Perfil Poesia Brasileira, Cassiano Ricardo: “Como amanhecer em meio a isto tudo”?
""A instantaneidade me trouxe a graça da imobilidade"
Cassiano Ricardo
No
dia 26 de Julho de 1895 nasceu o Poeta, Ensaísta e Jornalista Cassiano Ricardo
Leite. Na Poesia Brasileira Ele atravessou do Parnasianismo até as Vanguardas,
caminhado sua vida junto com a própria literatura. desse modo não
é exagero dizer que, igual a Manuel Bandeira, a Obra de Cassiano Ricardo é
um passeio pelas principais tendências da Literatura Poética do
Século XX no Brasil.
O
escritor, que só veio Falecer com 78 anos, no dia 14 de Janeiro de 1974,
iniciou sua carreira com o livro de poemas Dentro da Noite
(1915), de versos parnasianos, tendência que segue também no segundo
livro, A frauta de Pã (1917). Nessa Primeira fase consegue
arrancar elogios de Poetas Célebre do Parnasianismo, Olavo Bilac, Alberto de
oliveira, Luís Guimarães Filho, entre outros, destacaram a habilidade do jovem
promissor ourives do verso.
Porém,
a mudança, essa sim, junto com a consciência do verso serão as únicas
companheiras do Escritor, assim, Cassiano torna-se um dos principais entusiasta
do movimento modernista no Brasil, aderindo o movimento verde-amarelismo
publica o livro Martim
Cererê (1928),
com marcas do lirismo patriótico, próprio do movimento.
Contudo,
a primeira grande ruptura de Cassiano consigo mesmo e com sua Obra deu-se em
1947, através de Um
dia depois do outro (1947) e de seus subsequentes, Poemas
murais(1950) e A
Face perdida (1950). A
mudança foi tal que poetas como Manuel Bandeira chegaram a dizer que essa era
“A nova estréia” do poeta. Impressionado também Oswald de Andrade que afirmou:
“E nós que tínhamos dele a medida do cidadão exterior, cumpliciado e de
'deveres e obediência civil', vemos com angústia e alegria que se
quebraram seus ângulos oficiais”
Depois
disso até a data de sua Morte, Cassiano não deixou de mudar, ousar,
experimentar, buscar o verso certeiro, trouxe pra si todos os recursos modernos
tipográficos, trabalhou com o espaço gráficos, com o vazio e o cheio da página,
fazendo inclusive poemas concretistas.
Com
tão vasta e diversa poesia, com tantas nuances e tantas revoluções, traçar um
perfil intacto da poesia do autor é uma tarefa quase vã, Cassiano é um
verdadeiro universo, uma América ainda não descoberta pelo mar de leitores
brasileiros e do mundo. Porém, aqui fica cinco poemas para o deleite de nosso
queridos Leitores, e digo, é só a Ilha Pascoal, se navegarem por esses verdes
mares bravios, vocês conheceram um novo continente.
POEMAS
O
IRMÃO ADIADO
Ir
de mão em mão até
ao
irmão.
Diálogo
entre
a
infância e a distância
Só
encontrar o irmão
de
ir contra mão.
Ir
de encontro em vez
de
ir ao encontro
na
cidade
sem
gamati/cidade.
Procurar,
mas em vão
o
irmão do irmão do irmão do irmão
e,
um atrás do outro,
o
irmão sempre adiado
SERENATA
SINTÉTICA
Lua
morta
Rua
Torta
Tua
Porta
LADAINHA
I
Por
se tratar de uma ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera Cruz.
Ilha
cheia de graça
Ilha
cheia de pássaros
Ilha
cheia de luz
Ilha
verde onde havia
Mulheres
morenas nuas
Anhangás
a sonhar com histórias de luas
E
cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.
Depois
mudaram-lhe o nome
Pra
Terra de Santa Cruz
Terra
cheia de graça
Terra
cheia de pássaros
Terra
cheia de luz.
A
grande Terra girassol onde havia guerreiros de
tanga
e onças ruivas deitadas à sombra das
árvores
mosqueadas de sol.
Mas
como houvesse, em abundância,
Certa
madeira cor de sangue cor de brasaPorém, a mudança, essa sim, junto com
a consciência do verso serão as únicas companheiras do Escritor,
assim, Cassiano torna-se um dos principais entusiasta do movimento modernista no
Brasil, aderindo o movimento verde-amarelismo publica o livro Martim
Cererê (1928), com marcas do lirismo patriótico, próprio do
movimento.
Contudo,
a primeira grande ruptura de Cassiano consigo mesmo e com sua Obra deu-se em
1947, através de Um dia depois do outro (1947) e de seus
subsequentes, Poemas murais(1950) e A Face perdida
(1950). A mudança foi tal que poetas como Manuel Bandeira chegaram a
dizer que essa era “A nova estréia” do poeta. Impressionado também Oswald de
Andrade que afirmou: “E nós que tínhamos dele a medida do cidadão exterior,
cumpliciado e de 'deveres e obediência civil', vemos com angústia e
alegria que se quebraram seus ângulos oficiais”
Depois
disso até a data de sua Morte, Cassiano não deixou de mudar, ousar,
experimentar, buscar o verso certeiro, trouxe pra si todos os recursos modernos
tipográficos, trabalhou com o espaço gráficos, com o vazio e o cheio da página,
fazendo inclusive poemas concretistas.
Com
tão vasta e diversa poesia, com tantas nuances e tantas revoluções, traçar um
perfil intacto da poesia do autor é uma tarefa quase vã, Cassiano é um
verdadeiro universo, uma América ainda não descoberta pelo mar de leitores
brasileiros e do mundo. Porém, aqui fica cinco poemas para o deleite de nosso
queridos Leitores, e digo, é só a Ilha Pascoal, se navegarem por esses verdes
mares bravios, vocês conheceram um novo continente.
POEMAS
O
IRMÃO ADIADO
Ir
de mão em mão até
ao
irmão.
Diálogo
entre
a
infância e a distância
Só
encontrar o irmão
de
ir contra mão.
Ir
de encontro em vez
de
ir ao encontro
na
cidade
sem
gamati/cidade.
Procurar,
mas em vão
o
irmão do irmão do
irmão do irmão
e,
um atrás do outro,
o
irmão sempre adiado
SERENATA
SINTÉTICA
Lua
morta
Rua
Torta
Tua
Porta
LADAINHA
I
Por
se tratar de uma ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera Cruz.
Ilha
cheia de graça
Ilha
cheia de pássaros
Ilha
cheia de luz
Ilha
verde onde havia
Mulheres
morenas nuas
Anhangás
a sonhar com histórias de luas
E
cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.
Depois
mudaram-lhe o nome
Pra
Terra de Santa Cruz
Terra
cheia de graça
Terra
cheia de pássaros
Terra
cheia de luz.
A
grande Terra girassol onde havia guerreiros de
tanga
e onças ruivas deitadas à sombra das
árvores
mosqueadas de sol.
Mas
como houvesse, em abundância,
Certa
madeira cor de sangue cor de brasa
E
como o fogo da manhã selvagem
Fosse
um brasido no carvão noturno da paisagem,
E
como a Terra fosse de árvores vermelhas
E
se houvesse mostrado assaz gentil,
Deram-lhe
o nome de Brasil.
Brasil
cheio de graça
Brasil
cheio de pássaros
Brasil
cheio de luz.
E
como o fogo da manhã selvagem
Fosse
um brasido no carvão noturno da paisagem,
E
como a Terra fosse de árvores vermelhas
E
se houvesse mostrado assaz gentil,
Deram-lhe
o nome de Brasil.
Brasil
cheio de graça
Brasil
cheio de pássaros
Brasil
cheio de luz.
A
CANÇÃO MAIS RECENTE
O
poeta
com a sua lanterna
mágica está sempre
no começo das coisas.
É como a água, eternamente matutina.
Pouco importa a noite
lhe ponha a pena
do silêncio na asa.
Ele tem a manhã
em tudo quanto faça.
Além disso o amanhã
nunca deixará de ter pássaros.
com a sua lanterna
mágica está sempre
no começo das coisas.
É como a água, eternamente matutina.
Pouco importa a noite
lhe ponha a pena
do silêncio na asa.
Ele tem a manhã
em tudo quanto faça.
Além disso o amanhã
nunca deixará de ter pássaros.
RELÓGIO
Diante
de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.
conservemo-nos serenos.
Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.
Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.
Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.
CAFÉ-EXPRESSO
1
Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo…
E pronto! parece um brinquedo…
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.
Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo…
E pronto! parece um brinquedo…
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.
E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada…
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada…
Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada…
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.
[estrada…
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.
E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.
E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa…
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão…
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão…
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão…
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão…
Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim…
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim…
2
Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.
Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.
Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando…
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando…
Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!




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