Galáxias - poemas para viagem
A
poética de Galáxias, livro de Haroldo de Campos, antes de
tudo propõe a ruptura com o verso tradicional. Quando eu falo em
verso tradicional me refiro ao uso linear da escrita e o uso
recorrente da métrica e da linguagem sentimental-subjetiva. Sendo assim, um leitor acostumado com a poesia clássica sentirá certa dificuldade para ler o
Galáxias, mas vale lembrar que a linguagem do livro não é
complexa. Um leitor de qualquer faixa etária pode, e deve,
aventurar-se pelas linhas galácticas dessa obra que foi escrita
durante os anos 1963 a 1976. Haroldo publicou alguns fragmentos do
livro em revistas antes da publicação definitiva da obra em 1984.
O
livro é todo fragmentário, sendo que cada página ocupa um
poema-galáxia. Acredito que o título da obra remeta ao universo
galáctico, e múltiplo, da linguagem. Pois toda a obra tem por base
a linguagem. Nos deparamos portanto com um livro experimental. É
inconcebivel rotular o livro como sendo apenas um livro que comporta
poemas, ou, rotulá-lo como um livro de prosa-poética. A obra,
devido a sua potencialidade poética esperimental, foge a todo tipo
de rótulos. Caetano Veloso após a leitura do livro o chamou de
proesia, devido a sua múltipla categorização de gêneros. Alias, a
definição de gênero é impensável em um livro como esse.
O
livro deve ser lido sem seguir um roteiro de viagem, isso é
percebido ao não-numerar as páginas da obra. Como também não há
separação de parágrafos nem títulos nos poemas, e não há sinais
de pontuação. Estamos, portanto, diante de um livro de viagem. Inês
Oseki-Deprê comenta sobre o livro intercalando a sua fala com a de
Haroldo abaixo:
No
momento da publicação integral de Galáxias,
em 1984, Haroldo de
Campos fez a seguinte apresentação: “O formante inicial de
Galáxias
(início/ fim) é de 1963, o terminal de 1976.” Trata- se de um
“texto imaginado no limite extremo da poesia e da prosa, pulsão
bioescritural em expansão galáctica entre estes dois formantes
cambiáveis e cambiantes”, e tendo por ímã temático a viagem
como livro ou o livro como viagem, e por isso mesmo entendido também
como um “livro de ensaios, hoje retrospectivamente eu tenderia a
vê-lo como uma insinuação épica que se resolveu numa epifânica.”
Eu
sempre costumo dizer que é um livro que nunca se lê, sempre
relemos, pois nunca chegamos no ponto final da absorção do livro. A
cada leitura nova descobrimos algo que não tínhamos percebido
antes. Por isso a alcunha de livro-viagem, pois sempre o leitor
retorna a sua 'viagem' relendo a obra.
Em
uma conferência, na Biblioteca
Freudiana Brasileira, Haroldo
de Campos comentou sobre o Galaxias
fornecendo um roteiro de leitura:
Nesse
texto ideal, as redes são múltiplas e se entrelaçam sem que
nenhuma possa dominar as outras; este texto é uma galáxia
de significantes e não uma estrutura de significados; não tem
início; é reversível; e nela penetramos por diversas entradas,
sem que nenhuma delas possa qualificar-se como principal; os códigos
que mobiliza perfilam-se a perder de vista; eles não são
dedutíveis (o sentido nesse texto nunca é submetido a um princípio
de decisão e sim por um processo aleatório); os sistemas de
significados podem apoderar-se desse texto absolutamente plural, mas
seu número nunca é limitado, sua medida é o infinito da linguagem
'Uma
leitura infinita' é assim que muitos dizem ser o livro de Haroldo. A
infinitude de seu livro, como percebemos no depoimento acima, é a
linguagem. Antonio Cícero, em Poesia e filosofia, defende o
poema como “a escrita centrada na linguagem, a linguagem opaca e
obscura, a linguagem como grade que impede a entrada no mundo, a
resistência, a incompreensibilidade, o silêncio, o desaparecimento
da poesia”. É nesse desaparecimento que surge o Galáxias.
Livro-mundo, livro-objeto ou livro-jogo.
Ainda
sobre a questão do subtítulo isto não é um livro de viagem, o
autor Antônio Sérgio Bessa contrapõe essa ideia afirmando ser SIM
um livro de viagens:
As
Galáxias
são ricas em referências específicas aos eventos vividos por
Campos em suas muitas viagens. Como as suas páginas não numeradas
sugerem, a leitura de Galáxias
não se destina a ser sequencial, e as referências a lugares e
pessoas espalhadas por toda a série criam uma narrativa circular. A
maior parte da ‘informação’ dispersa pelos cantos consiste em
referências obscuras a experiências pessoais, e essas alusões e
referências podem parecer irrelevantes ao leitor, como a pequena
rua Budé na Île St Louis, em Paris, que é mencionada no Canto 13.
Outras referências, no entanto, rememoram eventos importantes para
o poeta, como “o prédio na via mameli terça-feira às 4 da
tarde” no Canto 33, que evoca um encontro com Ezra Pound em
Rapallo. O terceiro canto, que começa com um verso de Macbeth, de
Shakespeare (“multitudinous seas incarnadine”), trata mais
provavelmente de suas impressões ao atravessar o Atlântico pela
primeira vez, enquanto outros cantos sugerem sua passagem por
cidades europeias – Granada (Canto 2), Córdoba (Canto 5),
Stuttgart (Canto 6), o País Basco (Canto 12), e assim por diante.
Seu apreço pela viagem, é preciso ressaltar, não deve ser
compreendido apenas como uma urgência de wanderlust, mas sim como um
desejo de conhecer e aprender com os “grandes homens de seu
tempo”, como Pound certa vez encorajou Hugh Kenner a fazer.
Codificados nestas narrativas estão encontros com Max Bense, Eugen
Gomringer, Karlheinz Stockhausen, Octavio Paz, Hélio Oiticica,
Marshall McLuhan e Guimarães Rosa, entre outros.
Cada
fragmento do livro nos liga a algum fio condutor da memoria do autor.
O livro torna-se portanto expansivo. O mesmo autor, do trecho acima,
comenta que o fragmento Circuladô de fulô, tem a sua origem nas
viagens que Haroldo fez ao nordeste. E que este canto tem a sua
origem em alguma canção nordestina de autor ainda não
identificado. O mesmo trecho, Circuladô de fulô, foi
musicado por Caetano Veloso. Encerro este debate-galáctico com o
fragmento Circuladô de Fulô na íntegra:
circuladô
de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso
guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me
dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo
e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para
outros não existia aquela música não podia porque não podia
popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada
na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e
doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma
espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um
renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol enquanto
vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza
fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do
desgosto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de
bordados rebordos estilo império para a megera miséria pois isto é
popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha
mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da maestria
no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pira ou
quase o povo é o melhor artífice no seu martelo galopado no crivo
do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu
galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio
aquele gumefio azucrinado dentedoente como um fio demente plangendo
seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circulado de
fulo circulado de fulôôô porque eu não posso guiá veja este
livro material de consumo este aodeus aedomodarálivro que eu arrumo
e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do
mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso
não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos
nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus
nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais
pequenas chamadas de ninharias com veremos verbenas acúcares
açucenas ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo
isso desaponta não sei mas ouça como canta louve como conta prove
como dança e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te
guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me
esqueça me largue me desarmargue que no fim eu acerto que no fim eu
reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que
estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que
pelo torto fiz direito que quem faz cento se não guio não lamento
pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento de miramundo na
miragem do segundo que pelo avesso fui dextro sendo avesso pelo
sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me
peça memente mas more no meu momento desmande meu mandamento e não
fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim
prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim ponha o não
o não será tua demão
ARQUIVOS
CONSULTADOS
OSEKI-DÉPRÉ,
Inês. Leitura
finita de um texto infinito: Galáxias de Haroldo de Campos.
CICERO,
Antonio. Poesia
e filosofia.
Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.
BESSA,
Antônio Sérgio. Rupturas
de estilos em Galáxias de Haroldo de Campos






