Os poemas do ano da serpente
POEMA-CADEADO
Porque
meus pulmões se encheram dessa fumaça.
E
agora: ir para longe.
Tens
a chave.
A
chave para desvendar os poemas do Ano
da Serpente (Penalux,
2013) é dada ao leitor logo no início do livro. A pista para decifrar o
enigma do ano foi dada: fumaça. No final do livro, precisamente, no último
poema, Tito de Andréa nos desvenda o enigma no trecho do poema Salmo número quatro:
Quando
era menino.
me
ensinaram que Shiva
sempre
estaria nas fumaças
e
no
creptar dos fogos,
Que
é de sua natureza
ser
mudança
e
destruição,
talvez
daí
venham
meus desejos de incêndio
e
minha
vontade
de
por tudo a perder
e
ver subir
a
fumaça ao céu.
Eis
a chave: destruição e renascimento. A figura de Shiva – deus indiano – perpassa
todo o livro. Como que abençoando o livro-serpente. Em outro verso, a questão
da perdição reaparece, quando o poeta em um momento de devaneio, confidencia: “hei
de me perder em breve”. Essa perder de si mesmo, nos levará ao conhecimento
despessoal, ou, ao conhecimento desconstrutor de si. Melhor dizendo: haverá um
novo ser após a perdição, esse pode ser um dos legados do ano da serpente: o
transcender ao renascimento. O poeta Tito de Andréa faz bom uso da metáfora
astrológica para construir um “diário” poético para o ano de 2013. Segundo o
posfacio, escrito por Getúlio Zagreu, o livro foi captado no período de um mês.
Um
dos poemas que evocam o aspecto transcendental atraves da destruição – morte –
é o poema Morrer no mar. O
subtítulo desse poema, com
Caymmi e o mar da Bahia em pensamento, nos mostra uma intertextualidade com
a canção do compositor baiano Dorival Caymmi que diz: “É doce morrer no mar/
Nas ondas verdes do mar”. A partir desse trecho, o poeta, também baiano, Tito
de Andréa, nos sugere uma outra atenção ao mar da Bahia, que além de templo
para ofertas a Iemanjá, também é local para renascimento. Lembremos que no ano
da serpente, o renascimento é característica constante, isso é claramente
também demonstrado pelo animal, a serpente, que constantemente troca de pele.
Para o poeta, esse renascimento, ou, essa troca de pele, só será obtida ao
morrer no doce mar da Bahia.
O
Poema silêncio 2:31 da madrugada, nos passa uma ideia
de reconstrução na vida do eu-lírico:
Agora
chove e
cortinas
vibram,
minhas
janelas tremem.
É
madrugada
e
eu
já
não tenho casa.
A
ideia de retomada é indicada nas últimas estrofes, quando nos confidencia que
não tem mais casa. O ato de estar desabrigado, nos passa a ideia de estar
desprotegido. Mas é isso que as serpentes fazem, elas se desprotegem de suas
peles, para abrigarem-se de uma nova “casa”, ou melhor, de uma nova pele. A
superação é o fator chave para muitos poemas-serpentes.
O
ano da Serpente, de Tito de Andréa, soou para mim não apenas como mero relato
poético sobre experiências. Para mim, o livro é um monumento erguido a todos os
que dia após dia, necessitam se reconstruir se desconstruindo.
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