Entrevista com Madjer de Souza Pontes
Madjer, o seu primeiro livro, "o núcleo
selvagem do dia", é um livro de poemas onde a forma se faz presente,
através, principalmente, da rima. Isso é consequência da influência de algum
outro escritor?
A rima é um
recurso instigante, porém procuro desenvolver a rima dita toante, é um recurso
que os poetas trovadores utilizavam, mas isso eu descobri depois de ler João
Cabral de Melo Neto. Foi a partir da leitura do livro “Agrestes” que esse tipo
de rima me cativou. N"o núcleo", a rima é mais um recurso para
mostrar a intensidade das relações entre as palavras, do que criar uma uma
harmonia.
Quer dizer, então, que há uma preocupação em como a
palavra será percebida?
O núcleo
selvagem é a palavra. Desde a epígrafe tive essa preocupação em indicar (sem
obviedade) que é a palavra o ente selvagem da vida. E todos nós temos a relação
mais íntima e incontrolável com ela. Acredito que escrever é justamente essa
convivência, uma intimidade selvagem com aquilo que mais prezamos.
O livro é dividido em três partes. Percebe-se certa
relação entre elas. Ao final, tive a sensação de ser um livro cíclico. Há uma
preocupação com a estrutura do livro?
A organização do
livro segue um roteiro que procurei desenvolver. Na verdade o livro é uma
história, tentei realizar uma história cíclica em que a palavra é o elo entre
as partes: a percepção de um raio espacial que é exterior ao ser (1ª parte: da
totalidade das coisas); o envelhecimento do corpo, a morte, as marcas temporais
perceptíveis direta ou indiretamente (2ª parte: da luz e seus avessos) e a
percepção do tempo que se afirma tanto no ser quanto no espaço (3ª parte:
suficiente ou demais). De certo modo, a minha percepção é o contato com o
tempo: o tempo finito e o tempo cíclico, e é a palavra que possibilita unir
todos esses elementos.
E como é essa sua convivência com o ato de escrever?
Qual a importância dele na sua vida?
Como nós não
podemos parar e, por um momento, medir a intensidade da vida, pois é apenas
vivendo que sabemos o seu peso ou a sua leveza, creio que a relação com a
escrita é semelhante. Ninguém é escritor vinte e quatro horas por dia, isso é
ingenuidade e cairíamos em uma contemplação simplória. Somos observadores, e é
justamente essa observação que devemos concentrar no ato da escrita, ou seja,
não há autor que possa medir a intensidade de sua escrita, é no exercício
constante com as palavras, que podemos sentir o quanto ela é importante e
necessária.
Você acredita que os escritores contemporâneos, principalmente
os poetas, estão preocupados com essa intensidade que a palavra pode obter?
Bem, o José Lins
do Rego definiu bem isso, não acerca dos escritores contemporâneos, lógico, mas
que cabe muito bem para qualquer época, ele disse mais ou menos isso: os
grandes escritores têm uma língua, os medíocres a sua gramática. Não sei desde
quando ou até onde visualizar a criação contemporânea, pois com três cliques
nós podemos ler uma infinidade de poetas. O que escrevem é o mais importante,
porém há autores que trabalham a vida inteira para dizer algo que vale à pena,
e os que passam a vida inteira dizendo que o que escrevem deve ser lido.
Você poderia explicar um pouco melhor o final do seu
comentário?
Que nós devemos
olhar o texto, não a fama que o escritor busca a qualquer custo, acho que
pensar a poesia contemporânea é isso, principalmente na época em que vivemos, onde
se expõe a vida em busca da glória.
Até que ponto você acredita
que a crítica literária é importante para o autor, a editora e o leitor? Você
acha que estamos vivendo um momento de “apadrinhamento”, onde todos falam bem
de todos, onde todos os escritores sabem escrever muito bem e que não merecem
receber uma crítica negativa?
Aí
entra mais uma pergunta: onde a crítica está sendo feita? A academia é uma
questão que já está desgastada, apesar de os novos estudantes de Letras estarem
mais abertos a discutir e analisar autores à margem dos muros, que não são tão altos,
mas quase intransponíveis. Todavia, é difícil sair alguma coisa de lá. Lógico
que há um apadrinhamento, veja a quantidade de sites, blogs, revistas, o diabo
a quatro de canais que apresentam, discutem e colaboram para a divulgação de
novos escritores. É velha analogia das faces da moeda: se por um lado a
possibilidade de divulgação e reconhecimento desses autores é maior, e cria-se
uma corrente de seguidores, "curtidores" e compartilhadores desses
textos, por outro lado, há uma liberdade monstruosa do escrever-pelo-escrever.
Eu, às vezes, me perco quando vou pesquisar novos textos, novos autores, há
muita gente produzindo, e a palavra muito me assusta... Porém sei que há
revistas e blogs de qualidade que realizam um trabalho responsável e
reconhecido. A crítica negativa é um brinquedo frágil, na mão do que faz e na
mão do que brinca... Como disse a Orides Fontela: "Quebrar o brinquedo / é
mais divertido. / As peças são outros jogos / construiremos outro
segredo".
Você falou em Orides
Fontela que, ao lado ao lado de outros poetas, tem sido esquecida. Você, que
além de autor, também é editor, como observa o cenário editorial brasileiro,
uma vez que até as grandes editoras têm cautela no momento de publicar autores
como a própria Orides, como Sousândrade, Pedro Kilkerry, entre outros?
José
de Alencar, lá no século XIX, quase chorando, deu sua bênção aos "Sonhos
D'ouro", quem leu o prefácio desse romance perceberá que sempre estivemos
à mercê de uma torrente de obstáculos para afirmar nossas obras. Você falou em
nomes importantes, que estiveram esquecidos durante muito tempo, poderíamos
citar muitos outros, há o caso do Alphonsus de Guimaraens e do Lima Barreto, só
para citar dois monstros da nossa Literatura! Novamente, veja os nomes que
estão sendo citados aqui! E foram esquecidos! Porém, de uns anos pra cá, há um
resgate de muitos nomes que marcaram a produção de sua época e estão sendo
reeditados, Paulo Leminski, Ana Cristina César, Cacaso, Francisco Alvim,
Affonso Ávila, entre várias antologias que resgatam e coligam produções muito
interessantes. Agora, há outro movimento que está ganhando mais força a cada
dia, o das editoras alternativas e independentes. É justamente esse movimento
que, me parece, está enfrentando, de forma organizada, com um discurso bastante
afinado, com produções de qualidade, as grandes editoras. Temos essa
possibilidade hoje, que deve ser vista e respeitada como um processo vital para
a produção e divulgação dos textos de novos escritores. Eu sou um exemplo desse
movimento e me sinto honrado por fazer parte dele.
Você falou sobre as
editoras independentes. Você acaba de publicar o seu primeiro livro e pela
editora a qual você faz parte do corpo editorial, a Editora Substânsia. Você
acredita, realmente, que as editoras independentes podem enfrentar os grandes
conglomerados, tendo em vista o alto poder aquisitivo delas, e a dificuldade
que as pequenas editoras enfrentam com as livrarias?
Se
pensarmos que o poder aquisitivo tolherá a ação independente, demos por
finalizado os projetos e brinquemos no balanço dos sonhos... Contudo, há muito
exemplos que optaram pela ação, quase louca, quase desenfreada... mas é
justamente aí que pulsa a nossa força! A Editora Patuá, do Eduardo Lacerda, é, pra mim, um dos propulsores dessa força. Há
poetas lançados pela Patuá que concorreram e concorrem os mais importantes
prêmios literários do Brasil! Isso mostra a força desses movimentos
independentes. A Substânsia começa a dar seus primeiros passos, mas desde a
ideia de realizarmos esse trabalho (Nathan Matos, Talles Azigon e eu) quase
louco, quase desenfreado, observamos e sentimos que o prazer em realizar os
nossos projetos é inestimável!
Voltando à escrita. Forma ou Substância, o
que pesa mais mais na construção da sua poética ?
O
poema é Forma. A Substância, poesia. Aprendamos com a forma e, parafraseando o
Drummond, não percamos tempo em mentir.
Pra finalizar, uma obra
e um autor.
A
poesia de todos os tempos. Os poetas de todos os tempos.

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