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15 de outubro de 2014
Os contos de Anderson Henrique - pequena nota

Os contos de Anderson Henrique - pequena nota



Anelisa sangrava flores é um livro de contos publicado em 2014 pela Editora Penalux. A orelha do livro e o seu prefácio anunciam ao leitor que se trata de um livro que se norteia na literatura fantástica latina. Ao ler o livro, percebi que havia de fato essa influência na obra. Mas não me pareceu ser um livro exclusivamente fantástico.

São 13 contos que abordam diversas narrativas, como por exemplo a estória de um garoto que cresceu além do normal, uma mulher que envelhecia os namorados, um pescador que ao encontrar um garoto, misteriosamente, pesca centenas de peixes. Etc.

O autor, Anderson Henrique, deixa em suas narrativas alguma mensagem ao leitor. Seja essa mensagem de caráter social ou amorosa. Os fatos fantásticos que acontecem entre os personagens as vezes são explicados ao leitor e as vezes não são explicados. Lembrando que a literatura de caráter fantástica acontece quando os fatos surreais acontecem de maneira inexplicada. Portanto, afirmar que esta obra é essencialmente fantástica, seria um equívoco.



O desenrolar de cada conto é o que prende o leitor. Pois sempre estamos nos perguntando sobre o que acontecerá na próxima página. Prender um leitor hoje é algo difícil para alguns autores, mas Anderson Henrique me prendeu por todos os 19 contos de Anelisa sangrava flores. E você, caro leitor, permita-se prender também a esse livro.

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17 de setembro de 2014
Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales

Os deslimites poéticos do livro "Porta estreita", de Joe Sales



Joe Sales, natural do Mato-grosso, estreou na literatura com a publicação do livro Porta estreita, editado pela Penalux (2014), sua poética é estreitada por temáticas que são cotianas, mas que se alargam a medida que o poeta as aprisiona em seu livro de estreia.

O poema Caminho nos apresenta a poesia saindo de mansinho:

Lá onde estão as borboletas
E a voz não encontra atalho
Lá, mesmo sem confirmação, está
A estrada que pede para o espírito se afastar
Da carne.

A partir da fuga de si mesmo, é que os poemas são construídos. A matéria-prima da poética do livro de estreia de Joe Sales é sempre a desprisão do ser. A fuga feita pelo eu-lírico é sempre pela porta estreita da poesia. São poemas concebidos a partir de uma sensibilidade que poucos possuem, logo, para assimilar os poemas de Porta estreita é preciso estar receptível à sensibilidade poética. A maioria dos poemas são curtos, demonstrando assim a fuga estreita, escapando aos poucos do poeta.

O poema Da passagem das horas é um exemplo dessa poética que busca a fuga:

O tempo a pele fere
O tempo a pele tece
E quando não silêncios
Ganham vozes dadas a tocaias
Tocaias são feitas de liberdade.

A liberdade de Joe Sales, em todo o livro, se apresenta por não se prender a regra alguma sobre versificação ou se aprisionar a algum movimento literário. O poeta compreende que é necessário deixar se esvaziar de todo e qualquer movimento aprisionável, o que é bastante visível até mesmo nas temáticas tocadas no livro. Joe escreve sobre o que é desaprisionável, ou, sobre o que é preciso estar livre. A liberdade ao amor também é tocada em poemas como Da não explicação do amor:

Além da necessidade
Ele vinha porque de alguma maneira
Sentia-se à vontade
Talvez a forma como eu acolhesse os seus sonhos
Ou do jeito que amava sem pedir reciprocidade
Ele voltava e fazia canção no meu peito...

No poema Lirismo o eu-lirico confessa a necessidade de deixar fugir pela porta estreita o que ele estava sentido:

Nem mesmo a noite sangrando consegue me curar:
nem mesmo.
Aquém do meu avesso - possível - eu empobreço
o compasso do sentimento que diz: há pássaros
que nascem sem dom de voar...
Estivera calado no passado. Lá onde as flores
começam vozes.
Vozes que iam me justificar no futuro de minha
solidão.
Tudo é deprimente, até mesmo o sangue da noite.

Tenho que comentar o Poema que narra o meu possível fim, que na minha opinião de leitor é um dos melhores poemas do livro:

Um dia qualquer para morrer
sem expectativa
sem audiências
dia em que o amor vai bater à minha porta
eu estarei estatelado no chão
frio
duro
dia bonito em que pássaros cantarão
os poucos amigos que fiz
os poucos que ao lado do meu corpo
lembrar-se-ão de meu infortúnio:
o mundo que eu quisera inventar.


O leitor ao longo de todo o Porta estreita poderá se encontrar em cada página, pois Joe Sales aprisionou em si o sentimento de cada um e deixou que ele saísse, estreitamente, pelos versos de seu livro de estreia.


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13 de agosto de 2014
Pequena nota de leitura sobre: Arcanos Maiores e a Valsa Leve – Alessandra Bessa

Pequena nota de leitura sobre: Arcanos Maiores e a Valsa Leve – Alessandra Bessa



A estreia literária de Alessandra Bessa se deu com a publicação do livro Arcanos maiores e a Valsa Leve (Penalux, 2014). Conheço a poeta há alguns anos e sempre acompanhei a produção poética dela, percebi ainda cedo a inclinação da autora em ser uma captadora de sentidos, como assim? A poesia de Alessandra se dá a partir do sentir do mundo. Em todo a obra percebe-se um eu-lírico que me propõe a traduzir o sentimento de mundo em sua escrita: a dor, o amor, o desentendimento, a fé, a falta de fé, o medo, dentro outros sentimentos.

Essa captação se dá também a partir do tarô. Os Arcanos Maiores de Alessandra, são referência explícita às cartas de tarô. Cada Arcano representa uma personalidade, ou, característica humana. Ao todo são 21 arcanos. Para cada um, Alessandra compôs um poema-arcano, como podemos perceber na nota explicativa que a autora coloca no início de seu livro:

Caro leitor, aqui tu encontraras poesias esparsas, fragmentadas, geradas em diversos momentos. É preciso que compreendas um pouco do mistério: os Arcanos Maiores, no tarô, constituem um conjunto esotérico que nos liga a um coletivo simbólico. Todos nós estamos imersos na inconsciência desses signos, assim afirmam os místicos. Mas em uma Valsa Leve, como uma música singela e terna, tudo se condensa, tudo é distraído e feito para existir como completo desnudamento, um fervoroso espanto que por sua vez canta todos os momentos de maneira consciente e inconsciente: a vida.

O livro não foi premeditado para intertextualizar com as cartas, mas após a feitura dos poemas, a autora percebeu que havia uma ligação de sua poética com a temática das cartas. Ao lermos o livro de Alessandra, notamos a rica pesquisa que a poeta fez com relação ao tarô, como também notados a habilidade poética, da mesma, ao retratar o contexto do misticismo em sua obra de estreia.

A segunda parte da obra intitula-se A Valsa Leve. Nessa seção percebemos influencia de poetas modernos, como Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A temática desta seção é a vida, com suas angustias e vitórias. Em A Valsa Leve notamos uma sequência de poemas que trabalham com a metalinguagem: A literatura, Lago e Poetas. O livro finda com um convite:

E esse meu signo de libra que só sabe gostar de amor...
comunica ao meu ascendente em sagitário que me faz assim meio que intransigente e demente
um gostar de dizer sempre tudo ao mundo de verdade que quer somente a verdade

[ com o escorpião se avizinhando do meu sentir topa com a lua distraidamente em câncer] sou: só dor e saudade...

(dá-me então um pouco do teu signo e misturemos os nossos arcanos maiores também)


A confessionalidade dos poemas de Alessandra nos fazem um convite a confissão, dessas escritas em cartas e publicadas em jornais. Doar um pouco de si a leitura desta obra, faz-se necessário. Após a leitura, recomendo embaralhar os poemas-arcanos e reler a partir da ótica do instante.


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16 de julho de 2014
Convite para lançamento do livro: Baladas para violão de cinco cordas

Convite para lançamento do livro: Baladas para violão de cinco cordas


Amigos. Dessa vez eu não vim escrever alguma resenha sobre determinado livro que eu tenha gostado. Estou aqui apenas para convidá-los para o lançamento do meu livro de poemas Baladas para violão de cinco cordas. O evento acontecerá em Sobral, cidade localizada no interior do Ceará. Porém se você é de outro estado e quiser adquirir o livro basta ir na loja virtual da Editora Penalux e solicitar o seu. 

O meu livro terá a honra de ser apresentado por José Luís Lira, escritor, e, presidente da Academia Sobralense de Estudos e Letras. Na orelha do livro eu teorizo rapidamente um pouco sobre a balada-poética: "Geralmente são poemas musicais líricos-dramáticos. Ou poesia de caráter narrativo. Na estética romântica o termo "balada" era utilizado para referir-se a temas instrumentais (pianos, clarinete, violoncelos...). Dicionário definição de Balada: "Corruptela do original em francês "BALLADE", significava uma peça musical de um único movimento, com qualidades narrativas dramáticas, elaborada por volta do Séc. XIV." O posfacio é assinado pelo amigo, e editor desse site, Nathan Matos, o texto intitula-se A solidão entre baladas. Mais à frente publicaremos aqui este texto.

Aos que puderem ir ao evento fica o convite. Deixo abaixo alguns links informativos sobre o livro. 


Link para ler um trecho do livro: http://pt.calameo.com/read/0018123012a5f1cd34e90

Alguns poemas do livro:

balada para violão de cinco cordas

I

essa é a história de chico
mais um dentre tantos
que ardem por justiça
chico era homem casado
(de uma mulher só)
pai; amigo; xadrezista; filósofo e sonhador
cansou sem grandes alardes da vida
dizia que
viver é uma atividade repetitiva e cansativa
um belo dia
disse à mulher e aos filhos que iria se encontrar com Deus.
no mesmo dia
voltando para casa
chico ao atravessar a avenida
foi engolido por um caminhão
não resistiu


II

PSIU!!
reza a lenda que chico
era um filósofo suicida



ode a sulamita


Eu dormia, mas o meu coração velava; e eis a voz do meu amado que está batendo"
Cantares de Salomão 5:2

I

eu não dormi aquela noite
passeei pela noite seguindo o ritmo
das batidas cardíacas de minha amada.
a voz de minha amada
é a força motora de meu barco a vela.
navegar em seus lábios
é melhor que o vinho.
minha amada é como a pomba
não a prendo em minhas mãos.
ela é delicada, linda, graciosa e sutil
como a mirra exposta ao sol


II

assim como as muralhas de Jerusalém
os braços de minha amada me protegem.
ela me afaga com o mesmo cuidado
que um pastor afaga as suas ovelhas
o seu corpo é o meu telhado
num dia de chuva
o seu cabelo é mais cheiroso e afável
que os campos do Líbano
que Deus me perdoe
por ter escrito o nome de minha amada
no caule do cedro de meu jardim


III

minha amada é majestosa
como os montes Moriá, Sião e Sinai.
os braços de minha doce e amada Sulamita
são navegáveis e afogáveis
como o mar mediterrâneo.
a sua presença é mais refugiosa
que estar em En-gedi.


IV

ela é a fonte dos jardins
ela é a força dos cavalos
ela é o eco das cavernas
ela é o horizonte
ela é o azul do mar
ela é o sol se pondo
ela é minha amada:

sulamita.
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10 de julho de 2014
A solidão entre baladas

A solidão entre baladas



Os poetas jovens tendem a falar de temas relacionados ao amor, ao sonho e à esperança de viver. Na maioria das vezes, tais temas nos levam a desacreditar nesses poetas por acharmos que devem dar mais tempo aos seus versos e tentar repensar o mundo, de uma maneira diferente, onde nem tudo o que acontece são maravilhas ou deveriam ser. Que a esperança pode, com muita facilidade, não existir e que as dores do mundo estão a nos incomodar quase que diariamente; e que existem muitas outras abstrações, digamos assim, que deveriam nos preocupar.

Léo Prudêncio é um desses jovens, porém com um diferencial. Há alguns anos, li os poemas do poeta e percebi neles o que mencionei. Faltava-lhe uma “estabilidade” no texto, havia, em certo sentido, muito sentimento apenas. Como se agisse comandado apenas pelo sentir ou pela inspiração.

Apesar de acreditar que bons textos podem surgir sob o efeito anestésico dos sentimentos ou sob o efeito da musa inspiradora, e de momentos de epifania também, creio que o trabalho do poeta deva existir de maneira que consiga não driblar os sentimentos, mas complementá-los com nossa razão.

Esse é o problema de vários escritores, pois creem que apenas o sentir é necessário para a escrita. Ao lermos Manoel de Barros ou João Cabral de Melo Neto, poderíamos pensar em afirmar que conseguiríamos apontar com certeza qual deles usou apenas a razão ou o sentimento com maior afinco. Seria pura ingenuidade fazê-lo. A poesia não se constrói apenas com momentos epifânicos nem com pura racionalidade, mas sim com a observação da vida que acontece em tudo e em todos e quase sempre acompanhada de atos reflexivos, ou não. Portanto, é quase impossível, a meu ver, separarmos esses dois “seres”.

Em Baladas para violão de cinco cordas temos um pouco de cada, com uma harmonia que, por vezes, desafina e afina, como estivéssemos a ajustar o tom das melodias que irão ser tocadas. Partindo de tragédias, como a vida de Chico – presentes desde os primeiros versos-acordes do livro – à ironia, que traz certa pitada de vida, pode-se afirmar que o poeta deste livro “anda perdido”, mas apenas enquanto toca os seus versos nas nuvens que o formam. Perdido entre baladas que tocam não apenas o seu íntimo, mas o da vida que o rodeia.

Léo Prudêncio toca em temas caros a qualquer leitor de poesia e aos escritores que começam a desejar enveredar pela escrita. O amor e o sonhar são mais do que vivos em seus poemas. Contudo, perguntaria o poeta: será isso tudo clichê? É para essa resposta que devemos ater detalhadamente a nossa percepção.

O poeta entende que temas como esses não devem ser deixados de lado, apenas porque a crítica, propriamente, já não os quer presentes em poemas. O clichê deve ser retomado e talhado com certa originalidade que cabe apenas àqueles que escrevem sozinhos entre as multidões.


Os poemas-clichês, chamemos assim alguns dos textos aqui encontrados, apontam para algo desconcertante, como frases que surgem ao fim dos poemas e que, além de nos interpelar em outra língua, como no segundo poema do livro, nos deixam desconcertados por perceber que nem tudo é o que se lê. A desconstrução está colocada com precisão para que não nos ludibriemos pela melodia dos versos e para que não nos deixemos levar pela simples ilusão dos temas clichês, que em alguns poemas se fazem presentes.

Na verdade, tudo está estruturado para nos desconcertar, nos deixar imprecisos quanto à existência da vida. Parece ser esse sob este sentimento que o poeta compõe sua balada. Ele parece querer nos manipular, assim como fazia Orfeu com os pássaros e os animais selvagens, fazendo assertivas que nos deixam, apesar de compenetrados, confusos e duvidosos, como a que diz que o poeta é um “desespectador da vida”. Parece que Léo Prudêncio segue bem as indicações de um ilustre poeta português, em que afirmava que o poeta é sempre responsável pelo fingir. Iludir, portanto, poderia ser um ato mágico, mas é também poético.

Além da falsa ilusão criada pelas palavras lançadas através dos versos harmoniosos de Léo Prudêncio, há certa disposição de aspectos gráficos visuais, mostrando a habilidade do poeta em não exagerar utilizando a influência que aparenta ter do concretismo, como bem é possível observar no poema espólio, que nos direciona para uma cruz que simboliza nossa perdição, nossa rendição ao esquecimento.

Poemas como horizonte ou guitar solo deixam evidente a preocupação que o poeta teve em meio aos poemas amorosos, que surgem como ervas daninha no jardim dos críticos, aos poucos, como em eu e minha pequena, deixar claro que nem tudo o que se lê é ilusório. Mostra, através desses poemas, que razão e sentimento encontram-se muito bem alinhados, como a sequência de notas que são criadas para suas Baladas para violão de cinco cordas.

O que deverá ter sido apreendido por você, leitor, é o toque de inocência que existe na confessionalidade do poeta, deixando parte de si no livro, relatando, quem sabe, sua infância e a escrita, na qual as nuvens, as páginas em branco, eram o seu brinquedo favorito, onde “desenhava soldados, carros e animais”.
E através dessa infância, que não se deixou ser levada pela memória, ao contrário dos amores vãos, sugere que sempre haverá os que duvidaram da vida, por que é certo que muito há a se perder no caminho até a morte. Mas é assim que vai “reformulando o peso do mundo / transfigurando / o real em sonetos”.

A vida do poeta é construída através dos poemas, assim como constrói os seus versos, sua balada, seu caminho entre as multidões. Léo Prudêncio não está entre as multidões, pois ele acredita que “o poeta está só” e sempre só, quando a revolver em si os sentimentos e os momentos vividos, para que quem sabe um dia seus poemas possam chegar até o leitor  mais arredio “como um navio chegando d’além mar”.



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2 de julho de 2014
Os poemas do ano da serpente

Os poemas do ano da serpente



POEMA-CADEADO
Porque meus pulmões se encheram dessa fumaça.
E agora: ir para longe.
Tens a chave.

A chave para desvendar os poemas do Ano da Serpente (Penalux, 2013) é dada ao leitor logo no início do livro. A pista para decifrar o enigma do ano foi dada: fumaça. No final do livro, precisamente, no último poema, Tito de Andréa nos desvenda o enigma no trecho do poema Salmo número quatro:

Quando era menino.
me ensinaram que Shiva
sempre estaria nas fumaças
e
no creptar dos fogos,
Que é de sua natureza
ser mudança
e
destruição,

talvez daí
venham meus desejos de incêndio
e
minha vontade
de por tudo a perder
e ver subir
a fumaça ao céu.


Eis a chave: destruição e renascimento. A figura de Shiva – deus indiano – perpassa todo o livro. Como que abençoando o livro-serpente. Em outro verso, a questão da perdição reaparece, quando o poeta em um momento de devaneio, confidencia: “hei de me perder em breve”. Essa perder de si mesmo, nos levará ao conhecimento despessoal, ou, ao conhecimento desconstrutor de si. Melhor dizendo: haverá um novo ser após a perdição, esse pode ser um dos legados do ano da serpente: o transcender ao renascimento. O poeta Tito de Andréa faz bom uso da metáfora astrológica para construir um “diário” poético para o ano de 2013. Segundo o posfacio, escrito por Getúlio Zagreu, o livro foi captado no período de um mês.

Um dos poemas que evocam o aspecto transcendental atraves da destruição – morte – é o poema Morrer no mar. O subtítulo desse poema, com Caymmi e o mar da Bahia em pensamento, nos mostra uma intertextualidade com a canção do compositor baiano Dorival Caymmi que diz: “É doce morrer no mar/ Nas ondas verdes do mar”. A partir desse trecho, o poeta, também baiano, Tito de Andréa, nos sugere uma outra atenção ao mar da Bahia, que além de templo para ofertas a Iemanjá, também é local para renascimento. Lembremos que no ano da serpente, o renascimento é característica constante, isso é claramente também demonstrado pelo animal, a serpente, que constantemente troca de pele. Para o poeta, esse renascimento, ou, essa troca de pele, só será obtida ao morrer no doce mar da Bahia.

O Poema silêncio 2:31 da madrugada, nos passa uma ideia de reconstrução na vida do eu-lírico:

Agora chove e
cortinas vibram,
minhas janelas tremem.

É madrugada
e eu
já não tenho casa.

A ideia de retomada é indicada nas últimas estrofes, quando nos confidencia que não tem mais casa. O ato de estar desabrigado, nos passa a ideia de estar desprotegido. Mas é isso que as serpentes fazem, elas se desprotegem de suas peles, para abrigarem-se de uma nova “casa”, ou melhor, de uma nova pele. A superação é o fator chave para muitos poemas-serpentes.

O ano da Serpente, de Tito de Andréa, soou para mim não apenas como mero relato poético sobre experiências. Para mim, o livro é um monumento erguido a todos os que dia após dia, necessitam se reconstruir se desconstruindo.




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26 de junho de 2014
“sim" e “não” de Alessandra Bessa: Arcanos Maiores e a Valsa Leve

“sim" e “não” de Alessandra Bessa: Arcanos Maiores e a Valsa Leve

por O Poeta de Meia-Tigela  

Uma massa de gente
Se nega
Te nega
Nega a muitos
Nega o outro constantemente E o fraco diz “sim” a essa negação
E inferioriza-se em um “não”

(VIII — A Justiça)




(I) ARCANOS LEVES  


Os arcanos maiores destacam-se no conjunto das cartas do Tarô: cada um se constitui como súmula de uma vivênciaexperiência universal, cada um a condensação de um mundo mítico próprio, de alta simbologia e, como tal, inesgotável: pois sinalizaindica, não define nem explica.   

Disse-me Alessandra Bessa que não fora premeditado o encontro de seu livro com o Tarô; que somente após o aparecer dos poemas quedara claro o aceno para a correspondência entre os versos e as cartas. Melhor assim, porque mais forte a certeza de que não pretendera a autora apreender os arquétipos: estes que se revelaram (mantendo, no entanto, sempre algo do seu véu) à poeta.  Por isso seus poemas tangenciam sem que pretendam explicitar a relação com o baralho. E, no entanto, tal relação pode ser desvelada, tão logo nos ponhamos a pensar esse acordo oculto de sentidos: apresentarei apenas um exemplo, deixando a cargo do leitor a procura das pistas restantes. Tomemos o poema XIII, que começa assim: “Dormir para sempre, não se pode./ Afirmação que me tira o sono/ E dentro dessa insônia-sono/ Eu busco qualquer lugar que diga que eu possa/ Ao menos deixar de lado tudo isso”. O arcano correspondente ao número 13 no Tarô de Marselha e alguns outros (no Tarô Cigano temos O Esqueleto e a Gadanha e no egípcio A Imortalidade) — é A Morte. O tema é apenas aflorado pelos versos: digamos que chegamos a ele, mas não partimos dele. E assim no tocante aos demais. Eis, pois, o intento principal de Alessandra Bessa: antes aludir e mencionar que decodificar, dimensionar, dirimir o segredo, o mistério dos arquétipos.
  
Esse mistério perpassa, porém, todo o livro (inclusive a segunda metade, a da Valsa Leve). Cede vigor à poética de Alessandra. Cirze, compõe seus versos. Versos densos, doloridos, muitas vezes ferinos, cortantes, nascidos contudo a partir da valsante leveza de quem não se quer guardada na terra, mas grito lançado no ar.  

E o grito de Alessandra Bessa, como de todo poeta, é de “sim” e de “não”.   
  
(II) A REVOLTA  
  
“Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento” (Albert Camus, O Homem Revoltado). A revolta é reativa. É um ato de voltar-se — não “para”; mais propriamente, “para-contra”. O revoltado volta-se para aquilo que o leva a mover-se, aquilo que o direciona, não a fim de que o encontro se dê como fusão, sim para que do encontro exploda a difusão do “não”. O revoltado vai ao encontro do objeto que repudia, vai em direção a este, razão de seu mover-se, de seu volverse; contudo, o faz em função de que que o atrator seja negado, o faz com vistas à dissolvição do que o move, o faz com o intento de destruição do motor-atrator: o revoltado quer ir em direção — não para ser absolvido por aquilo que o chama, sim para desfazer a causa do chamamento. A revolta é reação, é um contra e um ir paraem direção ao que a leva a ser o que é: “não”. 

O poeta, à medida que sua sensibilidade se vê afrontada por um estado de coisas que lhe é contrário, um estado de coisas que lhe diz “não”; o poeta revolta-se e diz “não” a esse “não”. O poeta diz “sim” a tudo que se volta para-contra esse estado de coisas: eis por que, se o que o poeta vê à volta é a negação da sensibilidade, sua reação é a de dizer “sim” a esta e “não” àquela negação. O “não” do poeta é um “sim” à poesia. Se o estado de coisas não é um estado de coisas de poesia, o estado do poeta é a revolta.  
            
A poesia de Alessandra Bessa é, em parte, esse “não”. Vemo-lo ao longo de Os Arcanos Maiores e A Valsa Leve. Um “não” que se diz enquanto recusa, enquanto fazer frente, enquanto confronto, enfrentamento: como nos poemas VIII, IX, XI, correspondentes às lâminas A Justiça, O Eremita e A Força. E ainda o poema XIV (A Temperança):  
  
Limpar é saber-se sujo limpar é saber-se pobre de tudo  
(...)  
quanto mais sujo e doloroso for o percurso tu estarás perto
da verdade já que não é o disfarce dos homens que mostra quem tu és  
  
Mas esse “não” nem sempre se mostra através do “embate”, do “instante bombástico” (Ímpeto, A Valsa Leve); também se evidencia (ou silencia) pelo voltar-se para-contra como recolhimento, sentimento de desamparo, de isolamento, despertencimento. A poeta que se revolta e diz “não”, oscila entre o duelo e a salvaguarda, entre o combate e a meia-volta-volver, o resguardo de si: “Tudo permanece tão dentro de mim/ Que não se manifesta/ Fica dando facadas/ Em meu espírito” (XX — O Juízo Final ou O Julgamento). Oscila entre a colisão e a oclusão, o ocultar-se ante o outro:   
  
Vocês não entendem  
Os meus sumiços  
(...)  
Vocês compreendem tudo errado  
Nada pode me fazer ser vista  
Inteiramente  
Ficar despida   
  
(Sumir, A Valsa Leve 
  
Talvez seja o ato de contração, de concentração, algo necessário a fim de que o “não” possa transformar-se na explicitude do “sim”; o “não” como desafio possa tornar-se o “sim” do lúdico, do bailarínico, do amoroso. Sim? Vejamos.  
  
(III) O AMOR E A POESIA  
  
A solidão do poeta não será antes, anseio ferido de solidariedade? Não será seu desejo a ultrapassagem do estar-só, a soli(t)ariedade que se quer solidária? Não saberá o poeta que sua solitude é, pelo menos, solitude de poeta e, assim, de muitos? Dos muitos que também recusam aquela recusa à sensibilidade? Dos muitos que dizem “não” ao derredor e “sim” a si mesmos? É então que Alessandra Bessa inicia o reconhe(si)mento desse si em outrem, no si de todos que se reconhecem na poeSIa.  

O amor pode resultar “em ilusão e talvez mais nada” (XII — O Enforcado), pode ser divisão e “vazio rio abaixo do poema” (VI — O Enamorado ou Os Amantes), porém pode igualmente ser esse princípio de identidade pelo qual o insulamento do poeta abrese à palavra alheia, como o faz aos versos de Mario de Sá-Carneiro ou à sentença de Blanchot (“não podemos viver em um mundo fechado”). Se o amor-a-dois é tantas vezes insatisfatório, frustrante, dorido, o amor-a-tantos do verso, do poema, subverte o “não” e afirma aquele “sim”, o “sim” do Sumo Sacerdote, do Hierofante (V):  

E diz o Hierofante  
Que a fonte é uma  
Fome de tudo  
E principalmente de  
Amor  
  
(IV) A POESIA E O AMOR  
  
O próprio arcano-poeta e sua poesia aparecem como o “sim” maior deste livro. Contra o estado de coisas avesso à sensibilidade poética, que fazer? Dizer “não” a esse avesso, virar as dobras daquilo a que o “não” diz “não”, transmutá-las no “sim” que se quer dizer, no “sim” que se quer ser. Esse “sim” é o amor enquanto amordito, é o ser poeta, é a poesia. A poesia, esse lago  
  
tão imenso que se perde 
tardes de longas datas o céu tão azul
da insensatez da embriaguez  
do nada que se faz  
  
(Lago, A Valsa Leve)  
  
Se a poesia é um sentir-se avesso ao insensível estado de coisas, o é porque não pode materializar-se, tornar-se, ela mesma, coisa. Permanecerá no reino da inefabilidade, do intangível, do inapreensível de todo: “em um lugar a mais/ além... tão além que não tem toque/ nem forma e pertencer(dor)” (novamente, Sumir).                
Emerge, assim, certa angústia do impalpável; uma aflição perante a condição intátil da poesia, a reforçar a sensação de desarraigamento, desenraizamento da própria poetisa. Que retorna, por consequência, à insulação da qual pretendera (?) sair: “A poesia se torna o que ela é/ e eu, a poeta, fico só/ sempre ficarei só nesse imenso mundo” (A Poesia, A Valsa Leve).    
          
Logo, tudo o que da poesia de Alessandra Bessa aqui foi dito, deve igualmente ser percebido, sentido, como tentativa-mera de alcançar o que a poeta afinal reconhece como incapturável. Na verdade o “não” e o “sim” de Alessandra são mais dinâmicos e deslocados, mais difíceis de apreender porque justamente espontâneos em seu surg(ir) e desapare(ser). Entremesclam-se, continuamente.  
          
O “não” da poeta, sua revolta, é um “sim” àquilo que ela mesma é, seu verso, sua poesia, reverso de um mundo-coisa, mundo-cifra; o “não” de Alessandra Zelinda é uma volta àquilo que ela, Alessandra, é: amor em sim e não, amor em sinal, signo, sinalização. Arcano Leve.  
  
*  
  
(dá-me então um pouco do teu signo e misturaremos os nossos Arcanos Maiores também)








(PEQUENA NOTA: Esse texto é o posfacio da obra Arcanos Maiores e a Valsa Leve, de Alessandra Bessa, natural de Fortaleza e professora universitária. Sobre o posfaciador, O Poeta de Meia-tigela, compõe-se a seguinte biografia: Nasceu em Fortaleza no ano de 1974. Participou da Antologia Massanova - Poesia Contemporânea Brasileira e publicou os livros Memorial Bárbara de Alencar e Concerto Nº1unico em Mim Menor para Palavra e Orquestra. Poema)
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3 de junho de 2014
2 poemas de Léo Prudêncio

2 poemas de Léo Prudêncio

Os músicos - Nathan Brutsky



Em breve publicarei um volume de poemas intitulado: Baladas para violão de cinco cordas. Eis abaixo dois poemas que estarão no livro



os poetas
            (poema redundante)

I

os poemas são as chaves para se desvendar
a vida e a vida segue o ritmo das ondas do mar
(clichê não?)
as palavras existem para criar mundos
foi com a palavra que Deus criou o seu mundo
por falar em Deus
o poeta é um profeta enviado por Jah
  
II

o poeta
mero manipulador da palavra
o poeta
mero desespectador da vida

escrever poemas é como soltar
pássaros de suas gaiolas
e
quem compõe poemas
já tem o perdão divino
  
III

!(
a propósito:
foda-se platão e sua república
)!

IV

ser poeta é absorver as dores do mundo
é cavalgar nas palavras
é desconstruir o agouro (h)umano
ser poeta é desacreditar na vida
é fornecer o grito
é formular o descompasso
do caminho

V

sentado à beira do cais
o poeta pergunta ao mar:
que faço eu no mundo?”

ondaondaonda
ondaondaondaondaonda
ondaondaondaondaondaondaonda
ondaondaondaondaondaondaondaondaonda
ondaondaondaondaondaondaondondaondaondaondaonda

o mar devolveu-lhe apenas o silêncio
da existência humana

 VI

quem nunca se sentiu como um navio naufragado
(além de não ter o dom da poesia)
sobre viver nada sabe



BÔNUS TRACK
(na vitrola: John Lennon: Jealous Guy)

por onde a n d e i
aqueles dias
de cabeça baixa
semblante umedecido
só Deus sabe
o que eu carregava
nas costas e no coração

sou a metade do nada
estou só
sentado à mesa de um bar

[eu: chico
estou a quatro goles do inferno]

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