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1 de novembro de 2014
PERFIL POESIA BRASILEIRA, TORQUATO NETO: “Qualquer palavra é um gesto.”

PERFIL POESIA BRASILEIRA, TORQUATO NETO: “Qualquer palavra é um gesto.”

   “Poesia. Acredite na poesia e viva.
    E viva ela. Morra por ela se você
    se liga, mas por favor, não traia.
    O poeta que trai sua poesia é um
    infeliz completo e morto.
    Resista,  criatura.”
(Torquato Neto)



  Noite quente de meio de primavera em que as delícias das terras lá de cima do Brasil chamam atenção, pensamento já suficiente para relembrar poetas nordestinos e nortistas. Torquato Neto não está tão longe de nós, viveu – infelizmente – muito pouco, mas o bastante para deixar sua marca autoral por onde passou. Mal sabia ele, quando resolveu suicidar-se - ao completar 28 anos -, que o cenário cultural brasileiro ficaria desolado sem sua presença. Apesar disso, a falta da presença física de Torquato não desfez a grandiosidade que foi adquirida por ele; seja como poeta, jornalista e, principalmente, compositor.


  Seu trabalho com a música popular brasileira agregou parcerias com nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jards Macalé. De forma sintetizada, o movimento tropicalista tem toques essenciais do marginal Torquato. Marginal, assim é definido o estilo de Torquato de forma geral, apesar de transcender o rótulo. Talvez as obras mais conhecidas do poeta se concentrem mesmo nessa produção musical – embora música seja poesia – vale mais destacar sua produção puramente literária. 


Torquato nasceu em Teresina, capital piauiense, em 9 de novembro de 1944, há 70 anos. Saiu de seu estado para estudar jornalismo no Rio de Janeiro e, apesar de ter deixado o curso num período de dois anos, exerceu a profissão mais tarde no jornal Última Hora, onde possuía uma coluna adorada pelo público mais jovem. Ali se instalou.


  No que se refere a poesia, Torquato começou a escrever ainda muito novo, há registros de poemas escritos em sua infância e na adolescência. Tendo uma fase de despreocupação formal e outra na qual utilizou métodos para incluí-la. Para muitos, utilizou da poesia como uma forma de resistir. “Transgressor” é outro adjetivo usado frequentemente para tentar – apenas tentar, porque é heterogêneo – definir o poeta. Isso porque ele mostra uma característica um pouco dadá, sua própria fala em uma entrevista em que nega o “-ismo” para o movimento Tropicalista prova isso. A marginalidade da poesia de Torquato ia além da escrita, ele era um espelho de sua obra. Dessa forma, era seu próprio anjo torto e louco, com todos os seus requintes. Uma representação do extremo. O desassossego do poeta tem relação com o momento vivido por ele, que mexeu no campo da criação, com uma explosão cultural brasileira e suas várias vertentes, e também no político, pois viveu a ditadura.  

  Um livro compilando sua obra poética foi lançado apenas após sua morte, organizado por sua mulher e por Waly Salomão, “Últimos dias de Paupéria”. De lá pra cá, outros livros contendo poesias de Torquato foram publicados, não se limitando apenas à língua portuguesa. Temas consideravelmente perturbadores são encontrados em seus escritos, com muita sutileza, como o medo e a tristeza.


  Em 1972 - ao cometer suicídio -, em sua carta de despedida, disse que ficava. Disse não, gritou. “FICO” e ficou. Jaz aqui Torquato Neto, entre nós, no caos do dia a dia. 








POEMAS

Um Cidadão Comum 

Sempre subindo a ladeira do nada, 
Topar em pedras que nada revelam. 
Levar às costas o fardo do ser 
E ter certeza que não vai ser pago. 

Sentir prazeres, dores, sentir medo, 
Nada entender, querer saber tudo. 
Cantar com voz bonita prá cachorro, 
Não ver "PERIGO" e afundar no caos. 

Fumar, beber, amar, dormir sem sono, 
Observar as horas impiedosas 
Que passam carregando um bom pedaço 
da vida, sem dar satisfações. 

Amar o amargo e sonhar com doçuras 
Saber que retornar não é possível 
Sentir que um dia vai sentir saudades 
Da ladeira, do fardo, das pedradas. 

Por fim, de um só salto, 
Transpor de vez o paredão. 


Tome nota

por todas as ruas
onde ando sozinho
eu ando sozinho
com você
e você
se é que se lembra
(se lembra)
olha assim pra mim
como capa de revista
pelo rabo-do-olho
de artista,
e sorri.
Eu acho tudo muito legal
Mas a verdade
É que o nome normal disso aí
É :
s-a-u-d-a-d-e;
pois bem:
sei que vou sozinho
sei que vou também sozinho
mas acontece
que parece
que você
é como se é que fosse
o próprio caminho.

Solista com uma guitarra e luvas 

eu sou                                  terrível
                                               tível
eu sou                                 horrível   
                                          ao nível      sim
eu sou                                 incrível      &
                                             cravo!      e-u
SOU                                 o fim da picada
                                          (alô moçada)
do outro lado da corda
qualquer platéia me agrada


O BEM E O MAL

muito bem, meu amor
muito mal
meu amor
o bem o mal
estão além do medo
e não há nada igual
o bem e o mal sem segredo
as marchas do carnaval
muito mal, meu amor
muito bem
nem vem com não tem
que tem
tem de ter
na praça da capital
muito mal
meu amor
tudo igual
nada igual ao bem e o mal
2 (experimente é legal)
eu creio que existe o bem e o mal
mas não há nada igual
e tudo tem mel e tem sal


_

a) A virtude é a mãe do vício
    conforme se sabe;
    acabe logo comigo
    ou se acabe.

b)  A virtude e o próprio vício
     - conforme se sabe -
     estão no fim, no início
     da chave.

c)  Chuvas da virtude, o vício,
     conforme se sabe;
     é nela própriamente que eu me ligo,
     nem disco nem filme:
     nada, amizade. Chuvas de virtude:
     chaves.

d)   (amar-te/  a morte/  morrer:
      há urubús no telhado e carne seca
      é servida: um escorpião encravado
      na sua própria ferida, não escapa: só escapo
      pela porta de saída).

e)    A virtude, a mãe do vício 
       como eu tenho vinte dedos,
       ainda, e ainda é cedo:
       você olha nos meus olhos
       mas não vê nada, se lembra?

f)     A virtude
       mais o vício: início da
       MINHA
       transa, início, fácil, termino:
       "como dois mais dois são cinco"
        como Deus é precipício,
        durma,
        e nem com Deus no hospício
        (durma) nem o hospício
        é refúgio. Fuja.


Explicação do Fato

Parte I 

Impossível envergonhar-me de ser homem.
Tenho rins e eles me dizem que estou vivo.
Obedeço a meus pés
e a ordem é seguir e não olhar à frente.
Minúsculo vivente entre rinocerontes
me reconheço e falho
e insisto.
E insisto porque insistir é minha insígnia.
O meu brasão mostra dois pés escalavrados
e sobram-me algumas forças: sei-me fraco
e choro.
E choro e nem assim me excedo na postura humana:
sofro o corpo inteiro, pendo e não procuro
a arma em minhas mãos.
Sei que caminho. É só.
Joelhos curvam-se, amaziam ao chão que queima
e me penetra e eu decido que não posso
envergonhar-me de ser homem.
A criança antiga é dique barrando o meu escôo
e diz que não, não me envergonhe.
Não me envergonho.
Tenho rins mãos boca orgão genital e
glândulas de secreção interna:
impossível.
No entanto sinto medo
e este é o meu pavor.
Por isso a minha vida, como o meu poema,
não é canto, é pranto
e sobre ela me debruço
observando a corcunda precoce
e os olhos banzos. 

Parte II


Também tenho uma noite em mim tão escura

que nela me confundo e paro
e em adágio cantabile pronuncio
as palavras da nênia ao meu defunto,
perdido nele, o ar sombrio.
(Me reconheço nele e me apavoro)
Me reconheço nele,
não os olhos cerrados, a boca falando cheia,
as mãos cruzadas em definitivo estado, se enxergando,
mas um calor de cegueira que se exala dele
e pronto: ele sou eu,
peixe boi devolvido à praia, morto,
exposto à vigilância dos passantes.
Ali me enxergo, à força no caixão do mundo
sem arabescos e sem flores.
Tenho muito medo.
Mas acordo e a máquina me engole.
E sou apenas um homem caminhando
e não encontro em minha vestimenta
bolsos para esconder as mãos, armas, que, mesmo frágeis,
me ameaçam.
Como não ter medo?
Uma noite escura sai de mim e vem descer aqui
sobre esta noite maior e sem fantasmas.
como não morrer de medo se esta noite é fera
e dentro dela eu também sou fera e me confundo nela e
ainda insisto?
Não é viável.
Nem eu mesmo sou viável, e como não? Não sou.

O que é viável não existe, passou há muito tempo
e eram manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva
e eu menino.
eram manhãs e tardes e manhãs sem pernas
que escorriam em tardes e manhãs sem pernas
e eu sentado num tanque absurdamente posto no meio da rua,
menino sentado sem a preocupação da ida.

E era todo dia.
Havia sol
e eu o sabia
sol: era de dia

Havia uma alegria
do tamanho do mundo
e era dia no mundo.

Havia uma rua
(debaixo dum dia)
e um tanque.
Mas agora é noite até no sol.


Parte III 



Vou à parede e examino o retrato,

irresponsável-amarelo-acinzentado-testemunha.
Meus olhos não se abrem e mesmo assim o vejo.
E mesmo assim te vejo, ó menino, encostado à palmeira de tua praça
e sem querer sair.
E mesmo assim te penso dique,
desolação de seca na caatinga, noite de insônia,
canção antiga ao pé do berço,
prata
fósforo queimado
poço interminável, seco.
Ouço teu sorriso e te obedeço.
Eu que desaprendi a preparação do sorriso
e não o consigo mais.
Estou preso a ti, ainda agora,
apesar do cabelo escurecido,
as mãos maiores e mais magras
e um súbito medo de morrer, amor à vida, tolo.
tenho preso a ti a palavra primeira
e o primeiro gesto de enxergar o espelho:
ouço-te, sou mais desgosto em mim, incompreensível.
À tua ordem decido não envergonhar-me de existir
nesta forma disforme e de osso
carne
algumas coisas químicas
e uma vontade de estar sempre longe,
visitando países absurdos.

Não posso envergonhar-me de ser homem.
tenho um menino em mim que me observa
e ele tem nos olhos
(qual a cor?)
todas as manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva
e eu menino, que me alumiava.

Tenho um menino em mim e ele é que me tem:
por isso a corcunda precoce
e os olhos banzos: tenho o corpo voltado à sua procura
e meu olhar apenas toca, e leve,
a exata matriz da calça
molhada em festa vespertina da bexiga.




**Nota de agradecimento ao grande Carlos Careqa pela sugestão de escrever sobre Torquato.
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3 de outubro de 2014
Perfil Poesia Brasileira, Helena Kolody: "Somos ilhas no mar desconhecido"

Perfil Poesia Brasileira, Helena Kolody: "Somos ilhas no mar desconhecido"


“Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.”
(Helena Kolody)





Para começo de texto: SIM! Helena Kolody é brasileira.


Filha de ucranianos e tendo sua obra publicada na língua nativa dos pais, a autora tem sua nacionalidade – muitas vezes – confundida. Apesar de ter tido, desde sua estreia, grande espaço no âmbito estadual e nacional da literatura ela, paranaense de Cruz Machado, continua pouco conhecida do público, levando em conta sua relevância para o campo da poesia.


Helena Kolody, nos anos 40, foi a pioneira no Brasil a publicar haicais. Apesar de vários poetas brasileiros utilizarem a forma, nenhuma mulher havia feito o mesmo até Helena Kolody. Fruto da paixão por haicais, a amizade entre ela e Paulo Leminski floresceu de forma imediata ao se descobrirem vizinhos de apartamento. Helena referia-se ao jovem Paulo como “o verdadeiro haikaísta” e Paulo correspondia essa admiração ao chamá-la de "Padroeira da Poesia". O vínculo com o haicai deu a ela o título de “Reika” pela Sociedade Japonesa em 1993, que significa “perfume de poesia”.


A convivência em meio à cultura ucraniana - compartilhando costumes, língua e ensinamentos – fez com que Helena se sentisse desconexa em parte de sua vida, trazendo uma estranheza incomum em relação a sua identidade. Tal evento fez com que os temas de migração e exílio surgissem em sua obra (“Ensimesmados/ olham a vida / como exilados/ fitando o mar”). A palavra “raízes” é bastante encontrada nos trabalhos da poeta, a dupla nacionalidade de sua alma impulsionou-a a publicar livros no idioma natal de sua família, o ucraniano. Além disso, ainda falando em “familiaridade”, outro tema recorrente na poesia de Helena é a infância, da qual se lembra com uma grande saudade desse tempo que passou tão rápido.


O efêmero, a memória, os desejos, os sonhos, os reflexos e até a religiosidade são partes facilmente encontradas na obra kolodiana, que é carregada de imagens e símbolos, captando com muito bem a atenção do leitor. O religioso nos poemas trazem à tona a ideia de existência, vida e morte (“Concede-me, Senhor, a graça de ser boa”). O amor também é indispensável e carrega uma densidade muito alta para Helena, afundando nas profundezas líquidas extremamente leves do ser humano.


Falecida em 2004, completaria 100 anos em 2012. Por seu centenário, sua obra ganhou maior alcance nos últimos anos. Helena nasceu no dia 12 de outubro e deixou grandes livros de poesia para engrandecer a literatura brasileira. A dona de olhos de um azul extremo conquistou, além do carinho de Leminski e outros grandes nomes, a admiração de Carlos Drummond de Andrade por ter uma obra muito ímpar. Sempre ligada às artes, estudou piano e pintura ainda pequena. Mas a grande paixão de Helena, além da poesia, dizia respeito ao magistério. Apesar de trabalhar a poesia desde muito cedo, só se lançou firme no campo literário em 1941, com o livro Paisagem Interior. Sobre sua relação com a poesia, escreveu em Sinfonia da Vida a seguinte declaração:
“No alvorecer da adolescência, que é como um novo nascer, senti necessidade de fazer versos, mesmo sem saber fazê-los. Nunca os mostrei a ninguém. Mais tarde, destruí-os, o que hoje lamento. Nos primeiros livros, os poemas eram mais espontâneos, mais descritivos, com vivas tonalidades emocionais. Até hoje, é a poesia dessa fase que mais agrada ao leitor, que com ela facilmente se identifica.”











POEMAS


GRAFITE
Meu nome,
desenho a giz
no muro de tempo.

Choveu,
sumiu.


ALEGRIA DE VIVER 
Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.

Quero viver a magia
de cada instante,
embriagar-me de alegria.

Que importa a nuvem no horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.


SONHAR
Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante Paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar constantemente o olhar ao céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.


MIGRANTES
em cinquenta e cinco
chegamos à ferroviária
as malas e os filhos

ante o súbito pinheiro
primeiro pasmo do exílio


SEM AVISO
Sem aviso,
o vento vira
uma página da vida


VOZ DA NOITE
O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite,
diz baixinho:
esquece... esquece...


MERGULHO
Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude.


IDENTIFICAÇÃO
Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a mudez milenária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.

Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais glorioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.


FIO D’ÁGUA
Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d’água
Que canta e murmura na mata silenciosa.





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5 de setembro de 2014
PERFIL POESIA BRASILEIRA, LÊDO IVO: “SOU AQUELE QUE ESTÁ ALÉM DE MIM”

PERFIL POESIA BRASILEIRA, LÊDO IVO: “SOU AQUELE QUE ESTÁ ALÉM DE MIM”


Esconderijo

 A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta
(Lêdo Ivo)





Nascido em 18 de fevereiro de 1924 na capital Alagoas, Lêdo Ivo foi jornalista e escritor, atuando em diversos planos da literatura. O alagoano escreveu poesia e prosa, deixando um acervo precioso após sua morte em 23 de dezembro de 2012. Sua versatilidade na escrita rendeu a ele uma particularidade em relação aos outros escritores de sua geração – a célebre Geração de 45 -, o que fez com que fosse definido “[o poeta] de versos longos e nome curtopor Sergio Buarque de Holanda.


Após morar por três anos no Recife, onde contribuiu com a imprensa e obteve maior experiência literária, Lêdo mudou-se para o Rio de Janeiro aos 20 anos de idade para estudar Direito na Universidade do Brasil. No Rio, continuou a trabalhar para a mídia como jornalista e escritor, lançando seu primeiro livro no mesmo ano em que chegou, 1944. Contra a vontade do pai, o escritor se dedicou à carreira literária e nunca exerceu a profissão de advogado, na qual se formou. Atuou, também, como tradutor e crítico literário.


 Seu livro de estreia e o sucessor – As Imaginações (1944) e Ode a Elegia (1945) – denotavam em si grande carga de características da prole neomoderna que acabara de se formar naquela década, rompendo com a estética de 1922, por isso fora integrado àquela turma.


Mas o poeta era um verdadeiro camaleão, pois mudava de cores e também trocava a pele. Por ser flexível, Lêdo não se ateve a um só tema ou gênero em sua carreira literária. Além de exímio poeta, escreveu ensaios, crônicas, contos e romances (como o notável Ninho de Cobras, 1973). O sinuoso caminho da vida e as transformações durante a mesma são os assuntos mais valorizados em sua obra, fazendo do “eu” a grande estrela da produção do autor. Seus poemas iam de sonetos a haicais, exemplificando sua variação, e eram de grande objetividade apesar do conteúdo perceptivelmente profundo. Seguindo sua primeira publicação, foram lançados ao menos dez livros do autor em um período de apenas dez anos e seguiu-se assim pelos subsequentes, abrindo espaço para a sua vasta criação.


Lêdo teve algumas de suas obras traduzidas para diversas línguas, fato que rendeu a ele prêmios internacionais e convites para representar o país eventos culturais no exterior durante toda sua vida. No Brasil, foi condecorado com muitos prêmios, dentre eles o Prêmio Mário de Andrade e o Prêmio Jabuti. Se já não bastasse tanta honraria, foi eleito em 1986 para a Cadeira n° 10 da Academia Brasileira de Letras, como quinto ocupante, sendo recebido no ano seguinte.



No céu de Lêdo, todas as estrelas eram vistas a olho nu, tamanha clareza que cultivava no que escrevia. E não eram só estrelas, outros objetos além-Terra também se destacavam pelo seu constante gingado entre propostas diferentes. Lêdo não foi um simples e retrógrado alquimista hermético, foi um cientista vigente que operou as palavras em fórmulas concisamente versificas e maleáveis. Por isso, é peça fundamental na literatura brasileira em tempos em que o recheio literário precisa ser extenso e acessível. Lêdo é o pássaro que busca alimento sortido e de fácil deglutição para suas crias. 






Poemas.

A partícula

Nada sei sobre mim, 
quem sou ou de onde vim. 
Não sei para onde vou 
quando me for para onde. 
Não sei se esse ir me expõe 
ou se esse ir me esconde. 
Sei apenas que o sol 
clareia meu jardim 
onde uma lagartixa 
me separa de mim. 
Ignoro quem é este 
que diz ou é ser eu. 
E já que nada sou, 
nada tenho de meu, 
e nem mesmo de mim, 
como ser um pronome, 
essa ínfima partícula 
que de si e dos outros 
tem tanta sede e fome 
e em lenta combustão 
se queima e se consome? 
Nem mesmo a vida resta 
quando a gente regressa 
do passeio à floresta. 
Tudo na vida some. 
E o vento sopra e leva 
as letras do meu nome. 


A cama

Amor silencioso!
Só a cama gemia,
parceira insaciável


Oceano secreto

Quando te amo 
obedeço às estrelas. 
Um número preside 
nosso encontro na treva. 

Vamos e voltamos 
como os dias e as noites 
as estações e as marés 
a água e a terra. 

Amor, respiração 
do nosso oceano secreto. 


Firmamento

No dia cheio de estrelas 
como a noite aguardo o vinto 
que vai espalhar a minha alma 
no firmamento. 

Na noite da ventania 
a morte será um frêmito, 
o luzir de uma luz negra 
no firmamento. 

E tudo será silêncio 
e será esquecimento 
na eternidade da noite 
e do vento.


Conselho

Esconde a tua vida. 
Guarda o teu segredo. 
Tudo, neste mundo, 
é engano cego e ledo. 

De manhã é noite. 
Mesmo à tarde é cedo. 
A vida é meandro 
sem qualquer enredo. 

A ninguém confesses 
teu amor ou medo, 
teu sonho acordado. 

Sê um caracol 
fechado em si mesmo 
na manhã de sol. 


O futuro dos corpos

Quando não tivermos 
mais nenhum desejo 
ficaremos juntos 
onde estiver Deus 

no desfiladeiro 
que saqueia as almas 
e devolve aos corpos 
a nudez final. 

Quando apenas formos 
o sopro do vento 
e a pureza da água 

a nossa união 
resplandecerá 
no céu libertado.


A vã feitiçaria

Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho 
que a torna testemunha desta aurora. 
Invento o espelho e, mais que o espelho, o amor 
onde eu me vejo, vivo, num sarcófago. 
E a vida, este galpão de sortilégios, 
deixa que eu a invente com palavras 
que são dragões vencidos pela mágica. 
E não me espanta que eu, sendo mortal, 
sujeito à injúria de tornar-me em pó, 
crie uma rosa eterna como as rosas 
inexistentes nesta flora efêmera. 
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se 
em vãs lembranças. Minha rosa morre 
por ser eterna, sendo o mundo vão. 


O coração da liberdade

Estive, estou e estarei 
no coração da realidade, 
perto da mulher que dorme, 
junto do homem que morre, 
próximo à criança que chora. 

Para que eu cante, os dias são momentâneos 
e o céu é o anúncio de um pássaro. 
Não me afastarei daqui, 
da vida que é minha pátria, 
e passa como as águias no sul 
e permanece como os vulcões extintos 
que um dia vomitam sono e primavera. 

Minha canção é como a veia aberta 
ou uma raiz central dentro da terra. 
Não me afastarei daqui, não trairei jamais 
o centro maduro de todos os meus dias. 
Somente aqui os minutos mudam como praias 
e o dia é um lugar de encontro, como as praças, 
e o cristal pesa como a beleza 
no chão que cheira à criação do mundo. 
Adeus, hermetismo, país de mortes fingidas. 
Bebo a hora que é água; refugio-me na estância 
quando a aurora é mistura de orvalho e de esterco, 
e estou livre, sinto-me final, definitivo 
como o tempo dentro do tempo, e a luz dentro da luz 
e todas as coisas que são o centro, o coração 
da realidade que escorre como lágrimas. 


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22 de agosto de 2014
PERFIL POESIA BRASILEIRA, GILKA MACHADO: “Como uma gata errando em seu eterno cio.”

PERFIL POESIA BRASILEIRA, GILKA MACHADO: “Como uma gata errando em seu eterno cio.”


por Jamyle Rkain

Mesmo em uma época na qual se fala tanto em feminismo como a que vivemos hoje, a busca pela literatura que demonstra tal corrente ainda é escassa. Quem procura o feminismo na literatura tem a tendência de se ater a Simone de Beauvoir e, no caso brasileiro, a tão cultuada Hilda Hilst – que virou febre nos últimos anos pela presença da força feminina em sua obra. 

Poucos conhecem Gilka da Costa de Melo, que mais tarde viria a ser Gilka da Costa de Melo Machado, ou simplesmente Gilka Machado, como fora e é conhecida pela minoria que tem o prazer de informar-se sobre suas criações. O motivo de concatenar o feminismo e Gilka Machado é simples: Gilka foi a precursora da poesia erótica feminina no Brasil. 

Gilka nasceu em 12 de Março de 1893, na cidade do Rio de Janeiro. Sua família tem origens artísticas, o pai, Hortêncio da Gama Souza Melo, era poeta, e a mãe, Thereza Christina Moniz da Costa, era atriz de rádio e teatro. Ainda, tinha como avô Francisco Moniz Barreto, que foi apelidade de Bocage brasileiro, de onde é dito que Gilka tirou inspiração para inovar em sua poesia. 

A vocação para poesia era notada desde a infância, tendo recebido prêmios diversos pelo seu desempenho no assunto ainda na escola. Porém, iniciou sua carreira como poetisa a partir da era pré-moderna. A obra de Gilka retrata bastante tal período, mostrando-se simbolista dedicada com traços parnasianos. Seu diferencial para a literatura é que causou um grande rebuliço ao se desgarrar das amarras do que era a poesia feminina na época, deixando a corrente conservadora de lado e apostando em uma poesia ousada, carregada de liberdade e erotismo. Sua produção é sensorial, trazendo em si o amor carnal, o prazer sexual e a manifestação da alma feminina, com todos os seus anseios, vontades e desejos. (E que prazer o meu! que prazer insensato!/– pela vista comer-te o pêssego do lábio,/e o pêssego comer apenas pelo tato).

Além de lançar-se como pioneira na libertação poética da mulher, Gilka também foi ativista política e social de grande importância. Em 1910, foi uma das idealizadoras do Partido Republicano Feminino, que tinha como objetivo a luta pelo sufrágio feminino, abrindo o caminho para discussões sobre os direitos das mulheres. No mesmo ano, casou-se com o poeta e jornalista Rodolfo de Melo Machado tornando-se Gilka Machado falecido 13 anos depois, com quem teve dois filhos. O rapaz, Hélio, morreu em 1979, é o tema de seu último poema ("Meu menino"). A moça, Eros, fez-se uma grande bailarina, reconhecida internacionalmente pelo nome de Eros Volúsia. 

Seu livro de estreia é Crystaes Partidos, de 1915, carregado da estética simbolista e traz em si um erotismo chocante para a massa poética. Configuram-se também como obras importantes de Gilka: Meu Glorioso Pecado (1928) e Sublimação (1938), este último trazendo, além de toda a sensualidade, uma notável temática social e o primeiro destacando com excelência todos seus temas abordados. 

Em 1933, foi eleita a maior poetisa brasileira pela revista O Malho, por vários intelectuais. E em 1977, assim que a Academia Brasileira de Letras abriu espaço para a entrada de mulheres, Gilka foi incentivada por muitos a concorrer com ênfase a Jorge Amado ("Caso venha a se candidatar, saiba que tem o meu voto, nos quatro escrutínios") -, mas não o fez. Recebeu o maior prêmio da Academia, o Machado de Assis, em 1979. 

Suas Poesias Completas foram editadas por ela mesma, escolhidos 184 poemas, em 1978, três anos antes de sua morte. Faleceu em 17 de Dezembro de 1980, na sua cidade de origem, o Rio de Janeiro.

O grito de uma alma que clama por liberdade, tanto político-social quanto existencial, está arraigado na obra de Gilka Machado. Há, em seus escritos, o toque sensível do feminino acompanhado da força de quem luta, seja através do erotismo (que fora utilizado por ela como ferramenta para a alforria) ou da exposição do que é ser mulher.  


Vídeo de uma conferência na ABL sobre Gilka Machado.




Poemas.

MEU GLORIOSO PECADO III

A que buscas em mim,
que vive em meio de nós,
e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai,
de onde veio,
trago-a no sangue
assim como uma tara

Dou-te a carne que sou...
Mas teu anseio
fôra possuí-la -
a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar
ao mundo alheio,
essa que tão somente
astros encara

Por que não sou
como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo,
em mim preferes
aquela que é
o meu íntimo avantesma...

E, o meu amor, 
que ciúme dessa estranha,
dessa rival
que os dias
me acompanha,
para ruína gloriosa
de mim mesma!


PERFUME
À Alberto de Oliveira

Vaga revelação das sensações secretas,
das mudas sensações dos mudos vegetaes;
arco abstracto que afina as emoções dos poetas
e que ao violino da alma arranca sons iriaes.

Ó perfume que a dôr das plantas interpretas
e encerras, muita vez, desesperos mortaes!
busco sempre sentir-te errar, nas noutes quietas,
quando teu floreo corpo em somno immerso jaz.

És um espiritual desprendimento ao luar,
si á noute sonha a flor do calice no leito,
e és a transpiração da planta á luz solar.

Mas, si acaso, te estrahe o homem - sêr destruidor,
perfume! - descomposto, inane, liqueifeito,
és a essencia, és a vida, és o sangue da flôr.


FELINA

Minha animada boa de veludo,
minha serpente de frouxel, estranha,
com que interesse as volições te estudo!
Com que amor minha vista te acompanha!

Tens muito de mulher, nesse teu mundo,
lírico ideal que a vida te emaranha,
pois meu ser interior vejo desnudo
se te investigo a mansuetude e a sanha

Expões, a um tempo langoroso e arisca,
sutilezas à mão que te acarinha,
garras à mão que a te magoar se arrisca

Guardas, ó tato corporificado!
A alta ternura e a cólera daninha do
meu amor que exige ser amado!


OLHOS NUNS OLHOS

De onde vêm,
aonde vão teus olhos,
criança,
tão cansados assim
de caminhar?
Dessa tua existência
nova e mansa
como pode provir
um tal pesar?

A alma de fantasia
não se cansa!
Nunca existiu tristeza
nesse olhar;
é que a minha mortal
desesperança te olha
e nos olhos teus
vai-se espelhar

Com toda a vista
em tua vista presa,
penso: uma dor
tão dolorosa assim
só há na minha
interna profundeza...

Não me olhes mais,
formoso querubim!
que vejo nos teus olhos
a tristeza
dos meus olhos
olhando pra mim


ESBOÇO

Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforescentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...


ENCANTAMENTO
A Francisco Alves - O perfeito intérprete da canção brasileira

Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.
Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.
Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...
Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!
Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.
(...)


REFLEXÃO

Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.
Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detêm-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.
Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...
Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...


REFLEXÕES IV 

Eu sinto que nasci para o pecado,
 se é pecado, na Terra, amar o Amor;
 anseios me atravessam, lado a lado,
numa ternura que não posso expor. 

Filha de um louco amor desventurado,
 trago nas veias lírico fervor,
e, se meus dias a abstinência hei dado,
amei como ninguém pode supor. 

Fiz do silêncio meu constante brado,
 e ao que quero costumo sempre opor o que devo,
 no rumo que hei traçado. 

Será maior meu gozo ou minha dor,
ante a alegria de não ter pecado
 e a mágoa da renúncia deste amor?!...


INCENSO
A Olavo Bilac 

Quando, dentro de um templo, a corola de prata
do turíbulo oscila e todo o ambiente incensa,
fica pairando no ar, intangível e densa,
uma escada espiral que aos poucos se desata. 

Enquanto bamboleia essa escada e suspensa
 paira, uma ânsia de céus o meu ser arrebata,
 e por ela a subir numa fuga insensata,
vai minha alma ganhando o rumo azul da crença. 

O turíbulo é uma ave a esvoaçar, quando em quando
arde o incenso ... Um rumor ondula, no ar se espalma,
 sinto no meu olfato asas brancas roçando. 

E, sempre que de um templo o largo umbral transponho,
logo o incenso me enleva e transporta minha alma
à presença de Deus na atmosfera









Paulistana apenas por nascença e vivência. Estudante de Jornalismo, professora de Inglês e colunista do Jardim Elétrico. Acredita que sua alma reencarnou em diversas personagens da literatura no passado e é louca por advérbios de intensidade. 








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