolorosamente na
lágrima do infeliz.
Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais glorioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.
FIO D’ÁGUA
Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d’água
Que canta e murmura na mata silenciosa.

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