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17 de dezembro de 2014
FLAQ – FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES - PARTE 2

FLAQ – FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES - PARTE 2

Parte 2 (Final)

O sábado amanheceu imperioso, sem caber em todos os espaços, se imiscuindo em frestas, réstias de sol enfeitando o dia, que parecia saber disso, convidando-nos para receber a literatura em Aquiraz. Ou melhor: ir ao encontro dela.

No segundo dia, que seria o meu último por lá, corri para a festa literária com o intuito de encontrar a escritora Socorro Acioli e fazer-lhe uma singela homenagem. Assim, percorri caminhos de asfalto tendo um céu limpo e claro à minha frente, estrada adentro, rumo ao encontro. Esperei pela autora na porta do local da festa, bem na entrada, com a alegria juvenil que só cabe àqueles que se reconhecem parcialmente crianças. Socorro chegou com o marido e a filha, entreguei-lhe o presente e me despedi com uma foto e um beijo carinhoso.

Homenagem feita, corri para o mini-curso de João Anzanello Carrascoza, com dicas de como escrever um conto. João é um cara bastante aberto, solícito, e ter sido seu aluno por algumas horas me encheu de orgulho.

Durante o curso, conheci também um outro escritor, André Argolo, que trabalha para a editora Global e que estava lá para fazer filmagens do evento para a editora. Eu não sabia nada sobre ele, mas logo descobri que ele já tem um livro de poemas publicado (pela editora Patuá), que desempenha um trabalho lindo na editora e escreve para o suplemento literário Rascunho, um dos mais respeitados do país. André é dono de um papo intimista, conversa com afeto e delicadeza e sua visão sobre a literatura daria toda uma crônica em sua homenagem. Enquanto interagíamos, antes, durante e depois do pequeno curso do Carrascoza, guardei a certeza de que ali estava um cara que provavelmente seria um grande amigo, se a distância geográfica não fosse um muro de Berlim ainda erguido (mas sem beligerância a separar as duas partes). E fiquei sorridente o dia todo, por ver e sentir na pele como a literatura é capaz de estreitar laços, ainda que, no nosso caso, tenha sido algo de vida breve. Mas o recado estava dado.

Terminado o curso e as conversas, era a minha vez de voltar a ser professor, e corri para Fortaleza para dar uma aula. De volta, minha aluna chegou e com poucos minutos de conversa, o destino estava traçado. Sendo ela uma grande entusiasta de tudo o que pode trazer novas sensações, descobertas e experiências (ou seja, é das minhas), topou mudar os planos e ir para a FLAQ no período da tarde.

Dirigimos os trinta e poucos quilômetros que separam minha casa do local da festa literária, conversando sobre nossas expectativas a respeito dos eventos que estavam programados, sobre os escritores que eu queria apresentar pra ela e as possibilidades que nos aguardavam.

Ao chegarmos, enfrentamos uma desorganização logo na entrada: as recepcionistas não sabiam informar se quem não estava inscrito, mas não iria usufruir das atividades do parque ecológico onde o evento acontecia, podia entrar sem pagar ingresso ou não. Uma outra disse logo que “não estamos abrindo exceção pra ninguém”. Eu não estava afim de comprar aquela briga, pegamos o crachá no qual é debitado o valor da entrada, a ser pago na saída juntamente com o que quer que se consumisse no local, e fomos adiante.

O tempo fugia – a amiga tinha compromissos em Fortaleza, não podíamos ficar por muito tempo. Como numa espécie de conto de fadas, tínhamos que ir embora antes de um determinado horário, do contrário ela perderia algo muito importante – sem direito a príncipe depois para dar a ela um final feliz.

Por conta disso, procuramos ser objetivos. O que não poderíamos imaginar, entretanto, eram as surpresas que nos aguardava.

Mais uma vez, Ignácio de Loyola Brandão apareceria do nada, como se brotasse do chão. Também tivemos o privilégio de conhecer dois grandes escritores, inesperadamente. E, no meio disso tudo, o roubo de um livro de forma inexplicada.

No mesmo espaço onde no dia interior falara Ilan Brenman, agora encontravam-se Bernardo Kucinski e Rodrigo Lacerda, ambos conversando sobre História e o romance histórico, num debate tão vibrante quanto emocionante, em que ambos defendiam seus pontos de vista com paixão, assertividade e de quebra ainda contavam causos pessoais, que os levaram a escrever suas mais recentens obras – a de Lacerda, narra a vida do avô, Carlos Lacerda. A de Kucinski, a dele próprio e as agruras que viveu na ditadura brasileira.

Terminado este momento, ambos foram a um espaço ao lado da livraria do evento, que por sua vez ficava ao lado do palco onde no dia anterior eu tinha visto Ignácio de Loyola Brandão conversar com seu editor.

Eu e minha amiga caminhamos para o tal espaço, composto de duas mesas postas lado a lado, juntas, dando a parecer que era apenas uma, e uma cadeira em casa uma delas. Quando chegamos lá, Rodrico e Bernardo já conversavam animadamente e atendiam algumas poucas pessoas. Pedi à minha amiga pra tirar uma foto com o Rodrigo, caso ele aceitasse, e outra com o Bernardo. Então, cheguei para o Rodrigo com seu livro na mão, ele autografou, muito simpático, e autorizou que tirássemos a foto. Em seguida fui para o lado de Bernardo. Coloquei minha sacola com os dois livros, um de cada autor, sobre a mesa. Nesse momento, vi que uma sacola branca com a logomarca da livraria ia sair na foto, e afastei-a para o lado. Minha amiga tirou a foto, eu agradeci, peguei a sacola com os livros e fomos a um outro ambiente.

Com a fome já apertando, adentramos ainda mais no parque ecológico, onde havia um restaurante. Sentamo-nos e fizemos os pedidos – comida apenas mais ou menos e um atendimento pífio.

Resolvi dar uma olhada no que havia sido escrito nos meus livros. O do Bernardo Kucinski estava ok, tudo certo. O do Rodrigo Lacerda estava autografado para alguma mulher de nome japonês.

Olhei para a minha amiga, confuso. Disse:

“O Rodrigo Lacerda autografou meu livro para outra pessoa.”
“Como é que é?”, indagou a amiga.

E eu repeti a afirmativa e mostrei o livro. Ela riu, aquela risada gostosa e verdadeira, que vem de algum lugar indizível. Depois disse: “Mas não pode ser. Eu vi a hora que ele escreveu o seu nome no livro!”.

Claro que eu não acreditei nisso. Achei que ela estava delirando. No ângulo em que estava, não tinha como ela ler meu nome sendo escrito no livro, imaginei eu. Falei que não havia problemas, que eu até achava interessante ter um livro que era pra ter sido autografado pra mim e que por alguma confusão mental, o autor escreveu outro nome.

Continuamos a conversar por mais alguns minutos sobre o caso, até que ela aventou a hipótese de que, em algum momento, meu livro fora trocado com o de alguém.

“Em que momento, Angélica? Foi confusão do Rodrigo Lacerda mesmo, sem dúvida. Não tem como ter tido essa troca de livros, eu recebi o livro das mãos dele e enfiei na sacola”.

Parecia mesmo ser um mistério de ordem sobrenatural. Algo para um Padre Quevedo. Tivesse sido um crime de morte, seria algo para Sherlock Holmes desvendar. Empenhados em encontrar uma solução, entre risadas e ideias, confabulávamos.

Até que veio a centelha esclarecedora.

De fato, eu havia recebido o meu livro das mãos de Rodrigo Lacerda e o havia posto na sacola, de onde tirei o do Bernardo Kucinski para que ele o assinasse. Na hora da foto com o Kucinski, entretanto, vi uma sacola sobre a mesa e a coloquei mais para um canto da mesa, para que a foto tivesse uma estética melhor. Tirada a foto, peguei a sacola, enfiei o livro dele dentro e saí de lá.

A solução para o mistério é a seguinte: eu também havia colocado minha sacola sobre a mesa. Ao sair, peguei uma outra sacola que também estava lá – uma sacola da mesma livraria onde eu comprara os livros dos dois autores, a livraria da festa literária, que continha um livro que Rodrigo Lacerda havia autografado para a esposa do Kucinski – o nome feminino japonês – e para o próprio Bernardo – que ele escrevera apenas “Bernardo”, em letras rápidas, daí a dificuldade de compreendê-las. A letra só se tornou legível com o mistério solucionado.

Compreendido o drama, nos levantamos, com um pouco de comida ainda nos pratos, pra ver se dava tempo de ver os dois autores e desfazer o mal-entendido.
Deu, mas foi por pouco.

Nenhum deles se encontrava mais sentado lá. Conversavam, já de pé, com outras pessoas do evento, em tom de despedida. Aproximei-me de Kucinski e fiz uma pergunta estúpida, na tentativa de quebrar o gelo com uma gaiatice:

“O senhor tem alguém na família de nome japonês?”

Ele olhou pra mim atravessado. Demorou dois segundos e respondeu dizendo: “Ah!, você que é o Marco que levou meu livro! Rapaz, precisamos desfazer esse equívoco.” – E sorriu. Pelo menos. Mas eu estava tão cego que demorei para perceber que a mulher de nome japonês estava exatamente ao lado dele. Uma senhora franzina, silenciosa e quieta como imaginamos que são os japoneses. Acabei por me sentir ainda pior. Antes que o sentimento se instalasse, ele já estava caminhando em direção ao caixa da livraria, de onde puxaram um exemplar, que ele me entregou. Chequei e vi meu nome lá dentro. Entreguei o que estava comigo para ele, que quis devolver um outro, que tinha comprado para repor o que havia sido levado, para a livraria. Não sei que fim teve essa parte da história, já que o exemplar já havia sido riscado – o terceiro dessa história – e eu, num misto de constrangimento e culpa, tratei de dar o fora dali o mais rapidamente que pude.

[Em tempo: já conversei brevemente sobre o ocorrido com o Rodrigo Lacerda, que me garantiu que ninguém ficou com raiva e todos foram para suas casas alegres e satisfeitos. Menos mal].

A história ainda não acaba aqui.

Depois de mais umas circuladas pelo espaço, reencontrei Ignácio de Loyola Brandão, a quem eu achava que não iria ver, porque sua despedida da FLAQ seria numa palestra dali a mais de uma hora – e por conta dos compromissos da amiga/aluna que viera comigo em Fortaleza, a tal altura já deveríamos estar de volta.

O encontro foi uma pequena festa. Ele conversava animadamente com uma senhora jovial, muito bonita, na mesma mesa que há pouco estava ocupada por Rodrigo Lacerda e Kucinski. Eu cheguei de mansinho, de mansinho, e mais uma vez ele olhou pra mim interrompendo uma conversa. Desta vez, entretanto, ele me olhou como quem já sabia que havia visto aquela pessoa em algum lugar. Sorri de volta, contei das histórias do dia anterior, pra acelerar o processo de reconhecimento (é querer abusar demais de um autor incansável, que passou dias no Ceará visitando comunidades, escolas, os cantos mais longínquos, mas que também deve ter seus limites) – dentre as quais, o fato de que a amiga que me acompanhara trouxera a edição do romance Zero que foi apreendida pela ditadura, e que muito emocionou o Ignácio quando ela tirou seu exemplar da bolsa para que ele assinasse. Tanto, que ele mencionou este fato durante a sua palestra, a qual assistimos juntos na noite de um dia antes.

Com seu bom humor sempre presente, como se detivesse o conhecimento da fórmula da vida, Ignácio sorriu e disse:

“Eu tenho que ir aqui nesta livraria e comprar um livro pra este rapaz. Foi a pessoa pra quem eu mais autografei livros nessa feira!”

Ao que eu, a esta altura sem saber o que dizer, disse a obviedade esperada, que o presente que ele poderia me dar era escrever mais e mais livros, e rapidamente tratei de entregar a ele os livros que eu acabara de comprar. Uns pra mim, outros para dar de presente. Ele assinou todos, escrevendo pequenos textos personalizados em cada um, com uma atenção e uma diligência inefáveis.

As pessoas chegavam à feira com olhares curiosos. Era nítido que muitos ali não tinham tanto acesso não apenas ao objeto livro, mas também a ver palestras e discussões em torno da arte, do fazer literário. E aquilo tudo era emocionante.

Sentei-me à uma mesa com a amiga que também é aluna. Ainda rindo do roubo involuntário, um pouco atordoados com a multitude de cenas, cores e acontecimentos, paramos e ficamos a observar longamente o que se desenrolava diante de nós. Naqueles minutos, nos isolamos um do outro. Éramos dois à mesa, mas cada qual em seu mundo, com suas próprias impressões do universo ao redor. E que bom que era assim. Ali, aluno e professor se fundiam com amizade e paixão pela leitura, cada qual desfrutando do sabor da vida à sua maneira.

Crianças pulavam e brincavam – e gritavam um pouco, também. Mas só o tanto suficiente para demonstrar que eram saudáveis. Jovens de ambos os sexos, nem tão mais jovens assim. Estavam todos ali, compartilhando do espaço, dos afetos, fazendo(-se) questionamentos, tateando, descobrindo.

E é justamente do descobrir – e do inventar – que a arte se faz e se renova. E é por sermos tão humanos que também seguimos o mesmo processo de descoberta e invenção, para que nós possamos nos renovar, por conseguinte – e através da arte, não morrer jamais.






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11 de dezembro de 2014
FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES

FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES




Parte 1 – Primeiro dia

Quando estacionei o carro em frente ao local onde estava ocorrendo a FLAQ – Festa Literária de Aquiraz – notei prontamente o nome na fachada: COLONIAL. Mais do que nos remeter ao período em que o Brasil era subserviente a Portugal, Colonial é a marca de uma das cachaças mais famosas do estado. Achei aquilo intrigante. A leitura, que pode ser um vício, estimulada dentro de um lugar que representa um outro vício, nem sempre associado a algum positivo. A ironia do momento me passou pelo pensamento e eu sorri, enquanto saía do carro junto com a amiga que me acompanhava e o trancava.

Pouco importava. Afinal, além de incorrer num falso moralismo, eu havia contado cada instante antes de chegar em Aquiraz, cidade que fica a 27 km de Fortaleza e que foi a primeira capital do Ceará. Queria mesmo era conhecer o local e curtir o evento com minha querida companheira.

Ao adentrar o lugar, descobri muito mais do que um museu em homenagem à bebida oriunda da cana de açúcar e seus antepassados que remontam aos engenhos. O local, batizado de “Engenhoca” (o que achei um erro, porque rima com o nome da maior rival deles, a cachaça Ypióca), é um parque ecológico fincado no meio da cidade. Ao caminhar por um espaço que lembra uma estradinha rumo ao que realmente importa, parece que saímos de um túnel estreito, uma espécie de portal, e nos deparamos com um universo grandioso, repleto de luz, espaços arquitetônicos bem pensandos e muitas árvores, mato e cheiro das flores e frutos caídos, em processo de decomposição, exalando seu perfume inebriante.

Uma vez sentido, o espaço me convidou a perscrutá-lo e ler sobre o homenageado da festa: o autor paulista Ignácio de Loyola Brandão. Grandes flanelógrafos ambulantes, posicionados como totens retangulares para onde quer que se olhasse, traziam a foto do autor em diversas fases da vida, capas de seus principais livros nas mais variadas edições, e textos, muitos textos sobre a vida e a obra do autor. Em todos os espaços, os quadros repletos de informações pareciam nos acompanhar, seduzindo o visitante, convidando-o a dar o passo seguinte: sair para qualquer lado, na direção dos livros.

Na verdade, essa era mesmo a ideia. Unir a área ecológica – respirar o ar repleto de verde – ao ar repleto de vida literária. E nesse sentido o evento foi muito feliz. Para um lado, o museu da cachaça, uma capela e uma loja de conveniência do próprio parque; para outro, a simpática livraria montada no local, com livros expostos em prateleiras baixas e em mesas também ao alcance da mão, algumas funcionárias simpáticas e solícitas mas que não dominavam muito bem o acervo do espaço – perguntei se havia um livro da Ana Miranda e recebi um não como resposta. Passados alguns minutos eu descubro por mim mesmo um livro da autora – mas cuja disposição em ajudar tornaram este senão um quase nada.

Perto de lá, um espaço com várias cadeiras e bancos que mais pareciam bancos de igreja, e um palco com um telão atrás.

A tarde já começava a anunciar o prefixo para a noite, que se inseria, ferina.

Ao meu lado, num enorme galpão rústico, com paredes de tijolos aparentes e teto sem forro, falava o autor de livros infantis Ilan Brenman. Sentei-me ao lado de minha amiga, esperando a palestra seguinte, do homenageado Ignácio de Loyola Brandão, enquanto ouvíamos o autor de livros infantis falar sobre seu processo criativo (escrever sempre), sobre de onde vem a inspiração (da sua vida cotidiana, na maioria das vezes) e sobre as dificuldades editoriais (que têm de ser vencidas didaticamente, explicando aos editores o que ele quer e precisa dizer em cada obra).

Ao fim da palestra, resolvemos sentar mais à frente, deixei minha amiga no local que escolhêramos e fui sentir um pouco do ar lá fora. É nesse instante que vejo Ignácio de Loyola Brandão a uns três metros, na calçada, conversando com uma moça cuja beleza chamava a atenção. Ela sorria com os olhos, e os lábios do autor respondiam ao contato visual, enlarguecidos, receptivos.

Aproximei-me vagarosamente, esperando aquele momento de magia esvanecer. Mas um gesto meu fez com que Ignácio desviasse o olhar, e me dirigiu a palavra: “Você quer falar comigo?”, perguntou, num vozeirão firme mas delicado, acessível. Braços abertos através da voz. “Sim”, disse num tom tímido, que nega a forma loquaz pela qual sou conhecido. Mal sabem os que me cercam que excesso de palavras, por vezes, são um esconderijo.

Ele me chamou para perto, e começamos a conversar, já dentro do papo que ele levava com a moça dos encantos.

Ignácio de Loyola Brandão é de uma presença inesquecível. Afável, genuinamente brincalhão, dono de um senso de humor capaz de salvar o dia, Ignácio não se posiciona com o estoicismo, a arrogância e a superioridade que muitas vezes observamos em alguém de sua envergadura. Por ser o oposto disso, a vontade que temos é a de que o tempo não passe, para ficarmos ali, em sua preciosa companhia. Ouvi várias histórias do autor, até que me dei conta de que o tempo não se empresta a caprichos, e dali a cinco minutos era a hora da tal fala do homem.

Perguntei se ele autografaria uns livros que eu trouxera, e se eu poderia tirar uma foto com ele. Um “mas é claro que sim”, foi a resposta. Em pleno calçadão, com os passantes nos seus ir-e-vir, perscrutando suas vontades de ocupação, vivi ali um grande momento. Mas não acabara ainda.

Corri para pegar minha máquina fotográfica e meus livros que eram dele, e já na volta vi, num elevado alguns passos adiante, Pedro Bandeira, o grande escritor juvenil, a alguns degraus de mim. Mais uma virada de cabeça e ao meu lado passava João Anzanello Carrascoza, num ecossistema tão plural quanto fascinante.

Minha atenção, entretanto, voltava-se para o Ignácio, que pediu para que fôssemos até uma mesa, onde estava o Pedro Bandeira, sorridente como só ele, com aquela boca arreganhada a acariciar o mundo, tornando-o o bigodudo mais simpático de todos os tempos.

Livros autografados, foto tirada, a noite finalmente desceu sobre nós.

Vi ao longe e reconheci o editor do Ignácio, Luís Alves, outro homem extremamente amistoso, disposto a um bom papo e trocas de impressões. Fui perturbado por algo que sempre me tira a paz: sou só eu ou mais alguém tem vontade de pedir a alguém que gosta, respeita ou admira, para parar de fumar, quando percebe nela o hálito de cigarro? Não sei se o que mais mexe comigo é o fato da pessoa ir se destruindo aos poucos, ou se o fato de eu querer me meter com algo tão pessoal, com uma vida que não seja a minha. Autocrítica ou egoísmo? Dane-se. Fiquei calado.

Logo mais, ambos foram a um palco conversar sobre a relação de mais de trinta anos que eles têm na editora Global – dessas relações raras, caras e quase sobrenaturalmente longevas no meio editorial de hoje. Foi um papo gostoso, com alguns momentos que demonstraram, entretanto, a desorganização do evento: o primeiro é que o telão por trás das pessoas no palco – Ignácio, seu editor, Luis Alves e o mediador, Jorge Félix – brilhava muito, a ponto de não nos fazer enxergar as pessoas no palco. E o microfone foi trocado umas quatro vezes. Ninguém – nem plateia nem convidados – conseguia se concentrar no momento. Ambos os problemas foram resolvidos com mais de vinte minutos de papo. As pessoas se impacientavam, mas era tão gostoso ouvir aquelas pessoas falando, que muitos, como eu, apenas fechavam os olhos e cegavam para o mundo, apenas ouvindo o que vinha da nossa frente.

Outro momento chato foi quando apareceu um senhor que quis fazer uma pergunta. O louco de palestra está em toda parte, isso não é segredo. Longe de ser um ser único, que floresce a cada eclipse lunar, esta já folclórica personagem, que se transmuta em qualquer formato de corpo, de qualquer sexo, brota como erva daninha. Duvida? Pois coloque alguém num palco pra falar e rapidamente aquela criatura que levanta a mão e faz algum tipo de pergunta absurda fica de pé, ou levanta o braço, anunciando sua presença – e deixando-o lá mesmo, no alto, esteja seu dia já vencido ou não. Ou então começa logo a falar como se ele fosse o convidado.

Foi justamente isso que aconteceu no evento em questão.

O senhorzinho já se levantou com um livro na mão (que só se pôde identificar como tal alguns minutos depois), empunhando-o como quem carrega uma foice. O microfone se fez chegar até ele, que o dispensou com um gesto de “sai pra lá que eu não te quero não”. Mal sinal. Aquilo significava que ele ia bradar alto o suficiente para todo mundo ouvir. Quem faz isso não está disposto a falar pouco. O medo se instalou na plateia. E o que era mesmo aquilo que ele tinha na mão? Dramático, temi pela vida de Ignácio de Loyola Brandão, já me perguntando onde estariam os seguranças. Não vi nenhum, e eu não estava num local em que eu pudesse ser o segurança dele – nem de ninguém, essa é que é a verdade. Então, o homem berrou, como se estivesse ensaindo para uma peça que tivesse Fernanda Montenegro como diretora, observando da primeira fila.

“Senhor editor! Trago aqui um desafio!” As pessoas se entreolhavam. O que era aquilo, alguma pegadinha? Iam fazer uma gincana-surpresa para sortear um livro? Afinal, era um livro aquilo que ele tinha na mãos? Educadamente, Luis Alves se ajeita na poltrona e pergunta: “Qual seria esse desafio?” O tom de voz não denotava outra coisa senão cansaço, mas não era. Ou até poderia ser, mas um outro tipo de cansaço. Um bom observador perceberia que naquela pergunta já estava embutida a frase “Mais um louco de palestra”, seguida de uma longa e pausada respiração. Mas Luís Alves é um lorde, e não disse nem a primeira frase nem bufou ao microfone. Apenas esperou, pacientemente, o senhorzinho se manifestar.

Foi então que o homem atirou, à queima-roupa: “O senhor toparia levar este livro para São Paulo e avaliá-lo para ser editado pela sua editora?”. A esta altura, claro, ninguém falava mais nada. Ouvia-se o zunido de uma muriçoca tomando fôlego pra pegar embalo e voar pros braços e pernas de alguém. Discretamente – e com o conhecimento de quem sabe que aquilo ainda iria render muito – Ignácio de Loyola Brandão repousou o seu microfone ao seu lado no sofá. Acho que ele já tinha a certeza de que dali pra frente, era sono profundo para o aparelho.

Em resumo, o homem contou toda a sua história, se demorando nas partes chorosas e sendo incisivo nas partes em que rogava por uma chance, com trejeitos de quem estava prestes a pedir de joelhos. Antes que essa cena se desse, diante de um mediador que a esta hora devia estar brincando de estátua consigo mesmo, porque não se ouviu nem um pio vindo do seu microfone, Luís Alves, do alto da sua sabedoria de décadas participando ou tendo notícia de tais momentos, disse ao tal candidato a autor publicado, com extrema delicadeza, que não era ele quem decidia se um livro ia ou não ser editado, que existia um conselho, que isso e aquilo, mas que levaria o livro do homem.

Pena que eu havia deixado o meu em casa, repousando num arquivo de Word no computador, pensei, rindo daquilo tudo.

Claro que aquele não era o caminho, e eu jamais entraria nesse jogo do desespero, da ingenuidade e da falta de bom-senso.

Para animar as almas, que viram o fim do espetáculo terminar de forma tão pífia, três músicos adentraram no palco e tocaram Miles Davis e Chet Baker para ouvidos atentos – até que, quarenta minutos depois, uma senhora de prancheta na mão e cara de poucos amigos mandou parar tudo, fazendo gestos em formato de X com os braços, sucessivas vezes, dizendo “encerra, encerra” com os lábios, ao que o povo pedia “só mais uma!”, e ela, agora já falando para todos, “Não dá, o parque tem que fechar. Todas essas pessoas têm de estar aqui de novo 8 da manhã, elas estão mortas!”.

Bom, era nítido que ela mandava ali. Faltava pouco mais de duas horas para aquele dia se transformar num outro. E era bom saber – e sentir – sob a luz da lua que banhava todo o espaço, lembrando-nos que, ao nosso redor, só a natureza em sua esplendorosa majestade imperava naquela cidade do interior, onde éramos acolhidos em um lindo evento literário. Não eram suas falhas que maculariam o todo. De jeito nenhum.

A música parou. Segundo a chefe do local, os funcionários estavam mortos. Mas quem curtiu a festa até ali, sabia que voltaria para casa sabendo-se muito vivo.

E assim fomos.


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