Poesia LTDA e a poética da palavra
Charles Marlon, no seu livro de
estreia, Poesia Ltda
(Patuá, 2012), evidencia algo que os poetas contemporâneos têm se
preocupado mais: o uso da palavra no espaço gráfico da
página. Isso nos lembra quando, certa vez, o poeta Mallarmé foi questionado por um pintor
se este
poderia ser poeta, pois tinha muitas ideias para seus poemas. Em
resposta, o poeta disse que um poema não se faz com ideias, mas com palavras. Dessa ideia, podemos concluir que a palavra é o ponto de partida e chegada na poética
de Charles Marlon.
Esse recurso palavresco é
utilizado pelo poeta ao fragmentar
as palavras,
revelando nelas outras palavras, ou outros corpos-morfológicos.
Esse trabalho morfológico de Marlon, me lembrou o que Arnaldo
Antunes fez no livro 2
ou + corpos no mesmo espaço,
o poeta Antunes fez
da fragmentação uma
marca em sua poética. O autor de Poesia
Ltda parece ter apreendido a lição
de Antunes e a empregou em seu
livro de estreia. Ao
fragmentar a palavra, Charles amplia mais ainda a literariedade dos
poemas.
Tenho que ressaltar que o livro é
provocador da capa à contra-capa. A provocação começa na epígrafe
do livro:
A prefaciadora da obra, Monica Simas, comenta sobre essa epígrafe
fazendo algumas indagações/provocações como:
“Será a poesia algo perecível? Será ela algo para ser consumido tal como outros bens de mercado? E este prazo? Não indicará que este bem é algo orgânico, corpo de linguagem vivo? É esta provocação um apelo ou uma “brincadeira?”.
Concordo, principalmente, quando Monica propõe que a poesia se trata de “algo orgânico, corpo de linguagem vivo”, assim me parece que o livro possui uma linguagem táctea. Algo que se pode tocar a partir dos jogos-morfológicos do poeta.
“Após
aberto consumir em até 30 dias”.
“Será a poesia algo perecível? Será ela algo para ser consumido tal como outros bens de mercado? E este prazo? Não indicará que este bem é algo orgânico, corpo de linguagem vivo? É esta provocação um apelo ou uma “brincadeira?”.
Concordo, principalmente, quando Monica propõe que a poesia se trata de “algo orgânico, corpo de linguagem vivo”, assim me parece que o livro possui uma linguagem táctea. Algo que se pode tocar a partir dos jogos-morfológicos do poeta.
Ainda na apresentação, Monica
Simas comenta que a solidão é algo constante na poética de Charles
Marlon. Todo
poeta, a meu ver, existe no instante solitário. O bom companheiro do
poeta é o lápis e a palavra desenhada na página. Esses
desenhos-palavrescos se apresentam acompanhados de uma solidão que
aparta o eu de si mesmo, como no poema que abre o livro:
Sentado no canto da sala
Eu
Via as pessoas que chegavam.
Eu
Via as pessoas,
Mas
Eu
Não as via.
Eram os dias dos meus anos...
Sentado no centro da sala,
As pessoas já não chegam,
Não chegam
Estão aqui.
Falto
eu.
O eu (minúsculo) se aparta do
poema, enquanto o Eu (maiúsculo) se mantem na mesma estrutura línea
dos versos. Encontramos nesse exemplo, um dos vários casos em que a
palavra se torna algo orgânico, conseguindo assim ter vida própria
e se apartar do poema, ou, se configurar da maneira que lhe convier.
O eu (minúsculo) que se aparta do poema, poderia também, ser
interpretado como a solidão que se aparta do poeta ao estar
acompanhado por pessoas, no caso, pessoas na sala.
Antônio Cícero no livro Poesia
e Filosofia comenta que a poesia nada comunica. Diante da fala de
Cícero entramos em um paradoxo: Mas se não comunica, qual o sentido
de um poema? Ainda citando o livro, Poesia e Filosofia,
notaremos mais à frente que para o autor o poema na verdade é um
monumento erguido com palavras, não um mero documento sentimental.
Charles Marlon apresenta essa incomunicabilidade em alguns versos,
como nos versos abaixo:
Destino,
com tino,
desatino.
Destino,
com tino
contínuo:
des
destino.
Destino.
Tino com tino
outros
dez
destinos.
Esse poema acima é um bom exemplo do que o poeta francês aconselhou
a fazer na poesia: decantar a palavra. Durante todo o Poesia Ltda,
notamos um jovem poeta dono de um traço peculiar e próprio da
geração pós-moderna: a brincadeira com as palavras. Outro poema
escultural de Charles Marlon é:
De-
cifrar.
Re-
cifrar.
cifrar De-
novo,
ab
ovo
à
ave
ad
in-
finitum.
O jogo morfológico é bastante
visível nesses dois últimos poemas. A brincadeira morfológica
segue o livro todo. Há poemas em que o poeta utiliza de palavras em
outros idiomas, como o francês e o inglês. Este último, o inglês,
aparece em versos e em títulos de alguns poemas. Isso ocorre devido
a necessidade de incorporar no poema, palavras de origem estrangeira.
Pois o poeta tem diante de si todos os idiomas para construir o seu
monumento poético, sabendo disso, Charles Marlon compoe utilizando o
idioma/palavra que lhe melhor convier.
Queria eu falar mais sobre o
livro. Mas como se trata de um livro-jogo, não posso entregar todos
os comandos devidos para se ler o Poesia Ltda, se não o jogo
perde o sentido que é desvendar os segredos por quem o joga.

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