Três fragmentos de "O vidro", de Luís Quintais
§
Haverá
biografia? Quando tinha seis ou sete anos, por aí, lançava bolas a uma parede,
batia-as violentamente com uma raquete empenada, batia-as desalmadamente. As
bolas voltavam a mim, agressivas, rápidas, capazes de me matar, não fosse eu
hábil no desvio do momento que em mim se antecipava como uma voz que já não
reconheço nem escuto. O demónio virá como uma bola de ténis quebrando o vidro
da biografia. Milimetricamente, recordo-me. Por duas vezes não era uma bola de
ténis, mas balas à procura de uma vítima, eu próprio, sentado no muro fronteiro
à casa. Quero ainda quebrar o vidro. Vou quebrá-lo. Vou quebrar esta mão do
lembrar.
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79]
Brincava
sobre o muro. Tinha carrinhos, pedrinhas, pensamentos obscurecidos por uma
inocência, hoje, sem recorte. Dentro da casa, a família afadigava-se na contemplação
da fuga através de um belo exercício de ânimo, festa e recusa, reconheço-o.
Escutei um silvo e depois outro. Um bocado de estuque sobre a cabeça e alguém
haveria de vir em meu socorro do vazio da casa que era como um saco sem fundo e
sem propósito. «Uma bala perdida» e eu perdido para a vida, ou quase, por
centímetros poucos e distracções cortezes e felinas.
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80]
§
Brincava
com uma lupa. O vidro ampliava a luz, desmaterializava os objectos. Como na rua
Morgue, o símio vinha sobrepujado pelo medo. Mas a fome seria a resposta. A
fome responde sempre ao medo. Somos criaturas apavoradas, diz-nos a evolução.
Reconheci-lhe os movimentos na sala, a agilidade também minha, a fragilidade só
aparente. Reconheci-o, tomando-o pelo olhar, como quem alicia um amigo para uma
insensatez, para uma desrazão feliz e mortal. Ele aproximou-se com a serenidade
de um humano que se compraz com a violência enquanto se debruça sobre a
primeira refeição do dia. Os olhos revelaram-me o seu medo e, por instantes,
sem decifração possível, entrevi-lhe o gesto rápido e quase indolor dos dentes
sobre a pequena mão. Não fugi. Não lhe movi perseguição. Prisioneiro do espanto
do sangue contornando a mão e a lupa, preenchendo todos os espaços dos objectos
desmaterializados, vermelho, rubro como a intensidade que se solta da palavra
rubra. Rubro é sinónimo de mordida, medo, fome e paralisia vital perante o
sangue disperso sobre o vidro que amplia. Rubra é a violência de uma memória
que vem depois. Rubra cabeça decepada do animal que saltou do medo para a mão e
que se prestou ao cuidado de uma ciência tropical. Rubra a cicatriz que teima
na mão, que se diluirá com a minha morte, como traço que se apaga, como dor
murada pelo esquecimento.
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81-2]
[Luís Quintais] nasceu
em 1968 em Angola. É antropólogo social e lecciona presentemente no
Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. Nesta qualidade, tem
vindo a desenvolver investigação de arquivo e de terreno sobre o exercício e as
implicações públicas e forenses da psiquiatria. Publicou o seu primeiro livro
de poesia em 1995, A Imprecisa Melancolia (Teorema e Lumen). Em 1999 regressa à
poesia, publicando Umbria (Pedra Formosa) e Lamento (Livros Cotovia).
Posteriormente publicou Verso Antigo (2000), Angst (2003), Duelo (2004), Canto Onde (2006) e Mais espesso que a água
(2008), todos pelos Livros Cotovia. Com Duelo venceu da oitava edição do Prémio
de Poesia Luís Miguel Nava referente a 2005. Luís Quintais tem um página
pessoal na NET, participou no blog casmurro e no Webqualia. Actualmente, anima
Os livros ardem mal .


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