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16 de dezembro de 2014
Literatura: uma salvação.

Literatura: uma salvação.




Ainda hoje, os questionamentos são os mesmos entre autores, leitores e críticos literários. Pra que serve a literatura? Ela há de engrandecer quem escreve? Ela contribui no desenvolvimento intelectual e pessoal de quem lê? Por quais motivos devemos discriminar uma obra a partir dos elementos que estão presentes em si? Nada disso possui uma resposta correta ou verdadeira. O que há de comum em tudo isso é a paixão pelas letras e pela imaginação.

Assim inicio esse texto, pois querendo falar de Sérgio Vaz, após a leitura de seu livro Literatura, pão e poesia, o primeiro que me chegou às mãos, confesso que o olhei meio enviesado. Queria saber o que que esse poeta teria de tão bom que vem chamando a atenção de editores, críticos e leitores de maneira demasiada. Falam por aí que sua poesia é marginal, por ser ela da periferia, por estar ‘despreocupada’ com uma escrita mais formal, o que contribui para um melhor ‘relacionamento’ com pessoas que não possuem, ainda, a mania de ler.

Talvez o pensamento positivo que ande sendo reverberado sobre o Vaz seja porque, além de ter escrito alguns livros que evidenciam sua preocupação com a linguagem literária, estando ela mais perto da coloquialidade, ele tem conferido à Zona Sul de São Paulo, há mais de uma década, um dos maiores saraus da ctidade, o tão conhecido Cooperifa, que faça chuva ou faça sol sempre ocorre no bar do Zé Batidão. Talvez o poeta tenha “ido longe demais” porque a sua escrita, em uma primeira leitura, pode ser considerada detentora de uma pitada de ‘autoajuda’ (apesar de não ser essa a melhor palavra para definir o que percebo em sua escrita), mas com quilos de uma poesia que é notavelmente profunda.

A verdadeira arte não embala os adormecidos. Desperta-os

Enquanto lia Literatura, pão e poesia, me perguntava por que os textos que ali se inseriam eram tão distintos entre si e, ao mesmo tempo, tão parecidos, com uma delicadeza de quem percebe os movimentos do viver das coisas que estão ao nosso alcance ou não. É fato que é isso que o poeta faz, observar mais atentamente a realidade, mas, perante essa nova poesia contemporânea, parece que muito disso anda esquecido e que estamos apenas a deleitarmo-nos num abstracionismo que não nos remete a quase nada.

O que Sérgio Vaz produz é uma literatura de acesso. E espero que essa alcunha não seja sentida de maneira negativa, uma vez que o que desejo é elevar sua poesia. Ele escreve como quem fala, contando uma história quase rimada, como se tivesse a sua frente uma plateia que clama por histórias. Tem em si o poder da oralidade, parece ter entendido muito bem o que se fazia na Antiga Grécia. Talvez isso seja reflexo, também, da sua movimentação frente às dificuldades enquanto tentava vender o seu primeiro livro, tentando chamar a atenção do público recitando textos em locais diversos para tentar viver da literatura, como já contou em inúmeras entrevistas. Talvez ele tenha consigo a importância que um poeta tem junto à comunidade, contribuindo para que ela possa se conhecer melhor, se sentir melhor mesmo com tantas agruras da realidade. O que parece, no meu ponto de vista, ter sido deixado de lado por vários novos expoentes da literatura brasileira, estamos mais “umbigóides”, menos coletivos, ao contrário de Sérgio Vaz. Muito se fala quando as câmeras estão voltadas para nós, desejamos inúmeras vezes o bem maior, e empurramos a culpa para o governo, que deveria fazer isso ou aquilo, ou afirmamos contundentemente que a leitura poderia contribuir para que a sociedade fosse mais engajada, enquanto nós não nos engajamos. Vaz não espera, ele age, pois para ele, ao contrário do que Sartre acreditava, “o inferno somos nós”. É o artista o maior responsável pela difusão da literatura ou da leitura.

O artista é a última linha da sociedade, quando ele desiste é porque não resta mais nada.

E o que resta do livro de Vaz? Resta a sinestesia dos gêneros em seu livro, pois ainda não decidi se o que li foi poesia, crônica ou contos. Além disso, as críticas que ele constrói, evidenciando a falta de leitura, a diferença social através da literatura entre as pessoas me convenceu de que, cada vez mais, sabemos menos do que somos capaz. Talvez daí surja o nome do livro de Vaz, Literatura, pão e poesia.

Conheço poeta que não lê, jornalista que não gosta de notícia, médicos sem remédio, 
professores que não estudam justamente porque acham que se formaram, 
como se sabedoria se medisse por grau ou degrau.

Sérgio Vaz tem a facilidade de conseguir se aprofundar em alguns temas e isso me deixou de sobreaviso, como ocorre nos “Contos celulares”. A amizade, presente no conto nº 1 é discorrido num diálogo tão pontual, que pode enganar pela sua ‘superficialidade’, mas que aponta para um amor quase descomunal entre dois amigos que queriam ‘apenas’ se falar. Evidenciar esses momentos, que podem ser tidos como clichês ou banais, de maneira a nos fazer mais humanos, faz de Sérgio um observador nato, não só porque vislumbra a realidade com olhos de poeta, mas por entender que em tudo, literalmente tudo, há poesia. Não existem possibilidades, só certeza.

O que sobra de Vaz? Poderia dizer que as inúmeras ‘frases de efeitos’ e ótimas histórias que acabam se tornando um ensino de vida, como se fossem um anúncio do que poderá acontecer conosco, e talvez isso afaste os mais puristas, pois podem acreditar que isso não poesia, mas uma maneira de se autoajudar. Porém, não seria a escrita uma maneira de nos salvarmos?

Por fim, em meio a tantos ‘causos’ e narrativas que desrespeitam as regras, os aforismos, se é que posso assim chamar, do poeta são como balas perdidas durante a leitura. Elas se desprendem entre as histórias de uma maneira que acabamos por nos sentir incomodados, é aquele momento em que nos mexemos de um lado para o outro, sem saber como agir ou sem saber o que pensar, pois nada mais poético do que utilizar-se do real e de nós mesmos para nos fazer sentir menos infernais e mais humanos:

Ninguém é obrigado a ajudar o próximo,
nem a ficar de braços cruzados.




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18 de setembro de 2014
Voo feito de fel

Voo feito de fel

(Imagem: David Herrera)
 
Ela sentou-se à calçada porque era aquele seu local preferido. De hoje.
Ela nunca teve locais preferidos. Na verdade qualquer espaço feito de silêncio sólido, daqueles que a maioria das pessoas odeia, ela adora.
Ainda mais hoje.
Hoje era dia grande como uma manhã que já nasce com promessas de demorar-se até alcançar o almoço. E, até chegar a hora do almoço, há um longo caminho de horas que se desfiam inteiras sem desconfiarem o porquê. Horas vãs que vão e que vêm como um voo feito de fel.
Nada se digna a acontecer que ultrapasse o limite das horas ou que as faça parar, ou melhor ainda - pensou ela - que as faça voltar num retroceder de minutos sucessivos em que só ela se dê conta.
As pessoas nos seus afazeres normais, correndo, atravessando as ruas, carregando as compras e os ponteiros a rolar para trás. Só ela, o relógio e o silêncio a dominar o que todos aprenderam com o tempo.
Chegado o almoço, é tarde. A tarde é uma fortaleza de grades em que se prende o sol. Ficam ali os raios a guiarem-se por todos os lados, uma hora em um ponto, às duas, bate na parede, às três, escorre pela porta, às quatro, derrama-se pela calçada e às cinco, como que despedindo-se, alcança a rua. Mas, todos os dias, eles voltam ao mesmo lugar e lamentam-se de não poder correr dali. E assim, a tarde caminha vazia cheia de luzes e barulhos, a não ser pra ela, que carrega nos ouvidos, o mais abissal e feliz dos silêncios.

Ayla Andra In "O Mais Feliz dos Silêncios"
Ed. Sustânsia, 2014. Fortaleza-CE

***

O mais feliz dos silêncios é o livro de estreia de Ayla Andrade. Em suas páginas, o silêncio, como diria o poeta Francisco Carvalho, “essa figura geométrica”, vai tomando diversas formas, tons e cores, perpassando múltiplas personagens femininas e colocando o leitor em uma montanha-russa de emoções com o passar das horas. Com ilustração de Capa da artista Tereza Dequinta, este é o quarto livro publicado pela Editora Substânsia, primeiro de contos. O lançamento ocorrerá dia 9 de outubro às 18:30 horas, na Biblioteca Municipal Dollor Barreira, Av. da Universidade, 2572. Benfica, Fortaleza-CE. O livro será vendido a R$ 30,00.






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1 de setembro de 2014
Queria escrever o mundo, mas resolvi escrever Maria

Queria escrever o mundo, mas resolvi escrever Maria





Para ouvir: Assum Branco, de José Miguel Wisnik, na voz de Gal Costa.
Ou Galos, Noites e Quintais, de Belchior.



Beleza –É algo relativo. Mas, sem dúvidas, não há relatividade alguma na beleza dos olhos dela. Os olhos dela são um pedacinho de mar onde ele não mais existe. A brancura, em castigo do sol, só não encarde pelo talco em pó e pela lavanda de alfazema trazida pelo mascate da feira. Parece morar dentro dela alguma grande guerreira, quem sabe uma Iracema sertaneja disfarçada de mulher branca, ou uma Moura encantada da mitologia Basca.

Eu queria era vê-la moça, lá por volta de 1950, feliz e alva. Os cabelos loiros, soltos e devidamente penteados para mais uma missa de domingo. Consigo até sentir o gosto dos doces das quermesses e a euforia dos bingos e das rifas em festas da padroeira. Pensar nela me enche de saudade. E a saudade dela é a saudade das coisas dela, do passado empoeirado escondido pelos cantos da casa. É a saudade de lavar os collants e anáguas com sabão canoeiro, e com a mesma água refrescar o suor que escorre pelo corpo. É a saudade do canto de canários, nambus e bem-te-vis, que é a mesma saudade do sertão florindo em puberdade. A saudade de pular a cerca e tomar banho no riacho com sabão de aroeira. Saudade dos pés de oiticica, de comer as frutinhas de juá e também os bolos de puba e os chouriços em dia de festa... Ah, saudade dos melaços de cana e do som da rabeca de Seu Quincas Firmino. A nostalgia, que chamo de saudade, talvez venha das lembranças apropriadas dos álbuns e monóculos antigos trazidos do Juazeiro, ou talvez, das histórias repetidas na beira da calçada e das tardes que eu me trancava nos baús forrados de revistas e jornais velhos.

E as dores? E a falta de carne e água limpa? E o vazio solitário que ocupa a gente na desesperança? Isso também está na memória. Pensar nos sofrimentos da terra rachada por onde ela passou é tão amargo quanto a água barrenta do açude. O gado morto. O prato raso de comida. As crianças morrendo de varíola, caxumba, diarreia ou gripe: “Segura na mão de Deus e vai...”.

Sertão de vidas secas. Para ela, uma vida fértil, 14 barrigas, três abortos e um menino que não se criou. Mesmo com toda reza e toda crença, toda mudança e toda reforma – nos dias de agora, água pouca ou água nenhuma. E os filhos bem paridos e bem casados não voltam temendo a seca. A vida agora é um balançar de rede, é colocar comida pros gatos, ver a novela e esperar um pingo de chuva aqui e outro acolá.

Quando viajo para encontrá-la, penso na sorte que tive em ter o mesmo sangue forte de Maria. Na distância, vivo vendo-a por aí. Seja na avó que em uma mão carrega sacolas e na outra segura a mão da neta pelo centro da cidade. Seja na senhora negra e de cabeleira branca, que lava ternamente as mãos da neta com shampoo que retira da sacolinha de plástico, no banheiro da universidade. Ou especialmente vendo Dora, em Central do Brasil. Ah, Dora é a imagem cinematográfica de Maria. Um batom pelo final, uma bolsa lateral bem junta ao corpo, uma pausa na lanchonete da rodoviária para um refrigerante; a mão pregada à mão da criança, a vontade de carregá-la por muito tempo, porém, com a certeza inevitável que a perderá.

Lembro-me da época das especulações em torno do bebê real. Eu só conseguia pensar: pobre criança! Não terá uma vovó real para lhe dar angus, papinhas, chás de erva cidreira e cafunés. Ou mesmo uns bons gritos. Avó é mãe duas vezes, dizem. Avó é alguém que temos um medo bem grande de perder, mas como conforta Drummond, “As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.” Pois que fico enormemente feliz quando chego nos Inhamuns e Maria, minha avó, me olha com um olho cego e o outro brilhando, apesar da catarata. Em seu abraço cabe o sertão, o mar, o azul e o violeta. Não importa a minha idade, serei sempre a criança desprotegida à procura da mão da avó. E não importa a idade dela, Maria será sempre a Moura encantada, com mãos de ferro e unhas de porcelana.



Thalita Gabriele Moura Vieira.
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11 de agosto de 2014
Sarau do Porto em Fortaleza

Sarau do Porto em Fortaleza


Nos últimos anos, poetas e escritores invadiram cafés, livrarias, bares e espaços culturais para apresentar, declamar e performatizar suas poesia, assim, a máxima “a arte tem que ir aonde o povo está” foi e é vivida muito fortemente por esses entusiastas da literatura em nosso país.

Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, é possível ir a um sarau quase semanalmente, em Fortaleza, mais timidamente, alguns grupos mantiveram essa efervescência poética acesa, a exemplo do Espaço Templo da Poesia que, durantes quatro anos, manteve suas portas abertas com saraus quinzenais.

O Sarau é como uma feira-livre, é lá onde o poeta ‘vende o seu peixe’, é lá onde se pode ter contato mais direto com seus leitores e ler nos olhos a teoria da recepção posta em prática. O público é uma espécie de termômetro, as palmas mais acaloradas são inevitáveis, um gritinho aqui e acolá.

Mas nem sempre foi assim, no período do romantismo europeu e brasileiro, sarau foi sinônimo de comedimento, falar poemas, acompanhado sempre de uma senhora ao piano, era um evento social da mais alta estima, um momento para o flerte e, quem sabe, para conquistar um editor ou um mecenas e conseguir publicar um livro.

Nessa perspectiva, inscreve-se o Sarau do Porto, que, de um lado, lembra as rodas de poesia do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, que já foi um dos principais pontos de encontro de poetas do Ceará; do outro, renovando, injetando sangue novo, fazendo ousadias e mostrando que apesar de alguns estarem a agonizar nas lamúrias de um declínio da produção literária em nosso estado, a poesia ainda VIVE.

Cada Edição vai possuir um poeta cearense homenageado. Nas duas edições, pensadas para este evento, sugerimos os nomes do poeta Francisco Carvalho, falecido há pouco tempo, por ter sido um dos grandes expoentes da Literatura Cearense, do escritor Jose Alcides Pinto, pela obra que deixou ao povo cearense, ambos por ainda serem pouco lembrados na literatura brasileira.

O sarau receberá quatro convidados poetas, apostando na diversidade, sendo colocado, em um mesmo espaço, poetas jovens, publicados, não publicados, poetas populares, poetas marginais, poetas de "algum nome" e poetas não conhecidos. 

A cada recitação dos poetas, o músico convidado da noite executa uma peça musical e o Apresentador do Sarau recita um poema do Poeta homenageado da noite. Após os convidados da noite, é aberta a roda de leitura para o público que inscreveu trabalhos para ser lidos. Cada pessoa da plateia poderá recitar 1 poema, que será inscrito antes do início do Sarau.

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4 de agosto de 2014
A literatura e o ato de esculpir um cavalo

A literatura e o ato de esculpir um cavalo



Como se fizesse um cavalo é o título de uma das obras de Marina Colasanti. Um título excepcional, diga-se de passagem. O nome escolhido pela autora caiu muito bem com o primeiro texto do livro. Partindo de uma resposta de Michelangelo, quando lhe perguntaram como esculpir um cavalo, ela traça um paralelo para discernir sobre o que seria sua vida sem a literatura, ou melhor, sem a leitura.

Conta-nos que sempre que conversa com algum amigo e pergunta de que maneira ele havia começado a se interessar pela leitura, ela descobre que há sempre um primeiro livro, como se fosse um marco, que estabelece o antes e o depois da vida de uma pessoa a partir de uma determinada obra. Na de Marina isso não existiu, sua mãe sempre esteve presente, desde a infância, a demarcar o território da literatura em sua casa. Ela não lembra do primeiro livro que leu, pois ela adentrou o mundo da literatura muito cedo, e ainda nem sabia como esculpir coisa alguma.

Assim, Colasanti vai destrinchando suas leituras e se desfazendo delas para que, ao final, possamos saber o que sobraria de si, o que poderia sobrar de qualquer leitor ao se desfazer dos autores que amam. O que seria de cada indivíduo fascinado pela literatura sem as histórias de seus escritores preferidos? Mudaria alguma coisa? Será que é realmente importante a arte na vida das pessoas?

Despedindo-se de Peter Pan, de Monte Cristo, Os três mosqueteiros e muitos outros personagens, Marina desvenda o abismo da alma que podemos possuir sem a leitura fantasiosa a qual nos proporciona entender muito do nosso convívio social. Sai das fantasias de criança até as leituras homéricas, mostrando que não deveria ser possível viver apenas de um gênero. É como nos avisasse que não podemos perder tempo dispendendo forças em apenas um tipo de história. Como se fosse nossa responsabilidade nos inquietar:

Estou tentando esculpir um cavalo, e para isso terei que me desfazer de outro. Empurro sobre suas rodas, para fora da minha infância, o Cavalo de Troia. Nunca mais cavalos serão tão importantes por dentro quanto por fora. Terei que aprender em outra parte o poder da astúcia, e o custo da boa fé.

E quanto ao que aprendeu nos livros que criavam mundos ou que transmitiam o que acontecia na realidade, Marina expõe a fragilidade do homem frente ao mundo que nos rodeia. Pelo que observei, nas entrelinhas lê-se que quanto mais rápido começamos a ler, principalmente literatura, fica mais fácil escolher as veredas neste mundo tantas vezes insensíveis.



Ela não quer que esperemos o momento certo para ler, assim como os seus namoradinhos que esperaram e acabaram ficando de lado, não seria prudente afastar as crianças, os jovens da literatura, é necessário que leiamos. E, talvez, do jeito que vamos isso seja cada vez mais urgente:

Depois do primeiro namoradinho, houve um segundo. E lemos juntos. E um terceiro, que já não era apenas namoradinho. E lemos juntos. Houve um no meio, e não lemos juntos porque ele não gostava de ler; dizia que o faria mais tarde, quando fosse velho e tivesse tempo sobrando, e eu achei mais prudente não esperar para verificar.

Ao final do primeiro texto, Marina confessa não poder continuar na empreitada. A dificuldade de esculpir um cavalo a partir de um bloco de mármore para um iniciante é a mesma que ela sente, após anos de leituras, ao querer se desfazer de tudo que apreendeu e tem consigo. Suas leituras não podem ser abandonadas, já fazem parte de si, seu corpo já não é possuidor apenas de carne e ossos, está inserida na memória. As ideias estão presentes por causa da Literatura:

Eu poderia tirar todo o mármore, toda palavra escrita, e ainda assim não chegaria ao que a leitura fez por mim, porque aquilo que eu poderia ter sido sem a leitura nunca existiu. Chegaria, porém, àquilo que já sei: que a leitura me fez assim como sou. Interagindo com meu DNA, com as circunstâncias da vida, com os encontros e os desencontros, mas sempre presente, ajudando-me a elaborar cada gesto, cada ato.

E é a partir de encontros e desencontros que começa a ajustar o pensamento em torno do livro. Que objeto é este que move capitais e que ao mesmo tempo nos fascina pelos seus conteúdos? Por quais razões somos tão estúpidos em deixar de lado livros de autoajuda, em que conseguem, mesmo sendo desprezados, ser tão certeiros como conselheiros de vidas alheias?

Ele nos fala de uma cultura que não respeita seus velhos, que não reconhece neles a sabedoria dada pela experiência, pois relaciona sua experiência a um mundo ultrapassado, que nada mais tem para ensinar. E que, não respeitando os velhos, ignora seus conselhos e perde, com isso, preciosos guias.

Será que perdemos os nossos guias e estamos dispostos a comprar sempre aqueles livros que são apenas de nosso gosto? Não estamos aptos, mesmo com tantas leituras, a respeitas os mais diversos gêneros e saber ‘ler’ neles seus pontos positivos?

São muitas as perguntas, realmente, e que ,lendo o segundo texto de Colasanti, O livro, entre Barbie e a longa noite, fui ficando satisfeito com as possíveis respostas, não que ela se importe em nos dar, e fascinado com a sua facilidade em destrinchar pensamentos. Ela, rapidamente, chega a um dos pontos mais fundamentais de todo o sistema literário e que eu, por ser editor, me senti mais à vontade, ou não. Ela afirma, como bem sabemos, que

Uma vez estabelecido que todos os livros são um fato cultural, não temos como escapar da segunda constatação: todos eles são mercadoria. Todos estão à venda, e uma vez à venda, englobam-se naquela entidade gigantesca e amedrontadora chamada mercado.

Daí, podemos voltar à questão do olhar enviesado para gêneros de fantasia ou de autoajuda que fazem tanto sucesso nas prateleiras das grandes livrarias. Pois é fato de que livro bom, parece, é aquele que vende bem, ficando às vistas dos possíveis leitores, senão, some, como bem pontua a autora.

E essa procura exacerbada das editoras, mas dos autores também, leva a uma competitividade desleal quanto ao restante das obras, que acabam ficando condenadas às sombras dos ‘grandes’ livros. Corrida essa mantida por dois pólos altamente divergentes: de um lado os grandes grupos comerciais, que acabam englobando inúmeras editoras, que um dia tiveram a sua vez, e do outro as editoras independentes, pequeninas, que correm contra a maré, sabendo que atrás de si há uma enorme catarata querendo levá-las para o fundo do rio.

Assim, fica claro que o sistema literário acaba sendo mantido não por editores de profissão, mais por administradores profissionais, que estão a frente desses grandes conglomerados editorias e que visam uma única coisa: lucro!

Fora isso, Marina aponta um dos grandes problemas atuais do sistema literário brasileiro atual, mas que talvez também se refira ao restante do mundo: a crise da crítica, da qual tanto fala o professor e crítico Alcir Pécora. Afirma ela que

A função da crítica é estabelecer padrões de qualidade necessários para fortalecer a opinião crítica do leitor e permitir-lhe escolher com acerto mesmo entre os muitos livros não resenhados. Na busca de excelência, o crítico se vê obrigado a trabalhar com um nível de exigência superior ao da média. As se trocarmos o crítico especializado pela democrática voz dos leitores, por aquela voz que tanto mais representativa será quanto mais se aproximar do gosto comum, que estabelecerá, e com que critérios, os padrões de qualidade?

A voz a qual se refere Colasanti é a dos blogueiros-críticos que começam a ter vez no cenário atual, mas que parecem ter esquecido de como fazer uma crítica alentada, uma vez que é ela que acabar por direcionar, muitas vezes, os possíveis leitores de uma obra, e “que diz ao livreiro que livros comprar ou mais fartamente exibir”.

E ainda há muito mais na obra de Marina. Fica evidente que ela está atenta a tudo que acontece, de uma ponta a outra, neste sistema, que é, em vários pontos, falho. A autora ainda tem muito a dizer e está preparada para nos fazer pensar sobre vários pontos que ficam, quase sempre, às escuras, para os novos críticos.

Pode parecer um pouco estúpido aos que não conseguem ver nada mais do que o real, mas ler é viver, é saber olhar atentamente para o que nos rodeia e para o que nos predispomos a fazer. Deste modo, a literatura não é apenas libertação, acaba sendo comércio também, porém é cultura e isto não pode ser comercializado da maneira que os grandes administradores desejam. É necessário que saibamos educar através da leitura as nossas crianças, que saibamos exigir obras dos mais variados gêneros e que elas tenham a possibilidade de coexistir em todos os espaços. E como se respondesse, também, à pergunta que fizeram a Michelangelo, Colasanti nos diz que “Há vários meios para isso”.


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29 de julho de 2014
Maersk Alabama, entre Fortaleza e Irlanda.

Maersk Alabama, entre Fortaleza e Irlanda.


Joice e Ramon em Ilustração de Ramon Cavalcante


Dia 30 de julho de 2014, (quarta-feira), a escritora cearense Joice Nunes lançará o livro de sua autoria, "Maersk Alabama”, uma publicação independente que conta com ilustrações do quadrinista Ramon Cavalcante.  O evento ocorrerá no restaurante Mambembe-Comida e Outras Artes (Rua dos Tabajaras, 368), a partir das 19h. Durante o evento serão projetadas em 3d mapping fotografias antigas e atuais de figuras anônimas nas praias de Fortaleza, além de contar com a presença dos djs Darwin Marinho e Estácio Facó. Também serão projetados os filmes "É Proibido Pular" de Lucas Coelho, e "Riozinho", da produtora Nigéria.

“Maersk Alabama” é um pequeno livro com seis textos escritos durante o ano de 2013 durante a estadia da autora na cidade de Dublin, na Irlanda. A distância da sua cidade natal a fez refletir, a partir da ótica da ausência, sobre a importância do mar de Fortaleza para a constituição de si mesma. Os textos também fazem uma crítica ao modo através do qual a cidade vem sendo erguida, priorizando a lógica de uma pretensa modernidade em detrimento de sua história. As ilustrações de Ramon Cavalcante dialogam de forma profunda e sensível com todos os textos, sendo possível dizer que há uma simbiose imprescindível entre o que está escrito e o que está ilustrado.

 Teaser do Lançamento

Sobre Joice Nunes

Joice Nunes é natural de Fortaleza, tem 32 anos e trabalha como revisora de textos e redatora. Como escritora, lançou o livro “Metropolis” (La Barca, 2012), participou da antologia de textos breves “Trânsitos de Leitura”, organizada por Flávia Memória e Érica Zíngano e publicou diversos textos na Revista Aldeota (2011), assim como no jornal O Povo.

Sobre Ramon Cavalcante

Ramon Cavalcante estudou comunicação, artes visuais e cinema. Já trabalhou com desenho animado, quadrinhos e ilustração em geral. Autor dos projetos "Cidades Internas", "Troco de Quadrinhos" e "Quinta-Feira".

                                                                                   Serviço


Evento: Lançamento do livro Maersk Alabama
Autora: Joice Nunes
Ilustrações: Ramon Cavalcante
Data do evento: 30 de julho de 2014 (quarta-feira)
Horário: 19h
Preço: 30 reais
Local: Mambembe- Comida e Outras Artes (Rua dos Tabajaras, 368)

Contato: 96581965/30350120


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19 de julho de 2014
A Família Musical de Joãozinho, de Luciana Costa

A Família Musical de Joãozinho, de Luciana Costa


Uma família muito barulhenta foi parar na prateleira reservada para a futura biblioteca das minhas sobrinhas. Não, não, eu não comprei nenhuma daquelas caixinhas de música portáteis que fazem muito barulho com um monte de luzes piscando, estou falando do livro da Luciana Costa, A Família Musical de Joãozinho. (PAIC + Governo do Estado do Ceará, Fortaleza-Ceará 2012)

A própria Luciana Costa é uma mulher-orquestra, musicista e escritora, a moça toca piano, cavaquinho, acordeom, pandeiro, chocalho, até tampa de panela e muitos outros instrumentos que nem cabem se for colocar aqui nesse texto. Em seu livro não poderia ser diferente.

A história dessa família é muito bem afinada, o Pai é regente, a Mãe é cantora,  os sete filhos barulhentos tocam toda hora, seja dia ou madrugada, promovendo festas, shows e serenatas.

Porém, como diria a música do rato da banda Palavra Cantada, sempre tem um que é diferente, nessa família o diferente é Joãozinho, desafinando a banda, não domina instrumento algum, uma tristeza. 


Os anos passam na família de Joãozinho, todo mundo vai crescendo e tomando seu rumo, por isso a banda da família vai se desfazendo, cada membro do clã assume outra profissão, Simião vira Padeiro e tem até um vai pras bandas da NASA ser Astronauta. Não vou fazer uma de fuxiqueiro e contar a história toda, mas digo que uma coisa muito legal acontece. 


O livro é escrito todo em versos, tudo bem metrificado, parecendo uma grande música, Já contei pra vocês que a rima é um recurso excelente para manter a atenção das crianças devido ao seu caráter lúdico, desse modo à leitura desse livro será muito bem aceita, experimente.  Você pode encontrar o livro integral na internet, o projeto PAIC + disponibiliza os originais em PDF, pode-se ler junto com os pequenos na telinha do notbook ou do leitor de ebook, outra possibilidade é imprimir e encadernar.

Quem assina as ilustrações é Adams Pinto, a família e suas peripécias ficaram muito bem representadas, a imaginação se materializa nas gravuras e dá pra voar longe com elas, até o espaço sideral.


Agora, vamos parar de LERO-LERO, clica aí no link e se divirta lendo a Família Musical de Joãozinho. 






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18 de julho de 2014
Perfil Poesia Brasileira – Cacaso: “Fazendo versinhos, querendo carinho”

Perfil Poesia Brasileira – Cacaso: “Fazendo versinhos, querendo carinho”

Ah se pelo menos o pensamento não sangrasse
Ah se pelo menos o coração não tivesse memória
Como seria menos linda e mais suave
minha história. 
-
Cacaso

Os anos 70 é uma década marcante na poesia brasileira, sem espaço no grande mercado editorial brasileiro ou não desejando fazer parte dele, muitos poetas resolveram transbordar seus poemas em papéis mimeografados, distribuídos ou vendidos em bares, ruas, saraus e encontros literários, alguns começaram a publicar por si mesmo seus livros e fazer a distribuição nesse circuito. Resultado, uma poesia bem mais irreverente, mas seria de qualidade? Nem todos, porém com muita liberdade, ousando na forma e no conteúdo. 

Essa geração, que recebeu tantos nomes, poetas marginais, geração mimeógrafo, revelou nomes que hoje se tornariam grandes best-sellers de, quem suspeitaria que um Paulo Leminski, uma Ana Cristina Cesár, um Chacal, um Waly Salomão seriam vendidos hoje igual a pão?

Dos nomes dessa geração, destaco aqui Antônio Carlos de Brito, o nosso CACASO, menino das Minas Gerais, que nasceu no dia 13 de março de 1944, na cidade de Uberaba, assim como o cometa Halley, passou tão rapidamente por nossos olhos, que foi-se no dia 27 de dezembro de 1987, deixando seus amigos do Rio de Janeiro e de todo Brasil com falta de versos no peito.

Cacaso foi professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na PUC/RJ, Rio que foi a cidade do poeta durante o maior período da sua vida, mesmo mantendo relações de amor com sua Minas, tanto que escreveu um livro intitulado Mar de Mineiro, Já resenhado aqui no LiteraturaBR 
(http://www.literaturabr.com/2013/02/mar-de-mineiro-o-desaguar-em-si_12.html). 

Seu primeiro livro A palavra cerzida (1967) é o mais musical de sua obra, o poeta foi letrista e fez parcerias com Edu Lobo, Tom Jobim, Francis Hime, Sivuca, João Donato, Joyce, ainda nesse primeiro livro, poemas ainda mais longos, divido em partes, se modificariam com a publicação de seus outros livros, Grupo escolar (1974), Beijo na Boca (1975), Segunda classe (1975 em parceria com Luís Olavo Fontes) Na corda bamba (1978) e o já citado Mar de mineiro (1982). Essa fase anos 70, é talvez a mais genial na carreira da Cacaso, o verso muito conciso, o verso irônico, não ausente de lirismo, torna o autor, na minha perspectiva de admirador de toda geração dos anos 70, um dos mais originais dessa fase.

( Lero -Lero Parceria de Cacaso com Edu Lobo)

Heloísa Buarque de Hollanda, em 1975, publicou um livro chamado 26 poetas hoje, uma antologia que é o marco da dita “poesia marginal”. Não é à toa que o livro, que reúne nomes como Francisco Alvim, Torquato Neto, Capinan, Ana Cristina Cesár , Chacal, Waly Salomão. Tem como epígrafe de abertura um poema de Cacaso:

Modéstia à parte

Exagerado em matéria de ironia e em
matéria de matéria moderado.

Assim é Cacaso e sua poesia, contida em tamanho, transbordante de ironia e de lirismo, mas chega de LERO-LERO vamos aos poemas e as canções de Antônio Carlos de Brito.


Estilhaço

não me procure mais
não relembre
cada um sofre pra seu
lado

Falando sério
Outro amor? Não caio mais

Amor Amor, Cacaso e Sueli Costa 

PRÉ-HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA PERIFÉRICA OU
NINGUÉM SEURA ESSA AMÉRICA LATINA
OU OS IMPOSSÍVEIS HISTÓRICOS OU
A OUTRA MARGEM DO IPIRANGA

jamais mudar pela violência
mas manter pela violência
morte ou dependência


CONTANDO VANTAGEM
Muitas mulheres na minha vida.
Eu é que sei o quanto dói.

PANACEIA
Mesmo triste comprove
a alegria é a prova dos 9

INFÂNCIA (2)
Eu matei minha saudade mas depois
veio outra

NATUREZA MORTA
toda coisa que vive é um relâmpago [ para Charles]

FOTONOVELA
Quando você quis eu não quis
Qdo eu quis você ñ quis
Pensando mal quase q fui
Feliz

INDEFINIÇÃO
pois assim é a poesia
esta chama tão distante mas tão perto de
estar fria

Dentro de mim mora um anjo, Cacaso e Sueli Costa

LÁ EM CASA É ASSIM
meu amor diz que me ama
mas jamais me dá um beijo

pra continuar rejeitado assim
prefiro viajar pra Europa

HAPPY END
o meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente


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11 de julho de 2014
Perfil Poesia Brasileira, Cassiano Ricardo: “Como amanhecer em meio a isto tudo”?

Perfil Poesia Brasileira, Cassiano Ricardo: “Como amanhecer em meio a isto tudo”?

""A instantaneidade me trouxe a graça da imobilidade"
Cassiano Ricardo


No dia 26 de Julho de 1895 nasceu o Poeta, Ensaísta e Jornalista Cassiano Ricardo Leite. Na Poesia Brasileira Ele atravessou do Parnasianismo até as Vanguardas, caminhado sua vida junto com a própria literatura. desse modo não é exagero dizer que, igual a Manuel Bandeira, a Obra de Cassiano Ricardo é um passeio pelas principais tendências da Literatura Poética do Século XX no Brasil.


O escritor, que só veio Falecer com 78 anos, no dia 14 de Janeiro de 1974, iniciou sua carreira com o livro de poemas Dentro da Noite (1915), de versos parnasianos, tendência que segue também no segundo livro, A frauta de Pã (1917). Nessa Primeira fase consegue arrancar elogios de Poetas Célebre do Parnasianismo, Olavo Bilac, Alberto de oliveira, Luís Guimarães Filho, entre outros, destacaram a habilidade do jovem promissor ourives do verso.




Porém, a mudança, essa sim, junto com a consciência do verso serão as únicas companheiras do Escritor, assim, Cassiano torna-se um dos principais entusiasta do movimento modernista no Brasil, aderindo o movimento verde-amarelismo publica o livro Martim Cererê (1928), com marcas do lirismo patriótico, próprio do movimento. 


Contudo, a primeira grande ruptura de Cassiano consigo mesmo e com sua Obra deu-se em 1947, através de Um dia depois do outro (1947) e de seus subsequentes, Poemas murais(1950) e A Face perdida (1950). A mudança foi tal que poetas como Manuel Bandeira chegaram a dizer que essa era “A nova estréia” do poeta. Impressionado também Oswald de Andrade que afirmou: “E nós que tínhamos dele a medida do cidadão exterior, cumpliciado e de 'deveres e obediência civil', vemos com angústia e alegria que se quebraram seus ângulos oficiais”

Depois disso até a data de sua Morte, Cassiano não deixou de mudar, ousar, experimentar, buscar o verso certeiro, trouxe pra si todos os recursos modernos tipográficos, trabalhou com o espaço gráficos, com o vazio e o cheio da página, fazendo inclusive poemas concretistas.

Com tão vasta e diversa poesia, com tantas nuances e tantas revoluções, traçar um perfil intacto da poesia do autor é uma tarefa quase vã, Cassiano é um verdadeiro universo, uma América ainda não descoberta pelo mar de leitores brasileiros e do mundo. Porém, aqui fica cinco poemas para o deleite de nosso queridos Leitores, e digo, é só a Ilha Pascoal, se navegarem por esses verdes mares bravios, vocês conheceram um novo continente.

POEMAS

O IRMÃO ADIADO

Ir de mão em mão até
ao irmão.
Diálogo entre
a infância e a distância
Só encontrar o irmão
de ir contra mão.

Ir de encontro em vez
de ir ao encontro
na cidade
sem gamati/cidade.

Procurar, mas em vão
o irmão do irmão do irmão do irmão
e, um atrás do outro,
o irmão sempre adiado



SERENATA SINTÉTICA

                     Lua
                     morta
                           Rua
                           Torta
                     Tua

                     Porta

LADAINHA I

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera Cruz.
Ilha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz

Ilha verde onde havia
Mulheres morenas nuas
Anhangás a sonhar com histórias de luas
E cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

Depois mudaram-lhe o nome
Pra Terra de Santa Cruz
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de
tanga e onças ruivas deitadas à sombra das
árvores mosqueadas de sol.

Mas como houvesse, em abundância,
Certa madeira cor de sangue cor de brasaPorém, a mudança, essa sim, junto com a consciência do verso serão as únicas companheiras do Escritor, assim, Cassiano torna-se um dos principais entusiasta do movimento modernista no Brasil, aderindo o movimento verde-amarelismo publica o livro Martim Cererê (1928), com marcas do lirismo patriótico, próprio do movimento. 

Contudo, a primeira grande ruptura de Cassiano consigo mesmo e com sua Obra deu-se em 1947, através de Um dia depois do outro (1947) e de seus subsequentes, Poemas murais(1950) A Face perdida (1950). A mudança foi tal que poetas como Manuel Bandeira chegaram a dizer que essa era “A nova estréia” do poeta. Impressionado também Oswald de Andrade que afirmou: “E nós que tínhamos dele a medida do cidadão exterior, cumpliciado e de 'deveres e obediência civil', vemos com angústia e alegria que se quebraram seus ângulos oficiais”

Depois disso até a data de sua Morte, Cassiano não deixou de mudar, ousar, experimentar, buscar o verso certeiro, trouxe pra si todos os recursos modernos tipográficos, trabalhou com o espaço gráficos, com o vazio e o cheio da página, fazendo inclusive poemas concretistas.

Com tão vasta e diversa poesia, com tantas nuances e tantas revoluções, traçar um perfil intacto da poesia do autor é uma tarefa quase vã, Cassiano é um verdadeiro universo, uma América ainda não descoberta pelo mar de leitores brasileiros e do mundo. Porém, aqui fica cinco poemas para o deleite de nosso queridos Leitores, e digo, é só a Ilha Pascoal, se navegarem por esses verdes mares bravios, vocês conheceram um novo continente.

POEMAS

O IRMÃO ADIADO

Ir de mão em mão até
ao irmão.
Diálogo entre
a infância e a distância
Só encontrar o irmão
de ir contra mão.

Ir de encontro em vez
de ir ao encontro
na cidade
sem gamati/cidade.

Procurar, mas em vão
o irmão do irmão do irmão do irmão
e, um atrás do outro,
o irmão sempre adiado



SERENATA SINTÉTICA

                     Lua
                     morta
                           Rua
                           Torta
                     Tua

                     Porta

LADAINHA I

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera Cruz.
Ilha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz

Ilha verde onde havia
Mulheres morenas nuas
Anhangás a sonhar com histórias de luas
E cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

Depois mudaram-lhe o nome
Pra Terra de Santa Cruz
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de
tanga e onças ruivas deitadas à sombra das
árvores mosqueadas de sol.

Mas como houvesse, em abundância,
Certa madeira cor de sangue cor de brasa
E como o fogo da manhã selvagem
Fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,

E como a Terra fosse de árvores vermelhas
E se houvesse mostrado assaz gentil,
Deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz.

E como o fogo da manhã selvagem
Fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,

E como a Terra fosse de árvores vermelhas
E se houvesse mostrado assaz gentil,
Deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz.




A CANÇÃO MAIS RECENTE

O poeta
com a sua lanterna
mágica está sempre
no começo das coisas.
É como a água, eternamente matutina.

Pouco importa a noite
lhe ponha a pena
do silêncio na asa.
Ele tem a manhã
em tudo quanto faça.
Além disso o amanhã
nunca deixará de ter pássaros.

RELÓGIO
Diante de coisa tão doída
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.

CAFÉ-EXPRESSO
1
Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo…
E pronto! parece um brinquedo…
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.
E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada…
Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada…
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.
E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.
E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa…
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão…
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão…
Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim…
2
Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.
Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando…
Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!







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