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8 de outubro de 2014
"A Cartomante" é o primeiro poema de Alex Costa para o LiteraturaBr

"A Cartomante" é o primeiro poema de Alex Costa para o LiteraturaBr






















Quando ontem me olharam e disseram
Que o mundo hoje findar-se-ia,
Ri na cara daquela pobre infeliz
Sem saber que sina triste eu teria.

Cheguei em casa. Bati na porta. Ninguém abriu.
Dei a volta para entrar pelos fundos, logo pensei:
“que milagre, o Rex ainda não latiu!”
Mas eles estavam em casa - D. Nice me garantiu.

A porta entreaberta, as roupas estendidas no varal,
A casa em fúnebre silêncio - estranhei;
Rex deitado ao lado do fogão, um osso
Que não terminou de roer. Chamei:

- Berenice, cadê você, minha nega?
E o pesar do silêncio no ar. Corri avexado à sala,
E quando fui à cortina levantar,
Foi como um tiro: três corpos sem vida,

Um mar de sangue e a Morte, toda faceira, deitada no sofá. 







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24 de setembro de 2014
O SUICIDA, Conto de Alex Costa

O SUICIDA, Conto de Alex Costa





        Quando finalmente decidi, ainda hoje pela manhã, que tiraria minha própria vida, decidi em paralelo que não me acovardaria. Mas o que faria, mesmo, antes? Foi quando pensei em telefonar a um amigo, contar-lhe sobre a corda que agora vejo pendurada no caibro mais alto desse quarto sem graça. Como ele mora perto, decidi não arriscar, pois ele chegaria depressa e correria o risco fatal de salvar minha vida: ser salvo é o que eu menos preciso neste momento. Foi quando, em segundo plano, decidi que tinha o dia toda para morrer, e, embora sombria, sabemos que a Morte não escolhe hora marcada para os que desejam deitar-se em seus braços magros e ossudos no ápice da juventude – suponho.
          Decidi, então, às nove e trinta da manhã, que escreveria uma série de cartas que eu imaginava que iriam chorar sobre meu caixão de luxo, no qual minha mãe - perua como ela só - faria questão de me enterrar. Minha mãe. Juro que se fechar os olhos neste exato momento consigo vê-la, de vestido preto, com um enorme decote [que, decerto, quase chega ao umbigo], fingindo enxugar os olhos cagados de maquiagem preta com um lenço bordado, a alisar meus cabelos loiros e lisos, coloridos pelo sol das praias cearenses.
          Sobre as cartas, escrevi dezessete. Enderecei-as às minhas mais intensas relações, sendo três delas a inimigos [que um dia chamei amigos]. Deixei com a missão de entrega-las o amigo Jorge Xavier, um fato cômico, tendo em vista que Jorge passou no último concurso dos Correios e trabalha como carteiro, e odeia sua profissão: fica, então, como última gozação com esse sacana que pega todas as madames ricas e solitárias as quais lhe oferecem chá da tarde no vai e vem das cartas e envelopes. Ah, Jorge... o garanhão do “Clube da Prancha”. Mal sabem as menininhas onde Jorge coloca aquela boquinha de lábios suculentos antes de beija-las, o que espirram em sua carinha de barba por fazer – eu que o diga. Mas Jorge [ou Jorgeco, para o macharal do Clube da Prancha] não terá o trabalho de entregar todas essas cartas, pois queimei-as todas.

          Troquei todas essas cartas por este papel no qual agora escrevo, somente esta lauda que me faz suficiente para despedida. Deixo-lhes o motivo da minha ida que, decerto, logo dirão que foi precoce: aos vinte e um anos de idade, a vida não tem mais a mínima graça e enjoei do mundo faz tempo. Estou disposto de decidido a escrever minhas últimas duas linhas eu, que gostei tanto de escrever, e por isso ofereço-lhes o penúltimo ponto final. A última linha reservo para descrever somente a brisa suave e gélida que agora entra pela janela aberta do meu quarto, fazendo a corda balançar num ritmo tão convidativo que me apresso em colocar aqui o último ponto final [em mais de um sentido] em mais de uma dor.      



    
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10 de setembro de 2014
"LAGARTA DE FOGO" é o novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr

"LAGARTA DE FOGO" é o novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr





          Certo dia eu caminhava por uma calçada mal feita, esburacada, numa rua sem graça que visitara algumas vezes. Era quase meio dia, pois o sol a pino brilhava debaixo do meu queixo – e aquela luz me incomodava, prefiro sombras. A rua parecia um deserto em todos os seus aspectos, na quentura, no espalhar da areia pelo vento, na solidão. Avistei, em outra calçada feia, uma menininha magra, de cara chupada, braços finos e blusinha suja e de alça caída. Ela estava acocorada ao pé do portão de uma casa que imaginei ser a sua, e cutucava com um palito de dente algo que se movia no chão. Sei que este algo se movia por dois motivos: ela, a menina, não descia a mão das agulhadas mortais em um ponto fixo, além do quê, a sensibilidade de ouvir as últimas súplicas de tudo que respira me é comum. 
          Curiosa que sou, aproximei-me e juro, não minto, ouvi uns risinhos na prática da maldade. Poucas vezes presenciei uma cena tão cruel, tão horrenda euforia na retirada de uma vida. A menina, que era um pedacinho de gente, tinha brilho nos olhos ao enfiar violentamente o palito de dentes em uma formosa lagarta de fogo, que se retorcia e gemia [gemidos de bicho] a cada espetada que recebia. A menina, que era perversa e magra de ruim, tinha como objetivo perfurar toda a lagarta de fogo, e, confesso, sua alegria por estar tão perto de tal feito era tamanha que me contagiou. Parecia haver uma maldade naquela menina que ela tinha facilidade em acessar. Ainda com muita pena da pobre lagarta, eu agora queria apenas ver seus pedaços espalhados pela calçada, e amiudei os olhos para ver a mutilação com maior nitidez.
          Quando dei por mim, Eu, que sou Senhora tão reservada e silenciosa, pulava em euforia ao redor da menina, que nem parecia assim tão ossuda e perversa, e seu rostinho pueril até era cheinho de carnes. Ela, repentinamente, ficou de pé e, com os bracinhos levantados, gritava: “Yes, yes, yes!” E quando olhei para seus pés, que obra de arte! A lagarta estava bem dividida em doze pedacinhos miúdos, e seu sangue – verde - espalhava-se por um pedaço da calçada, uma das cenas mais lindas que vi em minha longa trajetória de vida. Eu estava plena de gozo, extasiada em meus negros véus. Cheguei atrás da menina linda, a qual eu admirava agora e já não queria mais apenas como conhecida, queria aquela pequena como minha amiga, e alisei seus cabelos [que não eram lisos] e ela então começava a notar minha presença.
          Notei os pelinhos loiros dos seus braços levantados, e ela passava a mão na tentativa de acalmá-los, e Eu, na tentativa de ajudá-la, apenas fazia com que a intensidade dos calafrios [pois dizem que é isso que se sente quando estou por perto] aumentava. Percebi que minha magrelinha tinha pressa – decerto para andar de mãos dadas comigo. Apressei-me também. Girei a cabeça e vi, num quarteirão próximo, um motorista conduzindo um enorme caminhão de lixo. Inclinei-me em seus ouvidos e sussurrei: “você me conhece?” Ele, o motorista, então fez uma curva brusca e entrou a toda velocidade na rua deserta, na qual acabara de acontecer a atrocidade artística da lagarta de fogo. Segurei firme na mão da minha mais nova amiga e companheira, soprei uma lágrima que descia pelo seu rosto ossudo e bem corado; de bochechas cheinhas e quase perfuradas. Eu pulava em euforia, ela nem tanto. O caminhão se aproximava a 130 por hora, soprou uma suave brisa gélida ao sol do meio-dia, atravessamos a rua de mãos dadas, consciente e inconscientemente.


Horas mais tarde voltamos para brincar sobre o caminhão virado, ao som de choros e gemidos arrastados, enquanto separavam o lixo podre da carne pueril esfacelada, e passeávamos entre o ajuntado de pessoas que se reunia para entender o caso. Minha última observação, naquele dia, foi marcante: já era noite quando os pedaços da lagarta de fogo ainda continuavam intactos na calçada morna.   




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27 de agosto de 2014
"NO TERMINAL DE JEFERSON", crônica de Alex Costa para o LiteraturaBr

"NO TERMINAL DE JEFERSON", crônica de Alex Costa para o LiteraturaBr




Hoje o acaso me levou à Faixa de Gaza fortalezense, ao ponto de encontro de mãos que negam centavos e dos que morrem pelas bombas invisíveis jogadas constantemente em seus olhos, suas vidas. Cheguei naquele terminal por volta das 18:20, encontraria uma amiga às 18:50. Por sorte andava na companhia de um livro e matei esses trinta minutos sem problemas. Mas, neste ínterim, fui surpreendido por um dos diálogos mais lindos que tive na vida. Ao chegar, senti vontade de tomar um sorvete e me encaminhei, segurando o livro na mão direita, a um ponto rosa no qual uma placa anunciava: “Casquinha – 1,50”. “Uma mista, por favor” – pedi à atendente, que tinha sua testa brilhosa de suor, e Deus sabe desde que horas aquela moça trabalhava naquele cubículo quente e desconfortável. Notei que, um pouco afastado, a chupar o dedo polegar, um menino, que vestia uma blusa cinza com a imagem de um Mickey Mouse sorrindo, me observava e olhava fixamente para o livro que estava na minha mão, mas logo mirou no dinheiro que a atendente me entregava – troco de vinte reais.

“Ei, tio, me dá as mueda ai, vá lá!” – pensei em um turbilhão de coisas em fração de dois segundos. 1) Cheirar cola? 2) Inteirar a pedra? 3) Comprar comida? Não fazia ideia em qual alternativa deveria arriscar, mas temia ser uma das duas primeiras. “Deixa pra próxima, beleza?” – saí de lá com o coração na mão, mas não podia arriscar colaborar com a destruição daquele menino – que eu, preconceituosamente, achava que estava a se destruir. Voltei ao banco onde estava sentado antes de ir comprar aquele sorvete, já com o sorvete pela metade, e fiquei refletindo nos olhos pidões daquele menino. Por um lado, algo me dizia que eu havia feito o certo, por outro, poderia ter sido eu o provedor da janta (refeição única?) daquele jovem. Dei a última dentada na casquinha e joguei o guardanapo na lixeira ao meu lado, abri o livro na página 92.

Li dois parágrafos de um ensaio chato e escrito somente para a exaltação do ego de quem se achava muito conhecedor da arte do cinema, escrevendo três “achismos” ainda no primeiro parágrafo. Fechei o livro e só então me dei conta de que eu estava cercado por uma atmosfera propiciadora a inspirações para a escrita, uma loca cheia de frutos do Determinismo de Taine e das exceções com as quais não podemos justificar as (ainda) poucas mudanças sociais; inspira-me o contato com a pele de um povo que tão injustiçado foi e ainda não recebeu indenização, que sustenta esse país nas costas e são escrachados todos os dias por não terem o cabelo liso. Deixemos estes comentários e indignações para um comentário posterior, hoje me interessa contar outra história.

De pé, com os olhos fixados em mim (há quanto tempo?), ainda chupando o dedo, o menino das muedas (porque muedas, com U, é mais coerente) me olhava ainda com os mesmos olhos pidões com os quais recebeu meu não. Dei um sorriso de canto de boca para ele e o gesto foi recíproco. Ele veio caminhando em minha direção, limpando o dedo polegar no calçãozinho azul sujo e furado. “Como é esse livro ai?” – apontando para a capa colorida. “É um livro de ensaios sobre cinema” – ele fez um sinal positivo com a cabeça, mas percebi que ele não fazia ideia do que era um ensaio. “Você sabe o que é isso, ensaio?” – ele voltou a colocar o dedo na boca e balançou a cabeça em sinal de negação. “Pois senta aqui, macho, vou te explicar”

Descobri que seu nome era Jeferson (com um F só, segundo o mesmo) e que não estava estudando. Quer trabalhar na Petrobrás quando for “grande” e morar no Conjunto Ceará (?). Tinha três irmãos e não quis dizer onde morava, respeitei. “Antigamente” ele vendia amendoim, mas agora não vendia mais porque acabou (?). Jeferson, depois de três minutos de conversa, disse que havia entendido o que era um ensaio, e até me explicou quando pedi: “é quando o cara escreve pra dizer o que tá pensando” – não foi bem isso que expliquei a ele, mas tá valendo! “Mas, tio, tô com fome ó! Compra um salgado pra mim, vá lá!?” – pediu, com um olho aberto e outro fechado, com meio sorriso na boca de dentes alvinhos. “Certeza que é pra comprar salgado?” – perguntei olhando nos olhos dele, embora já tivesse decidido a dar. “É sim, é sim! Vou comprar bem ali, ó!” – apontou para uma lanchonete à nossa frente.

Tirei dois reais do bolso e já ia me levantando para ir com ele comprar o salgado, mas ele disse que eu não precisava ir, podia deixar que ele comprava sozinho, porque ele sabia. Entreguei o dinheiro e disse que ele fosse mesmo, que eu estava olhando dali. Ele tirou o dedinho da boca e saiu correndo com a nota de dois reais levantada e sacudindo em euforia. De repente, Jeferson parou no meio do caminho, olhou para trás e foi voltando com os olhos caídos. “Ei, tio, é dois e vinte e cinco, e o homem não deixa não ó!” – sorri e tirei mais vinte e cinco centavos do bolso e o entreguei. Novamente a carreira com a cédula azul levantada.

Jeferson, que era menor que o balcão, chegou todo dono de si para comprar seu salgado com suco, e logo foi rodeado por outros cinco meninos do seu tamanho, e arrancou um pedaço do seu salgado para cada moleque daqueles. Como sou besta que só eu mesmo, enxuguei as duas lágrimas que caiam na minha blusa bem lavada com amaciante e passada a ferro, vendo um minúsculo salgado sendo repartido com tanta alegria entre seis Jefersons.





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13 de agosto de 2014
"CASA DE CALÇADOS", conto inédito de Alex Costa para o LiteraturaBr

"CASA DE CALÇADOS", conto inédito de Alex Costa para o LiteraturaBr





          Ficava numa esquina suja e pouco movimentada – além de mal iluminada à noite. Não chegava a ser exatamente uma casa, estava mais para um quartinho abafado e repleto de calçados jogados pelo chão, à espera de conserto ou lixeira. A “Casa de calçados”, como era conhecida no bairro e redondezas, era um mistério e por vezes usada pelos pais quando queriam fazer medo aos filhos: “olha que eu te jogo dentro do quartinho dos calçados, peste!” A verdade é que ninguém via quem entrava e quem saía de dentro do quartinho, mas sabiam que havia gente que trabalhava lá, ouviam as batidas do martelo e a luz acesa, muitas vezes até tarde da noite. Diziam que um homem de meia idade, muito rabugento e sujo trabalhava lá, mas que o ponto era alugado. Acontece que, quando se tem uma lenda assim, tão pertinho de casa, é difícil controlar-se quando se é possuído por um espírito aventureiro e corajoso como o de Mariana. E Mariana era uma menininha de cabelos cacheados, testa grande e muito exibida, sempre dona das brincadeiras e a mãe de todas as bonecas suas e das amigas – e estas, se quisessem, se contentassem em serem apenas tias.
          Certo dia, Mariana, curiosa que só ela, resolveu aproximar-se do portão enferrujado e carcomido do quartinho escuro, e encantou-se com uma sandalinha cor de rosa que estava emborcada, solitária sem seu par, próxima ao portão. Queria eu poder descrever com exatidão a intensidade com que os olhinhos de Mariana brilharam quando viram aquela sandália, tão meiga e conservada no meio daquelas quinquilharias, uma belezura! Decidiu que teria que haver um par, e que seriam suas, as duas, fosse como fosse!  Espirituosa, bateu palmas por duas vezes:

- Moço, ou moço... Tem alguém ai? – esticava o pescoço, como que procurando um velho amigo.

Parecia não ter ninguém naquele quarto abafado e amontoado de sapatos e velhas sandálias, e, se havia, parecia não ouvir – ou não querer atender – Mariana. Pensou em novamente insistir nas palmas, mas gritaram por seu nome no final da rua, e Mariana nem mais lembrava que estava em plena brincadeira de corre-corre. Despediu-se daquela sandália como quem deixa um cachorrinho abandonado no meio do mato, e havia um aperto em seu peitinho esquerdo - de tanta dó.
          A noite foi mal dormida. Por vezes pensou em levantar-se e ir ao quarto da mãe, pedir a ela de presente aquelas sandalinhas, que nunca mais lhe pediria nada, mas que, por tudo que mais amasse, comprasse-lhe aquelas belezinhas rosa para exibi-las em seus pés. Na escola, na manhã seguinte, ficou quietinha no canto da sala, e mesmo todos estranhando seu comportamento, que era sempre de inquietude e elétrico, ela dizia: “não é nada, estou com uma dorzinha de barriga” – não queria nem podia dizer a ninguém sobre sua sandalinha, decerto iriam querer toma-la, comprar antes que pudesse fazer aquele negócio. Decidiu, ainda antes de sair da escola, que àquela noite falaria com o dono daquela Casa, que decerto venderia para ela baratinho se ela fizesse uma carinha triste, pois todos diziam que ela era uma coisinha fofa e lhe adulavam com mimos e regalos sempre que merecia – ou simplesmente queria algo. 
          Jantou cedo, faltava ainda dez pras sete da noite quando arrotou um arrotinho de menina e pediu a benção à mãe:

- Tu já vai pra onde, bicha mal educada? Eu quero é que tu não chegue aqui antes dessa novela acabar, tu escutou?

O portão da frente já havia batido duas vezes quando Dona América terminou de gritar o último verbo. Passou por entre os amigos e fez que nem os viu, tão cega que estava em um só pensamento, pois algo mais importante a esperava ali na esquina. A luz estava acesa, o que já era um bom sinal, e grande foi a surpresa que estava reservada à Mariana: no mesmo lugar, próximo ao portão, estava não somente a sandalinha rosa, emborcada e suja, que Mariana vira no dia anterior, mas agora estava juntinha a seu par, as duas corzinha de morangos. Deu dois saltinhos leves de alegria, estava realizada! Palmas, palmas:

- Moço, seu moço, o senhor tá ai? – aflita, mas àquele dia houve resposta. Um vulto vindo de um canto escuro do quarto fez de pé ante a menina.  

- Diga, boneca. – era uma lenda que se transfigurava ali na sua frente.

Mariana quis travar, parecia que a voz não iria sair da garganta à fora.

- O s-senhor vende essa sandália aqui é? – nervosa.

O homem coçou a barba, era realmente como haviam dito, um tanto rabugento, não tão sujo. Aproximou-se do portão, era alto e usava uma velha bermuda esverdeada e rasgada. Olhou para todos os ângulos da rua, que parecia ainda mais mal iluminada justamente aquele dia, o que era quase proposital.

- Você mora aqui mesmo, boneca? – mastigava um chiclete – ou fazia que mastigava.

- Moro lá na outra esquina, e eu vim aqui ontem, mas o senhor não estava, né? – precisava ganhar a simpatia do moço das sandálias.

- Era, eu não tava não. – disse, destrancando o cadeado – Você quer qual sandalinha? Essa rosinha aqui? Entre, mocinha, que lá dentro tem mais – convidativo.

Mariana foi, taciturnamente, entrando no quartinho abafado. Quase chorou quando viu à sua frente como que um corredor cheinho de sandalinhas e sapatilhas de todas as cores, das mais bonitas, que parecia milimetricamente feito para o encanto das apreciadoras de calçados coloridos.

- Meu jesuizinho! Como são lindas! Quero levar todas! – exultava de alegria.

- Vai, você vai levar todas, tudinha! – o escarnecedor.

O homem, da Casa de calçados, que era realmente sujo e maltrapilho, deu uma última olhada para as ruas que lhe rodeavam e nada via, embora ainda cedo. Algumas crianças caretas brincavam de corre-corre no final da rua e, empolgadas, não se atentavam aos locais mal iluminados e desinteressantes por onde não podiam correr. Voltou a colocar o cadeado no portão velho e carcomido de ferrugem e com manchas de sangue seco em algumas das dobradiças, fechando vagarosamente a porta de enrolar atrás de si, enquanto Mariana media seu pezinho nas sandálias amareladas que fechavam com tirinhas.

- Qual seu nome, meu benzinho? Qual sandalinha você vai querer? Venha aqui que tem um bocado que você ainda não viu! – disse o homem, com a mão grossa e peluda no ombrinho da menina realizada, a conduzir-lhe com certa pressa em direção ao canto escuro e sombrio do quarto lendário dos calçados, e Mariana já percebia que não era mais tão encantador o caminho alegre das sandálias coloridas – queria voltar.

Sabe-se que naquela noite a brincadeira das crianças caretas foi até um pouco mais tarde, as mulheres não dormiram e ninguém comprou nem consertou calçados no dia seguinte, pois a Casa de Calçados não abriu: fechou por excesso de encomendas.   





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7 de agosto de 2014
"Sujeito, Verbo e Predicado", novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr

"Sujeito, Verbo e Predicado", novo conto de Alex Costa para o LiteraturaBr

Ilustração: Felipe Campos



Incontáveis as vezes que foram aqueles três danados, grudados no seroto um do outro, para a sala da diretoria. Ninguém sabia ao certo o que eles faziam na escola, pois todos e todas cochichavam que não tinham o mínimo interesse em passar de ano, embora fossem participantes fiéis da fila da merenda. O apelido surgira em uma aula de português, quando a professora, na tentativa convencê-los a cessarem a conversa e prestar a atenção em sua aula, os utilizou como exemplo de revisão: “os elementos básicos da frase são quase tão inseparáveis como vocês: sujeito, verbo e predicado” – disse a professora, apontando para cada um deles.
          Os demais professores há tempos não permitiam que os três sentassem próximos dentro de sala, mas bastava separá-los para a situação tornar-se ainda pior: uma incessante chuva de bolinhas de papel uns nos outros, nos extremos da sala. A solução parecia ser sempre a mesma: que fossem os três se resolver com a diretora, que professor não era obrigado a aguentar vagabundinho a atrapalhar suas aulas não, havia quem queria aprender!
          Os outros alunos tinham receio em olhar para os três, rolavam soltas umas lendas sobre eles que espantavam e circularam da diretoria à biblioteca; nada concreto, mas este ridículo temor era talvez o motivo da não expulsão dos três. A verdade é que os meninos eram um tanto mal encarados, e sempre tiravam as blusas da farda na saída do colégio, antes de dobrar a esquina da casa de fogos, na direção contrária a de suas casas. 
          Tudo o que conseguiam com os assaltos nos bairros distantes era dividido entre os três, sempre uma partilha na qual se preservava pela igualdade, para não haver desavença entre o trio. Eram viciados no que faziam, e faziam com excelência, pois nunca haviam sido pegues em suas aventuras de final de tarde. E começaram a correr as notícias de três “mirins” que estavam tocando o terror no bairro da Nascença, diziam que a situação estava ficando terrível e que os residentes do local já não aguentavam mais. Um grupo de moradores se juntou para tomar providências quanto ao caso dos moleques da favela, e então decidiram pela contratação de um policial aposentado que havia se mudado do bairro há alguns anos, mas havia resolvido problemas como aquele incontáveis vezes.
          Era um fim de tarde de sexta-feira, que nem era treze, quando os meninos abordavam, no final da rua, uma moça branquinha, que tinha nas mãos duas sacolas de uma loja grã-fina, e só faltava que ela entregasse o celular importado quando, no outro extremo da rua, apareceu Seu Fardêncio, o tal policial aposentado matador de “guri malandro.” Verbo, o mais taludo dos três, que se chamava Jeferson, foi o primeiro a gritar: “Correr, negrada!” Sujeito e Predicado - Cláudio e Iago, respectivamente – soltaram as facas enferrujadas no chão e correram atrás do Verbo, que estava mais à frente. Dobraram a esquina com a hiena em seus calcanhares, com um arma cor de prata (porque ele tinha nojo de preto) empunhada e pronta para matar menino sem identidade, mas os meninos corriam ligeiro, até que se viram no final de um beco sem saída, que tinha os muros bem altos e impossíveis de ser escalados. Estavam nervosos. Sujeito até parecia querer chorar, mas mantiveram-se firmes e, juntos, como sempre estiveram, correram como espartanos para cima dos pipocos das aves-balas que vinham zunindo da entrada do beco. “Bora pra cima que ele não pega nós três não, negrada!”  


          Dia seguinte deu no noticiário que a gangue do bairro vizinho havia matado os ladrõezinhos que estavam tirando o sossego da Nascença, “três marginaizinhos” – enfatizou o apresentador do noticiário das 18:00h. Vestida de falso luto, a escola continuou as atividades normalmente. Na segunda-feira da semana seguinte, a mesma professora de português, nas turmas de sétimo ano, anotava no quadro uma das classes gramaticais: “hoje veremos Adjetivo, que qualifica os seres bonitos, igual a você, minha flor” – disse a professora, alisando os cabelos de Marina, a menininha nova da escola, que todos diziam ser esquisita e estranha por sentar com as perninhas um pouco mais abertas que o normal, mas ninguém nunca se interessou em saber o porquê.  



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3 de agosto de 2014
"DECEPÇÃO", um microconto inédito nesta tarde de domingo

"DECEPÇÃO", um microconto inédito nesta tarde de domingo





Ao adentrar o quarto, percebi que a cama não era redonda e no teto não havia um enorme espelho – como haviam me dito que eu veria. Aqui e acolá se via algo no tom avermelhado, que é a cor do desejo. A porta de um pequeno frigobar, com marcas de ferrugem nas dobradiças, rangeu quando abri e me deparei com um mar de garrafinhas de água mineral, somente. Ela havia se deitado sobre a cama – quadrada – e dava pequenos gemidos, rolando por cima da cocha não tão macia nem limpa, como uma égua que se banha na areia. A televisão não funcionava, o ventilador empoeirado (não havia sequer ar-condicionado!) fazia um barulho agonizante e, sem divã ou poltrona, havia apenas duas cadeiras de plástico duro naquele quarto apático. Que situação desagradável aquela! Apenas uma curiosidade minha e a obrigatoriedade de estar acompanhado havia me levado àquele lugar. Ela estrebuchava-se sobre a cama à minha espera, chamava-me, mordendo os lábios, tentando sensualizar com os dedos a esfregar os grandes lábios – encardidos. Eu olhava ao redor e não acreditava na burrada que havia feito: adiantei o pagamento de três horas que teria que passar naquela pocilga! E agora teria que fazer meu dinheiro valer a pena. Olhei para aquela vagabunda e fui desabotoando a camisa e a bermuda. Entendi que a decepção maior não seria o dinheiro mal investido, mas pior ainda era o incômodo da ideia de agora ter que foder alguém que eu nunca quis, maldita que era, que me fazia sentir raiva por não estar em seu lugar, deitado à espera de um homem que desabotoasse o short na minha direção.      




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30 de julho de 2014
ROXO-MUNDO, novo conto de Alex Costa

ROXO-MUNDO, novo conto de Alex Costa



A comparação com os giz de cera foi imediata: como era colorida a roda-gigante! Era um sábado de aniversário, era Miguel fazendo seis aninhos.

- Olha, pai... depois a gente pode ir naquele? – mirava um brinquedo chamado espalha-brasas.

- Sim, podemos. Mas segure a minha mão! Pare de querer correr, Miguel. Não vai ser fácil te procurar aqui, no meio dessa multidão, danadinho.

O menino Miguel, de tão hesitado com o brilho das cores e o funcionar dos brinquedos, parava de quando em vez só para dar uns pulinhos de felicidade e agarrar-se à perna do pai, agradecendo pela promessa cumprida.

- Olha a baaaaaa-la-la-la-la-la! – era o palhaço Defim, vendedor de balas e algodão doce.

- Pai, quero uma bala, dessas de mastigar. – ganhou duas, porque era seu aniversário.

O resto da noite foi um corre-corre pr’ali, um “agora nesse aqui” que não acabava mais. Até que o cansaço foi chegando, as pernas ficando esmorecidas, os olhos pesando de sono. A volta pra casa foi um resumo da maravilhosa noite no parque: “o mais legal foi aquele que girava bem rapidão, né, pai?” – e as risadas de Seu Abílio, afagando os cabelos em cachinhos do pequeno Miguel. Ao chegar em casa:

- Agora é tomar banho e ir dormir, viu, mocinho! E não se esqueça de escovar os dentes... mas antes cuspa fora esse chiclete, vai acabar estragando os dentes, rapaz! – Miguel queria saber se era diferente ou não o gosto do segundo chiclete, que guardava no bolsinho da camisa.

Um beijo na testa. Um boa-noite. O cuidado em distribuir bem a coberta para proteger do frio o filhinho querido.

Três e quarenta da madrugada. Duas tosses secas e a procura de ar:

- É o Miguel, vai lá olhar o que foi – disse dona Giselda, empurrando a cabeça do marido.

- É nada não, criatura. Criança é assim mesmo, sempre tosse depois que se dana muito.

O domingo amanheceu nublado, de luto pelo embrulhinho roxo que amanheceu onde Miguelzinho dormiu e não mais acordou.      




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2 de julho de 2014
LORI LOIRA, microconto de Alex Costa

LORI LOIRA, microconto de Alex Costa


LORI LOIRA
Não era das mais bonitinhas, decerto, mas sabia andar de bicicleta nas ruas de asfalto. Tinha dois dentinhos podres no alto da boca, e dizia para as amigas que eram pintados com lápis para serem diferentes dos outros, que eram amarelados. O irmão do meio: um fino ladrão de feira. Este, maldito que era, não se contentando mais somente com a feira, certo dia pulou um quintal alheio para furtar pertences de outrem, mas caiu no quintal de Zezão, traficante-chefe das redondezas. Tiveram que mudar-se para um interior no pé da serra, que era para não ter a trabalheira de um velório perto do final do ano, que é quando se tem mais sapatos e sandálias a pagar. 
O local não era de todo ruim, tinha seus atrativos (raros). O principal era a barragem de Cosme e Damião, localidade próxima.
Era um domingo pela manhã quando, depois da tapioca com leite espumado, foram de shortinho para o banho. A chuva desfiava do outro lado da serra e os respingos já se faziam sentir no meio da criançada e das madames que batiam a roupa em cima das locas.
- Sai do mêi que eu vou dá um cangapé, Lorimeyre! – gritou Lorianne, de cima da barragem.

Ao calar a boca, ao longe, um estrondo: era a comporta principal da barragem rompendo e a cara de assustada de Lorimeyre, que por causa de seus cachinhos louros era também chamada Lori Loira, quando a correnteza medonha a fez retirar da boca o gosto de tapioca e leite espumado, quando foi achada no sangradouro do açude na manhã do dia seguinte, de cor meio arroxeada, quase toda coberta de lama e de folhas, que se emaranhavam por entres seus dentinhos de grafite. 



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17 de junho de 2014
Adriano, microconto de Alex Costa

Adriano, microconto de Alex Costa



Adriano era um menininho de cabelo carapinho, que era meu vizinho, e que vivia com o nariz-torneira a escorrer catarro amarelado. Sempre com o pé no chão, só depois me contaram porque a barriguinha de Adriano era tão para frente: mamãe disse que era cheinha de vermes. Adriano tinha um cheiro de sol e suor que eu gostava demais, e Adriano era meu melhor amigo. Sempre quando brincávamos do jogo das tampinhas, e eu estava ganhando, ele dava um murro bem forte nas minhas costas e corria para a casa dele, que era uma casinha tipo de barro, caindo os pedaços. E eu ia chorando para casa e minha mamãe dizia: “você não vai mais brincar com aquele moleque imundo!” – mas era mesmo que nada. No outro dia, eu mal tirava os sapatos e a farda do colégio e já saía correndo, com meu boneco de menino branco nas mãos, para chamar Adriano para brincar de correr no meio da rua. Ele brincava com meu boneco que girava a cabeça e eu era todo encanto com o robô dele, que era feito de caixa de leite vazia. Mas aí, um dia, que era de tarde, chegou um carro preto no final da rua e jogou o Adriano dentro, feito um porco, e ninguém nunca mais viu o Adriano. E o pai e a mãe dele choraram muito, mas Adriano nunca mais voltou pra casa. Minha mamãe disse que teria que arranjar outro amiguinho para brincar, que eu poderia escolher, mas nenhum deles tem o cheiro de sol e suor que só Adriano tinha. 



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4 de junho de 2014
Ursinho Azul-Claro

Ursinho Azul-Claro




Haviam passado já por duas placas que informavam estarem próximos da Paraíba. No banco traseiro, acomodado em sua cadeirinha, o pequeno Jhonatan apertava entre os braços um macio ursinho de cor azul-claro, que ganhara de seu pai na noite anterior àquela viagem. Foi na curva depois da ladeira que, entre olhares nervosos, avistaram uma blitz que fazia a fiscalização num trecho da BR-116. O ar ficou mais sério dentro do veículo e a velocidade foi reduzida. Com sorte não iriam ser parados – nem incomodados.

- Fique quietinho, bebê. Não aperte tanto assim o ursinho-azul, ele pode ficar com dorzinha na barriga – disse o pai do pequeno, com meio sorriso amarelado, regulando o cinto de segurança e organizando no bolso da camisa o documento.

O pequenino continuou a afagar o ursinho, apertando a barriguinha, a mãozinha e o narizinho peludo do brinquedo novo. Foi dado sinal para que o carro parasse. Novamente uma troca de olhares nervosos e a voz do passageiro carona dizendo: “calma, meu bem, vai dar tudo certo”.

- O documento do veículo, por favor – falou um abutre, a percorrer o interior do veículo com os olhos maliciosos, em busca de um defeito, do dinheiro do almoço ao meio-dia que se aproximava.

- Pois não, tá na mão, senhor – as mãos um tanto trêmulas.

Mal se interessou pelos dados do documento, que parecia estar em dias, conferiu se não havia algum animal empapelado entre os documentos, quase sempre havia - um singelo agrado dos que devem algo. Nada encontrando, perguntou quem era a criança linda que estava no banco traseiro. Fez-se um nó na garganta do motorista:

- Nosso filho, e está tão cansadinho, coitado. Vem se admirando de tudo que vê desde que saímos de Fortaleza – estava já impaciente, queria sair dali.

- Filho de quem, rapaz? Como é isso? – espantou-se.

- Sim, nosso. Algum problema? – o fingimento de chateação.

Houve certo desconcerto por parte do abutre de farda preta, que logo entregou a carteira do motorista, deu duas leves batidinhas na lataria superior do carro, como sinal de liberação, e saiu com um sorriso amarelado no rosto, balançando a cabeça num gesto de negação. Puderam respirar mais frouxamente. A viagem continuou.

- Eles se cagam de medo de processo, sabia? É só fazer um ar mais sério que logo eles tentam se livrar da situação. Idiotas! – de mãos dadas, entre gargalhadas.

- Ah, mas vai dizer que não estava nervoso!?

- Sim, lógico, claro que estava. – virando-se para o pequenino, que já queria pegar no sono – Agora dá o ursinho azul, neném. Dá pro tio, dá!

O neném foi despertando enquanto tentavam puxar o ursinho que estava entre seus braços, fez uma carinha de enjoado, quis abrir o berreiro no choro.

- É melhor deixar com ele mesmo, meu bem. Deixe com ele. Vai que aparece outra barreira dessas pra embaçar, ninguém sabe, né!? – outro conselho do carona.

- Tá, tá. Acha melhor pegarmos o atalho ai da frente?

- Pode ser. É até bom mesmo para sairmos da estrada – havia profecia naquelas palavras.

Foi depois da ladeira segunda, que era tortuosa e mal sinalizada, que um vento soprou forte: não se sabe como aquele pneu se retorceu, a velocidade não permitiu que parasse levemente o carro, que capotou na ribanceira da estrada, e rodou e rodou e rodou. Em um trecho deserto, ninguém notou a ausência de um veículo no caminho. O pequenino nem bem entendeu o que aconteceu - tamanha rapidez do acontecido. Apenas queria livrar-se daquelas correias que o mantinham preso à cadeirinha. Já quase conseguindo sair do veículo, assustou-se com o sangue que escorria da testa do motorista, que se encontrava desacordado, preso às ferragens. A fumaça que se fazia ao redor do carro capotado tornava o ar quase impossível de ser respirado.

O neném correu dali levando apenas seu ursinho azul-claro, com os olhinhos irritados e lacrimejados, confuso com toda aquela barulheira. Avistou uma árvore de galhos secos e retorcidos, mas que oferecia um pouco de sombra, e resolveu aninhar-se.

- Logo vai vir gente pra pegar a gente, ursinho. – disse, segurando o ursinho, entre soluços.
Cansado, deitou-se num cantinho do tronco. Olhava tristemente para o ursinho, que parecia agora ter o olhos murchos e desconcertados, e disse:

- Tô com tanta fome, ursinho. Também tá? – não houve resposta.

O neném então cutucou a barriguinha do ursinho para saber se estava vazia como a sua. Com as pontas dos dedos, sentiu como que uns carocinhos na barriga macia do urso:

- O que tem aqui dentro, ursinho? Tem comidinha, tem?

Começou então a cutucar e a despir a barriguinha do ursinho, até que encontrou umas pedrinhas redondinhas e brancas lá dentro.

- Você comeu e não me deu, ursinho? Estou triste com você! – fez carinha de aborrecido. – Posso comer essas daqui que tirei da tua barriguinha? Posso sim, né!? – e sorriu pueril e inocentemente.


Dizem que o neném, de tão gulosinho, comeu todas as pedrinhas brancas do ursinho, e em pouco tempo colocou a mãozinha na barriga gritando “ai, meu deusinho, me ajude!”, e dormiram para sempre: ele e o bondoso ursinho azul-claro. 


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7 de maio de 2014
Joaquim

Joaquim


Uma vida inteira – embora ainda com sete anos – entre os cuidados de casa e os leitos dos hospitais públicos. A mãe espírita, o pai evangélico e a avó paterna macumbeira: Joaquim era doente. Com o nome escrito e bolando em altares diversos, amassado em papéis amarelados, Joaquim era citado no terreiro de mãe Margareth, na igreja e na Casa de Piedade. À espera de um doador de medula óssea compatível, o menino indagava constantemente: “dentre todas essas discussões sobre deus, quem será que está certo? quem poderá ter tanto poder assim pra me dar um sangue novo?”. Por um lado, se imaginava apenas passando com uma missão de aprendizado pela terra, apenas um estágio de evolução; por outro, havia cura sim, que ele acreditasse em quem pode fazer tudo; no colo da avó, ouvia que a reza daria jeito, ele ainda iria brincar muito. Por todos os lados havia uma busca incessante de ajuda àquela criança. Campanhas fortes no país inteiro. Mas foi em uma noite de domingo que o menino Joaquim morreu, sozinho no leito nove do hospital Santa Judite, sem ter a certeza para onde iria e a qual deus pedir socorro na hora da morte. 



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29 de abril de 2014
Cândido

Cândido


Cândido nasceu gordinho: quatro quilos e duzentos gramas.  Do leite materno ao leite especial, que só deixou de tomar quando bem quis. A lancheira, ainda nos primeiros anos da escola, despertava a inveja dos amiguinhos de classe: achocolatado suíço, barras de cereais, guloseimas e suquinho de morango.  Ainda na pré-adolescência, tinha uma rotina forçadamente cheia: curso de música, aulas de inglês e francês; além de esportes, sendo estes aos finais de semana. Ganhou o primeiro carro antes mesmo de sair do ensino médio, pois só ficara para recuperação em oito das doze disciplinas do segundo para o terceiro ano, o que era um grande feito no currículo escolar de Cândido- se considerado aos anos anteriores. A primeira namorada não suportou a relação por muito tempo, pois as agressões físicas estavam ficando cada vez mais fora de controle. Ela até denunciou aos órgãos responsáveis pela integridade da mulher, mas é que me esqueci de falar sobre o cargo que o pai de Cândido ocupava dentro do cenário sócio-político fortalezense, desculpem-me.

Um trabalho (ou melhor, a farsa deste) já acertado para o começo do ano no gabinete de um deputado federal; um carro importado e cheirando a novo, que era seu xodó, recém-chegado ao Brasil; uma vida promissora de luxo, farras e facilidade.

Acontece que, numa noite de sexta-feira, uma semana antes da viagem pela Europa, que há três meses estava marcada, na qual iria meramente com o intuito de comprar blusas de grife e observar as novas tendências dos veículos europeus, Cândido foi ‘vítima’ de um assalto, no qual reagiu, sendo morto com sete facadas no meio da Avenida 13 de Maio. Tudo isso porque Cândido não entendia que o mundo não era só seu, e se foi sem saber se de Ouro ou Prata seriam as letras que bordariam seu nome na lápide da sua catacumba.  



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14 de abril de 2014
A Morte da Professora

A Morte da Professora



- Mais uma vez, vou repetir: substantivo: tudo aquilo que nomeia um ser.

Novamente o triturar de uma bolinha de papel no ventilador de teto. A turma cai na risada e o descontrole toma as rédeas da classe ainda aos quinze minutos da primeira aula, eram três.

Surgem então as ameaças do docente: diminuiria dois pontos na média, expulsaria de sala e chamaria os pais. Logo, o escárnio do discente: fosse pra puta que pariu com porra de ponto e que tirasse mesmo de sala, estava a fim de passear. Novamente as risadas dos parceiros. Continuemos:

- Brasil é um substantivo próprio, pois só existe ele. – um exemplo – E bandido é um substantivo comum, pois há em todos os lugares, vemos a toda hora. – outro exemplo, mal dado, porém verídico.

Dois anjinhos, lá no fundo da sala, começaram uma briga: o maior, que não usava a farda da escola porque achava feia, arrotou na cara do menor, que o tinha como um ícone. Mas quem suporta um arroto nas ventas? O espatifado de cadeiras foi grande, os dois bolando pelo chão. A turma ficou responsável pelo coro: iêêêh!

Foi necessário um tempo de quinze minutos para reorganizar a turma, agora com desfalque de dois membros, que foram à secretaria para aconselhamento. Recomecemos:

- Então já sabemos que substantivo é tudo que existe, que tem nome. Tudo aquilo que...

Outra bolinha de papel – esta molhadinha de cuspe – voou do fundão para frente, em uma mira perfeita na cabeça da professora. O fim da conversa.

Um pranto incontido, aos soluços desembestados, da educadora ao sair da sala, rumo à coordenação. A diretora fez-lhe uma garapa de açúcar e dirigiu-se à sala em festa. Ralhou, ameaçou com expulsões e novamente chamar os pais dos mal comportados. Que ficassem quietos, legião de demônios! – um substantivo coletivo.

Faltando apenas dez minutos para o término da última aula, a pedido da diretora, um pouco mais calma e recuperada do baque, a professora volta à sala, de cara trancada e escondendo as mãos ainda trêmulas. Uma nova tentativa:

- Então, gente, o que é um substantivo?

Cabeças baixas, olhos de dúvidas e um silêncio sepulcral. Era a morte da professora.   



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2 de abril de 2014
Estradão , conto de Alex Costa

Estradão , conto de Alex Costa



Duas luzes vermelhas, piscando alternadamente, cortavam o estradão de terra batida em uma madrugada quente e abafada. No interior da ambulância, uma mãe segurava nos braços um embrulhinho morno e soluçante, chiando de catarro. A poeira que subia no estradão assentava instantes depois da passagem da Ns. do Carmo, que tantas vezes fora chamada para socorrer aos aflitos das casas de taipa, poucas vezes chegando a tempo:

– Moço, tu pode ir mais depressa? – uma voz suplicante.

– Minha senhora, a estrada tá ruim, o carro é velho e a casa do prefeito fica longe. – o motorista, com a frieza adquirida com o tempo de profissão.

O segundo tornava-se minuto. O minuto, hora. A hora era caso de sobrevivência.

Foi na altura da ladeira da fazenda do Major Nunes que o embrulhinho, nos braços da mãe-sertaneja, parou de tremer e suspirou:

– Moço, ele parou de tremer. Será que a febre passô?

– Sei não, dona. Sou doutô não.

Foi questão de pouco tempo para a frieza e a palidez irem chegando. As mãozinhas fechadas, aos poucos ganhando um tom roxo, assim como os lábios. Os olhinhos fechados e a boquinha aberta, a barriguinha, vazia por causa da diarreia, parou de mexer-se:

– Moço, ele não tá mais respirando não. – os olhos, marejados d’água, em busca de uma solução ou mesmo uma palavra de conforto.

– Chupa no nariz dele, dona. Bota o peito na boca dele, que isso é fome. – desviou de um preá.

O resto da estrada foi de choro abafado e a vontade de voltar para casa, pois era apenas o céu ganhando mais um anjinho, que se juntava aos outros seis – da mesma mãe-sertaneja.   


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