"LAGARTA DE FOGO" é o novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr
Certo dia eu
caminhava por uma calçada mal feita, esburacada, numa rua sem graça que
visitara algumas vezes. Era quase meio dia, pois o sol a pino brilhava debaixo
do meu queixo – e aquela luz me incomodava, prefiro sombras. A rua parecia um
deserto em todos os seus aspectos, na quentura, no espalhar da areia pelo
vento, na solidão. Avistei, em outra calçada feia, uma menininha magra, de cara
chupada, braços finos e blusinha suja e de alça caída. Ela estava acocorada ao
pé do portão de uma casa que imaginei ser a sua, e cutucava com um palito de
dente algo que se movia no chão. Sei que este algo se movia por dois motivos:
ela, a menina, não descia a mão das agulhadas mortais em um ponto fixo, além do
quê, a sensibilidade de ouvir as últimas súplicas de tudo que respira me é
comum.
Curiosa que sou, aproximei-me e juro,
não minto, ouvi uns risinhos na prática da maldade. Poucas vezes presenciei uma
cena tão cruel, tão horrenda euforia na retirada de uma vida. A menina, que era
um pedacinho de gente, tinha brilho nos olhos ao enfiar violentamente o palito
de dentes em uma formosa lagarta de fogo, que se retorcia e gemia [gemidos de
bicho] a cada espetada que recebia. A menina, que era perversa e magra de ruim,
tinha como objetivo perfurar toda a lagarta de fogo, e, confesso, sua alegria
por estar tão perto de tal feito era tamanha que me contagiou. Parecia haver
uma maldade naquela menina que ela tinha facilidade em acessar. Ainda com muita
pena da pobre lagarta, eu agora queria apenas ver seus pedaços espalhados pela
calçada, e amiudei os olhos para ver a mutilação com maior nitidez.
Quando dei por mim, Eu, que sou
Senhora tão reservada e silenciosa, pulava em euforia ao redor da menina, que
nem parecia assim tão ossuda e perversa, e seu rostinho pueril até era cheinho
de carnes. Ela, repentinamente, ficou de pé e, com os bracinhos levantados,
gritava: “Yes, yes, yes!” E quando olhei para seus pés, que obra de arte! A
lagarta estava bem dividida em doze pedacinhos miúdos, e seu sangue – verde -
espalhava-se por um pedaço da calçada, uma das cenas mais lindas que vi em
minha longa trajetória de vida. Eu estava plena de gozo, extasiada em meus
negros véus. Cheguei atrás da menina linda, a qual eu admirava agora e já não
queria mais apenas como conhecida, queria aquela pequena como minha amiga, e
alisei seus cabelos [que não eram lisos] e ela então começava a notar minha
presença.
Notei os pelinhos loiros dos seus
braços levantados, e ela passava a mão na tentativa de acalmá-los, e Eu, na
tentativa de ajudá-la, apenas fazia com que a intensidade dos calafrios [pois
dizem que é isso que se sente quando estou por perto] aumentava. Percebi que
minha magrelinha tinha pressa – decerto para andar de mãos dadas comigo.
Apressei-me também. Girei a cabeça e vi, num quarteirão próximo, um motorista
conduzindo um enorme caminhão de lixo. Inclinei-me em seus ouvidos e sussurrei:
“você me conhece?” Ele, o motorista, então fez uma curva brusca e entrou a toda
velocidade na rua deserta, na qual acabara de acontecer a atrocidade artística
da lagarta de fogo. Segurei firme na mão da minha mais nova amiga e
companheira, soprei uma lágrima que descia pelo seu rosto ossudo e bem corado;
de bochechas cheinhas e quase perfuradas. Eu pulava em euforia, ela nem tanto.
O caminhão se aproximava a 130 por hora, soprou uma suave brisa gélida ao sol
do meio-dia, atravessamos a rua de mãos dadas, consciente e inconscientemente.
Horas mais tarde
voltamos para brincar sobre o caminhão virado, ao som de choros e gemidos
arrastados, enquanto separavam o lixo podre da carne pueril esfacelada, e
passeávamos entre o ajuntado de pessoas que se reunia para entender o caso. Minha
última observação, naquele dia, foi marcante: já era noite quando os pedaços da
lagarta de fogo ainda continuavam intactos na calçada morna.

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