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2 de julho de 2014

LORI LOIRA, microconto de Alex Costa


LORI LOIRA
Não era das mais bonitinhas, decerto, mas sabia andar de bicicleta nas ruas de asfalto. Tinha dois dentinhos podres no alto da boca, e dizia para as amigas que eram pintados com lápis para serem diferentes dos outros, que eram amarelados. O irmão do meio: um fino ladrão de feira. Este, maldito que era, não se contentando mais somente com a feira, certo dia pulou um quintal alheio para furtar pertences de outrem, mas caiu no quintal de Zezão, traficante-chefe das redondezas. Tiveram que mudar-se para um interior no pé da serra, que era para não ter a trabalheira de um velório perto do final do ano, que é quando se tem mais sapatos e sandálias a pagar. 
O local não era de todo ruim, tinha seus atrativos (raros). O principal era a barragem de Cosme e Damião, localidade próxima.
Era um domingo pela manhã quando, depois da tapioca com leite espumado, foram de shortinho para o banho. A chuva desfiava do outro lado da serra e os respingos já se faziam sentir no meio da criançada e das madames que batiam a roupa em cima das locas.
- Sai do mêi que eu vou dá um cangapé, Lorimeyre! – gritou Lorianne, de cima da barragem.

Ao calar a boca, ao longe, um estrondo: era a comporta principal da barragem rompendo e a cara de assustada de Lorimeyre, que por causa de seus cachinhos louros era também chamada Lori Loira, quando a correnteza medonha a fez retirar da boca o gosto de tapioca e leite espumado, quando foi achada no sangradouro do açude na manhã do dia seguinte, de cor meio arroxeada, quase toda coberta de lama e de folhas, que se emaranhavam por entres seus dentinhos de grafite. 



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