Estradão , conto de Alex Costa
Duas luzes vermelhas, piscando alternadamente, cortavam o estradão de terra batida em uma madrugada quente e abafada. No interior da ambulância, uma mãe segurava nos braços um embrulhinho morno e soluçante, chiando de catarro. A poeira que subia no estradão assentava instantes depois da passagem da Ns. do Carmo, que tantas vezes fora chamada para socorrer aos aflitos das casas de taipa, poucas vezes chegando a tempo:
– Moço, tu pode ir mais
depressa? – uma voz suplicante.
– Minha senhora, a
estrada tá ruim, o carro é velho e a casa do prefeito fica longe. – o
motorista, com a frieza adquirida com o tempo de profissão.
O segundo tornava-se
minuto. O minuto, hora. A hora era caso de sobrevivência.
Foi na altura da ladeira
da fazenda do Major Nunes que o embrulhinho, nos braços da mãe-sertaneja, parou
de tremer e suspirou:
– Moço, ele parou de
tremer. Será que a febre passô?
– Sei não, dona. Sou doutô não.
Foi questão de pouco
tempo para a frieza e a palidez irem chegando. As mãozinhas fechadas, aos
poucos ganhando um tom roxo, assim como os lábios. Os olhinhos fechados e a
boquinha aberta, a barriguinha, vazia por causa da diarreia, parou de mexer-se:
– Moço, ele não tá mais
respirando não. – os olhos, marejados d’água, em busca de uma solução ou mesmo
uma palavra de conforto.
– Chupa no nariz dele,
dona. Bota o peito na boca dele, que isso é fome. – desviou de um preá.
O resto da estrada foi de
choro abafado e a vontade de voltar para casa, pois era apenas o céu ganhando
mais um anjinho, que se juntava aos outros seis – da mesma mãe-sertaneja.

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