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26 de novembro de 2014
A POESOPHIA DO POETA DE MEIA-TIGELA  NUMA ENTREVISTA A LÉO PRUDÊNCIO

A POESOPHIA DO POETA DE MEIA-TIGELA NUMA ENTREVISTA A LÉO PRUDÊNCIO





  1. Com quantos anos você começou a fazer poesia?

A poesia começou a me fazer não sei quando. Costumo convencionar comigo que foram os meus doze anos os responsáveis pelas primeiras experiências intencionalmente poéticas. Digo “intencionalmente” porque para as experiências inadvertidamente poéticas não haverá idade certa a indicar: daí o “não sei quando”. Penso que não é dos livros o aprendizado inicial do que chamamos poesia, mas do mundo de vida, daquilo em que nem suspeitamos estar — e está —, daquilo que nem imaginamos conter — e contém —, daquilo que nem cogitamos ser — e é —a poesia. Vivências de beleza, aprendizagens de dor, ocorrências, Léo: o livro de ocorrências da existência de cada dia — esse o primeiro livro, indatado, imprevisto, de poemas. Quando a poesia começou a me fazer? Não sei. Antes de mim, até; na série de eventos que resultariam neste que me-sou, e’ventos que podem remontar ao incabível, ao mais preciso tempo que posso lhe apontar: o do não-sei-quando. Como disse, convenciono os doze anos (3 x 4 ) como o tempo do começo, mas

Até onde é preciso avançar
Se se quer às origens chegar?
Se necessário ao início recuar
A fim de alfim o começo alcançar —
Onde começa e onde tem fim o começar?

(Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas)
  1. Guarda algo dessa época inicial?

Mantenho a lembrança de alguns textos, sua intenção, sua informidade (em mim moram), porém nenhum papel, nenhum rabisco daquele período. Os manuscritos mais antigos preservados datam dos meus vinte anos e isso de preservar os rascunhos é algo que empreendo na desmedida do possível. Raramente me vem um poema cuja elaboração não se tenha dado com a mediação de minhas mãos, de um lápis, uma caneta. Se a intuição do poema se apresenta a princípio como uma centelha não-verbal e ágrafa, depois — ao se transliterar, ao se consubstanciar, pede a caligrafia, o trabalho — não direi “braçal” mas “manual” — do registro pela escrita em que os três dedos mais à esquerda de minha mão direita se veem diretamente envolvidos. Eduardo Galeano cita, a propósito, um conselho que lhe deu Juan Carlos Onetti: não datilografasse (hoje diríamos, não teclasse), mas escrevesse à mão, se não quisesse abdicar de um dos maiores prazeres da escrita. Sigo esse conselho mesmo no que concerne a textos longos: apor a letra no papel é minha forma de capinar a palavra

Escolhesse por que meneios gestos
ou sinais à minh'alma expressaria
e apenas haveria de almagestos
escreversejar: manulivros. Se
  a
mão se move em prol de outra porfia
além do fazimento de seus textos
desperdiça-se: torne-se grafia
mesmo que em papéis vãos idos aos cestos.


(Trecho do soneto “Profissão de Fé”, do inédito Miravilha: liriai o campo dos olhos)

  1. Ser professor universitário de filosofia influi no trabalho poético?

Não vou lhe dizer que “ser professor universitário” influa no trabalho poético diretamente, se por “trabalho poético” entendemos estritamente a escrita; “ser professor”, universitário ou não, influencia no processo de melhoria do sórumbático (assim, com dois agudos) que fui e venho aos poucos deixando de ser. “Ser professor” ensina, antes de mais tudo. E esse ensino diz respeito à minha inteireza como pessoa, ao procurar me fazer (e espero que conseguindo) um tanto melhor, agindo mais paciententemente, sendo mais atencioso para com os demais e comigo. No meu modo de pensentir, esse aprimoramento me torna alguém menos intratável, menos intragável e, assim, me poetiza. Tem algum tempo, Léo, que eu venho concebendo a poesia como algo além de um gênero literário: por isso, não concebo uma estética que não seja ética e, à inversa, uma ética que não seja estética. Vivo portanto conforme uma est(ética. Agora, o contato com a filosofia, e desde a juventude (o que quer dizer já uns bons vinte e poucos anos de convivência entre mim e Diotima), — o contato com a filosofia sem dúvidas incide diretamente na minha po(ética: seja como sugestionadora temática (você sabe que além de uma Ciranda dostoievskiana há uma Ciranda espinosana?), seja como expressão do próprio teor de meus poemas, via de regra tão interrogativos. Sintetizo da seguinte maneira: vivo uma poesophia

Quem sou? Onde estou? Aonde
Vou e pra quê? Que sentido
Em ser estar ir? Duvido
De tudo e o Nada responde:



  1. Como surgiu a ideia do Memorial Bárbara de Alencar, seu primeiro livro?

Posso preguiçar? Vou transcrever um trecho do texto que encerra o livro Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas: “O Memorial dormia em seu autor, ainda em estágio embrionário, até ser desperto numa tarde de 30 de julho de 2007, quando da realização do Cortejo de Fortaleza. Em comemoração ao Dia do Patrimônio Cultural do Estado do Ceará, o Cortejo relembrara [sob a direção de Oswald Barroso] a execução dos revoltosos republicanos cearenses, partícipes do movimento denominado Confederação do Equador. Num trajeto iniciado na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção e finalizado no Passeio Público, fora simulado o percurso percorrido pelos cinco presos “arcabuzados” em 1825 (embora em realidade Padre Mororó, Pessoa Anta, Ibiapina, Azevedo Bolão e Carapinima tenham sido executados em dias diferentes). Assistir àquela representação repercutiu como o acordar para a escrita de texto há muito premeditado, mas ainda apenas idealizado. Afinal, desde algum tempo já se insurgia o projeto de feitura de um poema dramático acerca de Bárbara de Alencar”. Sou Alencar por parte dos avós maternos: ela, Maria Tenório de Alencar, ele, Manoel Luís de Alencar, ambos de Potengi, cidade do cariri cearense. Atenção para a sincronicidade: depois de decidir pela escrita do poema, descobri ser minha data de nascimento, 28 de agosto, a data de morte de Bárbara de Alencar. Os poemas que compõem o livro Memorial são todos do 2º. Movimento do Concerto

Alguém há cuja origem e viver
Representam o acordo entre os estados
Do Ceará Pernambuco rebelados:
Da vetusta família de Alenquer
Ela Bárbara bárbara mulher
Na cidade de Exu nascida, vinda
Para cá pequenina ainda, linda
Fez-se forte e vistosa mas austera
Respeitada por ser Senhora à vera
Até ser posta à prova na berlinda.

A seguir versaremos sobre o pathos
Do calvário por que passara estoica
Essa mãe essa mártir essa heroica
Prisioneira política do Crato.
Eis que somos chegados ao Relato

(Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas)

  1. Qual a proposta do Concerto Nº 1nico em mim maior para palavra e orquestra?

Amigo Prudêncio, preguiçarei de novo. Com ligeiras alterações, eis algumas das palavras de encerramento da edição do 1º. Movimento do Concerto: “A composição quaternária organiza o Concerto inteiro: cada ¼ constituído de Quatro Livros, cada qual integrado por Quatro Seções, cada Seção preenchida por quatro poemas. É certo que com a partição de algumas Seções ou poemas noutras tantas subdivisões (por exemplo, o poema de número 4 — o de abertura — da Seção “Quatro Minguantes”), temos uma multiplicidade aplicada à ordenação aparentemente fixa, de modo que ganha dinamismo a tessitura, escapando ao risco do automatismo e das limitações ditadas por sua contextura. A Obra Inteira constrói-se, pois, com vistas à estruturação previamente assumida, como à inovação e improviso dentro da instrutura quadrilítera”. É isso: o Concerto é quadrúplice e procura submeter o tempo à reordenação temática — poemas de hoje podem ir ao início do livro e poemas de antes serem alocados no Movimento final: a visão geral é que o orienta. Os fragmentos são ordenados segundo percepção sinótica — e o completório dos meus dias transformados em instantes poéticos que se acumulam conforme prévia integração jamais esgotada definitivamente. O Concerto é minha Santa María. Como em Onetti, a cronologia deve submeter-se à construção — ao alicerçamento e soerguer-se — da obra. Que Juntacadaveres tenha sido escrito depois, mas conte um acontecimento anterior a El Astillero, demonstra que para Onetti-Brausen o delineamento está feito, e tudo mais é cumprimento no tempo, porém consoante plano para além da temporalidade estrita. Que poemas de hoje se agreguem ao 1º. Movimento e poemas de ontem se aloquem no 3º. ou 4º., é transgressão da retilineidade do cronos, em função da confecção e acabamento do todo, extemporâneo, embora temporal

  1. Pretende publicá-lo todo um dia, ou em partes?

Em partes, já o faço. Seja nos poemas esparsos do blog (http://opoetademeiatigela.blogspot.com.br/), seja nos livros publicados e/ou por publicar. Preciso dizer, Léo, que esses livros não passam de uma espécie de prévia do Concerto. Digamos assim: o Todo que o Concerto aos poucos se torna, é composição para — o título o diz — orquestra inteira; e os livros provisórios (o Memorial, já editado; o Girândola, o Miravilha, A fada e o poeta, por virem brevemente) que a partir do todo organizo, são música de câmara, são adaptações “em mim menor”, a fim de que eu possa me dar a ler antes de ver ao menos aproximada a conclusão (não haverá tal) do 1nico (úmnico) livro que realmente escrevo, o Concerto

Era uma vez um poeta
E sua melancolia
De escrever Obra Completa
Mas não ter companhia
De um leitor de um amor uma
Amizade uma alegria

(Trecho do inédito A Fada e o Poeta)

  1. Então o livro Concerto não está finalizado e sempre surgem poemas novos que você nele encaixa?

Sempre surgem. Pra que você ideie, a segunda seção do Livro 1 do Primeiro Movimento do Concerto, a seção “Os Prisioneiros”, era dividida em duas “levas” e integrada por vinte e quatro sonetos (quatro dos quais “incidentais” e um “estropiado” como “introito” às divisões da seção). Agora são quatro “levas” e um total de trinta e oito sonetos, ou seja, trata-se ainda do que assinalei em nota ao livro: o Concerto é word in progress (palavra em andamento)

O poema esse composto
De palavras e vazios —
Mas ocos que em seus estios
Muito dizem. Como um rosto

  1. Acredito que muitos que leem seus livros ficam se perguntando o motivo de assinar com o nome Poeta de Meia-Tigela. Poderia nos explicar?

A outra metade da tigela é O Leitor

Tigelimerick

Era um Poeta só de Meia-
Tigela: bem se lhe nomeia
Talvez até nem
Tivesse também
Essa metade — meio-Meia

  1. Quais são suas referências/influências literárias?

Não direi “influências”, mas — “fruências”. Fruo muito muitos autores e não apenas “literários”. A bem da verdade leio quase compulsivamente (esse “quase” é pra minorar a gravidade da compulsão), e sem me ater a gênero, número ou grau: CAMILO PESSOA OU FERNANDO PESSANHA — HENRY O. MILLER — JORGE AMADO DE LIMA BARRETO — MARIO DRUMMOND DE OSWALD MELO FRANCO DE ANDRADE — OSMAN LINS DO REGO — SINCLAIR LEWIS CARROL — TOLSTOIÉVSKI — WILLIAM BLAKESPEARE — TAGORE VIDAL. Porém, se me pego gostando de um autor em particular, começa a perseguição: o primeiro a quem “persegui” foi Dostoiévski. Foi a partir de Dostoiévski que escrevi meu trabalho de graduação em filosofia, uma monografia que hoje reconheço pretensiosa e imatura, embora sincera e esforçada: chamou-se Os demônios de Dostoiévski. Aliás, demorei muito tempo pra convalescer de Dostoiévski e aceitar que não sou Raskholnikov, tampouco Svidrigailov: ai, ai. Tempos depois veio Julio Cortázar e o cronopismo, acredito que não casualmente: em Cortázar vejo a associação para mim ainda muito grata entre o existencialismo, o surrealismo (vide Teoría del túnel) e o marxismo, contudo na medida incerta, a saber: com um distanciamento que só a leveza de quem no fundo desconfia dos ismos pode apresentar. Tive também a fase Onetti e recentemente a fase Lobo Antunes, benzadeus já transcorridas. Da literatura brasileira, sobretudo Lima Barreto, Guimarães, Clarice, Osman Lins. Dos poetas lusitanos (admito crassa ignorância da poesia que se faz noutros países de língua portuguesa), Camões e Pessoa, claro, Almada e António Gedeão. Dos brasileiros, Cruz e Sousa, Jorge de Lima, Sosígenes Costa, Carlos Nóbrega.

PARA SOSÍGENES COSTA, AS GARÇAS

Para André Ricardo, de quebra

Tanto mais desgarçado desgraçado mundo
Tanto mais menos garças menos mais beleza
neste mundo em que grassa o mal imundo
Que são as garças? Graça e real realeza

Amá-las é de graça não se paga ao Fundo
Vê-las é levitar tamanha a graça delas
As garças são a graça deste feio mundo
tamanha a graça delas levita-se ao vê-las

Garça-azul garça-branca garça-cinza tudo
é modo de ser garça ser além das penas
Garça-vaqueira garça-da-cabeça-preta

mais que forma ser garça é graça é conteudo
Garça-socoí garça-morena ou vermelha
ser garça é dar lição de graça ao mundo imundo

  1. Você acompanha a produção dos novos escritores cearenses?

Não me esforço para isso porque não me esforço para estar na ordem do dia, sabedor das novidades, conhecedor de quem produz o que e onde. Venho conhecendo naturalmente os novos escritores à medida que me procuram (e raríssimos o fazem, e não há razão para ser diferente) ou me são apresentados por amigos; venho conhecendo os novos escritores à medida que me chegam à vista e os leio: mas não os leio muito, confesso, por falta de uma identidade mesmo, por certa distância de sensibilidade minha ante grande parte da mínima parte do que sei estar sendo feito. Às vezes acontece de eu gostar de um livro, de uma página na internet e tomar a iniciativa de contatar o autor/ autora, de solicitar correspondência, troca de material, iniciar uma amizade literária. Foi assim que vim a conhecer e namorar a Nataly [Pinho]. Foi assim que me fiz próximo (fraternalmente) de Hugo Pontes, Irineu Volpato, Nelson Hoffmann, Patrícia Tenório e, dentre os cearenses, de Webston Moura, Dércio Braúna, Jonas Torres, Bruno Paulino, nenhum dos quais conheço pessoalmente. Aqui e acolá escrevo posfácios para os corajosos que mos pedem, em geral jovens: Uirá dos Reis, por exemplo, com o An; Frederico Régis com Os países; Ângela Calou com Eu tenho medo de Górki; Alessandra Bessa com Arcanos maiores e a valsa leve. Ah, e Léo Prudêncio (você já deve ter ouvido falar dele) com o aquarelas, inédito de haicais.
versos e silêncio:
singelas-te. o aquarelas
lês, de léo prudêncio

  1. A literatura cearense perdeu neste ano dois nomes importantes: Nilto Maciel e Artur Eduardo Benevides. Cada um, obviamente, importante à sua maneira. Você tinha contato com esses dois escritores?

Falarei de Nilto Maciel, a quem visitei em três endereços (dois apertamentos e uma casa, a definitiva), algumas vezes indo sozinho ou (mais vezes) em companhia de escritores/artistas: Carlos Nóbrega, Carlos Vaz, Frederico Régis, Lúcio Cleto, Manuel Bulcão (amicíssimo também já ido), Pedro Salgueiro, Raymundo Netto, Silas Falcão. Fui e sou amigo do Nilto (ainda hoje, porque a amizade não se desfaz com a morte) e esse relacionamento resultou em parcerias: em 2009 publiquei uma entrevista feita (em almoço na casa de Mario Sawatani) com ele para o jornalzinho V.O.L.A.N.T.E, edição n. 3, e na edição 5 do mesmo periódico um soneto de que gosto bastante, do livro Navegador, o “Nem sei domar meus próprios cães”. Revisei o livro Luz Vermelha que se azula, de 2011, e o Nilto, por sua vez, foi o autor do posfácio ao Primeiro Movimento do Concerto (o prefácio é de Sânzio de Azevedo) e escreveu outro par de textos que me dizem respeito: um acerca do Memorial, o “Dona Bárbara de um poeta”; e “O Concerto inebriante do Poeta de Meia-Tigela”, este publicado depois em Como me tornei imortal, de 2013, um dos seus últimos livros. Eu o chamava por vezes “Nilto Asperel”: é que ele gostava muito de dizer coisas embaraçantes com a alma risonha porém a cara mais séria e com a intenção irônica de observar a reação desconcertada da vítima. Sabia ser amigo em muitas horas, mas com o Nilto o melhor era estar preparado para o que desse e viesse. Em homenagem a ele, e sob o abalo da morte, o soneto a seguir

PARA NILTO MACIEL

Escrever por quê? Para me saber
menos só. Menos só para quê? Para
me dizer mais jardim menos saara
(e no entanto o deserto em meu dizer)
Escrever por querer sair de mim:
para me saber comunicativo
(e no entanto me sei comum cativo
do deserto que sou: Não e não, sim)
Escrever para escrever escrever
(e no entanto esse não-dizer que paira
em mim em minha fala como espanto
em meu querer sair de mim: mais ser)
Escrever (e no entanto a fala-avara
em mim em meu dizer: esse no entanto

Esse poema faz parte do Miravilha: liriai o campo dos olhos (volume de sonetos por sair pela Confraria do Vento, se Deus e Karla Melo assim o quiserem) e vem ser, quando em livro, nova homenagem ao velho Nilto... MaciAsperel

Grato, poeta Léo Prudêncio


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25 de setembro de 2014
Entrevista com Saulo Ribeiro (Editor da Cousa), por Nathan Matos

Entrevista com Saulo Ribeiro (Editor da Cousa), por Nathan Matos



Conheci a Editora Cousa através de um amigo, o Eduardo Lacerda, que me falou que alguém, no Espírito Santo, também tentava editar livros. Indicou o Saulo, daí começamos a nos falar, obviamente, sobre livros. Sempre fui um interessado por edição, o objeto livro pra mim sempre foi uma obra de arte, e seu conteúdo algo que não sei definir em palavras. Sendo assim, nada mais simples do que conversar através do inbox do facebook e fazer uma entrevista para encurtar a distância. Segue aqui, perguntas simples, porém essenciais para que autores e futuros editores possam entender um pouco mais sobre editar e editoras independentes.


Saulo, de onde foi que surgiu a ideia de criar a Cousa?

Foi em 2009. O meu sócio, Rodrigo Caldeira, fazia livros de maneira totalmente amadora e artesanal em casa. Eram tiragens de um único exemplar para amigos. Eu sou dramaturgo e uma peça minha ganhou um edital público para circular em várias cidades. Pensamos em fazer o livro para acompanhar a peça (Cárcere, parceria de Vinícius Piedade). Deu tão certo e foi tão gostoso fazer que não paramos desde então.

Qual o foco da linha editorial da Cousa?

Literatura em geral, teatro e dramaturgia. Mas temos ensaios, memórias e, em breve, roteiros cinematográficos e fotografia.

Vocês acreditam que há um público que sente falta da publicação de roteiros cinematográficos, tendo em vista que não é um gênero que tem um alto número de publicações?

Como o custo de produção caiu e, por outro lado, estamos inseridos em guetos artísticos, um roteiro acaba vendendo a mesma coisa que um livro de poesia ou teatro.

Nesses últimos cinco anos, percebe-se que novas editoras surgiram no mercado editorial, principalmente as editoras independentes, que quase sempre possuem uma linha editorial muito bem demarcada. Como você vê todo esse cenário?

Nosso catálogo não foi previamente demarcado. Nós começamos com uma peça de teatro e fomos aceitando o que nos agradava, independente de gênero. A Cousa é uma das poucas editoras do Espírito Santo e procuramos dar vazão a quem nos procura com uma proposta consistente.

Você acredita que ainda há espaço para novas editoras?

Sim, há. O que não quer dizer que exista um mercado consolidado. Nós estamos criando nosso mercado e modelo de negócios, buscando mecanismos de sustento fora do mercado tradicional (que, em termos de literatura, está em crise). Não é fácil, mas é um combate bom.

Editar livros, no Brasil, é fácil?

Não. É difícil. Às vezes, um sujeito me procura e jura que escreveu um excelente livro e que vai vender muito. Eu pergunto qual foi o último livro de autor estreante que ele comprou e a resposta é vaga, vazia. Tem muita gente escrevendo e pouca gente lendo. Vender um livro hoje é quase um movimento de luta de solo. Tem que pegar o leitor e dar uma chave de braço nele até ele levar a obra. O autor tem que mobilizar seu círculo de leitores e amigos.



O que fez Saulo Ribeiro se interessar pela literatura?

Os livros da minha vida me ajudaram a seguir em frente. Eles traduziram o mundo para mim. Miller, Bukowski, Marcos Rey, João Antonio, Lima Barreto me fizeram perceber que tinha gente com os mesmos pesadelos que eu. E em cada livro que leio eu continuo buscando essa tradução do mundo, das coisas.

Algumas das obras da Cousa são peças, como é o processo de editoração de livros assim? Há alguma diferença quanto aos gêneros poesia, ensaio ou contos?

Sim. Há uma preocupação com o encadeamento do texto, que é diferente da prosa e da poesia. Mas, por outro lado, também é verdade que hoje as linguagens se aproximam muito. Existem textos de teatro que se assemelham a romances, contos, poesia. E o contrário é também ocorre.


Com a entrada da Amazon em solo brasileiro, você pensa que será mais difícil para as pequenas editoras conseguirem um maior avanço entre os leitores brasileiros?

Não vejo este problema para a Cousa, pois nunca vislumbrei um alcance maior para nossos livros. Eles são vendidos no lançamento e ficam disponíveis em nossos sites e redes sociais.  As editoras independentes, acredito, não ganham e nem perdem nada. Nosso combate se faz em outra frente. Nossa venda de livros se faz com um contato maior com o leitor, com o círculo do autor. Lancei o livro de um autor espanhol célebre, chamado Fernando Arrabal, e até agora só vendi 20 livros, pois não tive o autor no evento de lançamento (veja só!). Nosso luta é no chão. É a literatura jiu-jitsu, como afirmei acima. Mas as pequenas livrarias, certamente, somam mais um problema nessa luta.

No Espírito Santo, há outras editoras independentes? Como está sendo a movimentação do sistema literário na tua cidade e em teu estado?

Sim. Temos algumas, posso citar a Pedregulho e a Aves de Água. O pessoal do Tertúlia, um site de literatura, costuma publicar alguma coisa em papel vez em quando, além de e-books. Em Cachoeiro de Itapemirim, terra de Rubem Braga, tem a editora Cachoeiro Cult, que lança livros e faz uma revista de variedades. Estamos em um excelente momento. Muitos escritores se encontrando, apoiando. Grupos de discussão e criação surgindo. O pessoal do NEPLES (Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo), vinculado à UFES, está suporte e fomentando muitas ações. Às vezes, penso que estamos vencendo a guerra. E tem hora que acho que estamos cercados. Mas temos cavado trincheiras dia e noite por aqui. Editar e escrever é isso.





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25 de agosto de 2014
Entrevista com o Letras Solidárias

Entrevista com o Letras Solidárias



O projeto Letras Solidárias é desenvolvido por estudantes da Universidade Federal do Ceará (UFC) bolsistas do Programa de Aprendizagem Cooperativa em Células Estudantis (PACCE) da Coordenadoria de Formação e Aprendizagem Cooperativa(COFAC). O projeto tem como objetivo contribuir com o letramento dos estudantes do ensino médio, proporcionando rendimento satisfatório na prova de redação do ENEM, a partir do trabalho voluntário de revisores de textos.


Como surgiu a ideia do projeto “Letras Solidárias”?

Surgiu de um amigo, Nonato Furtado, professor da IFCE. Em 2012, ele fazia um trabalho tímido com os estudantes do PRECE ( Programa de Educação em Células Cooperativa) de correção de redação para o ENEM. Existia uma equipe de revisores da rede PRECE que ajudavam na correção.

E como foi o início do projeto?

Em 2013, eu, Gustavo Ewerson, com o Bruno Ribeiro e o Diogo Fernandes fomos convidados pelo professor Manoel Andrade, gestor da EEEP de Pentecoste e Professor da UFC. O projeto surgiu como necessidade de ajudar todos estudantes da EEEP de Pentecoste na produção textual.
Daí, fizemos o trabalho de articulação. Captamos revisores solidários, enviamos as redações para os revisores, os revisores nos devolvem e nós geramos um boletim para os alunos.


Quer dizer, então, que, desde o início, vocês já se propunham a realizar um trabalho em prol de um acompanhamento para a correção de redações estilo ENEM para os alunos da Escola de Pentecoste?

Sim. E também nós recebemos produções textuais com alunos com dificuldade em escrita. Trabalhos estes desenvolvidos por estudantes de letras, orientados pela professora Ana Célia Clementino Moura, bolsistas do PACCE (Programa de Aprendizagem Cooperativa em Células Estudantis).

E como foi a recepção por parte dos alunos?

Os alunos ficam muito gratos. Gostam bastante de saber que pessoas distantes deles estão corrigindo suas redações. Além disso, eles gostam da forma como elas são corrigidas. Um trato interpessoal bem interessante.

Como se dá o processo de correção? Quantas redações cada corretor corrige?

Gostamos de utilizar o termo revisor, pois os voluntários não são profissionais específicos. Estão realizando um trabalho voluntário. Então, elas decidem quantas redações irão corrigir.


Vocês acreditam que este projeto poderia ser estendido a outras escolas ou acreditam que ele apenas evidencia a carência de laboratórios no ensino público?

Sim. Já recebemos várias propostas de atender outras escolas. No entanto, estamos finalizando este trabalho na EEEP de Pentecoste.  Precisamos avaliar e melhorar nosso trabalho para poder expandi-lo.

E quais projetos paralelos vocês têm desenvolvido com os alunos?

Em decorrência das muitas dificuldades de escrita dos alunos, nós resolvemos captar livros de literatura para a biblioteca da escola para estimular os alunos na leitura. Nós acreditamos nesta atividade como peça chave para haver uma boa produção escrita.

CONHEÇA A CAMPANHA DE DOAÇÃO DE LIVROS PARA O PROJETO, CLIQUE NA IMAGEM ABAIXO:









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20 de agosto de 2014
Entrevista com Sânzio de Azevedo

Entrevista com Sânzio de Azevedo




Semana passada, via e-mail, realizei uma pequena entrevista com o escritor Sânzio de Azevedo. O autor cearense é consagrado pelos seus títulos voltados aos estudos literários, em especial sobre a Padaria espiritual, agremiação cearense de maior repercussão nacional. Eis a nossa rápida conversa:

Léo P. Acredito que seu pai, Otacílio de Azevedo, que era poeta e pintor, tenha lhe influenciado na sua escolha pelo mundo das letras. Podemos afirmar isso?

Sânzio de A.  Meu Pai, Otacílio de Azevedo, foi a grande influência, principalmente quando comecei a fazer poemas.

Léo P.  O seu primeiro livro, A terra antes do homem, é de teor filosófico e científico. Depois dele você se dedicou mais a falar sobre literatura, como foi essa mudança de escrita?

Sânzio de A. Comecei com esses poemas, e artigos sobre literatura, mas como gostava de Paleontologia desde criança, em São Paulo fui convidado a escrever um livro de divulgação científica, publicado em 1962, quando eu tinha 24 anos de idade.

Léo P. No mundo acadêmico não se pode falar sobre a Padaria Espiritual sem citar o seu nome, já que você é o teórico que mais se debruçou sobre o assunto. Como você "descobriu" a Padaria Espiritual?

Sânzio de A. Na adolescência, ouvia falar do grêmio, mas tomei conhecimento dele mesmo quando meu saudoso amigo Faria Guilherme me presenteou com um exemplar d'A Padaria Espiritual do Leonardo Mota, de 1938. Depois, passei para as pesquisas em periódicos do século XIX, além dos livros de Mário Linhares, Dolor Barreira e outros.

Léo P. Em uma palestra na UVA, em Sobral, você disse que encontraram a "Ata com o registro das fornadas dos padeiros", tem alguma previsão desse material histórico sair impresso?

Sânzio de A. As Atas da Padaria Espiritual, que passei 40 anos procurando aqui e no Rio de Janeiro, estavam no Instituto do Ceará. Graças a Marinez Alves e ao então presidente da entidade, bibliófilo José Augusto Bezerra, pude ler as atas, com grande emoção. O José Augusto pensa em publicá-las este ano.

Léo P. Você também já publicou livro de poemas, você se considera um teórico ou um poeta?

Sânzio de A.Como poeta, tenho 4 livros publicados e figuro em mais de 10 antologias, mas a maioria de meus livros é de ensaio ou historiografia literária.

Léo P. Esse ano teve a publicação de um livro infantil, poderia falar um pouco sobre ele?

Sânzio de A. Hoje à noite (19 h), no Espaço O POVO de Cultura e Arte, será lançado O Curumim pintor e outras histórias, infantojuvenil, escrito há seis anos. Primeiro livro meu do gênero e talvez o último...

Léo P. Teremos mais livros seus publicados em breve? Alias, você tem algum livro no prelo?

Sânzio de A. No prelo mesmo não diria, mas terminei um livro que chamarei de Relembrando (Escritores que Conheci), falando de prosadores e poetas com quem convivi no Ceará, em São Paulo (onde morei mais de 6 anos) e no Rio de Janeiro (onde fiz o meu Doutorado pela UFRJ). Falo de 54 vultos das letras nacionais.


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4 de agosto de 2014
Entrevista com Tiago Ferro (e-galaxia)

Entrevista com Tiago Ferro (e-galaxia)



Foi meio que sem querer eu conheci a e-galaxia. Foi lendo alguma coluna sobre literatura e as novidades do momento que soube da existência da e-galaxia. Vasculhando na internet, e tentando entender como ela funcionava, uma vez que é uma editora propriamente eletrônica, pude saber quem estava a frente dessa ideia, que não é nova, mas que traz uma percepção diferenciada de tantas outras. Os responsáveis pelos feitos da e-galaxia, que publica grandes autores e outros que ainda estão começando na vida literária, são Tiago Ferro e Mika Matsuzake

Ultimamente, a e-galaxia conseguiu emplacar várias de suas publicações entre os mais vendidos nas plataformas digitais especializadas em e-books. O selo Formas Breves é o queridinho da editora, digamos assim. Com coordenação de Carlos Schroeder, o selo é formado, até agora, por nomes como Carrascoza, Sérgio Tavares, Bolívar Torres, Luiz Passos, Miguel Sanches Neto e outros. O Formas Breves traz toda semana, às segundas-feiras, um conto por apenas R$ 1,99, que pode ser comprados a qualquer instante para os insones leitores que buscam, muitas vezes, algo novo para a leitura. 

Foi observando o rápido crescimento dessa editora, com menos de um ano de existência, que resolvi ter um diálogo com Tiago Ferro, o editor. Fiz a eles algumas perguntinhas básicas pra que a gente possa saber mais sobre o processo editorial da e-galaxia.


NM – Tiago, de onde surgiu a ideia  da e-galaxia?

TF – Surgiu da vontade de proporcionar a autores a possibilidade de terem seus livros editados com a mesma qualidade que teriam nas grandes editoras. E ainda mais com uma eficiente distribuição. Tudo isso por custos baixos.

NM – Diante de inúmeras dificuldades para a criação de uma editora para livros impressos, uma editora eletrônica é a melhor opção?

TF – Trata-se de outro modelo de negócio. Se é uma opção melhor, não sei te dizer. Mas certamente é uma ótima opção

NM – Existe muita diferença entre as edições impressa e eletrônica?

TF – Os serviços editorias basicamente não mudam. Você ainda precisa de bons editores, revisores e designers. Na versão eletrônica você vai precisar também de um bom programador. Diferentemente do impresso, não há custos gráficos, de distribuição ou armazenagem. Nesse ponto, a diferença é sensível.

NM – Há quem afirme que o brasileiro não lê. Você concorda? A e-galaxia acredita que a publicação digital é o meio mais rápido para se chegar até o leitor?

TF – É o meio mais rápido e eficiente. Se compararmos a média de leitura do brasileiro com a de alguns países europeus ou mesmo com os Estados Unidos, perdemos feio. Mas somos um país de dimensões continentais que vem mudando rapidamente em vários aspectos. Não é a toa que grandes grupos editoriais estão chegando com força por aqui.

NM – São muitas as editoras que surgem e tem vida breve. Você acredita que o livro digital é a melhor forma de democratizar a distribuição do livro no país?

TF – O que eu acho é que resolve todos os gargalos de distribuição em um país que é um continente e tem poucas livrarias e bibliotecas. Também podem custar menos pois vários custos de produção são eliminados.

NM – A e-galáxia possui alguns selos muito interessantes, como a Formas Breves, que como está no site é feito “com traduções diretas e exclusivas de grandes clássicos do conto universal ou com narrativas da nova geração de escritores em língua portuguesa”. Como está sendo a recepção do público?

TF – Está sendo excelente! Não só de público mas de boa parte da mídia e das lojas. Sempre acreditamos nesse projeto, mas posso confessar que tudo aconteceu muito mais rápido do que esperávamos.

NM – Como você percebe o futuro do livro impresso?

TF – Tenho formação em história, portanto tenho dificuldades em prever o futuro...rs...

NM – Quais as maiores dificuldades que vocês têm encontrado?

TF – Não se trata de uma dificuldade, mas o mercado para livros digitais ainda é pequeno em relação ao impresso. Mas vem crescendo tão rapidamente, que não dá para falar em dificuldades.

NM – Qual a importância da literatura na sua vida? Ela contribuiu ou o prejudicou de alguma forma, em algum momento?

TF – Só me prejudicou quando li livros ruins...rs... mas nunca tive problema em largá-los pelo caminho.

NM – São muitos os autores que se acreditam em posição de publicar, pois acham que seu livro já está praticamente pronto. Os novos autores são um dos nichos de mercados mais fortes para a publicação eletrônica?

TF – A e-galáxia trabalha com o modelo de publicação independente. Fornecemos os meios para que mais livros sejam bem editados e publicados. No nosso modelo, quem deve julgar a qualidade literária do livro é o leitor. Nunca um intermediário.

NM – Se eu pedisse pra indicar um autor e um livro que mudaram sua vida, conseguiria apontar?

TF – Mimesis, de Eric Auerbach abriu meus olhos para a relação complexa entre ficção e realidade histórica. E mostrou que, seja um ensaio, um tratado ou qualquer outro gênero, a qualidade literária é o que conta. Sempre.


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