"DECEPÇÃO", um microconto inédito nesta tarde de domingo
Ao
adentrar o quarto, percebi que a cama não era redonda e no teto não havia um
enorme espelho – como haviam me dito que eu veria. Aqui e acolá se via algo no
tom avermelhado, que é a cor do desejo. A porta de um pequeno frigobar, com
marcas de ferrugem nas dobradiças, rangeu quando abri e me deparei com um mar
de garrafinhas de água mineral, somente. Ela havia se deitado sobre a cama –
quadrada – e dava pequenos gemidos, rolando por cima da cocha não tão macia nem
limpa, como uma égua que se banha na areia. A televisão não funcionava, o
ventilador empoeirado (não havia sequer ar-condicionado!) fazia um barulho
agonizante e, sem divã ou poltrona, havia apenas duas cadeiras de plástico duro
naquele quarto apático. Que situação desagradável aquela! Apenas uma curiosidade minha e a obrigatoriedade de estar acompanhado havia me levado àquele lugar. Ela estrebuchava-se sobre a cama à minha espera, chamava-me,
mordendo os lábios, tentando sensualizar com os dedos a esfregar os grandes
lábios – encardidos. Eu olhava ao redor e não acreditava na burrada que havia
feito: adiantei o pagamento de três horas que teria que passar naquela pocilga!
E agora teria que fazer meu dinheiro valer a pena. Olhei para aquela vagabunda
e fui desabotoando a camisa e a bermuda. Entendi que a decepção maior não seria
o dinheiro mal investido, mas pior ainda era o incômodo da ideia de agora ter
que foder alguém que eu nunca quis, maldita que era, que me fazia sentir raiva por não estar em seu lugar, deitado à espera de um homem que desabotoasse o short
na minha direção.





