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18 de setembro de 2014
Voo feito de fel

Voo feito de fel

(Imagem: David Herrera)
 
Ela sentou-se à calçada porque era aquele seu local preferido. De hoje.
Ela nunca teve locais preferidos. Na verdade qualquer espaço feito de silêncio sólido, daqueles que a maioria das pessoas odeia, ela adora.
Ainda mais hoje.
Hoje era dia grande como uma manhã que já nasce com promessas de demorar-se até alcançar o almoço. E, até chegar a hora do almoço, há um longo caminho de horas que se desfiam inteiras sem desconfiarem o porquê. Horas vãs que vão e que vêm como um voo feito de fel.
Nada se digna a acontecer que ultrapasse o limite das horas ou que as faça parar, ou melhor ainda - pensou ela - que as faça voltar num retroceder de minutos sucessivos em que só ela se dê conta.
As pessoas nos seus afazeres normais, correndo, atravessando as ruas, carregando as compras e os ponteiros a rolar para trás. Só ela, o relógio e o silêncio a dominar o que todos aprenderam com o tempo.
Chegado o almoço, é tarde. A tarde é uma fortaleza de grades em que se prende o sol. Ficam ali os raios a guiarem-se por todos os lados, uma hora em um ponto, às duas, bate na parede, às três, escorre pela porta, às quatro, derrama-se pela calçada e às cinco, como que despedindo-se, alcança a rua. Mas, todos os dias, eles voltam ao mesmo lugar e lamentam-se de não poder correr dali. E assim, a tarde caminha vazia cheia de luzes e barulhos, a não ser pra ela, que carrega nos ouvidos, o mais abissal e feliz dos silêncios.

Ayla Andra In "O Mais Feliz dos Silêncios"
Ed. Sustânsia, 2014. Fortaleza-CE

***

O mais feliz dos silêncios é o livro de estreia de Ayla Andrade. Em suas páginas, o silêncio, como diria o poeta Francisco Carvalho, “essa figura geométrica”, vai tomando diversas formas, tons e cores, perpassando múltiplas personagens femininas e colocando o leitor em uma montanha-russa de emoções com o passar das horas. Com ilustração de Capa da artista Tereza Dequinta, este é o quarto livro publicado pela Editora Substânsia, primeiro de contos. O lançamento ocorrerá dia 9 de outubro às 18:30 horas, na Biblioteca Municipal Dollor Barreira, Av. da Universidade, 2572. Benfica, Fortaleza-CE. O livro será vendido a R$ 30,00.






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12 de agosto de 2014
Poema de Déborah Arruda

Poema de Déborah Arruda


por Déborah Arruda

E que tudo se exploda
Em pecados líricos
Em dissabores de sins

Mal ditos

Teu santo nome num verso
Em vão
Pulsante num peito ateu

Quem ama aos pobres
Poetas
Empresta a-deus.



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2 poemas de Manuella Bahls

2 poemas de Manuella Bahls

http://migre.me/kwhc2

por Manuella Bahls


Por tudo aquilo que se almeja
[Dá-lhe um gole na cerveja]

Seja qual for seu caminho
[Por um pouco mais de vinho]

O que quero é vida de paz, tranquila
[Abraçada com tequila]

Da minha vida ser comandante
[Com um pouco de espumante]

Se é capricho ou se é pirraça
[Desce um gole de cachaça]

Isso não é pra qualquer um
[Mesmo com uma dose de rum]

Talvez não pra você, talvez nem pra mim
[Ou talvez para nós, com um bom gim]

Porque esse crime não tem autor nem réu
[Mas com uma dose de hidromel]

O errado mesmo não é beber demais
Mas sim amar de menos.
*


Singular

Em uma mão teus cabelos
Enquanto a outra brinca em tuas costas
Nas tuas mãos, minha cintura
Que encaixa na curva da tua palma
No meu rosto tua barba
Que arranha a pele e esculpe o desejo
Aos teus ouvidos minha respiração
Embalada na harmonia dos teus sons
Nos teus olhos ternura
E quando batem nos meus, sossego
Na minha boca a tua
E em nossos corpos, singular
Sem pluralidades
Sem pressa.

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8 de agosto de 2014
6 poemas de Marco Aqueiva

6 poemas de Marco Aqueiva

Retirado de http://migre.me/kIPcD


por Marco Aqueiva*

i 

seca como o olhar suspenso
            que não se retira do céu limpo

seca como o nariz para fora da janela
            que não esbarra na menor aba de vento

seca como há coisas
            que ainda sobram à luz escaldante
           
ii
  
clareza à altura da pedra
            já não ensurdecida no meio da sala
já não alheia aos olhos no monitor
            já não cheia de espera e plumas
            já não esvaziada pelo velho conceito
            já não arrumada para ser diferente
            sem mais nem menos
           
já não é a evidência maior
que o brilho nas variações da pedra
em chamas junto à flor seca
de pêssego, ou outra qualquer,
como se víssemos à altura da pedra
            uma paisagem levitante
            aterrissando indiferença
           
            iii

o azul que se estende
por toda a planície acima dos olhos
grita

grita ele com a lentidão das pedras
que as nuvens já escorrem sobre a espera

iv
  
trovoada seca
            divisa entre luz e água

fiapinhos de nuvens onde
            ao longo de todos os dias
           
azul sem fissuras
            mesmo na variedade do branco

branco do cascalho
            por dentro dos grandes olhos

azuis no cachorro magro
verdes para manter a esperança
         
v
  
o mundo sobe
            para o azul
            para habitar outro mundo

nuvens carregam
            contra o azul
            olhos nublados sem nuvens

o sangue sorve
            sobre o azul
            gotas do dia sempre pedra

as águas descem
com este azul
chegam à canela dos versos

            mais a revoada dos leitores
  
vi

velhos artesãos ainda carregam pedras

manchas de sangue seco
ainda quente na paisagem
trincando o sossego

laivos de sonhos coletivos
na pedra na mesa aglomeram-se
            contas para os terços
            alfinetes para as bonecas
            os miúdos olhos negros
                        na cabaça seca


* É autor do romance Sob os próprio pelos - Seres extraordinários, título premiado com o ProAC - Programa de Ação Cultural 2013, Marco Aqueiva é Professor no ensino superior e autor dos livros de poesia O AZUL VERSUS O CINZA & O CINZA VERSOS O AZUL (Patuá, 2012) – premiado pela Secretaria Municipal de Cultura de Atibaia – e NESTE  EMBRULHO DE NÓS (Scortecci, 2005) –  que obteve o 1º lugar no III Prêmio Literário Livraria Asabeça. Publicou ainda a novela SÓIS, OUTONO, SOU? (Dulcineia Catadora, 2009). Tem poemas e contos incluídos em antologias e revistas impressas; resenhas e críticas publicadas, dentre outros, na revista O Escritor, da União Brasileira de Escritores. Desenvolveu com Gonçalo Galvão o projeto Diálogos Literatura e Psicanálise no Cinema (entre 2008 e 2013). Integra o coletivo Quatati, de produção e difusão literária.
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5 de agosto de 2014
3 poemas inéditos de Leonardo Chioda

3 poemas inéditos de Leonardo Chioda



por Leonardo Chioda

MY MAN


foram as tatuagens
foram elas que me tiraram a dançar
ao longo da noite
na plataforma lunar
e no peito do algoz
ao estreito e demente fio de cobre
alongado entre o violino e a calçada
foram as tatuagens
foi o felino negro chamado Amor
que cantou billie holiday aos pés
dos ouvidos e bêbados
dançaram ao longo da noite
na plataforma lunar, espelho
no peito do algoz a trincar as veias
pois cordiforme é meu espírito
e fantasma a nossa condição
mas minha carne dói na boca do Amor

e a tinta não sai

*

PLASTIC PLATH


Talvez
te consideres um oráculo,
porta-voz dos mortos, ou de um outro
deus, escreveu Sylvia.

Há vários anos que trabalha
para dragar o lodo da garganta
do marido.

Talvez com Pato Purific, Sylvia.
Entregue a redoma intacta. Epitáfio de porta
fechada, páginas panos
e mais panos

O gás não acha passagem
e guardemos bem as crianças.
Outra rua outro adultério.
Palhaço.

Flores artificiais, imagine.

Vai com fé, Sylvia.
Esfrega esses brônquios
com palha
de aço

.

Pouco mais sei, Sylvia.
Pouco mais sei.

*


LADRILÁTERO COGNITIVO


se define pela vértice
do texto
talhada no poder dos cantares

a matéria da imagem
é que retina qualquer espessura

um osso milimetrado pela genética
da palavra a emular as pulsações do zênite

talvez hecatombe, um ditado
linguístico de sustos para com o mundo-quintal
desenhado no sangue com a régua da alma

mas já co-ângulo

porque toda figura permite
o devaneio

daí considera a ceia no esteio
tecnicamente avarandada pela realidade

e então o plasma das letras
contrapartes
já apessoadas

escorpiana
mente encalacradas
no chão das tardes.

observação:
serve para surtir pétalas de nitidez
na mentira do tempo.



Autor do livro Tempestardes, Leonardo Chioda nasceu em Jaboticabal, interior de São Paulo. Escritor e leitor de imagens, é graduado em Letras pela Universidade Estadual Paulista. Estudou literatura italiana, história do teatro e poesia portuguesa na Università degli Studi di Perugia. Destaca-se na mídia por desenvolver estudos iconográficos e oraculares. Tem semeado poemas em diversas publicações especializadas. 'Tempestardes', premiado pelo ProAC 2012 e integrante da Coleção Patuscada, é seu livro de estreia.

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2 poemas de Maria Helena Nery

2 poemas de Maria Helena Nery

ignat bednarik-hombre-joven-leyendo


 por Maria Helena Nery
Educação familiar

Nalguns aspectos,
minha educação foi espartana.
Noutros,
à moda da casa.
O que,
para quem não conhece a casa,
não quer dizer nada.

*

Adágio                         

Eu também teria quebrado o vaso de porcelana da China,
falado demais,
corado todas vezes.
Eu também teria perdido Agláia Ivánovna,
casado com Nastássia Filípovna,
enlouquecido com Rogójin.

Idiota?



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29 de julho de 2014
4 poemas de Juliana Bernardo

4 poemas de Juliana Bernardo

Retirado de: http://vectroave.com/wp-content/uploads/2010/04/Nook-Illustrations-7.jpg
por Juliana Bernardo

zen
  
se conseguir esperar cem dias
e, principalmente, cem noites
debaixo da minha janela
serei sua, disse a princesa

e o soldado trouxe um banquinho
fez palavras cruzadas, bordado, tai chi
chorou, tomou barbitúricos, vitaminas, drinks
tomou inverno, verão

então
na nonagésima nona noite
mobiliou novamente seu corpo
pondo os ossos de pé
dobrou o banquinho e nunca mais

olhou pra trás

*

baião de dois
  
minha mãe casou
esmalte misturinha
vestido branco de segunda mão
cabeça redonda cintura fina
nas palavras dela
meu pai atrasado
fusca preto
terno de boêmio feito no alfaiate
na festa
um quintal de chuva
um arrepio de papel
sem lembrancinha sem piano
meu pai e minha mãe
arroz e feijão
abraçados no prato

*

o livro me escreve

enquanto espero o poema
o mar navega em Ulisses
enquanto espero o poema
a mortalha tece Penélope
enquanto espero o poema
o céu passa pelo pássaro
enquanto espero o poema
a terra encarna em deus
enquanto espero o poema
enquanto espero o poema
o poema espera um cavalo

*

lágrimas nos dentes

estacionou a lua na esquina
entrou no ap pela porta fechada
reconheceu os bichos
renomeou os livros
sem uma palavra
me abraçou com os olhos
me amou com a testa
beijou outros com a mão
se despediu depois
com lágrimas nos dentes
vestiu o paletó de estrelas
saiu pela janela
levou a lua embora

*Juliana Bernardo é autora de Carta Branca e Vitamina (Patuá, 2011 e 2013), nasceu em São Paulo, em 89.
Tem poemas em revistas, jornais, sites literários, antologias e muros. Seus textos já estiveram na tv (Arteletra Literatura), no rádio (Paisagens e Poéticas,transmitido na 30ª Bienal Internacional de Artes de SP, e Poesia Viva, na Rádio Estadão) e ganharam alguns prêmios literários. Faz parte do coletivo Poesia Maloqueirista e do Projeto Praga, com os quais organiza mensalmente eventos multiculturais em espaços públicos. Trampa com revisão e produção da coleção Edições Maloqueiristas, que conta com 27 livros e apoio do Programa VAI II.
Cursou Filosofia, na USP, e estuda por conta candomblé, música e tarô. Desenha os próprios vestidos & costura seus bloquinhos de anotações. 
Escreve em: 



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24 de julho de 2014
Ausência

Ausência




por Vera Rossi

Sabia do tanto que se fechava na palavra dor. “Viver é estar preparado para sentir dor.” Esta era a máxima que um avô poderia ensinar a sua neta. Ele entendia o quanto poderia preparar sua neta com aquela frase. Era seu dever, afinal. Dever cívico, diga-se. Preparar um neto, aquele ser que se aquece nos olhos do avô, nos muitos anos que estes olhos guardam; transmitir a este mínimo corpo o essencial da vida. “E o principal é isto, saber da dor, minha pequena.”

A neta não piscava, mal respirava, atenta à respiração lenta do avô, às verdades sobre as quais se encurvava uma vida excedente. “Minha menina, a gente até pode passar a vida inteira livre dela. Mas pra qualquer hora a dor chega, ah, se chega. E quando falo dela, não me refiro a uma topada do dedo no pé da cômoda, não. Digo de quando arrancam seu dedo fora. Da dor extrema. Sabe como é? Arrancar um dedo fora?” A pequena sacudia a cabeça como se entendesse do extremo. “Eu já. Sei o que é ter um dedo amputado.” Ele arrancou o sapato e mostrou o pé direito deformado pelos joanetes e pela ausência de um dedo. Ela quase pulou da cadeira, mas se ajeitou melhor no assento duro, em uma pose heroica, como que preparada a toda dor.

Por pouco, não lembrou ao velho de quando tinha passado por uma cirurgia no olho esquerdo, sem anestesia. O pai havia insistido para que a filha recebesse por uma agulha a supressão de qualquer sensibilidade física. Como resposta apenas ganhara uma risada alta da criança, que queria a dor. Mas o que é a dor de um terçol arrancado se comparada a de um dedo decepado? Corou, envergonhou-se da lembrança.

“Você não pode ver, minha menina, mas tudo é dor. A gente quer se esconder debaixo de um teto, em um amor gigante, que nem a gente sabe explicar direito o que é, dentro de uma casa limpa, que a gente vive e morre pra manter ela limpa. Disfarçado na bondade, a gente se ilude de que a linha invisível já é outro mundo.” Apontou uma linha fina de poeira aquecida por uma nesga de sol. A criança segurou firme as duas mãos nos pés da cadeira.

“Essa linha invisível que faz a gente acreditar que está protegido. Que a gente é bem diferente daquela ferida pustulenta na perna do pedinte caído na calçada. É tudo a mesma coisa. Isso é que é a vida. A carne da presa estraçalhada pelas leoas. E se você não souber disso agora, um dia vai saber, pequena menina. Então que seja eu, seu avô, que te conte antes, que te prepare. É meu dever, dever de avô.”          

A porta rangeu, a mãe tocou o cabelo curto da filha aproximando-a da linha invisível de poeira. “Lê, o vovô precisa descansar. O que é isso agora, pai? não chora.” “Sua neta precisa saber da verdade.” “Deixa de coisa, pai, vê se descansa. Dá um beijo no vovô, Lê.” A mãe deixou que a filha desse o beijo que ela nunca havia dado, um beijo guardado por tantos e tantos anos. Afastou a filha da dor, ainda que do próprio nascimento se marcasse no corpo da mãe a própria expiação. Deixaram o avô descansar, ainda que do próprio corpo não nascesse cansaço, mas uma falta dolorida e exposta.      



Vera Helena Rossi é escritora e pesquisadora. Mestre em Literatura e Crítica Literária e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, ministrou no Espaço Revista Cult o curso Jornalismo Literário: a dimensão estética da reportagem. Finalista do Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana e vencedora do concurso de contos avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, tem participações na Revista Cult, Revista Língua Portuguesa, Revista Metáfora, Revista Celuzlose, Portal Cronópios, entre outros . É autora dos livros Mind the Gap (contos) e Telefone Sem Fio (romance) ambos pela Editora Patuá. Mantém o blog Palimpsesto:http://verahelena.blogspot.com.  

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23 de julho de 2014
Poesia LTDA e a poética da palavra

Poesia LTDA e a poética da palavra


Charles Marlon, no seu livro de estreia, Poesia Ltda (Patuá, 2012), evidencia algo que os poetas contemporâneos têm se preocupado mais: o uso da palavra no espaço gráfico da página. Isso nos lembra quando, certa vez, o poeta Mallarmé foi questionado por um pintor se este poderia ser poeta, pois tinha muitas ideias para seus poemas. Em resposta, o poeta disse que um poema não se faz com ideias, mas com palavras. Dessa ideia, podemos concluir que a palavra é o ponto de partida e chegada na poética de Charles Marlon.

Esse recurso palavresco é utilizado pelo poeta ao fragmentar as palavras, revelando nelas outras palavras, ou outros corpos-morfológicos. Esse trabalho morfológico de Marlon, me lembrou o que Arnaldo Antunes fez no livro 2 ou + corpos no mesmo espaço, o poeta Antunes fez da fragmentação uma marca em sua poética. O autor de Poesia Ltda parece ter apreendido a lição de Antunes e a empregou em seu livro de estreia. Ao fragmentar a palavra, Charles amplia mais ainda a literariedade dos poemas.

Tenho que ressaltar que o livro é provocador da capa à contra-capa. A provocação começa na epígrafe do livro: 


“Após aberto consumir em até 30 dias”

A prefaciadora da obra, Monica Simas, comenta sobre essa epígrafe fazendo algumas indagações/provocações como: 

Será a poesia algo perecível? Será ela algo para ser consumido tal como outros bens de mercado? E este prazo? Não indicará que este bem é algo orgânico, corpo de linguagem vivo? É esta provocação um apelo ou uma “brincadeira?”

Concordo, principalmente, quando Monica propõe que a poesia se trata de “algo orgânico, corpo de linguagem vivo”, assim me parece que o livro possui uma linguagem táctea. Algo que se pode tocar a partir dos jogos-morfológicos do poeta.

Ainda na apresentação, Monica Simas comenta que a solidão é algo constante na poética de Charles Marlon. Todo poeta, a meu ver, existe no instante solitário. O bom companheiro do poeta é o lápis e a palavra desenhada na página. Esses desenhos-palavrescos se apresentam acompanhados de uma solidão que aparta o eu de si mesmo, como no poema que abre o livro:

Sentado no canto da sala
Eu
Via as pessoas que chegavam.
Eu
Via as pessoas,
Mas
Eu
Não as via.

Eram os dias dos meus anos...

Sentado no centro da sala,
As pessoas já não chegam,
Não chegam
Estão aqui.

Falto
eu.


O eu (minúsculo) se aparta do poema, enquanto o Eu (maiúsculo) se mantem na mesma estrutura línea dos versos. Encontramos nesse exemplo, um dos vários casos em que a palavra se torna algo orgânico, conseguindo assim ter vida própria e se apartar do poema, ou, se configurar da maneira que lhe convier. O eu (minúsculo) que se aparta do poema, poderia também, ser interpretado como a solidão que se aparta do poeta ao estar acompanhado por pessoas, no caso, pessoas na sala.

Antônio Cícero no livro Poesia e Filosofia comenta que a poesia nada comunica. Diante da fala de Cícero entramos em um paradoxo: Mas se não comunica, qual o sentido de um poema? Ainda citando o livro, Poesia e Filosofia, notaremos mais à frente que para o autor o poema na verdade é um monumento erguido com palavras, não um mero documento sentimental. Charles Marlon apresenta essa incomunicabilidade em alguns versos, como nos versos abaixo:

Destino,
com tino,
desatino.

Destino,
com tino
contínuo:
des
destino.

Destino.
Tino com tino
outros
dez
destinos.

Esse poema acima é um bom exemplo do que o poeta francês aconselhou a fazer na poesia: decantar a palavra. Durante todo o Poesia Ltda, notamos um jovem poeta dono de um traço peculiar e próprio da geração pós-moderna: a brincadeira com as palavras. Outro poema escultural de Charles Marlon é:

De-
      cifrar.
Re-
      cifrar.
cifrar De-
  novo,
  ab
  ovo
  à
  ave
  ad
in-
     finitum.

O jogo morfológico é bastante visível nesses dois últimos poemas. A brincadeira morfológica segue o livro todo. Há poemas em que o poeta utiliza de palavras em outros idiomas, como o francês e o inglês. Este último, o inglês, aparece em versos e em títulos de alguns poemas. Isso ocorre devido a necessidade de incorporar no poema, palavras de origem estrangeira. Pois o poeta tem diante de si todos os idiomas para construir o seu monumento poético, sabendo disso, Charles Marlon compoe utilizando o idioma/palavra que lhe melhor convier.

Queria eu falar mais sobre o livro. Mas como se trata de um livro-jogo, não posso entregar todos os comandos devidos para se ler o Poesia Ltda, se não o jogo perde o sentido que é desvendar os segredos por quem o joga.

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