Resenhas Entrevistas Contos Poemas Crônicas Ensaios
11 de dezembro de 2014
FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES

FESTA LITERÁRIA DE AQUIRAZ – VÁRIAS IMPRESSÕES E UM CASO PARA SHERLOCK HOLMES




Parte 1 – Primeiro dia

Quando estacionei o carro em frente ao local onde estava ocorrendo a FLAQ – Festa Literária de Aquiraz – notei prontamente o nome na fachada: COLONIAL. Mais do que nos remeter ao período em que o Brasil era subserviente a Portugal, Colonial é a marca de uma das cachaças mais famosas do estado. Achei aquilo intrigante. A leitura, que pode ser um vício, estimulada dentro de um lugar que representa um outro vício, nem sempre associado a algum positivo. A ironia do momento me passou pelo pensamento e eu sorri, enquanto saía do carro junto com a amiga que me acompanhava e o trancava.

Pouco importava. Afinal, além de incorrer num falso moralismo, eu havia contado cada instante antes de chegar em Aquiraz, cidade que fica a 27 km de Fortaleza e que foi a primeira capital do Ceará. Queria mesmo era conhecer o local e curtir o evento com minha querida companheira.

Ao adentrar o lugar, descobri muito mais do que um museu em homenagem à bebida oriunda da cana de açúcar e seus antepassados que remontam aos engenhos. O local, batizado de “Engenhoca” (o que achei um erro, porque rima com o nome da maior rival deles, a cachaça Ypióca), é um parque ecológico fincado no meio da cidade. Ao caminhar por um espaço que lembra uma estradinha rumo ao que realmente importa, parece que saímos de um túnel estreito, uma espécie de portal, e nos deparamos com um universo grandioso, repleto de luz, espaços arquitetônicos bem pensandos e muitas árvores, mato e cheiro das flores e frutos caídos, em processo de decomposição, exalando seu perfume inebriante.

Uma vez sentido, o espaço me convidou a perscrutá-lo e ler sobre o homenageado da festa: o autor paulista Ignácio de Loyola Brandão. Grandes flanelógrafos ambulantes, posicionados como totens retangulares para onde quer que se olhasse, traziam a foto do autor em diversas fases da vida, capas de seus principais livros nas mais variadas edições, e textos, muitos textos sobre a vida e a obra do autor. Em todos os espaços, os quadros repletos de informações pareciam nos acompanhar, seduzindo o visitante, convidando-o a dar o passo seguinte: sair para qualquer lado, na direção dos livros.

Na verdade, essa era mesmo a ideia. Unir a área ecológica – respirar o ar repleto de verde – ao ar repleto de vida literária. E nesse sentido o evento foi muito feliz. Para um lado, o museu da cachaça, uma capela e uma loja de conveniência do próprio parque; para outro, a simpática livraria montada no local, com livros expostos em prateleiras baixas e em mesas também ao alcance da mão, algumas funcionárias simpáticas e solícitas mas que não dominavam muito bem o acervo do espaço – perguntei se havia um livro da Ana Miranda e recebi um não como resposta. Passados alguns minutos eu descubro por mim mesmo um livro da autora – mas cuja disposição em ajudar tornaram este senão um quase nada.

Perto de lá, um espaço com várias cadeiras e bancos que mais pareciam bancos de igreja, e um palco com um telão atrás.

A tarde já começava a anunciar o prefixo para a noite, que se inseria, ferina.

Ao meu lado, num enorme galpão rústico, com paredes de tijolos aparentes e teto sem forro, falava o autor de livros infantis Ilan Brenman. Sentei-me ao lado de minha amiga, esperando a palestra seguinte, do homenageado Ignácio de Loyola Brandão, enquanto ouvíamos o autor de livros infantis falar sobre seu processo criativo (escrever sempre), sobre de onde vem a inspiração (da sua vida cotidiana, na maioria das vezes) e sobre as dificuldades editoriais (que têm de ser vencidas didaticamente, explicando aos editores o que ele quer e precisa dizer em cada obra).

Ao fim da palestra, resolvemos sentar mais à frente, deixei minha amiga no local que escolhêramos e fui sentir um pouco do ar lá fora. É nesse instante que vejo Ignácio de Loyola Brandão a uns três metros, na calçada, conversando com uma moça cuja beleza chamava a atenção. Ela sorria com os olhos, e os lábios do autor respondiam ao contato visual, enlarguecidos, receptivos.

Aproximei-me vagarosamente, esperando aquele momento de magia esvanecer. Mas um gesto meu fez com que Ignácio desviasse o olhar, e me dirigiu a palavra: “Você quer falar comigo?”, perguntou, num vozeirão firme mas delicado, acessível. Braços abertos através da voz. “Sim”, disse num tom tímido, que nega a forma loquaz pela qual sou conhecido. Mal sabem os que me cercam que excesso de palavras, por vezes, são um esconderijo.

Ele me chamou para perto, e começamos a conversar, já dentro do papo que ele levava com a moça dos encantos.

Ignácio de Loyola Brandão é de uma presença inesquecível. Afável, genuinamente brincalhão, dono de um senso de humor capaz de salvar o dia, Ignácio não se posiciona com o estoicismo, a arrogância e a superioridade que muitas vezes observamos em alguém de sua envergadura. Por ser o oposto disso, a vontade que temos é a de que o tempo não passe, para ficarmos ali, em sua preciosa companhia. Ouvi várias histórias do autor, até que me dei conta de que o tempo não se empresta a caprichos, e dali a cinco minutos era a hora da tal fala do homem.

Perguntei se ele autografaria uns livros que eu trouxera, e se eu poderia tirar uma foto com ele. Um “mas é claro que sim”, foi a resposta. Em pleno calçadão, com os passantes nos seus ir-e-vir, perscrutando suas vontades de ocupação, vivi ali um grande momento. Mas não acabara ainda.

Corri para pegar minha máquina fotográfica e meus livros que eram dele, e já na volta vi, num elevado alguns passos adiante, Pedro Bandeira, o grande escritor juvenil, a alguns degraus de mim. Mais uma virada de cabeça e ao meu lado passava João Anzanello Carrascoza, num ecossistema tão plural quanto fascinante.

Minha atenção, entretanto, voltava-se para o Ignácio, que pediu para que fôssemos até uma mesa, onde estava o Pedro Bandeira, sorridente como só ele, com aquela boca arreganhada a acariciar o mundo, tornando-o o bigodudo mais simpático de todos os tempos.

Livros autografados, foto tirada, a noite finalmente desceu sobre nós.

Vi ao longe e reconheci o editor do Ignácio, Luís Alves, outro homem extremamente amistoso, disposto a um bom papo e trocas de impressões. Fui perturbado por algo que sempre me tira a paz: sou só eu ou mais alguém tem vontade de pedir a alguém que gosta, respeita ou admira, para parar de fumar, quando percebe nela o hálito de cigarro? Não sei se o que mais mexe comigo é o fato da pessoa ir se destruindo aos poucos, ou se o fato de eu querer me meter com algo tão pessoal, com uma vida que não seja a minha. Autocrítica ou egoísmo? Dane-se. Fiquei calado.

Logo mais, ambos foram a um palco conversar sobre a relação de mais de trinta anos que eles têm na editora Global – dessas relações raras, caras e quase sobrenaturalmente longevas no meio editorial de hoje. Foi um papo gostoso, com alguns momentos que demonstraram, entretanto, a desorganização do evento: o primeiro é que o telão por trás das pessoas no palco – Ignácio, seu editor, Luis Alves e o mediador, Jorge Félix – brilhava muito, a ponto de não nos fazer enxergar as pessoas no palco. E o microfone foi trocado umas quatro vezes. Ninguém – nem plateia nem convidados – conseguia se concentrar no momento. Ambos os problemas foram resolvidos com mais de vinte minutos de papo. As pessoas se impacientavam, mas era tão gostoso ouvir aquelas pessoas falando, que muitos, como eu, apenas fechavam os olhos e cegavam para o mundo, apenas ouvindo o que vinha da nossa frente.

Outro momento chato foi quando apareceu um senhor que quis fazer uma pergunta. O louco de palestra está em toda parte, isso não é segredo. Longe de ser um ser único, que floresce a cada eclipse lunar, esta já folclórica personagem, que se transmuta em qualquer formato de corpo, de qualquer sexo, brota como erva daninha. Duvida? Pois coloque alguém num palco pra falar e rapidamente aquela criatura que levanta a mão e faz algum tipo de pergunta absurda fica de pé, ou levanta o braço, anunciando sua presença – e deixando-o lá mesmo, no alto, esteja seu dia já vencido ou não. Ou então começa logo a falar como se ele fosse o convidado.

Foi justamente isso que aconteceu no evento em questão.

O senhorzinho já se levantou com um livro na mão (que só se pôde identificar como tal alguns minutos depois), empunhando-o como quem carrega uma foice. O microfone se fez chegar até ele, que o dispensou com um gesto de “sai pra lá que eu não te quero não”. Mal sinal. Aquilo significava que ele ia bradar alto o suficiente para todo mundo ouvir. Quem faz isso não está disposto a falar pouco. O medo se instalou na plateia. E o que era mesmo aquilo que ele tinha na mão? Dramático, temi pela vida de Ignácio de Loyola Brandão, já me perguntando onde estariam os seguranças. Não vi nenhum, e eu não estava num local em que eu pudesse ser o segurança dele – nem de ninguém, essa é que é a verdade. Então, o homem berrou, como se estivesse ensaindo para uma peça que tivesse Fernanda Montenegro como diretora, observando da primeira fila.

“Senhor editor! Trago aqui um desafio!” As pessoas se entreolhavam. O que era aquilo, alguma pegadinha? Iam fazer uma gincana-surpresa para sortear um livro? Afinal, era um livro aquilo que ele tinha na mãos? Educadamente, Luis Alves se ajeita na poltrona e pergunta: “Qual seria esse desafio?” O tom de voz não denotava outra coisa senão cansaço, mas não era. Ou até poderia ser, mas um outro tipo de cansaço. Um bom observador perceberia que naquela pergunta já estava embutida a frase “Mais um louco de palestra”, seguida de uma longa e pausada respiração. Mas Luís Alves é um lorde, e não disse nem a primeira frase nem bufou ao microfone. Apenas esperou, pacientemente, o senhorzinho se manifestar.

Foi então que o homem atirou, à queima-roupa: “O senhor toparia levar este livro para São Paulo e avaliá-lo para ser editado pela sua editora?”. A esta altura, claro, ninguém falava mais nada. Ouvia-se o zunido de uma muriçoca tomando fôlego pra pegar embalo e voar pros braços e pernas de alguém. Discretamente – e com o conhecimento de quem sabe que aquilo ainda iria render muito – Ignácio de Loyola Brandão repousou o seu microfone ao seu lado no sofá. Acho que ele já tinha a certeza de que dali pra frente, era sono profundo para o aparelho.

Em resumo, o homem contou toda a sua história, se demorando nas partes chorosas e sendo incisivo nas partes em que rogava por uma chance, com trejeitos de quem estava prestes a pedir de joelhos. Antes que essa cena se desse, diante de um mediador que a esta hora devia estar brincando de estátua consigo mesmo, porque não se ouviu nem um pio vindo do seu microfone, Luís Alves, do alto da sua sabedoria de décadas participando ou tendo notícia de tais momentos, disse ao tal candidato a autor publicado, com extrema delicadeza, que não era ele quem decidia se um livro ia ou não ser editado, que existia um conselho, que isso e aquilo, mas que levaria o livro do homem.

Pena que eu havia deixado o meu em casa, repousando num arquivo de Word no computador, pensei, rindo daquilo tudo.

Claro que aquele não era o caminho, e eu jamais entraria nesse jogo do desespero, da ingenuidade e da falta de bom-senso.

Para animar as almas, que viram o fim do espetáculo terminar de forma tão pífia, três músicos adentraram no palco e tocaram Miles Davis e Chet Baker para ouvidos atentos – até que, quarenta minutos depois, uma senhora de prancheta na mão e cara de poucos amigos mandou parar tudo, fazendo gestos em formato de X com os braços, sucessivas vezes, dizendo “encerra, encerra” com os lábios, ao que o povo pedia “só mais uma!”, e ela, agora já falando para todos, “Não dá, o parque tem que fechar. Todas essas pessoas têm de estar aqui de novo 8 da manhã, elas estão mortas!”.

Bom, era nítido que ela mandava ali. Faltava pouco mais de duas horas para aquele dia se transformar num outro. E era bom saber – e sentir – sob a luz da lua que banhava todo o espaço, lembrando-nos que, ao nosso redor, só a natureza em sua esplendorosa majestade imperava naquela cidade do interior, onde éramos acolhidos em um lindo evento literário. Não eram suas falhas que maculariam o todo. De jeito nenhum.

A música parou. Segundo a chefe do local, os funcionários estavam mortos. Mas quem curtiu a festa até ali, sabia que voltaria para casa sabendo-se muito vivo.

E assim fomos.


Leia Mais
21 de agosto de 2014
UMA DEFESA DO BEST-SELLER

UMA DEFESA DO BEST-SELLER




por Marco Severo

Muito já se falou e se escreveu sobre os livros que vendem mais do que cachaça  em boteco dia de sábado, os “famigerados” best-sellers, exaltados por um determinado nicho de leitores e execrados por outro, o dos que “leem coisa melhor” e que, aliás, se pudessem, mandava queimar os da primeira turma, best-sellers e tudo, numa enorme fogueira, bem longe do dia de São João, que era pra todo mundo saber que o evento ali é festivo, mas por outro motivo, no melhor estilo Inquisição naquela época em que todo mundo que tinha qualquer poderzinho andava gritando feito a Rainha de Copas por aí, querendo tocar fogo ou cortar a cabeça de todo mundo, diante de plateias ávidas e sedentas.

E aviso logo que não estou aqui pra falar novidade alguma (tem como, sendo esse o tópico?). “Por que escrever sobre o assunto, então?”, já posso ouvir vocês perguntando daí. E eu respondo: porque sim. Porque eu quero e acho que devo. Além do mais, eu também tenho história pra contar a esse respeito. Estou aqui, na verdade, por dois motivos bárbaros (segundo a definição dos gregos e romanos, por favor): 1) falar da minha relação com a dita categoria de livros. (Fazer relato pessoal não deixa de ser uma boa oportunidade para trocar ideias) e 2) para defender essas obras de gosto duvidoso (e seus leitores também).

A fim de uma conversinha de pé de ouvido? Então vem.

Nunca ouvi falar de ninguém – ninguém mesmo, zero, nada – que tenha começado a ler por obras já consideradas estupendas, importantes etc e tal. Aliás, existem dessas obras que hoje são consideradas ícones, mas que, na época de sua publicação, eram populares que nem pão quente. Exemplo disso? Charles Dickens. Dickens era o Sidney Sheldon, o Harry Potter, os vampiros do Crepúsculo, da Era Vitoriana, em termos de vendas. Seus livros chegavam de navio, e tinha gente pulando dentro d’água no afã de pegá-los o quanto antes (talvez sem lembrar que para isso o livro teria de ficar encharcado, mas naquele tempo ninguém sabia ainda o que é histeria coletiva. Tenho minha dúvidas se hoje sabem, também). E atualmente, embora quase ninguém o leia, ele é considerado um “grande autor”, seja lá o que isso possa significar nas entrelinhas.

Pois bem, retomemos minha apologia ao best-seller.

Assim que eu comecei a ler, ganhei aqueles livros com figuras enormes e duas linhas com letras para míopes. Lembro de um do Pedro Bandeira, chamado Trocando as bolas, que era precisamente assim. E Pedro Bandeira já era, naquele tempo, um autor best-seller. Talvez dos poucos brasileiros que se sustentam só com literatura. E este foi meu primeiro livro da turma dos mais vendidos.

A partir daí, não parei mais. Com pouco tempo, estava lendo a série Vaga-lume, outro enorme best-seller. Aliás, era o que a moçada da minha geração mais lia naqueles tempos. Uma série inesquecível que até hoje reverbera em muitos dos caminhos que tomei enquanto leitor. Os livros de Marcos Rey, ou clássicos como O Escaravelho do Diabo, Éramos Seis, A Ilha Perdida, dentre tantos outros, quem nunca?

Descobrir outros best-sellers da época, tais como Sidney Sheldon, Danielle Steel, Harold Robbins, Agatha Christie, foi uma questão de (pouquíssimo) tempo. E eu devorava tudo, compartilhava tudo o que podia, trocava muitas coisas além dos livros: ideias, reflexões, pensamentos. E foi também quando o amor pela literatura se estabeleceu para sempre. Incondicionalmente. Não é à toa que eu digo que minha relação mais duradoura na vida não é com gente: é com os livros.

Foi mais ou menos por essa época, também, que eu vi o primeiro nariz ser torcido para aquilo que eu lia. Não me perguntem qual era o livro, mas certamente era alguém da turma mencionada acima, ou algo muito semelhante. Ouvi algo do tipo, “isso não é literatura. Quer ler algo que preste, vá ler Camus, Zola, Machado de Assis, Calvino blá blá blá” – a lista foi longa. Bocejei na cara do sujeito e continuei minha leitura.

Tempos depois, eu viria a descobrir esses e muitos outros da lista, mencionados ou não, sempre gostando mais de uns, menos de outros e nada de outros. Émile Zola, por exemplo, é um que não desce e eu não gasto mais meu tempo com ele.

Longos anos mais tarde, quando eu já havia dado uma guinada no tipo de livro que lia, surgiram outros campeões de vendas, Harry Potter e a saga Crepúsculo encabeçando a lista. Inicialmente, eu quis seguir a maioria execradora de livros e leitores de best-sellers. E quando meu nariz também se preparava pra torcer, eu me dei conta: menos moralismo, por favor. Você começou pelo equivalente a todos esses que estão aí.

Eu achava muito estranho aquelas vendas estratosféricas (não sei se Sidney Sheldon vendia como um Harry Potter, embora tivesse edições sucessivas de seus livros nos tempos áureos, mas a impressão que eu tinha, era que os best-sellers do final dos anos 90 em diante vendiam mais, bem mais). No fundo, eu tinha era inveja. Queria escrever, queria ser um deles, e minha reação era chamar de feio o que não era espelho, fazer uvas maduras se passarem por verdes.

Ler best-seller é sempre melhor do que não ler coisa alguma. Livros são vertentes para a vida, e a vida é, na maioria dos casos, melhor do que a morte. Viver implica em criar, em transgredir, em se reinventar. A leitura escancara todas essas possibilidades. É arte. Octavio Paz já dizia que o homem nada mais é do que imaginação e desejo. É através do sublime ato criador que podemos chegar aos píncaros do gozo.

E tem mais: esperneiem-se o quanto quiserem com a hipocrisia moralista, ninguém nunca vai tirar os best-sellers de mercado. Na verdade, a tendência é que estes continuem flamejantes nas prateleiras, nos e-readers, e quem tem de se cuidar são os autores da dita “literatura séria” (o que, convenhamos, também é uma lástima).

Ainda hoje, passados trinta anos daquele primeiro best-seller, me custa compreender por que as pessoas têm tanto prazer em cuspir em quem lê livros que estão nas listas dos mais vendidos. Não raro, leitores evoluem, por mais que se diga o contrário. E voltando ao que eu disse no começo, não conheço um só ser humano que tenha se voltado para o mundo da leitura sem antes ter passado pelo conjunto dos livros que vendem aos milhares ou milhões.

Ninguém tem a obrigação de ler Harry Potter, nem toda essa gama de livros que elevam o sexo em seus livros à condição de protagonistas, acima inclusive de tramas mais elaboradas. Nem livros sobre vampiros, nem a última moda em torno de bestas que se veem convivendo com seres humanos, os zumbis, além de Dan Brown e seu detetive que desvenda códigos. Isso para não falar em Paulo Coelho, Martha Medeiros e esse monte de padre enrustido que publica livro adoidado e que também vendem em quantidades grandiloquentes, coisa de deixar todos os outros escritores brasileiros se doendo de inveja.

Daí você pode me ver e perguntar, E como é a sua relação com estes livros? Quase nula, responderei com serenidade. Um ou dois, dentre os quase cinquenta livros que leio a cada ano. E isso não invalida sua defesa?, alguns perguntarão, quase apontando um dedo. Tanto quanto invalidaria um heterossexual por defender os direitos de um homossexual, ou de alguém em pleno controle de seu corpo defender os direitos de alguém com graves limitações. Portanto, não. O fato de eu (quase) não ler best-sellers não me tira o direito de apoiar aqueles que o fazem.

Evidentemente, estaria sendo hipócrita se dissesse aqui que não mantenho um fio de esperança de que este grupo de leitores – a maioria, diga-se de passagem – possa vir a ler outras coisas. Mas e daí se não o fizerem? Estão lendo, estão consumindo livros.

E nos dias que correm, qualquer coisa que tire alguém da frente do Faustão e afins é lucro. Se é pra perder tempo com mero entretenimento, pelo menos o fazem em silêncio, sem tirar o juízo de ninguém, com uma televisão desligada, ao invés de ligada em programecos dominicais.

De resto, que a gente possa ouvir What a wonderful world acreditando em cada palavra do que canta Louis Armstrong. Se tudo vai contra ele, o que nos resta é a esperança. E o mundo bem pode ser sim, maravilhoso.

É só a gente começar a parar de se incomodar com o que o outro anda fazendo, vendo, lendo. A literatura não pode ser – não deveria ser – mais um fator de segregação entre as pessoas. A verdade não poderia ser mais clara: ao nos incomodarmos menos com a vida dos outros, passamos a viver as nossas.



Leia Mais
Copyright © 2012 LiteraturaBr All Right Reserved
Designed by Bravo WebDesign | CBTblogger