A solidão entre baladas
Os poetas jovens tendem a falar
de temas relacionados ao amor, ao sonho e à esperança de viver. Na maioria das
vezes, tais temas nos levam a desacreditar nesses poetas por acharmos que devem
dar mais tempo aos seus versos e tentar repensar o mundo, de uma maneira
diferente, onde nem tudo o que acontece são maravilhas ou deveriam ser. Que a
esperança pode, com muita facilidade, não existir e que as dores do mundo estão
a nos incomodar quase que diariamente; e que existem muitas outras abstrações,
digamos assim, que deveriam nos preocupar.
Léo Prudêncio é um desses jovens,
porém com um diferencial. Há alguns anos, li os poemas do poeta e percebi neles
o que mencionei. Faltava-lhe uma “estabilidade” no texto, havia, em certo
sentido, muito sentimento apenas. Como se agisse comandado apenas pelo sentir
ou pela inspiração.
Apesar de acreditar que bons
textos podem surgir sob o efeito anestésico dos sentimentos ou sob o efeito da musa
inspiradora, e de momentos de epifania também, creio que o trabalho do poeta deva
existir de maneira que consiga não driblar os sentimentos, mas complementá-los
com nossa razão.
Esse é o problema de vários
escritores, pois creem que apenas o sentir é necessário para a escrita. Ao
lermos Manoel de Barros ou João Cabral de Melo Neto, poderíamos pensar em
afirmar que conseguiríamos apontar com certeza qual deles usou apenas a razão
ou o sentimento com maior afinco. Seria pura ingenuidade fazê-lo. A poesia não
se constrói apenas com momentos epifânicos nem com pura racionalidade, mas sim
com a observação da vida que acontece em tudo e em todos e quase sempre
acompanhada de atos reflexivos, ou não. Portanto, é quase impossível, a meu
ver, separarmos esses dois “seres”.
Em Baladas para violão de cinco cordas temos um pouco de cada, com uma
harmonia que, por vezes, desafina e afina, como estivéssemos a ajustar o tom
das melodias que irão ser tocadas. Partindo de tragédias, como a vida de Chico
– presentes desde os primeiros versos-acordes do livro – à ironia, que traz
certa pitada de vida, pode-se afirmar que o poeta deste livro “anda perdido”,
mas apenas enquanto toca os seus versos nas nuvens que o formam. Perdido entre
baladas que tocam não apenas o seu íntimo, mas o da vida que o rodeia.
Léo Prudêncio toca em temas caros
a qualquer leitor de poesia e aos escritores que começam a desejar enveredar
pela escrita. O amor e o sonhar são mais do que vivos em seus poemas. Contudo,
perguntaria o poeta: será isso tudo clichê? É para essa resposta que devemos ater
detalhadamente a nossa percepção.
O poeta entende que temas como
esses não devem ser deixados de lado, apenas porque a crítica, propriamente, já
não os quer presentes em poemas. O clichê deve ser retomado e talhado com certa
originalidade que cabe apenas àqueles que escrevem sozinhos entre as multidões.
Os poemas-clichês, chamemos assim
alguns dos textos aqui encontrados, apontam para algo desconcertante, como
frases que surgem ao fim dos poemas e que, além de nos interpelar em outra
língua, como no segundo poema do livro, nos deixam desconcertados por perceber
que nem tudo é o que se lê. A desconstrução está colocada com precisão para que
não nos ludibriemos pela melodia dos versos e para que não nos deixemos levar
pela simples ilusão dos temas clichês, que em alguns poemas se fazem presentes.
Na verdade, tudo está estruturado
para nos desconcertar, nos deixar imprecisos quanto à existência da vida.
Parece ser esse sob este sentimento que o poeta compõe sua balada. Ele parece
querer nos manipular, assim como fazia Orfeu com os pássaros e os animais
selvagens, fazendo assertivas que nos deixam, apesar de compenetrados, confusos
e duvidosos, como a que diz que o poeta é um “desespectador da vida”. Parece
que Léo Prudêncio segue bem as indicações de um ilustre poeta português, em que
afirmava que o poeta é sempre responsável pelo fingir. Iludir, portanto,
poderia ser um ato mágico, mas é também poético.
Além da falsa ilusão criada pelas
palavras lançadas através dos versos harmoniosos de Léo Prudêncio, há certa
disposição de aspectos gráficos visuais, mostrando a habilidade do poeta em não
exagerar utilizando a influência que aparenta ter do concretismo, como bem é
possível observar no poema espólio,
que nos direciona para uma cruz que simboliza nossa perdição, nossa rendição ao
esquecimento.
Poemas como horizonte ou guitar solo
deixam evidente a preocupação que o poeta teve em meio aos poemas amorosos, que
surgem como ervas daninha no jardim dos críticos, aos poucos, como em eu e minha pequena, deixar claro que nem
tudo o que se lê é ilusório. Mostra, através desses poemas, que razão e
sentimento encontram-se muito bem alinhados, como a sequência de notas que são
criadas para suas Baladas para violão de
cinco cordas.
O que deverá ter sido apreendido
por você, leitor, é o toque de inocência que existe na confessionalidade do
poeta, deixando parte de si no livro, relatando, quem sabe, sua infância e a
escrita, na qual as nuvens, as páginas em branco, eram o seu brinquedo
favorito, onde “desenhava soldados, carros e animais”.
E através dessa infância, que não
se deixou ser levada pela memória, ao contrário dos amores vãos, sugere que
sempre haverá os que duvidaram da vida, por que é certo que muito há a se
perder no caminho até a morte. Mas é assim que vai “reformulando o peso do
mundo / transfigurando / o real em sonetos”.
A vida do poeta é construída
através dos poemas, assim como constrói os seus versos, sua balada, seu caminho
entre as multidões. Léo Prudêncio não está entre as multidões, pois ele
acredita que “o poeta está só” e sempre só, quando a revolver em si os
sentimentos e os momentos vividos, para que quem sabe um dia seus poemas possam
chegar até o leitor mais arredio “como
um navio chegando d’além mar”.
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