LORI LOIRA, microconto de Alex Costa
LORI LOIRA
Não era das mais bonitinhas,
decerto, mas sabia andar de bicicleta nas ruas de asfalto. Tinha dois dentinhos
podres no alto da boca, e dizia para as amigas que eram pintados com lápis para
serem diferentes dos outros, que eram amarelados. O irmão do meio: um fino
ladrão de feira. Este, maldito que era, não se contentando mais somente com a
feira, certo dia pulou um quintal alheio para furtar pertences de outrem, mas
caiu no quintal de Zezão, traficante-chefe das redondezas. Tiveram que mudar-se
para um interior no pé da serra, que era para não ter a trabalheira de um
velório perto do final do ano, que é quando se tem mais sapatos e sandálias a
pagar.
O local não era de todo ruim, tinha seus atrativos (raros). O principal
era a barragem de Cosme e Damião, localidade próxima.
Era um domingo pela manhã quando,
depois da tapioca com leite espumado, foram de shortinho para o banho. A chuva
desfiava do outro lado da serra e os respingos já se faziam sentir no meio da
criançada e das madames que batiam a roupa em cima das locas.
- Sai do mêi que eu vou dá um
cangapé, Lorimeyre! – gritou Lorianne, de cima da barragem.
Ao calar a boca, ao longe, um
estrondo: era a comporta principal da barragem rompendo e a cara de assustada
de Lorimeyre, que por causa de seus cachinhos louros era também chamada Lori
Loira, quando a correnteza medonha a fez retirar da boca o gosto de tapioca e
leite espumado, quando foi achada no sangradouro do açude na manhã do dia
seguinte, de cor meio arroxeada, quase toda coberta de lama e de folhas, que se
emaranhavam por entres seus dentinhos de grafite.

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