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17 de dezembro de 2014
FLAQ – FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES - PARTE 2

FLAQ – FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES - PARTE 2

Parte 2 (Final)

O sábado amanheceu imperioso, sem caber em todos os espaços, se imiscuindo em frestas, réstias de sol enfeitando o dia, que parecia saber disso, convidando-nos para receber a literatura em Aquiraz. Ou melhor: ir ao encontro dela.

No segundo dia, que seria o meu último por lá, corri para a festa literária com o intuito de encontrar a escritora Socorro Acioli e fazer-lhe uma singela homenagem. Assim, percorri caminhos de asfalto tendo um céu limpo e claro à minha frente, estrada adentro, rumo ao encontro. Esperei pela autora na porta do local da festa, bem na entrada, com a alegria juvenil que só cabe àqueles que se reconhecem parcialmente crianças. Socorro chegou com o marido e a filha, entreguei-lhe o presente e me despedi com uma foto e um beijo carinhoso.

Homenagem feita, corri para o mini-curso de João Anzanello Carrascoza, com dicas de como escrever um conto. João é um cara bastante aberto, solícito, e ter sido seu aluno por algumas horas me encheu de orgulho.

Durante o curso, conheci também um outro escritor, André Argolo, que trabalha para a editora Global e que estava lá para fazer filmagens do evento para a editora. Eu não sabia nada sobre ele, mas logo descobri que ele já tem um livro de poemas publicado (pela editora Patuá), que desempenha um trabalho lindo na editora e escreve para o suplemento literário Rascunho, um dos mais respeitados do país. André é dono de um papo intimista, conversa com afeto e delicadeza e sua visão sobre a literatura daria toda uma crônica em sua homenagem. Enquanto interagíamos, antes, durante e depois do pequeno curso do Carrascoza, guardei a certeza de que ali estava um cara que provavelmente seria um grande amigo, se a distância geográfica não fosse um muro de Berlim ainda erguido (mas sem beligerância a separar as duas partes). E fiquei sorridente o dia todo, por ver e sentir na pele como a literatura é capaz de estreitar laços, ainda que, no nosso caso, tenha sido algo de vida breve. Mas o recado estava dado.

Terminado o curso e as conversas, era a minha vez de voltar a ser professor, e corri para Fortaleza para dar uma aula. De volta, minha aluna chegou e com poucos minutos de conversa, o destino estava traçado. Sendo ela uma grande entusiasta de tudo o que pode trazer novas sensações, descobertas e experiências (ou seja, é das minhas), topou mudar os planos e ir para a FLAQ no período da tarde.

Dirigimos os trinta e poucos quilômetros que separam minha casa do local da festa literária, conversando sobre nossas expectativas a respeito dos eventos que estavam programados, sobre os escritores que eu queria apresentar pra ela e as possibilidades que nos aguardavam.

Ao chegarmos, enfrentamos uma desorganização logo na entrada: as recepcionistas não sabiam informar se quem não estava inscrito, mas não iria usufruir das atividades do parque ecológico onde o evento acontecia, podia entrar sem pagar ingresso ou não. Uma outra disse logo que “não estamos abrindo exceção pra ninguém”. Eu não estava afim de comprar aquela briga, pegamos o crachá no qual é debitado o valor da entrada, a ser pago na saída juntamente com o que quer que se consumisse no local, e fomos adiante.

O tempo fugia – a amiga tinha compromissos em Fortaleza, não podíamos ficar por muito tempo. Como numa espécie de conto de fadas, tínhamos que ir embora antes de um determinado horário, do contrário ela perderia algo muito importante – sem direito a príncipe depois para dar a ela um final feliz.

Por conta disso, procuramos ser objetivos. O que não poderíamos imaginar, entretanto, eram as surpresas que nos aguardava.

Mais uma vez, Ignácio de Loyola Brandão apareceria do nada, como se brotasse do chão. Também tivemos o privilégio de conhecer dois grandes escritores, inesperadamente. E, no meio disso tudo, o roubo de um livro de forma inexplicada.

No mesmo espaço onde no dia interior falara Ilan Brenman, agora encontravam-se Bernardo Kucinski e Rodrigo Lacerda, ambos conversando sobre História e o romance histórico, num debate tão vibrante quanto emocionante, em que ambos defendiam seus pontos de vista com paixão, assertividade e de quebra ainda contavam causos pessoais, que os levaram a escrever suas mais recentens obras – a de Lacerda, narra a vida do avô, Carlos Lacerda. A de Kucinski, a dele próprio e as agruras que viveu na ditadura brasileira.

Terminado este momento, ambos foram a um espaço ao lado da livraria do evento, que por sua vez ficava ao lado do palco onde no dia anterior eu tinha visto Ignácio de Loyola Brandão conversar com seu editor.

Eu e minha amiga caminhamos para o tal espaço, composto de duas mesas postas lado a lado, juntas, dando a parecer que era apenas uma, e uma cadeira em casa uma delas. Quando chegamos lá, Rodrico e Bernardo já conversavam animadamente e atendiam algumas poucas pessoas. Pedi à minha amiga pra tirar uma foto com o Rodrigo, caso ele aceitasse, e outra com o Bernardo. Então, cheguei para o Rodrigo com seu livro na mão, ele autografou, muito simpático, e autorizou que tirássemos a foto. Em seguida fui para o lado de Bernardo. Coloquei minha sacola com os dois livros, um de cada autor, sobre a mesa. Nesse momento, vi que uma sacola branca com a logomarca da livraria ia sair na foto, e afastei-a para o lado. Minha amiga tirou a foto, eu agradeci, peguei a sacola com os livros e fomos a um outro ambiente.

Com a fome já apertando, adentramos ainda mais no parque ecológico, onde havia um restaurante. Sentamo-nos e fizemos os pedidos – comida apenas mais ou menos e um atendimento pífio.

Resolvi dar uma olhada no que havia sido escrito nos meus livros. O do Bernardo Kucinski estava ok, tudo certo. O do Rodrigo Lacerda estava autografado para alguma mulher de nome japonês.

Olhei para a minha amiga, confuso. Disse:

“O Rodrigo Lacerda autografou meu livro para outra pessoa.”
“Como é que é?”, indagou a amiga.

E eu repeti a afirmativa e mostrei o livro. Ela riu, aquela risada gostosa e verdadeira, que vem de algum lugar indizível. Depois disse: “Mas não pode ser. Eu vi a hora que ele escreveu o seu nome no livro!”.

Claro que eu não acreditei nisso. Achei que ela estava delirando. No ângulo em que estava, não tinha como ela ler meu nome sendo escrito no livro, imaginei eu. Falei que não havia problemas, que eu até achava interessante ter um livro que era pra ter sido autografado pra mim e que por alguma confusão mental, o autor escreveu outro nome.

Continuamos a conversar por mais alguns minutos sobre o caso, até que ela aventou a hipótese de que, em algum momento, meu livro fora trocado com o de alguém.

“Em que momento, Angélica? Foi confusão do Rodrigo Lacerda mesmo, sem dúvida. Não tem como ter tido essa troca de livros, eu recebi o livro das mãos dele e enfiei na sacola”.

Parecia mesmo ser um mistério de ordem sobrenatural. Algo para um Padre Quevedo. Tivesse sido um crime de morte, seria algo para Sherlock Holmes desvendar. Empenhados em encontrar uma solução, entre risadas e ideias, confabulávamos.

Até que veio a centelha esclarecedora.

De fato, eu havia recebido o meu livro das mãos de Rodrigo Lacerda e o havia posto na sacola, de onde tirei o do Bernardo Kucinski para que ele o assinasse. Na hora da foto com o Kucinski, entretanto, vi uma sacola sobre a mesa e a coloquei mais para um canto da mesa, para que a foto tivesse uma estética melhor. Tirada a foto, peguei a sacola, enfiei o livro dele dentro e saí de lá.

A solução para o mistério é a seguinte: eu também havia colocado minha sacola sobre a mesa. Ao sair, peguei uma outra sacola que também estava lá – uma sacola da mesma livraria onde eu comprara os livros dos dois autores, a livraria da festa literária, que continha um livro que Rodrigo Lacerda havia autografado para a esposa do Kucinski – o nome feminino japonês – e para o próprio Bernardo – que ele escrevera apenas “Bernardo”, em letras rápidas, daí a dificuldade de compreendê-las. A letra só se tornou legível com o mistério solucionado.

Compreendido o drama, nos levantamos, com um pouco de comida ainda nos pratos, pra ver se dava tempo de ver os dois autores e desfazer o mal-entendido.
Deu, mas foi por pouco.

Nenhum deles se encontrava mais sentado lá. Conversavam, já de pé, com outras pessoas do evento, em tom de despedida. Aproximei-me de Kucinski e fiz uma pergunta estúpida, na tentativa de quebrar o gelo com uma gaiatice:

“O senhor tem alguém na família de nome japonês?”

Ele olhou pra mim atravessado. Demorou dois segundos e respondeu dizendo: “Ah!, você que é o Marco que levou meu livro! Rapaz, precisamos desfazer esse equívoco.” – E sorriu. Pelo menos. Mas eu estava tão cego que demorei para perceber que a mulher de nome japonês estava exatamente ao lado dele. Uma senhora franzina, silenciosa e quieta como imaginamos que são os japoneses. Acabei por me sentir ainda pior. Antes que o sentimento se instalasse, ele já estava caminhando em direção ao caixa da livraria, de onde puxaram um exemplar, que ele me entregou. Chequei e vi meu nome lá dentro. Entreguei o que estava comigo para ele, que quis devolver um outro, que tinha comprado para repor o que havia sido levado, para a livraria. Não sei que fim teve essa parte da história, já que o exemplar já havia sido riscado – o terceiro dessa história – e eu, num misto de constrangimento e culpa, tratei de dar o fora dali o mais rapidamente que pude.

[Em tempo: já conversei brevemente sobre o ocorrido com o Rodrigo Lacerda, que me garantiu que ninguém ficou com raiva e todos foram para suas casas alegres e satisfeitos. Menos mal].

A história ainda não acaba aqui.

Depois de mais umas circuladas pelo espaço, reencontrei Ignácio de Loyola Brandão, a quem eu achava que não iria ver, porque sua despedida da FLAQ seria numa palestra dali a mais de uma hora – e por conta dos compromissos da amiga/aluna que viera comigo em Fortaleza, a tal altura já deveríamos estar de volta.

O encontro foi uma pequena festa. Ele conversava animadamente com uma senhora jovial, muito bonita, na mesma mesa que há pouco estava ocupada por Rodrigo Lacerda e Kucinski. Eu cheguei de mansinho, de mansinho, e mais uma vez ele olhou pra mim interrompendo uma conversa. Desta vez, entretanto, ele me olhou como quem já sabia que havia visto aquela pessoa em algum lugar. Sorri de volta, contei das histórias do dia anterior, pra acelerar o processo de reconhecimento (é querer abusar demais de um autor incansável, que passou dias no Ceará visitando comunidades, escolas, os cantos mais longínquos, mas que também deve ter seus limites) – dentre as quais, o fato de que a amiga que me acompanhara trouxera a edição do romance Zero que foi apreendida pela ditadura, e que muito emocionou o Ignácio quando ela tirou seu exemplar da bolsa para que ele assinasse. Tanto, que ele mencionou este fato durante a sua palestra, a qual assistimos juntos na noite de um dia antes.

Com seu bom humor sempre presente, como se detivesse o conhecimento da fórmula da vida, Ignácio sorriu e disse:

“Eu tenho que ir aqui nesta livraria e comprar um livro pra este rapaz. Foi a pessoa pra quem eu mais autografei livros nessa feira!”

Ao que eu, a esta altura sem saber o que dizer, disse a obviedade esperada, que o presente que ele poderia me dar era escrever mais e mais livros, e rapidamente tratei de entregar a ele os livros que eu acabara de comprar. Uns pra mim, outros para dar de presente. Ele assinou todos, escrevendo pequenos textos personalizados em cada um, com uma atenção e uma diligência inefáveis.

As pessoas chegavam à feira com olhares curiosos. Era nítido que muitos ali não tinham tanto acesso não apenas ao objeto livro, mas também a ver palestras e discussões em torno da arte, do fazer literário. E aquilo tudo era emocionante.

Sentei-me à uma mesa com a amiga que também é aluna. Ainda rindo do roubo involuntário, um pouco atordoados com a multitude de cenas, cores e acontecimentos, paramos e ficamos a observar longamente o que se desenrolava diante de nós. Naqueles minutos, nos isolamos um do outro. Éramos dois à mesa, mas cada qual em seu mundo, com suas próprias impressões do universo ao redor. E que bom que era assim. Ali, aluno e professor se fundiam com amizade e paixão pela leitura, cada qual desfrutando do sabor da vida à sua maneira.

Crianças pulavam e brincavam – e gritavam um pouco, também. Mas só o tanto suficiente para demonstrar que eram saudáveis. Jovens de ambos os sexos, nem tão mais jovens assim. Estavam todos ali, compartilhando do espaço, dos afetos, fazendo(-se) questionamentos, tateando, descobrindo.

E é justamente do descobrir – e do inventar – que a arte se faz e se renova. E é por sermos tão humanos que também seguimos o mesmo processo de descoberta e invenção, para que nós possamos nos renovar, por conseguinte – e através da arte, não morrer jamais.






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11 de dezembro de 2014
FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES

FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES




Parte 1 – Primeiro dia

Quando estacionei o carro em frente ao local onde estava ocorrendo a FLAQ – Festa Literária de Aquiraz – notei prontamente o nome na fachada: COLONIAL. Mais do que nos remeter ao período em que o Brasil era subserviente a Portugal, Colonial é a marca de uma das cachaças mais famosas do estado. Achei aquilo intrigante. A leitura, que pode ser um vício, estimulada dentro de um lugar que representa um outro vício, nem sempre associado a algum positivo. A ironia do momento me passou pelo pensamento e eu sorri, enquanto saía do carro junto com a amiga que me acompanhava e o trancava.

Pouco importava. Afinal, além de incorrer num falso moralismo, eu havia contado cada instante antes de chegar em Aquiraz, cidade que fica a 27 km de Fortaleza e que foi a primeira capital do Ceará. Queria mesmo era conhecer o local e curtir o evento com minha querida companheira.

Ao adentrar o lugar, descobri muito mais do que um museu em homenagem à bebida oriunda da cana de açúcar e seus antepassados que remontam aos engenhos. O local, batizado de “Engenhoca” (o que achei um erro, porque rima com o nome da maior rival deles, a cachaça Ypióca), é um parque ecológico fincado no meio da cidade. Ao caminhar por um espaço que lembra uma estradinha rumo ao que realmente importa, parece que saímos de um túnel estreito, uma espécie de portal, e nos deparamos com um universo grandioso, repleto de luz, espaços arquitetônicos bem pensandos e muitas árvores, mato e cheiro das flores e frutos caídos, em processo de decomposição, exalando seu perfume inebriante.

Uma vez sentido, o espaço me convidou a perscrutá-lo e ler sobre o homenageado da festa: o autor paulista Ignácio de Loyola Brandão. Grandes flanelógrafos ambulantes, posicionados como totens retangulares para onde quer que se olhasse, traziam a foto do autor em diversas fases da vida, capas de seus principais livros nas mais variadas edições, e textos, muitos textos sobre a vida e a obra do autor. Em todos os espaços, os quadros repletos de informações pareciam nos acompanhar, seduzindo o visitante, convidando-o a dar o passo seguinte: sair para qualquer lado, na direção dos livros.

Na verdade, essa era mesmo a ideia. Unir a área ecológica – respirar o ar repleto de verde – ao ar repleto de vida literária. E nesse sentido o evento foi muito feliz. Para um lado, o museu da cachaça, uma capela e uma loja de conveniência do próprio parque; para outro, a simpática livraria montada no local, com livros expostos em prateleiras baixas e em mesas também ao alcance da mão, algumas funcionárias simpáticas e solícitas mas que não dominavam muito bem o acervo do espaço – perguntei se havia um livro da Ana Miranda e recebi um não como resposta. Passados alguns minutos eu descubro por mim mesmo um livro da autora – mas cuja disposição em ajudar tornaram este senão um quase nada.

Perto de lá, um espaço com várias cadeiras e bancos que mais pareciam bancos de igreja, e um palco com um telão atrás.

A tarde já começava a anunciar o prefixo para a noite, que se inseria, ferina.

Ao meu lado, num enorme galpão rústico, com paredes de tijolos aparentes e teto sem forro, falava o autor de livros infantis Ilan Brenman. Sentei-me ao lado de minha amiga, esperando a palestra seguinte, do homenageado Ignácio de Loyola Brandão, enquanto ouvíamos o autor de livros infantis falar sobre seu processo criativo (escrever sempre), sobre de onde vem a inspiração (da sua vida cotidiana, na maioria das vezes) e sobre as dificuldades editoriais (que têm de ser vencidas didaticamente, explicando aos editores o que ele quer e precisa dizer em cada obra).

Ao fim da palestra, resolvemos sentar mais à frente, deixei minha amiga no local que escolhêramos e fui sentir um pouco do ar lá fora. É nesse instante que vejo Ignácio de Loyola Brandão a uns três metros, na calçada, conversando com uma moça cuja beleza chamava a atenção. Ela sorria com os olhos, e os lábios do autor respondiam ao contato visual, enlarguecidos, receptivos.

Aproximei-me vagarosamente, esperando aquele momento de magia esvanecer. Mas um gesto meu fez com que Ignácio desviasse o olhar, e me dirigiu a palavra: “Você quer falar comigo?”, perguntou, num vozeirão firme mas delicado, acessível. Braços abertos através da voz. “Sim”, disse num tom tímido, que nega a forma loquaz pela qual sou conhecido. Mal sabem os que me cercam que excesso de palavras, por vezes, são um esconderijo.

Ele me chamou para perto, e começamos a conversar, já dentro do papo que ele levava com a moça dos encantos.

Ignácio de Loyola Brandão é de uma presença inesquecível. Afável, genuinamente brincalhão, dono de um senso de humor capaz de salvar o dia, Ignácio não se posiciona com o estoicismo, a arrogância e a superioridade que muitas vezes observamos em alguém de sua envergadura. Por ser o oposto disso, a vontade que temos é a de que o tempo não passe, para ficarmos ali, em sua preciosa companhia. Ouvi várias histórias do autor, até que me dei conta de que o tempo não se empresta a caprichos, e dali a cinco minutos era a hora da tal fala do homem.

Perguntei se ele autografaria uns livros que eu trouxera, e se eu poderia tirar uma foto com ele. Um “mas é claro que sim”, foi a resposta. Em pleno calçadão, com os passantes nos seus ir-e-vir, perscrutando suas vontades de ocupação, vivi ali um grande momento. Mas não acabara ainda.

Corri para pegar minha máquina fotográfica e meus livros que eram dele, e já na volta vi, num elevado alguns passos adiante, Pedro Bandeira, o grande escritor juvenil, a alguns degraus de mim. Mais uma virada de cabeça e ao meu lado passava João Anzanello Carrascoza, num ecossistema tão plural quanto fascinante.

Minha atenção, entretanto, voltava-se para o Ignácio, que pediu para que fôssemos até uma mesa, onde estava o Pedro Bandeira, sorridente como só ele, com aquela boca arreganhada a acariciar o mundo, tornando-o o bigodudo mais simpático de todos os tempos.

Livros autografados, foto tirada, a noite finalmente desceu sobre nós.

Vi ao longe e reconheci o editor do Ignácio, Luís Alves, outro homem extremamente amistoso, disposto a um bom papo e trocas de impressões. Fui perturbado por algo que sempre me tira a paz: sou só eu ou mais alguém tem vontade de pedir a alguém que gosta, respeita ou admira, para parar de fumar, quando percebe nela o hálito de cigarro? Não sei se o que mais mexe comigo é o fato da pessoa ir se destruindo aos poucos, ou se o fato de eu querer me meter com algo tão pessoal, com uma vida que não seja a minha. Autocrítica ou egoísmo? Dane-se. Fiquei calado.

Logo mais, ambos foram a um palco conversar sobre a relação de mais de trinta anos que eles têm na editora Global – dessas relações raras, caras e quase sobrenaturalmente longevas no meio editorial de hoje. Foi um papo gostoso, com alguns momentos que demonstraram, entretanto, a desorganização do evento: o primeiro é que o telão por trás das pessoas no palco – Ignácio, seu editor, Luis Alves e o mediador, Jorge Félix – brilhava muito, a ponto de não nos fazer enxergar as pessoas no palco. E o microfone foi trocado umas quatro vezes. Ninguém – nem plateia nem convidados – conseguia se concentrar no momento. Ambos os problemas foram resolvidos com mais de vinte minutos de papo. As pessoas se impacientavam, mas era tão gostoso ouvir aquelas pessoas falando, que muitos, como eu, apenas fechavam os olhos e cegavam para o mundo, apenas ouvindo o que vinha da nossa frente.

Outro momento chato foi quando apareceu um senhor que quis fazer uma pergunta. O louco de palestra está em toda parte, isso não é segredo. Longe de ser um ser único, que floresce a cada eclipse lunar, esta já folclórica personagem, que se transmuta em qualquer formato de corpo, de qualquer sexo, brota como erva daninha. Duvida? Pois coloque alguém num palco pra falar e rapidamente aquela criatura que levanta a mão e faz algum tipo de pergunta absurda fica de pé, ou levanta o braço, anunciando sua presença – e deixando-o lá mesmo, no alto, esteja seu dia já vencido ou não. Ou então começa logo a falar como se ele fosse o convidado.

Foi justamente isso que aconteceu no evento em questão.

O senhorzinho já se levantou com um livro na mão (que só se pôde identificar como tal alguns minutos depois), empunhando-o como quem carrega uma foice. O microfone se fez chegar até ele, que o dispensou com um gesto de “sai pra lá que eu não te quero não”. Mal sinal. Aquilo significava que ele ia bradar alto o suficiente para todo mundo ouvir. Quem faz isso não está disposto a falar pouco. O medo se instalou na plateia. E o que era mesmo aquilo que ele tinha na mão? Dramático, temi pela vida de Ignácio de Loyola Brandão, já me perguntando onde estariam os seguranças. Não vi nenhum, e eu não estava num local em que eu pudesse ser o segurança dele – nem de ninguém, essa é que é a verdade. Então, o homem berrou, como se estivesse ensaindo para uma peça que tivesse Fernanda Montenegro como diretora, observando da primeira fila.

“Senhor editor! Trago aqui um desafio!” As pessoas se entreolhavam. O que era aquilo, alguma pegadinha? Iam fazer uma gincana-surpresa para sortear um livro? Afinal, era um livro aquilo que ele tinha na mãos? Educadamente, Luis Alves se ajeita na poltrona e pergunta: “Qual seria esse desafio?” O tom de voz não denotava outra coisa senão cansaço, mas não era. Ou até poderia ser, mas um outro tipo de cansaço. Um bom observador perceberia que naquela pergunta já estava embutida a frase “Mais um louco de palestra”, seguida de uma longa e pausada respiração. Mas Luís Alves é um lorde, e não disse nem a primeira frase nem bufou ao microfone. Apenas esperou, pacientemente, o senhorzinho se manifestar.

Foi então que o homem atirou, à queima-roupa: “O senhor toparia levar este livro para São Paulo e avaliá-lo para ser editado pela sua editora?”. A esta altura, claro, ninguém falava mais nada. Ouvia-se o zunido de uma muriçoca tomando fôlego pra pegar embalo e voar pros braços e pernas de alguém. Discretamente – e com o conhecimento de quem sabe que aquilo ainda iria render muito – Ignácio de Loyola Brandão repousou o seu microfone ao seu lado no sofá. Acho que ele já tinha a certeza de que dali pra frente, era sono profundo para o aparelho.

Em resumo, o homem contou toda a sua história, se demorando nas partes chorosas e sendo incisivo nas partes em que rogava por uma chance, com trejeitos de quem estava prestes a pedir de joelhos. Antes que essa cena se desse, diante de um mediador que a esta hora devia estar brincando de estátua consigo mesmo, porque não se ouviu nem um pio vindo do seu microfone, Luís Alves, do alto da sua sabedoria de décadas participando ou tendo notícia de tais momentos, disse ao tal candidato a autor publicado, com extrema delicadeza, que não era ele quem decidia se um livro ia ou não ser editado, que existia um conselho, que isso e aquilo, mas que levaria o livro do homem.

Pena que eu havia deixado o meu em casa, repousando num arquivo de Word no computador, pensei, rindo daquilo tudo.

Claro que aquele não era o caminho, e eu jamais entraria nesse jogo do desespero, da ingenuidade e da falta de bom-senso.

Para animar as almas, que viram o fim do espetáculo terminar de forma tão pífia, três músicos adentraram no palco e tocaram Miles Davis e Chet Baker para ouvidos atentos – até que, quarenta minutos depois, uma senhora de prancheta na mão e cara de poucos amigos mandou parar tudo, fazendo gestos em formato de X com os braços, sucessivas vezes, dizendo “encerra, encerra” com os lábios, ao que o povo pedia “só mais uma!”, e ela, agora já falando para todos, “Não dá, o parque tem que fechar. Todas essas pessoas têm de estar aqui de novo 8 da manhã, elas estão mortas!”.

Bom, era nítido que ela mandava ali. Faltava pouco mais de duas horas para aquele dia se transformar num outro. E era bom saber – e sentir – sob a luz da lua que banhava todo o espaço, lembrando-nos que, ao nosso redor, só a natureza em sua esplendorosa majestade imperava naquela cidade do interior, onde éramos acolhidos em um lindo evento literário. Não eram suas falhas que maculariam o todo. De jeito nenhum.

A música parou. Segundo a chefe do local, os funcionários estavam mortos. Mas quem curtiu a festa até ali, sabia que voltaria para casa sabendo-se muito vivo.

E assim fomos.


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1 de dezembro de 2014
NÃO ERA EU, MAS SÓ QUE ERA

NÃO ERA EU, MAS SÓ QUE ERA



Tinha tudo pra ser um dia como outro qualquer.

Você acorda, daquele mesmo jeito entorpecido de sempre, ainda com o barulho do celular que te despertou no ouvido (já são seis horas, você pensa, resignadamente); vai ainda meio cambaleando pra cozinha, a gata se desvia do caminho (ela sabe que pode ser vítima do seu estado de letargia, afinal, já convive com você há três anos), você bebe água e volta pro quarto, onde vai se preparar para começar o seu dia normal de trabalho.

Está tudo dentro dos conformes, até no gesto de descer as escadas apressadamente, como se estivesse atrasado; com o saco de lixo na mão para depositar no local correto. Dirige-se ao carro pensando no pequeno problema que tem de reparar no mecânico, suspira ao lembrar-se do trânsito que tem pela frente, entra no carro, dá a partida e vai. 

Lá pelas tantas, alguém dirigindo um carro de médio porte resolve sair de uma rua lateral e entrar na sua frente. Um motoqueiro se assusta com o veículo que se materializou de súbito, quase se jogando de encontro ao seu próprio carro. E você mesmo, se não freia, teria chocado violentamente no carro alheio. 

É a partir daí que as coisas degringolam. 

Você corta o carro, se posiciona na frente dele e não sai mais. A pessoa atrás de você dá um sinal de luz, e você permanece lá, parado. Dois segundos depois, faz gesto com a mão pela janela, como a dizer "passa por cima agora, seu...". E em seguida, mostra aquele dedo. Os motoristas começam a buzinar. Você, ainda com ódio, bate por fora na porta do seu próprio carro. Sua intenção é assustar e intimidar o motorista que lhe causou tanta ira. 

Em seguida, você, ainda fervendo, passa a primeira e sai dali, deixando um motorista estático  para trás.

Não se levando em conta as inúmeras possibilidades do que poderia ter acontecido a qualquer um dos envolvidos, desde "simples" agressão verbal até a morte de um ou todos os envolvidos, o que ocorre é que, muitas vezes, sem que a coerência seja chamada para a conversa, agimos de uma maneira que, passada a fúria, nos pegamos dizendo a nós mesmos: eu não sou essa pessoa.

A explicação faz sentido: ninguém quer levar fama de ser truculento, grosseiro ou violento. A questão é o auto-engano contido na assertiva. Dizer que você não se reconhece na atitude, que não costuma agir de tal e tal maneira, vá lá. Mas dizer que não é você... sinto muito, mas é. Não tenha dúvidas: é você, completamente você.

Provavelmente um você que precisa ser contido, domesticado, trabalhado. Afinal, não se convive em sociedade com esse tipo de atitude. Pelo menos não se elas vierem com frequência, e numa escala crescente que leve aqueles que nos amam a questionar quem realmente somos.

A questão toda está no fato de que somos aquilo ali também. E sim, há coisas em nós que precisam ser revistas. E se um dos sentidos de estarmos aqui não for evoluirmos, então somos mesmo uma bela escarrada de Deus, algo em que me recuso a acreditar. Não por motivos religiosos, mas pelo simples fato de que não é algo que eu sinta, ao caminhar pela vida. 

Podemos ser muito mais coisas do que pensamos ou acreditamos; algumas dessas coisas talvez até nos fizessem mais felizes do que somos hoje (quem sabe?). Muitas vezes, o medo arraigado de estar transgredindo algo nos torna estático. E o fato é: o medo de transgredir muitas vezes impede a transcendência. 

Se você não estiver fazendo algo que magoe alguém, que destrua laços ou aniquile alguém irremediavelmente, dê o passo seguinte. Qualquer que seja o resultado, sempre será você, ao fim e ao cabo. Só há o que temer quando não buscamos mudar. A estagnação é o que nos mumifica em vida, o que nos impede de nos tornarmos pessoas melhores, se não para outros, para nós mesmos. 


Não importa o que a gente descobrire que existe dentro dos nossos lugares mais escuros. É essa pluralidade que nos move, o que faz as sociedades irem adiante (embora nem sempre pra frente). E, se em toda uma vida, mal começamos a descobrir um mínimo que seja de nós mesmos, é bom que se entenda: quanto menos ínfima for nossa contribuição para o mundo, é porque maior foi nossa transgressão diante das amarras que a vida nos impõe. Medo de se soltar dos grilhões? Todos temos. Mas nos libertar deles já é parte do processo. Sem culpa, como deve ser qualquer ato mínimo em direção ao desconhecido que nos liberta. Sempre.




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3 de novembro de 2014
Por escrito, de Elvira Vigna

Por escrito, de Elvira Vigna




No rastro dos escritores que começaram a tomar tom, cor e forma nos idos dos anos 90 até os dias de hoje, Elvira Vigna se situa numa posição sui generis. Primeiro porque é injusto dizer que ela começou a deixar de ser uma massa amorfa para existir nos anos 90, uma vez que a literatura parece sempre ter feito parte da vida da escritora, que começou a publicar na virada dos anos 70 para os 80 e não parou desde então. De lá pra cá, tem sido uma ativa escritora (inicialmente de livros infantis), ilustradora e tradutora. Mas apesar de um Jabuti por sua literatura infantil, tem sido desde que ela se consolidou como escritora de livros para adultos que seu nome vem sendo mais notado. Segundo porque, tal como sua obra, ela está e não está no meio literário. É um repleto perdido em lugares abstratos, onde a vida passa de maneira fugaz (e nem por isso menos atroz).

Por Escrito (Companhia das Letras, 312 páginas) não foge a esse amplo universo vigniano, que no fundo nada mais é do que o que existe de mais multifacetado dentro de nós mesmos, num juntar de peças que pode ou não resultar em alguma coisa. O que importa em sua obra - e sua mais recente traduz precisamente isto - parece ser o percurso, a trajetória, e o deserto que nos habita. 

["... eu precisava de um nome para o personagem principal que era uma mulher completamente idiota, muito fácil de ser machucada pelos outros".]* 

Por Escrito é narrado sem qualquer pacto com a linearidade. A autora abarca vários períodos (de transformação) da sua protagonista, com idas e vindas no tempo, mutações, mudanças, que exigem um leitor atento. Os personagens parecem se esconder de quem percorre olhos e dedos pelo livro. E o fazem através de uma linguagem que parece fazer de conta que é romance, que é relato, experimentando formas e caminhos de forma errática, mas nunca desviando o leitor da viagem para os recônditos dentro de si mesmo.

["... minhas histórias são sempre coisas que de fato aconteceram".]

Valderez, a narradora, é essa mulher de meia-idade que já viveu muitas vidas além da sua. Trabalha para uma empresa que lida com café, produtos de café, máquinas de café, e este emprego exige que ela esteja sempre de passagem pelos cantos-fugazes, pelos vazios abarrotados de aeroportos, carros com motorista que só se vai ver uma única vez e mais nunca, quartos de hotel, corredores e stands de eventos chatérrimos. E mais lá pra frente ela perde este bendito emprego. Até aí, sem grandes precipitações, porque 

["Nunca pude assumir tamanha fragilidade, essa facilidade com que as vezes me machuco".]


o "por escrito" que justifica o título na verdade é a forma que a narradora tem de tentar se entender. Ou não enlouquecer. Ela gosta de anotar as coisas, e resolve fazer este relato contemplativo para o amante, com quem tem uma relação de muito amor e algum desprezo. Ou de muito desprezo e algum amor, quem decide é o leitor.

["No papelzinho em que tomo nota do que se passa nessa manhã está escrito que não há pinheirinhos na Paulista em primeiros de janeiro. Também não há pinheirinhos nos outros dias do ano. Então, o que tomo nota no papelzinho é na verdade uma ausência de uma ausência. A condição de sem-pinheiro  não seria notada, não é para ser notada, já que essa ausência de pinheiros é a presença estabelecida, esperada, no cenário em questão. Mas sei por que tomo nota das ausências, eu sei. É isso, isso aqui que escrevo. É isso, isso aqui que escrevo. É uma questão do que está na nossa frente e nem notamos, o que está ausente mas presente. Qual dos ontens será o amanhã."]

Ao longo do romance, e ao unir as pontas soltas que a narradora vai deixando, podemos compreender essa imensidão dentro do não-lugar, que chega a ser quase um portal para quem está diante da hesitação, dos equívocos, do ir-ou-não-ir, do fazer-ou-não-fazer, dentre tantas outras efemérides que compõem a vida e o viver. E além disso, ou ainda dentro disso, temos também o que pode ou não ter sido um crime.  

["O Deserto Vermelho, de 1964, é um clássico do neo-realismo italiano. (...) Nele assim como no meu livro, as personagens aparecem ou desaparecem, sem que se veja exatamente quando, apesar de todos os detalhes estarem lá. (...) Em O Deserto Vermelho, como no meu livro, as pessoas estão sempre em lugares que não são os delas: de passagem, por acaso, ou simplesmente perdidas".]

Segundo a própria autora [Por Escrito] "é esse incômodo de você às vezes perceber que está vivendo algo que não está lá. Que a tua vida pode não ser o que você acha que é.".

["Tive na minha vida essas viagens que nunca acabavam nem começavam, de e para lugar nenhum, e onde eu passava a maior parte do tempo sem fazer nada, andando nas ruas, sentada em cadeiras pré-moldadas, deitada em colchas de hotéis baratos, olhando o negro das janelas de metrôs, o branco das janelas dos aviões, falando frases que não eram minhas. Desse período, tão longo, ficaram uns poucos dias. Uns porque nunca acabaram, outros porque nunca existiram, o anterior se debruçando sobre o novo que não conseguiu se instalar."]


["Tem uma coisa que aprendi trepando, porque fico bem mesmo trepando, ou seja, abrindo mão de qualquer defesa, qualquer controle, me permitindo uma integração completa com o que (quem) está perto de mim. E o que aprendi é o seguinte. Que é assim que se goza. E isso vale também para os que acham que estão no controle. Porque justamente não estão. São só mais frágeis. (...) O homem (no meu caso é homem porque trepo com homem) precisa inventar que tem o controle, o poder, que está lá dono da situação e que pode fazer o que quiser. É ele o mais frágil. É ele quem precisa de mais garantias, todas fictícias, para poder relazar e gozar. Se você fantasia o poder e o controle, você é muito, muito mais frágil. E isso serve mesmo quando não se está trepando."]

Elvira Vigna se entrega sem pedir permissão. Sem condescendência. E é por isso mesmo que seu Por Escrito invade, adentra sem antes bater. E é por isso que merece ser lido.

* Os trechos entre colchetes foram retirados do vídeo de apresentação do livro na página oficial da escritora, do texto de apresentação do romance escrito pela autora e de trechos do próprio livro.


SORTEIO

O LiteraturaBr dessa vez irá sortear o livro “Por escrito”, de Elvira Vigna, que foi editado pela Companhia das Letras. Pra participar é muito fácil, presta atenção pra saber como concorrer. 

Antes, alguns lembretes: a promoção é válida apenas para fan-amigos da fan page do LiteraturaBr e que têm residência no Brasil. A responsabilidade pelo envio do livro é nossa! O sorteio será realizado lá pelas 17h00m do dia 09 de novembro de 2014. O ganhador deverá entrar em contato com a fan page do LiteraturaBr para oficializar os trâmites para a entrega. 

Agora, sim, ao regulamento:
1. Curtir a fan page do LiteraturaBr<
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2. Marcar dois amigos nos comentários e compartilhar o sorteio;
3. Acessar a aba “Promoções” e clicar em “Quero Participar”;
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4. Compartilhar a imagem do banner da promoção (só é válido o compartilhamento a partir da imagem da nossa fan page; o compartilhamento também deve ser público).
Este sorteio também pode ser lido aqui: 
https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/400425


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2 de outubro de 2014
Fé em quê?

Fé em quê?



Sempre que me perguntam se acredito em Deus, eu dou um longo suspiro, que pode ser real ou imaginário, dependendo de quem a faça. Quando não, pergunto: "O que você entende como sendo Deus?". 

Um interlúdio nessa história para começarmos uma outra: há alguns dias, ao voltar do centro da cidade, de ônibus, exerci um hobby particular do qual muito me regozijo: observar as coisas e pessoas ao meu redor. 

Sentada do lado oposto ao meu, uma mulher de aproximadamente trinta anos, morena, cabelos brilhantes e bem cacheados, tira um estojo de maquiagem rosa da bolsa e, entre um solavanco e outro do ônibus, torna-se ainda mais exuberante com o artifício dos múltiplos pós, cores, lápis. Era de uma beleza sofrida, mas, tirando toda aquela camada hostilizada, via-se a beleza tênue da mulher guerreira. 

Por algum motivo, naquele momento, me pus a pensar sobre a beleza do mundo. Não a beleza estética, mas a beleza que se transfigura em tudo o que vemos e, sobretudo, naquilo que não vemos: a bondade, a caridade, a gentileza, a mão estendida naquela hora que mais precisamos. E também na que não. 

Inevitavelmente, também pensei nas agruras do mundo, nas múltiplas formas de violência possíveis de serem observadas. O horror das guerras, os sacrilégios cometidos em nome de Deus (seja lá qual for o Deus. Aliás, ele muda porque a religião muda?), a violência do trabalho escravo, das mulheres que sofrem nas mãos de homens brucutus, a cometida contra crianças; de todas as maneiras, os sofrimentos impostos ao Outro.

Eis que, por algum motivo, ela puxa da bolsa um envelope branco e, de dentro dele, retira uma imagem de um santo, plastificada, colorida como o rosto dela estava colorido, e começa a rezar baixinho. De vez em quando, fazia o sinal-da-cruz, e vez ou outra elevava o braço discretamente em direção ao céu. 

Foi quando, subitamente, comecei a pensar na força daquele gesto. Será, perguntei-me, mesmo sabendo que não teria uma resposta divina, que de alguma forma, com a energia positiva que ela emana do seu gesto, não estaria aquela mulher contribuindo para que o mundo seja menos ruim do que é?

A reflexão existe porque, embora a minha forma de enxergar aquilo a que se convencionou chamar "Deus" seja extremamente particular, creio, de uma maneira vívida, na energia que consigo sentir no mundo, nas pessoas, nos lugares. De modo que não me surpreendi ao me pegar pensando na possibilidade de que, somadas todas as rezas, orações, cânticos, de pessoas que realmente acreditam naquilo que emanam, talvez, ainda que infimamente, tais gestos possam liberar algum tipo de força (Deus?) que torna as coisas por aqui menos ruins.

Claro que não estou considerando aqui o mal que a religião pode fazer àqueles que creem de forma fanática, que não enxergam a multiplicidade da vida, nem do viver, e se arraigam à ideia de Deus como se fosse a tábua de salvação deles, nem das implicações que isso tem em suas próprias vidas, nem na vida daqueles cuja paranoia suas vidas tocam.

Voltemos então ao "acreditar em Deus". 

Sempre penso que a ideia do acreditar no divino que pode ou não tocar nossas vidas se faz de uma escolha; escolha esta que muitas vezes não é feita por aquele que deveria fazê-la, posto que a religiosidade adentra na vida de cada ser humano, na grande maioria das vezes, através de escolhas já feitas por familiares que estavam no mundo antes deles. E dependendo do núcleo dessa família, há aqueles que desejam (e conseguem) questionar, e aqueles que não desejam, nem querem. O problema em si não é não questionar a escolha religiosa dos seus. O problema é não questionar coisa alguma por causa da religiosidade dos seus. 

Deus é justamente essa escolha entre o permitir-se maravilhar-se com o inóspito do mundo, ou enxergar o mundo pelo que ele é: concretos, asfaltos, bichos e gente tentando ganhar a vida. E morrendo ao fim do ciclo. 

Qualquer que seja o seu entendimento do divino, ou do não divino, a vida acontece. Portanto, Deus existe. Não o Deus consciente do seu "rebanho" ou essas palavras traquinas que só existem para consolar ou arrebatar os tolos. 

O Deus que há no mundo é a própria vida e os seus mistérios. 

Assim, Deus nasce e morre. Todos os dias.
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18 de setembro de 2014
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Enquanto meu pai não vem


Em criança, não tínhamos muito como escapar de rotinas pré-determinadas pelos nossos pais, uma vez que eram eles que ditavam as regras, do corte de cabelo à roupa que vestir e aonde ir e com quem.
Estudávamos na mesma escola, minha irmã e eu. Ela, um ano mais nova, saía da sua última aula e ia me esperar no portão de saída do colégio, onde ficávamos, raramente juntos, aguardando nosso pai, que saía do trabalho e nos pegava, geralmente uns quarenta minutos depois.
Era nesse intervalo de tempo, contudo, que as coisas aconteciam, e foi num desses momentos que eu me lembro de ter me apaixonado pela primeira vez.
Ela era alta, tinha um corpo curvilíneo sem ser magro, – o tipo de corpo que eu tenderia a apreciar também em adulto, de pessoas que tivessem onde apertar – cabelos longos e pretos, como uma índia, e uns olhos claros que, aliados ao sorriso, seduziam mais do que o canto de uma sereia. E eu tinha a ilusão de que ela sorria para mim, quando a via passar em direção ao portão, indo buscar sua filha, que descobri ser uma das melhores amigas da minha irmã. Enquanto as duas ficavam conversando às minhas costas, eu sentava no batente do portão, pra que ela nunca deixasse de me ver, pra que eu pudesse sorrir para ela e receber um sorriso de volta, e ir pra casa feliz, satisfeito, e com ainda mais fome, essa coisa de bicho, incontrolável, que aumentava vorazmente quando eu a via – eu, que naquele tempo nada entendia das fomes do corpo.
Eu abria um sorriso e ela sempre sorria de volta, e era assim que nosso jogo de conquista se cumpria. Até que um dia eu a vi ao lado do marido, que parecia ser bem mais alto e forte do que eu – portanto, meu desejo de tirá-la dele aos murros, e levá-la comigo como só nas cavernas se fazia, liberando todo o meu primitivismo inconsequente, murchou ali mesmo. Como eu faria para tê-la comigo, então?
Estava claro que eu não faria coisa alguma. Tinha era que me contentar em sofrer minha paixão à distância. Estava fadado ao padecimento de amor romântico, no auge dos meus 11 anos. Mas a fome era insaciável, e eu continuava comendo. E por causa dela, também, continuava ébrio de amor.
Aos poucos, foi ficando claro para a filha que eu tinha algum tipo de paixão pela sua mãe, e até mesmo minha irmã notou, quando certo dia disse, dentro do carro: “O Lauro está apaixonado pela mãe da Rafaele. É um idiota, mesmo. Tu num viu que ela é casada, não?”. Na cabeça da minha irmã, este era o grande problema, e não os mais de vinte anos que nos separavam, o que a tornaria uma pedófila de acordo com os padrões atuais.
Não custa lembrar que estudávamos num colégio católico.
A amizade entre minha irmã e a filha do alvo da minha paixão foi ficando cada vez mais sólida. Elas iam fazer trabalhos de colégio juntas, às vezes a Rafaele dormia em nossa casa, às vezes ela dormia lá, e eu ia vivendo minhas coisas de menino, curtindo esse samba cuja letra era marcada pela solidão.

Um dia, minha mãe foi nos pegar, ao invés de meu pai. Era raro, mas acontecia. E ela já chegou anunciando: “A Rafaele vai com a gente”. Minha irmã ficou logo animada, achando que a amiga ia almoçar em casa, conosco. Mas a mãe tratou logo de dispersar a alegria: “Não, Isabel, nós vamos deixá-la em casa e depois vamos pra nossa”.
Eu não tinha ainda ideia do que estava por vir, mas naquele instante fiquei amuado, porque não veria minha musa. E minha irmã ficou igualmente calada do outro lado, porque a amiga não iria lá pra casa. E a amiga também foi em silêncio, talvez por não saber como quebrá-lo, talvez por ela mesma estar quebrada, depois de cair em seus abismos.

Deixamos Rafaele na casa de sua avó, e eu perguntei à minha mãe, ansioso que estava por notícias da minha amada: “Por que a gente teve que ir deixar a Rafaele em casa hoje?”. Fiquei sabendo que a mãe dela tinha precisado fazer uns exames, e que isso levaria o dia todo. Mas foi aí que tive a notícia que me fez ganhar meu dia: “E os pais dela estão se divorciando, e por algum motivo ele não pôde ir pegá-la”. Então agora ela poderá ser minha!, pensei de modo incoercível, até chegar em casa. Eu fazia planos, eu queria arranjar um emprego, queria poder sustentá-la e à filha, fazê-la feliz, já que aquele homem não conseguira, não quisera ou não pudera. Talvez amanhã, quando ela fosse buscar a Rafaele, eu pudesse juntar coragem e ir falar com ela, oferecer meu ombro, meu carinho, e quem sabe?

Juntei toda a minha coragem para, no dia seguinte, não apenas sorrir pra ela, mas me levantar, apertar sua mão, e aos poucos ir tentando puxar assunto, conversar, e adentrar no processo de sedução máxima entre dois seres humanos: o convite para sair. Estava tudo arquitetado na minha cabeça, só ia depender da receptividade dela aos meus planos.
Só que no dia seguinte, ela não foi. Nem no outro. No terceiro dia, foi a Rafaele quem faltou, então eu sabia com certeza que não veria sua mãe. Minha vontade de comer passava. Em casa, meu pai me forçava a ingerir alguma coisa, com as velhas ameaças de que eu não teria sucesso na escola, nem cresceria, se não me alimentasse direito. Eu pouco me importava em passar na escola ou crescer. Que se dane tudo!, eu pensava. E não aparecia ninguém para me dar notícias. Eu passava o dia inteiro na escola esperando a hora da aula terminar pra ver se a mãe da Rafaele apareceria, mas nada. Nem a própria Rafaele, nem ninguém. Perguntei pra minha irmã, que me respondeu com um seco “parece que a mãe dela tá doente”, e não disse mais nenhuma palavra.
Na semana seguinte, Rafaele voltou às aulas. Esperança renovada de que a gripe da sua mãe tivesse curado e eu pudesse colocar meu plano em prática. Mas quem apareceu foi uma senhora baixa e atarracada, com um olhar de quem já tinha desistido de viver. Ela chegou, fez um gesto com a mão e Rafaele a seguiu, bichinho acuado e obediente, rumo a algum carro que eu não via do lugar onde estava, provavelmente estacionado na outra esquina.
E assim os dias viraram semanas e meses. Por algum motivo, a mãe de Rafaele não vinha mais pegá-la, só a avó. Normal, pensei, lá em casa mesmo às vezes, quando um não podia vir, por causa do trabalho ou algum outro contratempo, quem vinha era o outro.

Perto do final do semestre, eu soube de tudo.
Enquanto almoçávamos para ir à escola, minha irmã caiu no choro. Um choro convulsivo e incompreensível. Será que ela estava ficando doida?, pensei na mesma hora em que vi minha irmã soluçando diante de um prato de comida que ela gostava. Não fazia sentido.
Não, não estava. Eu, o futuro marido, fui o último a saber. Senti-me traído, dilacerado, acabado, mas era como se as pessoas estivessem escondendo tudo de mim deliberadamente, numa tentativa esdrúxula de me poupar de algo – quando, na verdade, o pouco que se sabia até então não me era dito porque lá em casa cada qual vivia no seu próprio mundo, e o mundo de um não se interseccionava com o do outro. Portanto, se Rafaele não era minha amiga, eu não tinha motivo pra querer saber o que quer que se passasse em sua vida particular. Nada me impedia, porém, de me sentir arrasado.
Minha mãe correu para acudir minha irmã Isabel, que a esta altura já babava com a boca cheia de comida, e dizia que não conseguia engolir o que tinha na boca, que isso e aquilo, num ataque dramático-histérico que parecia que a mãe era a dela.
Sem nada entender, olhei para a minha mãe, que conseguiu me explicar depois de limpar minha irmã e fazer com que ela trocasse a camisa da uniforme para ir à escola, que a mãe da Rafaele estava com C.A.
Eu não fazia ideia do que fosse aquilo, mas pela situação que se criara ali, não era nada bom, nada bom. E as duas, minha mãe e minha irmã, pareciam saber mais detalhes do que fosse esse tal de C.A., e do destino que aguardava quem tinha esse negócio. Perguntei a ela o que aquilo significava.
“Sua vó, Lauro, a minha mãe, morreu de C.A. também. A avó que você mal conheceu, que lhe botou no colo e disse ‘é uma pena que não vou vê-lo crescer’, morreu bem novinha também. E eu fico morrendo de pena – e nessa hora ela também não se fez de rogada e seguiu o exemplo da minha irmã, que quando viu a mãe chorar voltou a fazer o mesmo – que a Rafaele vá ficar sem mãe tão cedo. Não é justo, meu Deus, não é justo!” – disse, chorando.
Meu coração parou de bater por alguns segundos. Eu estava perplexo. Depois de ver toda aquela cena, ainda ser informado de que a mulher da minha vida morreria. Eu mal conseguia conceber tudo aquilo. Aliás, eu não conseguia de jeito nenhum. E minha reação ao lidar com algo que não posso compreender era aos 11, como é até hoje, parar com cara de estupefação, para só depois do que parecem longas conjeturas, agir. Mas eu não consegui. Naquele dia, eu tive a certeza de que jamais veria a mãe de Rafaele novamente.

E de fato, nunca mais a vi. Soube, anos depois, que o pai de Rafaele se divorciou dela no ápice do tratamento contra o câncer. Sem condições de cuidar da filha e com vergonha de si mesma por ter sido mutilada ao retirar as mamas, numa época em que reconstruí-las custava muito dinheiro, e dinheiro esse que ela não tinha, Rafaele foi deixada com os avós maternos, que cuidavam dela como se filha fosse, enquanto esses mesmos avós tinham que lidar com a certeza cada vez mais premente da perda da própria filha.
Por fim, ela morreu. Dali em diante, Rafaele se transformou em mulher. Ninguém passa incólume a uma perda tão precoce, e não foi diferente com ela. Porque minha irmã ainda tinha mãe e não amadureceu tão rapidamente, as duas seguiram caminhos distintos, assim como eu, viúvo de um amor que não pôde ser concebido.
Cresci com a certeza de haver aprendido, com aquele episódio, muito mais sobre o amor e a morte do que poderia aprender se a vida tivesse me ensinado aos poucos. Aprendi outras coisas também. Eu não conseguia entender como alguém poderia ser tão pouco humano como foi o pai de Rafaele. Compreendi que eu jamais abandonaria um amor. E que se a vida, o amor e a morte são todos fatores profundamente interligados, entendi também que quem não consegue lidar com a grandiosidade desses três, só entende de coisas desnecessárias.  

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4 de setembro de 2014
A SIMPLICIDADE COMO ARTIGO DE LUXO

A SIMPLICIDADE COMO ARTIGO DE LUXO

by qin tianzhu


Lembro como se fosse hoje: época de férias era sinal de ir para a casa dos meus avós paternos, em uma cidade no interior onde eu e meus primos levávamos o tempo a andar de bicicleta por estreitas estradas de areia, através da qual chegávamos a um açude de águas refrescantes, onde podíamos ficar até tarde apenas existindo na poesia do bem-viver.

Era também quando vivíamos a caminhar com minha avó pra todos os lados da cidade – e eu sempre tive certeza de que se ela tivesse inclinações políticas, ganharia com certeza, tal era a sua popularidade por onde passávamos. De volta a casa, as portas estavam sempre abertas, a ponto de me irritar, já que eu sempre gostei de privacidade e o entra-e-sai de conhecidos por lá não dava espaço pra descanso porque, além de tudo, eu era a atração da casa naqueles dias, atenção que eu sequer podia compartilhar com meus primos, que ficavam na casa dos outros avós.

Nessa movimentação quase ininterrupta (a casa ficava em silêncio apenas ao cair da noite), eu observei algo que me fascinava: as pessoas vinham, deixavam coisas e partiam, ou pediam coisas e levavam. O que acontecia ali era um escambo saudável entre vizinhos, que eles carinhosamente chamavam de “compadres” e “comadres”.  Em dias mais amenos, outros vinham jogar cartas até altas horas, até que chegava o momento de despedir-se, armar a rede, colocar o penico ao lado, mas não tão perto dos pés por riscos óbvios, rezar e dormir. E no dia seguinte, tudo outra vez. E era de uma felicidade que só parecia finita quando alguém lembrava que as férias estavam perto do fim. Eu queria aquela realidade por perto sempre, queria conhecer pessoas, entendê-las, comer daquelas iguarias que eu só tinha naquela cidade.

Olho para o retrovisor da minha própria história e vejo aqueles móveis de um marrom escuro, pesados, que precisavam de muitas pessoas para arrastar de um lugar a outro, aquelas portas antigas, o teto dando vistas às telhas. E novamente o estranho hábito lindo, ainda que estranho apenas para mim, de chegarem na casa da minha avó e deixar um saco de feijão, alguns litros de leite numa embalagem que não me parecia tão limpa, milho, água. E minha avó cedendo coisas a essas pessoas, numa via de mão dupla tocante. E era dessa simplicidade que se fazia a vida por aquelas paragens.

Com o passar do tempo, as mudanças aparentemente inexoráveis.

Minha mãe vinha almoçar em casa às pressas, engolia o que havia no prato e levava a mim e minha irmã para a escola, num tempo em que ainda se podia percorrer vários quilômetros em vinte minutos nas cidades brasileiras. Porque a verdade é que ela não tinha muito mais do que isso.

Entretanto, mesmo aí, quando eu sempre estava entre mais de um lugar, conseguia ter a sensação de que essa correria não me atingia diretamente. E talvez não me atingisse, mesmo. Com uma mãe que fazia de tudo para evitar que víssemos sofrimento ou dor, e as noites passadas brincando na rua com os vizinhos, parecia que a realidade piorara um tantinho, mas a sensação de estar crescendo e adquirindo outras responsabilidades compensavam esse buraco causado pelo ato de existir e ter de ir vivendo.

A coisa chegou a tal ponto que, recentemente, um famoso plano de saúde, observando essas fatídicas mudanças, lançou uma campanha cujo slogan (“Esse é o plano”), num interessante jogo de palavras entre a palavra plano significando “projeto” e “plano de saúde”, se propõe a listar coisas que seriam bons planos para a vida de alguém. Coisas como “envelhecer com a certeza de nunca ficar velho”, “cuidar hoje do amanhã” – e a mesma voz que diz isso faz uma pausa pra dizer o slogan.

Minha estupefação veio quando um dos “planos” mencionados foi “conseguir almoçar em casa”.

Hoje em dia, quando outros mais de vinte anos se passaram desde a correria da minha mãe para me levar e buscar, fica a certeza dolorosa de que precisamos valorizar novamente hábitos perdidos. Ir a um restaurante, sentar, pegar o cardápio, escolher, fazer o pedido, esperar o tempo de preparo, comer, para só então pagar a conta, levantar e ir. Parece um ritual, não é? E é mesmo. Não duvido nada que as gerações mais recentes talvez achem que isso é quase tribal. Avançamos nos anos, mas regredimos cada dia mais como povo, como civilização, como sociedade. Como podemos? Em que momento foi que sucumbimos ao consumismo desenfreado e começamos a chamar dinheiro de “deus”? Quando a ideia de fazer tudo no menor tempo possível para que supostamente tenhamos tempo para fazermos outras tornou-se o objetivo de vida da maioria de nós?

São perguntas que exigem muita reflexão e um estudo complexo dos movimentos que criaram a sociedade e a geraram – e a geriram – tal como ela é hoje.

Se precisamos “fazer um plano” para conseguirmos almoçar em casa, é sinal de que há algo muito, muito errado. Não se concebe que com todos os avanços, com tudo o que temos para ter uma sociedade menos injusta e tecnologias que facilitam nossa vida, conseguir, no intervalo do primeiro para o segundo turno de trabalho, fazer uma refeição em casa e ter de considerar isso um privilégio. Ou talvez se conceba, sim, afinal, chegamos onde estamos justamente por conta dessa histeria coletiva que a vida se tornou. Esse frenesi pelo sempre ter mais, e quem quer se ver fora disso é julgado pelos que estão à sua volta.

Foi-se para sempre o tempo que tínhamos para sentar na calçada, cozinhar sem pressa, ler um bom livro sem a correria de terminá-lo para começarmos o seguinte, viajar sem lembrarmos de tudo que temos pra resolver quando voltarmos, conversar amenidades com os amigos, amar vagarosamente, admirar a beleza dos animais, assobiar uma canção ou cantar no chuveiro, sentar à uma mesa de bar e conversar amenidades com colegas e amigos sem sequer lembrar do dia seguinte, observamos o crescimento de um filho, de um animal ou de um relacionamento, e ver o que existe a partir dali?

Aparentemente, sim. No molde como a vida em sociedade hoje está configurada, a impressão-quase-certeza é essa. Esquecemos que aquilo a que chamamos “Deus” está nos detalhes, nas pequenas coisas, e a nossa megalomania continua a nos levar aos abismos da inconsequência.

A vida não requer de nós apenas coragem; o que a vida quer mesmo, e precisa, é de nossos pequenos atos revolucionários no dia a dia. Não existe realidade transformada passivamente, e se não estamos satisfeitos com o que nos rodeia, precisamos ser, como diz o pensador, exatamente aquela mudança que queremos ver no mundo.

A simplicidade tem que permanecer como algo simples, que delineia e substancia a nossa necessidade de desenvolvermos a nossa própria sensibilidade, força vital para termos os olhos para enxergar além do que está posto diante de nós, e nunca, de forma alguma, a expressão de um sentimento calado, obtuso, que virou artigo de luxo porque não sabemos ou não podemos mais voltar a como era antes.

Enquanto o nosso olhar para o mundo for permeado pelo interesse em acumularmos coisas, estamos fadados ao destino mais cruel, ao câncer mais nefasto e renitente a se espalhar por cada lugar do nosso corpo, a caminho do não-existir. Afinal, parece-me que no fundo a sanha destruidora do homem tende a ser um desejo da extinção dele mesmo.


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