FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES
Parte 1 – Primeiro dia
Quando estacionei o
carro em frente ao local onde estava ocorrendo a FLAQ – Festa Literária de
Aquiraz – notei prontamente o nome na fachada: COLONIAL. Mais do que nos
remeter ao período em que o Brasil era subserviente a Portugal, Colonial é a
marca de uma das cachaças mais famosas do estado. Achei aquilo intrigante. A
leitura, que pode ser um vício, estimulada dentro de um lugar que representa um
outro vício, nem sempre associado a algum positivo. A ironia do momento me
passou pelo pensamento e eu sorri, enquanto saía do carro junto com a amiga que
me acompanhava e o trancava.
Pouco importava.
Afinal, além de incorrer num falso moralismo, eu havia contado cada instante
antes de chegar em Aquiraz, cidade que fica a 27 km de Fortaleza e que foi a
primeira capital do Ceará. Queria mesmo era conhecer o local e curtir o evento
com minha querida companheira.
Ao adentrar o
lugar, descobri muito mais do que um museu em homenagem à bebida oriunda da
cana de açúcar e seus antepassados que remontam aos engenhos. O local, batizado
de “Engenhoca” (o que achei um erro, porque rima com o nome da maior rival
deles, a cachaça Ypióca), é um parque ecológico fincado no meio da cidade. Ao
caminhar por um espaço que lembra uma estradinha rumo ao que realmente importa,
parece que saímos de um túnel estreito, uma espécie de portal, e nos deparamos
com um universo grandioso, repleto de luz, espaços arquitetônicos bem pensandos
e muitas árvores, mato e cheiro das flores e frutos caídos, em processo de
decomposição, exalando seu perfume inebriante.
Uma vez sentido, o
espaço me convidou a perscrutá-lo e ler sobre o homenageado da festa: o autor
paulista Ignácio de Loyola Brandão. Grandes flanelógrafos ambulantes,
posicionados como totens retangulares para onde quer que se olhasse, traziam a
foto do autor em diversas fases da vida, capas de seus principais livros nas
mais variadas edições, e textos, muitos textos sobre a vida e a obra do autor.
Em todos os espaços, os quadros repletos de informações pareciam nos
acompanhar, seduzindo o visitante, convidando-o a dar o passo seguinte: sair
para qualquer lado, na direção dos livros.
Na verdade, essa
era mesmo a ideia. Unir a área ecológica – respirar o ar repleto de verde – ao
ar repleto de vida literária. E nesse sentido o evento foi muito feliz. Para um
lado, o museu da cachaça, uma capela e uma loja de conveniência do próprio
parque; para outro, a simpática livraria montada no local, com livros expostos
em prateleiras baixas e em mesas também ao alcance da mão, algumas funcionárias
simpáticas e solícitas mas que não dominavam muito bem o acervo do espaço –
perguntei se havia um livro da Ana Miranda e recebi um não como resposta.
Passados alguns minutos eu descubro por mim mesmo um livro da autora – mas cuja
disposição em ajudar tornaram este senão um quase nada.
Perto de lá, um
espaço com várias cadeiras e bancos que mais pareciam bancos de igreja, e um
palco com um telão atrás.
A tarde já começava
a anunciar o prefixo para a noite, que se inseria, ferina.
Ao meu lado, num
enorme galpão rústico, com paredes de tijolos aparentes e teto sem forro, falava
o autor de livros infantis Ilan Brenman. Sentei-me ao lado de minha amiga,
esperando a palestra seguinte, do homenageado Ignácio de Loyola Brandão,
enquanto ouvíamos o autor de livros infantis falar sobre seu processo criativo
(escrever sempre), sobre de onde vem a inspiração (da sua vida cotidiana, na
maioria das vezes) e sobre as dificuldades editoriais (que têm de ser vencidas
didaticamente, explicando aos editores o que ele quer e precisa dizer em cada
obra).
Ao fim da palestra,
resolvemos sentar mais à frente, deixei minha amiga no local que escolhêramos e
fui sentir um pouco do ar lá fora. É nesse instante que vejo Ignácio de Loyola
Brandão a uns três metros, na calçada, conversando com uma moça cuja beleza
chamava a atenção. Ela sorria com os olhos, e os lábios do autor respondiam ao
contato visual, enlarguecidos, receptivos.
Aproximei-me
vagarosamente, esperando aquele momento de magia esvanecer. Mas um gesto meu
fez com que Ignácio desviasse o olhar, e me dirigiu a palavra: “Você quer falar
comigo?”, perguntou, num vozeirão firme mas delicado, acessível. Braços abertos
através da voz. “Sim”, disse num tom tímido, que nega a forma loquaz pela qual
sou conhecido. Mal sabem os que me cercam que excesso de palavras, por vezes,
são um esconderijo.
Ele me chamou para
perto, e começamos a conversar, já dentro do papo que ele levava com a moça dos
encantos.
Ignácio de Loyola
Brandão é de uma presença inesquecível. Afável, genuinamente brincalhão, dono
de um senso de humor capaz de salvar o dia, Ignácio não se posiciona com o
estoicismo, a arrogância e a superioridade que muitas vezes observamos em
alguém de sua envergadura. Por ser o oposto disso, a vontade que temos é a de
que o tempo não passe, para ficarmos ali, em sua preciosa companhia. Ouvi
várias histórias do autor, até que me dei conta de que o tempo não se empresta
a caprichos, e dali a cinco minutos era a hora da tal fala do homem.
Perguntei se ele
autografaria uns livros que eu trouxera, e se eu poderia tirar uma foto com
ele. Um “mas é claro que sim”, foi a resposta. Em pleno calçadão, com os
passantes nos seus ir-e-vir, perscrutando suas vontades de ocupação, vivi ali
um grande momento. Mas não acabara ainda.
Corri para pegar
minha máquina fotográfica e meus livros que eram dele, e já na volta vi, num
elevado alguns passos adiante, Pedro Bandeira, o grande escritor juvenil, a
alguns degraus de mim. Mais uma virada de cabeça e ao meu lado passava João
Anzanello Carrascoza, num ecossistema tão plural quanto fascinante.
Minha atenção,
entretanto, voltava-se para o Ignácio, que pediu para que fôssemos até uma
mesa, onde estava o Pedro Bandeira, sorridente como só ele, com aquela boca
arreganhada a acariciar o mundo, tornando-o o bigodudo mais simpático de todos
os tempos.
Livros
autografados, foto tirada, a noite finalmente desceu sobre nós.
Vi ao longe e
reconheci o editor do Ignácio, Luís Alves, outro homem extremamente amistoso,
disposto a um bom papo e trocas de impressões. Fui perturbado por algo que
sempre me tira a paz: sou só eu ou mais alguém tem vontade de pedir a alguém
que gosta, respeita ou admira, para parar de fumar, quando percebe nela o
hálito de cigarro? Não sei se o que mais mexe comigo é o fato da pessoa ir se
destruindo aos poucos, ou se o fato de eu querer me meter com algo tão pessoal,
com uma vida que não seja a minha. Autocrítica ou egoísmo? Dane-se. Fiquei
calado.
Logo mais, ambos
foram a um palco conversar sobre a relação de mais de trinta anos que eles têm
na editora Global – dessas relações raras, caras e quase sobrenaturalmente
longevas no meio editorial de hoje. Foi um papo gostoso, com alguns momentos
que demonstraram, entretanto, a desorganização do evento: o primeiro é que o
telão por trás das pessoas no palco – Ignácio, seu editor, Luis Alves e o
mediador, Jorge Félix – brilhava muito, a ponto de não nos fazer enxergar as
pessoas no palco. E o microfone foi trocado umas quatro vezes. Ninguém – nem
plateia nem convidados – conseguia se concentrar no momento. Ambos os
problemas foram resolvidos com mais de vinte minutos de papo. As pessoas se
impacientavam, mas era tão gostoso ouvir aquelas pessoas falando, que muitos,
como eu, apenas fechavam os olhos e cegavam para o mundo, apenas ouvindo o que
vinha da nossa frente.
Outro momento chato
foi quando apareceu um senhor que quis fazer uma pergunta. O louco de palestra
está em toda parte, isso não é segredo. Longe de ser um ser único, que floresce
a cada eclipse lunar, esta já folclórica personagem, que se transmuta em
qualquer formato de corpo, de qualquer sexo, brota como erva daninha. Duvida?
Pois coloque alguém num palco pra falar e rapidamente aquela criatura que
levanta a mão e faz algum tipo de pergunta absurda fica de pé, ou levanta o
braço, anunciando sua presença – e deixando-o lá mesmo, no alto, esteja seu dia
já vencido ou não. Ou então começa logo a falar como se ele fosse o convidado.
Foi justamente isso
que aconteceu no evento em questão.
O senhorzinho já se
levantou com um livro na mão (que só se pôde identificar como tal alguns
minutos depois), empunhando-o como quem carrega uma foice. O microfone se fez
chegar até ele, que o dispensou com um gesto de “sai pra lá que eu não te quero
não”. Mal sinal. Aquilo significava que ele ia bradar alto o suficiente para
todo mundo ouvir. Quem faz isso não está disposto a falar pouco. O medo se
instalou na plateia. E o que era mesmo aquilo que ele tinha na mão? Dramático,
temi pela vida de Ignácio de Loyola Brandão, já me perguntando onde estariam os
seguranças. Não vi nenhum, e eu não estava num local em que eu pudesse ser o segurança dele – nem de
ninguém, essa é que é a verdade. Então, o homem berrou, como se estivesse
ensaindo para uma peça que tivesse Fernanda Montenegro como diretora,
observando da primeira fila.
“Senhor editor!
Trago aqui um desafio!” As pessoas se entreolhavam. O que era aquilo, alguma
pegadinha? Iam fazer uma gincana-surpresa para sortear um livro? Afinal, era um
livro aquilo que ele tinha na mãos? Educadamente, Luis Alves se ajeita na
poltrona e pergunta: “Qual seria esse desafio?” O tom de voz não denotava outra
coisa senão cansaço, mas não era. Ou até poderia ser, mas um outro tipo de
cansaço. Um bom observador perceberia que naquela pergunta já estava embutida a
frase “Mais um louco de palestra”, seguida de uma longa e pausada respiração.
Mas Luís Alves é um lorde, e não disse nem a primeira frase nem bufou ao
microfone. Apenas esperou, pacientemente, o senhorzinho se manifestar.
Foi então que o
homem atirou, à queima-roupa: “O senhor toparia levar este livro para São Paulo
e avaliá-lo para ser editado pela sua editora?”. A esta altura, claro, ninguém
falava mais nada. Ouvia-se o zunido de uma muriçoca tomando fôlego pra pegar
embalo e voar pros braços e pernas de alguém. Discretamente – e com o
conhecimento de quem sabe que aquilo ainda iria render muito – Ignácio de
Loyola Brandão repousou o seu microfone ao seu lado no sofá. Acho que ele já
tinha a certeza de que dali pra frente, era sono profundo para o aparelho.
Em resumo, o homem
contou toda a sua história, se demorando nas partes chorosas e sendo incisivo
nas partes em que rogava por uma chance, com trejeitos de quem estava prestes a
pedir de joelhos. Antes que essa cena se desse, diante de um mediador que a
esta hora devia estar brincando de estátua consigo mesmo, porque não se ouviu
nem um pio vindo do seu microfone, Luís Alves, do alto da sua sabedoria de décadas
participando ou tendo notícia de tais momentos, disse ao tal candidato a autor
publicado, com extrema delicadeza, que não era ele quem decidia se um livro ia
ou não ser editado, que existia um conselho, que isso e aquilo, mas que levaria
o livro do homem.
Pena que eu havia
deixado o meu em casa, repousando num arquivo de Word no computador, pensei,
rindo daquilo tudo.
Claro que aquele
não era o caminho, e eu jamais entraria nesse jogo do desespero, da ingenuidade
e da falta de bom-senso.
Para animar as
almas, que viram o fim do espetáculo terminar de forma tão pífia, três músicos
adentraram no palco e tocaram Miles Davis e Chet Baker para ouvidos atentos –
até que, quarenta minutos depois, uma senhora de prancheta na mão e cara de
poucos amigos mandou parar tudo, fazendo gestos em formato de X com os braços,
sucessivas vezes, dizendo “encerra, encerra” com os lábios, ao que o povo pedia
“só mais uma!”, e ela, agora já falando para todos, “Não dá, o parque tem que
fechar. Todas essas pessoas têm de estar aqui de novo 8 da manhã, elas estão
mortas!”.
Bom, era nítido que
ela mandava ali. Faltava pouco mais de duas horas para aquele dia se
transformar num outro. E era bom saber – e sentir – sob a luz da lua que
banhava todo o espaço, lembrando-nos que, ao nosso redor, só a natureza em sua
esplendorosa majestade imperava naquela cidade do interior, onde éramos
acolhidos em um lindo evento literário. Não eram suas falhas que maculariam o
todo. De jeito nenhum.
A música parou.
Segundo a chefe do local, os funcionários estavam mortos. Mas quem curtiu a
festa até ali, sabia que voltaria para casa sabendo-se muito vivo.
E assim fomos.

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