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3 de agosto de 2014
"DECEPÇÃO", um microconto inédito nesta tarde de domingo

"DECEPÇÃO", um microconto inédito nesta tarde de domingo





Ao adentrar o quarto, percebi que a cama não era redonda e no teto não havia um enorme espelho – como haviam me dito que eu veria. Aqui e acolá se via algo no tom avermelhado, que é a cor do desejo. A porta de um pequeno frigobar, com marcas de ferrugem nas dobradiças, rangeu quando abri e me deparei com um mar de garrafinhas de água mineral, somente. Ela havia se deitado sobre a cama – quadrada – e dava pequenos gemidos, rolando por cima da cocha não tão macia nem limpa, como uma égua que se banha na areia. A televisão não funcionava, o ventilador empoeirado (não havia sequer ar-condicionado!) fazia um barulho agonizante e, sem divã ou poltrona, havia apenas duas cadeiras de plástico duro naquele quarto apático. Que situação desagradável aquela! Apenas uma curiosidade minha e a obrigatoriedade de estar acompanhado havia me levado àquele lugar. Ela estrebuchava-se sobre a cama à minha espera, chamava-me, mordendo os lábios, tentando sensualizar com os dedos a esfregar os grandes lábios – encardidos. Eu olhava ao redor e não acreditava na burrada que havia feito: adiantei o pagamento de três horas que teria que passar naquela pocilga! E agora teria que fazer meu dinheiro valer a pena. Olhei para aquela vagabunda e fui desabotoando a camisa e a bermuda. Entendi que a decepção maior não seria o dinheiro mal investido, mas pior ainda era o incômodo da ideia de agora ter que foder alguém que eu nunca quis, maldita que era, que me fazia sentir raiva por não estar em seu lugar, deitado à espera de um homem que desabotoasse o short na minha direção.      




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2 de julho de 2014
LORI LOIRA, microconto de Alex Costa

LORI LOIRA, microconto de Alex Costa


LORI LOIRA
Não era das mais bonitinhas, decerto, mas sabia andar de bicicleta nas ruas de asfalto. Tinha dois dentinhos podres no alto da boca, e dizia para as amigas que eram pintados com lápis para serem diferentes dos outros, que eram amarelados. O irmão do meio: um fino ladrão de feira. Este, maldito que era, não se contentando mais somente com a feira, certo dia pulou um quintal alheio para furtar pertences de outrem, mas caiu no quintal de Zezão, traficante-chefe das redondezas. Tiveram que mudar-se para um interior no pé da serra, que era para não ter a trabalheira de um velório perto do final do ano, que é quando se tem mais sapatos e sandálias a pagar. 
O local não era de todo ruim, tinha seus atrativos (raros). O principal era a barragem de Cosme e Damião, localidade próxima.
Era um domingo pela manhã quando, depois da tapioca com leite espumado, foram de shortinho para o banho. A chuva desfiava do outro lado da serra e os respingos já se faziam sentir no meio da criançada e das madames que batiam a roupa em cima das locas.
- Sai do mêi que eu vou dá um cangapé, Lorimeyre! – gritou Lorianne, de cima da barragem.

Ao calar a boca, ao longe, um estrondo: era a comporta principal da barragem rompendo e a cara de assustada de Lorimeyre, que por causa de seus cachinhos louros era também chamada Lori Loira, quando a correnteza medonha a fez retirar da boca o gosto de tapioca e leite espumado, quando foi achada no sangradouro do açude na manhã do dia seguinte, de cor meio arroxeada, quase toda coberta de lama e de folhas, que se emaranhavam por entres seus dentinhos de grafite. 



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17 de junho de 2014
Adriano, microconto de Alex Costa

Adriano, microconto de Alex Costa



Adriano era um menininho de cabelo carapinho, que era meu vizinho, e que vivia com o nariz-torneira a escorrer catarro amarelado. Sempre com o pé no chão, só depois me contaram porque a barriguinha de Adriano era tão para frente: mamãe disse que era cheinha de vermes. Adriano tinha um cheiro de sol e suor que eu gostava demais, e Adriano era meu melhor amigo. Sempre quando brincávamos do jogo das tampinhas, e eu estava ganhando, ele dava um murro bem forte nas minhas costas e corria para a casa dele, que era uma casinha tipo de barro, caindo os pedaços. E eu ia chorando para casa e minha mamãe dizia: “você não vai mais brincar com aquele moleque imundo!” – mas era mesmo que nada. No outro dia, eu mal tirava os sapatos e a farda do colégio e já saía correndo, com meu boneco de menino branco nas mãos, para chamar Adriano para brincar de correr no meio da rua. Ele brincava com meu boneco que girava a cabeça e eu era todo encanto com o robô dele, que era feito de caixa de leite vazia. Mas aí, um dia, que era de tarde, chegou um carro preto no final da rua e jogou o Adriano dentro, feito um porco, e ninguém nunca mais viu o Adriano. E o pai e a mãe dele choraram muito, mas Adriano nunca mais voltou pra casa. Minha mamãe disse que teria que arranjar outro amiguinho para brincar, que eu poderia escolher, mas nenhum deles tem o cheiro de sol e suor que só Adriano tinha. 



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