Resenhas Entrevistas Contos Poemas Crônicas Ensaios
6 de novembro de 2014
A cura, de Pedro Eiras

A cura, de Pedro Eiras




por Ana Marques Gastão
Lisboa, Quidnovi, 2013

Freud, numa carta ao pastor Oskar Pfister (25 de Novembro de 1928), escreveu que queria proteger a psicanálise dos médicos e sacerdotes, ele que considerava o Deus monoteísta uma ilusão, assente na necessidade infantil de um pai. Desejava, por isso, e situemo-nos naquela época, entregar a análise a uma categoria de homens ainda não existente, mas aos quais deu o nome de «curas seculares da alma» que não necessitavam de ser médicos e não podiam ser sacerdotes. Em A Questão da Análise Leiga (1926), o «pai da psicanálise» afirmara-se como um defensor da prática da sua «ciência» por não-médicos, e não apenas por psiquiatras. Quanto à religião, comparava-a, em «Actos Obsessivos na Prática Religiosa» (1907), a uma neurose obsessiva. Totem e Tabu (1913) e Moisés e o Monoteísmo (1939) esclarecem-nos, por outro lado, que o psicanalista considerava a religião um «problema humano» da maior relevância.

Na verdade, Freud era um herdeiro dos pensadores das Luzes do século XVIII – e do Feuerbach de A Essência do Cristianismo –, não deixando de investigar a psicogénese das religiões. Relembre-se que, em 1910, sublinhava numa carta a Jung, então ainda seu amigo e discípulo, que a razão última da necessidade de religião seria o espinhoso «desamparo infantil» que levaria os homens a inventar «um Deus justo e uma natureza boa». As doutrinas religiosas permitiriam, pois, que o crente tomasse os seus desejos por realidades, substituindo a neurose pela ideia delirante.

            
No prefácio a O Futuro de uma Ilusão (1927), Jacques André[1]encara a religião como psicótica ou neurótica, filha do complexo paternal. Muito pouca coisa a distinguiria da alucinação: a religiosidade tenderia a restaurar, sob forma alucinatória, o narcisismo ilimitado correlativo do sentimento de impotência da criança. O pai da psicanálise havia mostrado – assimilando, sobretudo no aspecto da ordem clássica, o teatro grego, bem como as lições de Shakespeare – que só o autoconhecimento concederia ao ser humano o domínio sobre si mesmo, tendo o inconsciente, nesse processo mental, uma influência determinante, entre outros aspectos, por meio da acção dos actos falhados, dos sonhos, etc.

Escavou-se muito depois de Freud, para bem ou para mal, nesta e noutras direcções. A tradição budista – na luta pela «atenção perfeita» como meio de desvendamento da consciência – e, de outro modo, o cristianismo primitivo, praticavam, no entanto, há séculos a autoanálise na senda do combate contra a ignorância e o desejo (paixão) por ela causado. Neste caso, poderíamos definir ignorância pela tentativa repetitiva de transformação do transitório em eterno/absoluto. Estaríamos não necessariamente perante uma ausência de conhecimento, mas diante de um conhecimento falso, uma autovigilância mal dirigida.

Relembre-se a mística de introversão defendida pelos escritos gnósticos, documentos revolucionários no seu empenho pela liberdade interior. Filipe considerava a ignorância escrava e a gnose liberdade. Escreve-se, por outro lado, no Evangelho de Tomé: «O reino está dentro de vós e está fora de vós. Quando vos chegueis a conhecer a vós próprios[2], então sereis conhecidos e sabereis que vós sois os filhos do Pai vivente. Mas se não vos conhecerdes, então ficareis na pobreza e sereis a pobreza.» Algo de semelhante se anuncia, em defesa da harmonia e da elaboração espiritual e intelectual, em o Diálogo do Salvador: «A lâmpada do corpo é a mente. Enquanto o vosso interior estiver em ordem, os vossos corpos serão luminosos».

Freud havia, consumado, porém, de forma radical, a cisão entre a experiência religiosa – que identificou com uma credulidade edipiana – e a psicanálise. Somos, na verdade, de acordo com as (des)crenças de cada um, actores de um ritmo cósmico dominado pela separação: da nossa hipotética origem divina, para alguns, ou de um Outro. É por se existir enquanto ser separado que se procura a completude no reencontro simbólico com o pai e a mãe numa perenidade (ressurreição) de ordem imaginária. Eis como o pé se atreve a pousar em terrenos aparentemente opostos, pois, em ambos os casos, se deixa agir a PALAVRA, sabendo nós que os pais aparecem, segundo Deleuze e Guattari, na «superfície de registo da produção desejante» e que «a criança é um ser metafísico».[3] O inconsciente continua na realidade por explorar, do ponto de vista científico, e desconhece-se, por outro lado, quais são os mecanismos colectivos que sobre ele incidem.

O inconsciente é órfão ou tem um Deus?

Freud ou Jung? Nenhum dos dois? Ambos?

A Cura, de Pedro Eiras, dir-se-ia um romance situado nessa fronteira – fé e psicanálise – e emprega uma linguagem despretensiosa e subterraneamente erudita, veloz. Claro, inquietante, enigmático na sua tendência pensante, o enredo, de propensão acentuadamente afirmativa e não menos irónica, mesmo na polemicidade de certas sentenças, dá-nos a ver, pela mão de um ensaísta e dramaturgo argutos, a fertilidade literária que a psicanálise detém desde Freud ao colocar-nos tanto perante a dialéctica entre razão/coração, como perante o risco da criação de um Significante despótico. O discurso analítico, dito de associação livre, não é apenas intelectual, mas implicitamente afectivo. E não deixa de ser ilusório, mas de uma forma epistemológica, terapêutica, porque permite o suporte de uma viagem, a da vida.

A narrativa centra-se num fulcro de personagens principais: o narrador, psicanalista, a companheira deste, e alguém que se faz analisar pelo primeiro. Essa figura – pasme-se a ousada inverosimilhança – é o Papa. Oscilamos, neste romance, entre verdade e incerteza, pergunta e não resposta, divã e confessionário, sabendo que só a angústia e a escuta os ligam. A improbabilidade irreverente da história conduz-nos a um labirinto de interrogações perante o absurdo e a eventualidade de qualquer dos terrenos, religioso ou psicanalítico, ser totalitário. Na demanda de uma escuta (seja no divã, seja na confissão) e da procura reconstrutiva de um Eu fragmentado, ainda que parcialmente ficcional, o analisando não pede absolvição, ou se a pede, não lhe é dada, mesmo que o seu terapeuta se considere todo-poderoso. Não é disso que se trata, mas de deixar actuar a palavra verdadeira (quem sabe ilusória), individual e transindividual.

A psicanálise, por meio da representação das palavras, das coisas ou dos afectos, faz recuar o analisando a um lugar esquecido ou recalcado, obrigando-o a um caminho de lucidez e inteligibilidade. Não é uma ciência, nem uma técnica, mas usa os seus instrumentos, dir-se-ia uma experiência de amor ou, ironizando, algo parecido com a limpeza de uma chaminé, chimney sweeping, citando o terrível performer Lacan. Nesse enlace de subjectividades, que exige uma ética entre psicanalista e analisando, decorre A Cura, narrativa na qual desejo e sonho são personagens. Pelo romance passam também a pulsão de morte (que sustém o desejo de agredir, de fazer mal ou «me fazer mal») ou, nas representações psíquicas, a sexualidade recalcada (a infantil, por exemplo, em diálogo com a coisa narcísica e o desejo de extinção da líbido). Nesses domínios, também no da perversão, a arte e a literatura antecederam em muito a psicanálise.

Pedro Eiras trabalha, ainda do ponto de vista satírico, o sonho ou a sua interpretação, quase indiscreta, no diálogo entre psicanalista e analisando (o Papa) de uma forma lúdica, mostrando-nos que sonhar não é o resultado da continuidade claramente lógica ou emocional dos acontecimentos da vida, mas o resíduo de uma curiosa actividade psíquica exercida durante o sono. Ou será o sonho arquetipal (oriundo da ideia de imago), como defendeu Jung, forma de representação simbólica partilhada com a arte e a mística? A Cura faz-nos reflectir sobre a possibilidade de uma continuidade para trás, na direcção de um passado reelaborado pelo sujeito desejante numa demanda de análise. O sujeito do inconsciente descobre no divã, em diálogo com um outro, o que subsiste de ilusório na relação narcísica a partir da qual se trabalha a perda, a melancolia, o desejo. A narrativa decorre, desse ponto de vista, de modo frenético, assumindo o psicanalista um papel dogmático e mascarado em relação ao seu próprio Eu, nomeadamente na relação amorosa com a mergulhadora Rita, imersa num mar melancólico que se transforma em visão.

O relato, recheado de matéria religiosa e psicanalítica, não alheio também a um certo sado-masoquismo, contém vários graus que vão de uma agressividade entre analista e analisando, à admiração, à dúvida, à contradição, à dissimulação e à dependência. Trata-se de encontrar na sombra a luz, a coisa especular, ou melhor, uma «dramaturgia invisível», como lhe chamou Julia Kristeva, que poderíamos considerar um motor mobilizador da inteligência-corpo de dois neuróticos, neste caso com a problemática de Deus latente. Ambos os mundos são abrangidos, um deles, o do terapeuta, de forma necessariamente recolhida e, a maior parte das vezes, oculta, algo que não sucede em A Cura, estratagema decerto usado para salvação da narrativa. Nesta relação transferencial acontece o que a escritora e psicanalista reclama de «excesso aparente da palavra amorosa», de «efusão sentimental histérica» ou de «angústia catastrófica e fóbica do abandono».[4] Dir-se-ia ia, no entanto, a desordenação angustiada de uma carência de amor de um sujeito in progress, mesmo disfarçada, que conduz à demanda de análise. Pela mão da palavra interpretativa passam ligações intersubjectivas, inscrições arcaicas de um pré-sujeito, fantasmas, fantasias, que, pelo despertar da imaginação, destapam monstros e os esclarecem.

Em A Cura, a interpretação é personagem principal. Trata-se de regressar ao que esquecemos, como se afirma no romance, e de conduzir o que seremos. Curiosamente, o Papa resiste a deitar-se no divã e ambas as personagens parecem detentoras da verdade absoluta, entre outros assuntos, no que se refere ao erotismo, à sexualidade, à fé. A fala torrencial do terapeuta ajuda à dramaturgia (ou não fosse Pedro Eiras um autor de teatro), retirando-lhe, todavia, alguma verossimilhança, bem como a crueza do silêncio presente em qualquer análise. Jamais um psicanalista falaria tanto – ou então seria um mau psicanalista –, nem sentenciaria os dotes do seu saber, algo a ler como provocação irónica deliberada: «A psicanálise diz mesmo…», «a psicanálise ensina…», etc. O Papa não é, por outro lado, um ser assexuado. A transcendência pode ser parte integrante da personalidade de um analisando convicto (não por acaso o Apocalipse é citado várias vezes em sinal de revelação), como o erotismo existe nos mais belos textos da tradição mística, do Cântico dos Cânticos a Santa Teresa D’Ávila, bem como na escrita barroca a lo divino de que o teatro e a poesia de Soror Maria do Céu são um exemplo notável.

É a questão da hipotética conciliação entre fé e psicanálise, entre literatura e psicanálise, a conduzir a acção. O interdito funciona, por outro lado, como nó do problema do enredo: deseja-se a idealidade (da paixão), a paz desviada, mas o processo de autoconhecimento tem obstáculos, brechas que vêm ao de cima no enredo. O fluxo caótico da consciência dá-se bem com a ilusão, tanto no papel como no divã, sendo a melancolia uma mola de arranque para uma narrativa mental constituída no processo analítico como uma escrita, o que não significa que estejamos perante literatura.

Um escritor pode ser ou ter sido um analisando, mas jamais a escrita se define como uma forma completa[5] de psicanálise, único método a reivindicar o inconsciente e a sexualidade como os dois únicos universos da subjectividade humana. A literatura não pode ser considerada um método psicoterapêutico, embora surja, por vezes, de um processo catártico (purga ou descarga emocional): funciona sem o elemento dialógico e o lugar transferencial, sem a análise didáctica. O autor não vive dentro de uma «clínica de escuta» de supressão de resistências, nem é necessariamente um neurótico. Escreve só, sem a desmontagem possível num divã e sem Édipo como um Deus.

Nem a neurose nem a psicose são, por outro lado, meramente explicáveis por um Édipo – a psiquiatria e a neurologia evoluíram para fora do território «papá-mamã», que possui também os riscos de um totalitarismo da influência. O esquizo, como afirmam Deleuze e Guattari, faz a viagem da intensidade e em intensidade. Escrevem: «Esses homens são como Zaratustra: atravessaram sofrimentos inacreditáveis, vertigens e doenças. Têm os seus espectros e têm de reinventar todos os gestos».[6]

São domínios que parecem quase indistintos na teoria de Julia Kristeva, os da literatura/filosofia e da psicanálise, mas não o são, neste romance também não, embora a ensaísta afirme que a «verdade analítica» está mais próxima da ficção narrativa do que do discurso da fé.[7]O processo de escrita, que lida também com a perda, a separação, o limite, a fronteira entre Eu e o Outro, tem necessidade de abrir espaços até para se contradizer, como este livro o demonstra: é essa a sua liberdade, vivacidade e violência. A literatura transfigura, a psicanálise elabora, transforma. Na impossibilidade de preenchimento dos vazios e enquanto fundador de narrativas simbólico-imagéticas, o escritor dir-se-ia um excelente exemplo da recriação de um Eu sublimado, o que não deixa de ter conotações fáusticas, mas não pode ser entendido – mesmo sendo um erudito na matéria – como um sujeito em ou de análise. Na literatura, usa-se a metáfora; na psicanálise a metáfora desmonta-se, até porque amiúde o sofrimento se prende ao corpo que somatiza. Podem, contudo, completar-se, libertando o que é da arte de sempre por meio da experimentação desejante na estranheza de um Eu arcaico.

Jamais a psicanálise pode ser considerada uma mera aventura intelectual e, se por aí passa (como acontece nesta narrativa em certos momentos), é para a desfazer, já que as desordens da imaginação – que combinam sistemas de representação transversais da linguagem – vão transformar-se, no caso de estarmos perante um transfert positivo, num discurso em acto. Não se trata de uma ciência, a psicanálise, mas de um saber, que usa as regras clássicas da epistemologia científica e a que não faltam técnicas terapêuticas. Não há cura, mas emergência de um sujeito de interpretação a partir da indagação no território do desejo mediado por um analista.

A psicanálise constitui, na verdade (com a linguística e a sociologia), e na sequência da separação feita em relação a um vasto continente teológico operado depois de Descartes, uma aproximação racional ao comportamento humano e às significações enigmáticas e contraditórias que lhe são próprias. Freud arredou-a da psiquiatria porque ela engloba um domínio que pode ser considerado «irracional» ou arriscar-se a dar o salto para o «sobrenatural», se evocarmos os estudos de Jung. Cristo é, na opinião do autor de Psicologia e Alquimia, o símbolo do Eu ou vice-versa, ilustra o arquétipo do Eu. Transfert e contra-transfert estabelecem-se, portanto, neste caso, no âmbito da palavra mais do que partilhada, transmutada.

A Cura passa por aí, pelo diálogo entre o Papa e o psicanalista, ficando o leitor situado não apenas no esquematismo da vulgata analítica: complexo de Édipo, pulsão de morte, líbido, etc... Atravessa-se para o lado de lá – transcendência e literatura. Freud assinalou que esta ultrapassou, tantas vezes, a psicanálise ao tocar aquilo que Blanchot chamou de interdito impronunciável. Pedro Eiras envolve-se na tarefa árdua de tentar entender qual a relação entre a linguagem e o mundo: segue o caminho da imaginação. Imaginar é trazer a nós as coisas na sua ausência, tarefa do romancista. A imaginação poderia definir-se como uma coisa mágica que faz aparecer o que não está lá, tentando roubar a luz ao escuro, sublimando. E sublimar vem de sublime – o que demonstra a inatingível beleza e perfeição que ultrapassam o humano: dir-se-ia um mecanismo de defesa pelo qual a energia psíquica negativa se move num sentido da menor dor.

         Se formos na linha da nossa angústia, desse humor do Outono e da Terra, mórbido e paralisante, dessa «felicidade de se estar triste», como escreveu Victor Hugo, lentificamos a nossa acção, mas se usarmos a FORÇA, alterando, de algum modo, os dados da nossa experiência temporal, indo contra o fluxo escuro, dá-se a sublimação. Nesse quadro, a escrita nasce, tantas vezes após um longo processo analítico como uma verdade dinâmica que põe em contacto a história de um transfert permanente entre o domínio da patologia e o do espírito. É isso que o psicanalista deste livro, que surpreendentemente se torna monge, tentará fazer – uma autobiografia, um «exercício espiritual libertador».[8] Não por acaso o Papa-analisando, diz : «O Senhor Doutor considera que eu tenho uma neurose. Eu considero que tenho temor a Deus. Para que havia eu de curar aquilo que me alimenta?»[9]

A frase poderia ter sido escrita – em território outro – por Foucault que considerou a neurose constitutiva. Na verdade, a intensidade do relacionamento do ser humano consigo próprio, enquanto objecto de conhecimento e de criação artística e literária, foi-se tornando numa forma de construção motivada pela sua quase impossível superação. O analisando é sempre aquele que não sabe o bastante, alguém que balança na corda da impermanência e duvida, algo que o Papa, neste romance, parece, em certos momentos, recusar. Inusitadamente, há como uma inversão dos papéis. Ambas as personagens despertam para um autoconhecimento, mas digamos que o Papa se detém perante uma impossibilidade, a de não poder prosseguir a análise por estar convicto da sua fé, suspendendo o seu processo reelaborativo enquanto ser de linguagem. Talvez lhe bastasse o silêncio interior e a inserção num edifício religioso, a Igreja.

O Papa não é apenas um homem de fé, mas de religião. Decide, por isso, neurótico ou não, abandonar a análise, mas não sem ir em busca da ovelha extraviada que acaba por vestir o hábito de monge. O psicanalista, que se encontrava encerrado na sua torre intelectual e discursória, dá uma volta de 180 graus, tomando o Papa como um pai simbólico e encaminhando-se para outra «verdade». O fecho do romance determinaria, na visão de Freud, a vitória da alienação, já que este considerava haver uma similitude entre fé e obsessão neurótica, religião e neurose colectiva. Para a Igreja, seria o triunfo da fé. Essa dubiedade permite-a a literatura.

O inconsciente tem razões que a razão desconhece…





[1]Sigmund Freud, L’Avenir d’une illusion, PUF, 2004.
[2] Sublinhado meu.
[3] Gilles Deleuze e Félix Guattari, O Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia 1, Lisboa, Assírio & Alvim, trad. de Joana Morais Varela e Manuel Maria Carrilho, 2004, p. 50-1.
[4] Julia Kristeva, Au commencement était l’amour – psychanalyse et foi, suivi de «À propos de l’athéisme de Sartre», Paris, Hachette, 1985, p. 13.
[5] Sublinhado meu.
[6] Gilles Deleuze e Félix Guattari, ibid., p. 136.
[7]Julia Kristeva, ibid., p. 35.
[8] Pedro Eiras, A Cura, Lisboa, Quidnovi, 2013, p. 227.
[9] Idem, ibid., p. 203.
Leia Mais
23 de junho de 2014
A desumanização, de Valter Hugo Mãe

A desumanização, de Valter Hugo Mãe




Os grandes escritores são aqueles que cunham uma linguagem própria e que conseguem manter sua identidade por praticamente toda a sua obra. Pois bem, “A desumanização”, de Valter Hugo Mãe, é um desses livros que vêm para solidificar a escrita de um autor português que repete, em seus textos, a maneira de escrever e os temas que lhe são caros.

Apesar de Valter Hugo Mãe, em suas entrevistas, afirmar que suas obras, sua escrita, a cada livro, possui uma nova linguagem, uma nova “maneira de ser”, é possível observar que a fluidez das palavras, o som delas é algo constante em todas essas linguagens inventadas para a construção de suas narrativas.

Parece que, a todo instante, o autor está preocupado em dar novas “formas” ou novos significados não somente às palavras, mas às maneiras de se perceber o que existe a nossa volta. Isso se dá, muitas vezes, através das observações feitas em torno de Halla, a criança que se desumaniza: “Ela achava que deus era o corpo deitado da Islândia”. Tentar poetizar deus no país onde a personagem nasceu é uma maneira de universalizar, talvez, a crença no infinito partindo de algo finito e, principalmente, terreno. Valter tenta poetizar o que talvez seja impossível e ao mesmo tempo uma das coisas mais poéticas de toda a existência humana: a vida.



A vida que não é mais da criança, pois a mãe lhe culpa pela morte da irmã gêmea, mas tem no pai a poesia na palma da mão, que não se perde, mas sempre esquecida em recortes de papéis jogados nos abismos das almas, essas que não se salvam frente à imensidão e da força do frio da Islândia. Parece que Halla vive como seu país, num estado catártico em que não é possível conceber sua própria alegria, como se a mortidão do cenário existente estivesse presente em si desde o momento da perda da irmã. É como se o calor concebido a dois não pudesse mais existir, mesmo que com o Einar, seu amante, pudesse se deitar à cama, mesmo sem ter idade ainda para tal. Assim, Halla, quando quer fugir de si, imagina que “Os mortos podem ser só um instrumento da morte. Como se existissem para aumentar o reino terrível que habitam”, pois as pessoas já não mais existem, e por isso ela deseja deixar o Einar e correr para o abismo, como se a fuga fosse necessária ao invés de viver, pois no mundo da Islândia, apesar das pessoas tentarem se amar, elas não existem assim como no resto do mundo, pois as pessoas “estão a acabar. Foram embora para dentro da memória. Foram-se ressentidas. Agora são apenas uma recordação, como serão também uma possibilidade.”, já que “Esse tempo é outro. Serve [apenas] para matar”.

Leia Entrevista feita com o autor AQUI


Leia Mais
22 de maio de 2014
Três fragmentos de "O vidro", de Luís Quintais

Três fragmentos de "O vidro", de Luís Quintais




§

Haverá biografia? Quando tinha seis ou sete anos, por aí, lançava bolas a uma parede, batia-as violentamente com uma raquete empenada, batia-as desalmadamente. As bolas voltavam a mim, agressivas, rápidas, capazes de me matar, não fosse eu hábil no desvio do momento que em mim se antecipava como uma voz que já não reconheço nem escuto. O demónio virá como uma bola de ténis quebrando o vidro da biografia. Milimetricamente, recordo-me. Por duas vezes não era uma bola de ténis, mas balas à procura de uma vítima, eu próprio, sentado no muro fronteiro à casa. Quero ainda quebrar o vidro. Vou quebrá-lo. Vou quebrar esta mão do lembrar.
[p. 79]

§
(Lisboa, Assírio & Alvim)

Brincava sobre o muro. Tinha carrinhos, pedrinhas, pensamentos obscurecidos por uma inocência, hoje, sem recorte. Dentro da casa, a família afadigava-se na contemplação da fuga através de um belo exercício de ânimo, festa e recusa, reconheço-o. Escutei um silvo e depois outro. Um bocado de estuque sobre a cabeça e alguém haveria de vir em meu socorro do vazio da casa que era como um saco sem fundo e sem propósito. «Uma bala perdida» e eu perdido para a vida, ou quase, por centímetros poucos e distracções cortezes e felinas.
[p. 80]

§

Brincava com uma lupa. O vidro ampliava a luz, desmaterializava os objectos. Como na rua Morgue, o símio vinha sobrepujado pelo medo. Mas a fome seria a resposta. A fome responde sempre ao medo. Somos criaturas apavoradas, diz-nos a evolução. Reconheci-lhe os movimentos na sala, a agilidade também minha, a fragilidade só aparente. Reconheci-o, tomando-o pelo olhar, como quem alicia um amigo para uma insensatez, para uma desrazão feliz e mortal. Ele aproximou-se com a serenidade de um humano que se compraz com a violência enquanto se debruça sobre a primeira refeição do dia. Os olhos revelaram-me o seu medo e, por instantes, sem decifração possível, entrevi-lhe o gesto rápido e quase indolor dos dentes sobre a pequena mão. Não fugi. Não lhe movi perseguição. Prisioneiro do espanto do sangue contornando a mão e a lupa, preenchendo todos os espaços dos objectos desmaterializados, vermelho, rubro como a intensidade que se solta da palavra rubra. Rubro é sinónimo de mordida, medo, fome e paralisia vital perante o sangue disperso sobre o vidro que amplia. Rubra é a violência de uma memória que vem depois. Rubra cabeça decepada do animal que saltou do medo para a mão e que se prestou ao cuidado de uma ciência tropical. Rubra a cicatriz que teima na mão, que se diluirá com a minha morte, como traço que se apaga, como dor murada pelo esquecimento.
[pp. 81-2]



                                      
[Luís Quintais] nasceu em 1968 em Angola. É antropólogo social e lecciona presentemente no Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra. Nesta qualidade, tem vindo a desenvolver investigação de arquivo e de terreno sobre o exercício e as implicações públicas e forenses da psiquiatria. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1995, A Imprecisa Melancolia (Teorema e Lumen). Em 1999 regressa à poesia, publicando Umbria (Pedra Formosa) e Lamento (Livros Cotovia). Posteriormente publicou Verso Antigo (2000), Angst (2003), Duelo (2004),  Canto Onde (2006) e Mais espesso que a água (2008), todos pelos Livros Cotovia. Com Duelo venceu da oitava edição do Prémio de Poesia Luís Miguel Nava referente a 2005. Luís Quintais tem um página pessoal na NET, participou no blog casmurro e no Webqualia. Actualmente, anima Os livros ardem mal .

Leia Mais
17 de março de 2014
Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno

Malhadinhas, o último na terra a ter medo do inferno



Danado aquele Malhadinhas de Barrelas, homem sobre o meanho, reles de figura, voz tão untuosa e tal ar de sisudez que nem o próprio Demo o julgaria capaz de, por um nonada, crivar à naifa o abdómen dum cristão. […]
Nas tardes de feira, sentado da banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdeal, desbocava-se a desfiar a sua crónica perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu.


O Malhadinhas é uma obra de referência da literatura em língua portuguesa. E aconselha-se a todos os que gostam de ler, mesmo aos que gostam de se vangloriar das suas leituras alternativas, conceito vago aqui atribuído aos textos que acompanham bem um cabelo despenteado com cuidado, umas calças rotas com desvelo ou a ligação a um coletivo (sim, coletivo) de produções orgulhosamente pouco assistidas. O Malhadinhas não é uma obra alternativa. Faz parte das correntes principais do bem escrever, do bem ler e do bem fazer literatura.

A narrativa acompanha a vida de um homem, António Malhadas, desde os tempos em que quer casar até à sua morte. Valores como os do amor, da lealdade e da fidelidade são abordados por António Malhadas, narrador-protagonista, que conduz o leitor pelos caminhos difíceis de montes, vales e conceitos que dão sal e sabor à vida humana. Para o leitor, no entanto, fica a parte da análise mais difícil e profunda. Afinal, é sempre o leitor que coloca o sal, a malagueta, a canela e o açúcar na confeção artística do escritor. Também por isto se pode medir a qualidade da escrita e da obra literária. Diga o leitor, por gentileza, que o que foi acabado de ser escrito não é verdade. Coloque todo o sal e toda a malagueta, alguma canela, um pouquinho de açúcar. Se, para este artigo, houver sal e malagueta, açúcar e canela, o que não é certo. Certo é que para esta obra de Aquilino Ribeiro tão conhecidos ingredientes existem e deverão ser usados. Com toda a certeza.

Aquilino Ribeiro não foge de expressões regionais para elevar a língua portuguesa a um nível de qualidade apenas ao alcance dos que escrevem muito bem. António Malhadas, «provido de lábia muito pitoresca», inicia a narração com um exemplar parágrafo do que acaba de ser constatado:

Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda e, por cada dia de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra ─ eu cá nunca me avistei com ele ─ mas a verdade é que a neve vinha, com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.

Depois da difícil tarefa de se casar, que envolveu fugas e ameaças de violência, António Malhadas viaja pelo norte de Portugal desenvolvendo a sua atividade de almocreve, enquanto se vai envolvendo em brigas e disputas, consequência do seu espírito conflituoso e do seu sentido de justiça.
O leitor de O Malhadinhas que conhece o obra de um outro Ribeiro, João Ubaldo, não deixará de se lembrar de Sargento Getúlio, do seu monólogo e de um comportamento que, podendo ser criticável, se guia por um código de honra e por um sentido de justiça próprio de quem tem a lealdade como princípio norteador da vida. A ação de António Malhadas e de Getúlio dos Santos Bezerra pode ser criticada? Pode e deve. Coloque nelas o leitor o sal e a malagueta que achar conveniente. Alguma canela. Talvez algum açúcar. Qualquer um dos autores deixou obra para ser saboreada. Com diferenças, com parecenças, com qualidade e com armas.
António Malhadas, entre muitas referências a armas de fogo e armas brancas, ensaia comparação com a espada mitológica que Rolando recebeu de Carlos Magno:

Que a minha faca era afiada e leveira … Se afiada a trazia muitas vezes tive pena de não ter à mão a catana de Durandarte. Há encontros na vida e pendências que um homem honrado não provoca nem espera, e que só se resolvem de pulso rijo e botando as unhas a uma arma. A faca, mesmo assim, nunca a saquei para homem cordo de génio e liso nas contas, nem para jagodes pobre do juízo ou com água chilra nas veias.

Esta viagem pela vida do «ti Malhadinhas», com a sua linguagem de cariz popular, é bem real. Tão real que chegou ao fim. A morte já a sentia António Malhadas quando, doente na cama, lamentou a recusa da mulher, Brízida, em lhe chegar a arma: «Nem da espingardinha me deixas despedir. Olha que a não levo para a tumba, alma de Barbazu!»
Se não foi desta que morreu, foi passado algum tempo. Não muito, mas o suficiente para se enfurecer com quem já o dava por morto e ele a sentir-se ainda «para lavar e durar». Mas uma tarde …

Provecto dos anos, uma tarde, ergueu-se do borralho e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho do marmeleiro. Andava há dias a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados. Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara, codejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago, farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E ─ o justo juiz lhe perdoe as facadas que as não deu em nenhum santo ─ nem se sentiu a atravessar as alpoldras duma margem para a outra do negro rio.
Leia Mais
11 de março de 2014
manuel, o menino que queria ser santo

manuel, o menino que queria ser santo



Eu não sabia muito sobre o primeiro livro de Valter Hugo Mãe, nada mais do que o nome que trazia na capa – “Nosso reino”. Não imaginava que manuel fosse amigo de um menino que queria ser santo, que desejava ser santo e que entendia que o homem mais triste do mundo estava sempre a espreitar as pessoas que tinham em si um ponto vermelho no cu.

Tendo lido já três livros de Valter Hugo Mãe, sabia que não haveria decepção, pois sua escrita, em meu ponto de vista, já tomou níveis que poucos escritores conseguem. Li-o desesperadamente como se a vida de manuel ou de carlos ou do senhor hegarty ou de benjamin, o menino que queria ser santo sem saber como o ser, dependessem de mim.

Algumas partes me impressionaram mais do que outras, como a consciência que o menino tinha em saber que as pessoas deveriam se amar e que não era necessário ir até a igreja para que pudessem ser salvas sem ter que se suicidar, como ele o tentara, como a louca do vilarejo já o tinha feito.

manuel e eu, caminho acima até casa, fomos sorrir estupefactos e a minha teoria era clara, devemos ser bons, manuel, teremos um amor infinito por todas as pessoas, e as pessoas saberão o que é um amor infinito e tombarão de paixão umas pelas outras até salvarem as suas almas

Entendia ele que de nada adianta andar com as boas pessoas, com os puros, uma vez que são os necessitados de espírito que dependem do auxílio dos santos, ou dos meninos benjamins que, aos seis anos, já não entendem e entendem o que fazem e o que não fazem, como os ovos das galinhas que não paravam de serem postos pelas mesmas.

mas que para se ser santo havia de se estar com os pecadores, que os puros não precisavam de mais nada.

Benjamin e Manuel mesmo tentando ser santos, aquele conseguindo mais do que esse, assim era o que parecia, foram sofrendo na alma o quão difícil era ser bom, o quão difícil era viver entre os cristãos e os não cristãos, pois em algum momento todos acreditavam em alguma coisa. Como Carlos que falando palavras que machucavam Benjamin sentiu nas próprias partes, superiores e inferiores, o preço que os pecadores muitas vezes têm de sentir para poder ascender aos céus.

A santidade era uma coisa para todos os dias, mas era difícil. Porque a vontade de me manter santo não me assistia perante todos da mesma forma, alguns conseguiam destruí-me por dentro a esperança de os salvar. Já o padre exigira o meu infinito perdão naquele domingo, depois, com a chegada do carlos tudo se complicava

Foi mais ou menos assim que compilei “Nosso reino”, romance de estreia de Valter Hugo Mãe, escritor português, que no meu parco entendimento, é um dos melhores escritores dos últimos dez anos, diga-se assim. Não porque conseguiu atingir a uma enorme parcela dos leitores brasileiros com seu carisma, mas porque sua escrita é muito mais do que, como disse recentemente em entrevista a um programa de tevê, ser considerado apenas o escritor das letrinhas minúsculas.

É fato que Valter busca atingir o homem, não com toda a força arrebatadora que nós mesmos criamos contra nós, mas para que possamos ter o mínimo de consciência sobre nós. Afirmo isso sempre que falo nele, pois é isso que sinto com maior força, mais do que vários outros autores desta geração que tentam construir isso com a escrita. E temos que estar sempre a nos perguntar se nos conhecemos, se somos o que achamos em em nosso âmago, em nosso íntimo, para que quando morrermos não fiquemos sós, não importa se cremos ou não no depois, o que importa é não nos sentirmos sós por muito tempo, assim como os irmãos mais novos do menino que queria ser santo começavam a se sentir:

Benjamin, que acontece se morrermos e não houver ninguém no céu que nos conheça.
Leia Mais
26 de fevereiro de 2014
Claraboia: romance de juventude de José Saramago

Claraboia: romance de juventude de José Saramago



Em 1947 o jovem José Saramago publica o seu primeiro romance inicialmente chamado A viúva, que por motivos editoriais mudou o título para Terra do Pecado. Interessante é que a publicação de seu primeiro romance sairia sem direitos autorais. Munido pela felicidade de ser um autor publicado, Saramago aceita as condições. A felicidade é tanta que entre os anos 1947-1953 o jovem escritor compõe outros romances, muitos desses ficaram inacabados. O romance que comento foi entregue pelas mãos de um amigo a uma editora. A resposta a essa publicação Saramago obteve quase trinta anos depois, já romancista consagrado e respeitado. Porém o autor decidiu que o romance rejeitado nos anos cinquenta permaneceria inédito enquanto ele vivesse, e que somente os donos de seu espólio decidirão se o livro deveria ser publicado ou não. Assim quis o autor assim aconteceu, em 2011 a herdeira de seu espólio Pillar Del Rio autorizou a publicação de Claraboia que inicialmente foi publicada no formato digital, depois a publicação em formato físico.

Depois de Terra do Pecado Saramago publicaria peças de teatro; poemas; crônicas e contos. O gênero romance voltaria a ser trabalhado no livro Manual de Pintura e caligrafia (1977), ainda assim esse romance apresenta características de ensaio e autobiografia. Em 1980 Saramago publica Levantado do Chão, e com a publicação deste romance alcançaria o respeito de inúmeros críticos literários. Seu nome aparecia mundialmente após a publicação de Memorial do Convento (1982). O autor inicia a década de 90 com uma polêmica o livro Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) teve o seu nome retirado pelo governo português de um concurso literário europeu. Após este incidente o autor muda-se de Portugal para as ilhas Canárias, especificamente na ilha de Lanzarote, onde permaneceu até a sua morte em 2010. Em 1995 publica o Ensaio sobre a Cegueira, esse livro mudaria a sua própria maneira de compor romances, em 1997 publica Todos os Nomes e em 1998 conquista o Prêmio Nobel de Literatura.

Quando Saramago formulou o romance Claraboia ele não tinha todo esse reconhecimento literário ainda. Para ele se tornar um autor respeitado foi necessário anos de trabalho e estudo dedicados à literatura. Em 1953, Saramago era mais um jovem escritor em formação sem fama e reconhecimento internacionais. O escritor português com a publicação de Terra do Pecado havia conseguido alguns elogios. Seu livro passou despercebido para muitos leitores portugueses. A não publicação de Claraboia causou em Saramago um silêncio literário de quase vinte anos. E como já comentado, o autor só voltaria a explorar o romance quase trinta anos depois. O original desse livro foi assinado sob o pseudônimo “Honorato”, o livro é dedicado à memória de seu avô materno Jerônimo Hilário, figura essencial para a formação do autor português. A simplicidade e sabedoria de seu avô ecoariam por toda a sua vida, em especial em seus romances. Não é por acaso que a maioria dos heróis na literatura saramaguiana são pessoas do povo. Isso não é diferente no romance Clarabóia. Nessa obra alguns aspectos que tornariam Saramago um escritor respeitado estão lá, dentre esses a sabedoria popular. Quer um exemplo? Leia abaixo o seguinte trecho em que o personagem, que passa por problemas em seu casamento, fala:

Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. Para nunca mais! Talvez para nunca mais!... Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste, hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.

Impossível não se lembrar da sabedoria de Baltasar Sete-luas (Memorial do Convento), de Cipriano (A Caverna), de Maria de Magdala(O Evangelho segundo Jesus Cristo), de Eva (Caim). Todos esses personagens emergem da classe não-dominate e são eles os mais sábios em seus romances. A sabedoria do povo é sempre a mais aplaudida na obra saramaguiana. O autor sempre dizia que caso alguém estivesse com preguiça de ler seus livros, bastava ler a epígrafe para saber da estória do livro. Em Claraboia acontece o mesmo, eis a epígrafe:

Em todas as almas, como em todas as casas,
Além da fachada, há um interior escondido.
- Raul Brandão.

O interior dos personagens é invadido pela claraboia que se estende no teto do sobrado. É um romance sobre o cotidiano da vida aprofundado pelo interior de seus personagens. Os moradores do prédio são: Silvestre e Mariana; Abel; Adriana, Isaura, Cândida e Amélia; Lídia e Paulino; Carmem, Emílio e Henrique. Os problemas da vida apresentados por estes personagens não fogem ao cotidiano da vida: prostituição; casamento desgastado; problemas financeiros; assedio no trabalho. O ambiente da narrativa é o ano de 1952 na primavera lusitana. O prédio em que moram os personagens localiza-se em uma rua de um bairro simples de Lisboa.


Assim como os livros seguintes, os personagens de Claraboia são essencialmente humanos. Essa característica humanista será o ponto de partida para a obra futura O Evangelho Segundo Jesus Cristo.  Uma palavra permeia muito os diálogos filosóficos do andante Abel e do sapateiro Silvestre: Esperança. Eis um trecho de um desses diálogos:

Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.

Assim como os futuros personagens criados por Saramago, os personagens deste romance são essencialmente humanos e sensíveis a complexa maldade. Os conflitos humanos estão entre as temáticas debatidas por estes personagens. Assim como o autor, esses personagens sentem a necessidade de modificar o mundo. Mas assim como seu primeiro romance, Terra do Pecado, este Claraboia apresenta muitos sinais de influência de Eça de Queirós e do romance realista do século XIX como a crítica social e as descrições físicas e psicológicas de personagens. Porem, Saramago não abusa das descrições, as faz de maneira superficial.

Ao leitor acostumado ao estilo anárquico de Saramago estruturar as suas narrativas, encontrará um livro diferenciado pela correta pontuação e pelos parágrafos bem ordenados. Porém o mesmo narrador em terceira pessoa onisciente, que comenta a tudo que vê está presente na obra, comentando e esclarecendo os fatos que narra. Mais que um achado histórico para os estudiosos e amantes da produção literária de José Saramago, este livro merece ser lido não somente por ter sido escrito por um autor que futuramente seria um Nobel, a obra é essencial por conter um bom enredo e bons personagens.

É válido lembrar que na época em que o escritor pleiteou a publicação deste livro, o país estava vivenciando a ditadura de Salazar, e nesse período o governo ditatorial pregava a ordem e os bons costumes. O enredo de Claraboia com suas temáticas cotidianas: casamentos mal-sucedidos e problemas financeiros. Não era bem essa a imagem que um ditador quer passar de seu país. Talvez tenha sido esse o motivo do engavetamento deste livro.

É um livro que nos revela um autor jovem em fase de formação. Porém o livro desassossega o leitor, pois durante e depois da leitura do livro, ficamos a querer invadir cada vez mais o universo literário de José Saramago.

Leia Mais
17 de dezembro de 2013
Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares que “Não tem o direito de escrever tão bem”

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares que “Não tem o direito de escrever tão bem”






Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, Ernst atendeu.

Foi no dia 29 de maio que Ernst pensou em suicidar-se. Foi também nesse dia que Mylia resolveu sair de casa ainda de noite. No mesmo dia, Kaas foi assassinado, Busbeck usou os serviços de uma prostituta e Hinnerk foi morto.

Kaas é filho biológico de Ernst e Mylia que se conheceram no Hospício Georg Rosenberg. Antes disso, com dezoito anos, Mylia tinha sido levada ao médico pelos pais. O médico é Theodor Busbeck. Theodor desenvolve um estudo sobre o mal e o horror ao longo da história.

No capítulo IV, a que Gonçalo M. Tavares deu o nome de Theodor, Hanna, Mylia, no sub-capítulo 2, Mylia encontra-se pela primeira vez com o médico.

Com dezoito anos Mylia sabia já como humilhar os homens. Conhecia o intervalo existente entre a sedução e a repulsa e sabia manipular esse espaço: reduzindo-o, ampliando-o, fingindo que ele não existe para logo a seguir o exibir de modo ostensivo. Só se humilha quem se aproxima, sabia já por instinto Mylia, e preparava-se assim para exercer essa habilidade perversa  de puxar primeiro para depois empurrar – sobre aquele médico que avançava, logo nos primeiros segundos após a saída dos seus pais, para algo que Mylia receava e desejava: um interrogatório.
─ Sou esquizofrénica ─ disse ela, sem deixar que o médico Theodor Busbeck abrisse a boca. ─ Li nos livros. Sei bem o que sou. Sou esquizofrénica, louca. Vejo coisas que não existem e sou perigosa. Quer-me curar?

Menos de dois anos após este primeiro encontro, e com grande espanto de ambas as famílias, Theodor Busbeck e Mylia casavam-se.

Ao oitavo ano de casamento, porém, Theodor Busbeck decide internar Mylia «no piso dois do Hospício Georg Rosenberg, o mais conceituado da cidade». Foi lá que Mylia conheceu Ernst Spengler e foi lá que engravidou deste. Ainda casada, coube a Theodor Busbeck decidir o futuro de um filho que não era seu. Busbeck decide divorciar-se e perfilhar o bebé.

Narrativa densa sobre a condição humana e o poder do acaso, Jerusalém dirige o leitor por uma cidade de múltiplos nomes  talvez a razão para o autor não lhe chamar nome nenhum  onde não há vilões sem coração nem vítimas sem mácula.

A principal preocupação de Jerusalém não é apresentar pessoas, mas antes dissecar-lhes os sentimentos, as aparências, as reações, abrindo deste modo uma janela através da qual podem ser observadas e compreendidas. 

29 de maio. Hanna é a prostituta. Hinnerk conhece Busbeck quando este se encontrava com a prostituta, momentos antes de usar os seus serviços. Por isso, Hinnerk afasta-se. Dirige-se para a igreja. Por essa altura, já Kaas, o filho de Mylia e Ernst que Busbeck perfilhou, está morto numa ruela da cidade. Hinnerk encontrou Mylia e Ernst perto da igreja. Hinnerk Obst trazia uma pistola e isso excitava-o. Mylia está caída e Ernst pede-lhe ajuda porque sozinho não a consegue levantar. Hinnerk sentia-se agradado.

Aquela sensação de estar a ajudar alguém, por pouco significativa que fosse essa ajuda, parecia ter modificado algo no seu organismo: um desvio da excitação. Agradava-lhe aquela disposição para ser útil e agradava-lhe os olhares simples daquele casal.

Entretanto, começam os três a brincar com a arma. Quando Mylia a tem na mão, aponta-a à cabeça de Hinnerk. «E se eu disparar? ─ pergunta Mylia àquele homem que estranhamente a começa a atrair e a excitar. Dispare ─ diz Hinnerk, divertido ─ , dispare!»

A história está quase no fim. A frase seguinte é já em novo capítulo, breve e penúltimo de um enredo trágico e violento que está a terminar: «Mylia tem quarenta e oito anos e está fechada na cela de um hospital-prisão. Tem ainda alguns anos de pena para cumprir […]».

Após a prolepse, a ação regressa ao fatídico dia 29 de maio, no momento em que Mylia se dirige para a igreja. Alguém se encontra no seu interior.

A história termina assim:

O som de uma chave na fechadura, alguém abre ligeiramente a porta, muito pouco: ela vê uns olhos a espreitar na sua direção, com medo, cautelosos. Mylia sente que não suporta mais, sente-se a desmaiar, a mão direita tensa segura a arma. De dentro da igreja os olhos não a largam, mas ainda não abriram a porta. Mylia tem de falar para quem está do outro lado da porta da igreja. Ganha forças. Procura dentro do corpo a voz mais firme:
─ Matei um homem ─ diz Mylia. ─ Deixam-me entrar?

Publicado pela primeira vez em 2004, Jerusalém recebeu os mais importantes prémios em língua portuguesa: Prémio Ler/Millenium BCP 2004, Prémio José Saramago 2005 e Prémio Portugal Telecom de Literatura 2007.

José Saramago, aquando da entrega do prémio que leva o seu nome, disse a respeito da obra e do autor: «Jerusalém é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!»

29 de maio. Uma pergunta deve ser feita: quem matou o jovem Kaas?

29 de maio. Outra pergunta deverá ser feita: quem matou Hinnerk Obst?


Leia Mais
18 de novembro de 2013
História de liberdades e ansiedades, a que José Cardos Pires deu o nome de ‘O anjo ancorado’

História de liberdades e ansiedades, a que José Cardos Pires deu o nome de ‘O anjo ancorado’


«Num dia de abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um automóvel aberto, rápido como o pensamento.» É com a referência ao mês e ao ano em que decorre a ação que José Cardoso Pires inicia aquilo a que chamou não «uma fábula social mas simplesmente uma fábula, no sentido em que se trata de uma narração de sucessos inventados para instruir ou divertir (Dic. Morais)».

Esta é uma daquelas obras em que as referências temporais não têm qualquer relevância. Se de outras já foi dito que passaram incólumes os tempos, salientando-se desta forma o seu caráter intemporal e a sua intensidade literária, desta se pode afirmar que as datas nada interessam, independentemente de qualquer análise qualitativa. Quando se diz que nada interessa, entenda-se que nada interessa até novembro de 2013. Um cachimbo que o condutor do automóvel trazia «nos dentes», pode fazer o leitor protestar esta verdade. Isto, se cuidar já não ser moda e preferir colocar outros fumos na boca de quem, atualmente, goza os prazeres de uma vida rica e ao sabor dos ventos e vontades do momento.

(«Que faz você amanhã?»
«Não sei. E você?»)

Para o rigor ser absoluto, há que acrescentar a esta singular lista de marcas possíveis de uma época, o esclarecimento de que determinado garoto não se espantou «grandemente de ver uma senhora de calças e a fumar». O Talbot Lago não entra na lista. Se era carro de luxo, assim continua a ser.

João e Guida conheceram-se em casa de amigos comuns. Chegam à praia de São Romão num Talbot Lago. Por esta altura, «tinham-se visto duas, três vezes, não mais». Recorrendo à analepse, recurso que também usa para descrever as origens de João, José Cardoso Pires introduz o leitor na casa de amigos onde se conheceram, na Parede, «uma vivenda apalaçada, estilo da burguesia republicana, lago no jardim e caramanchão, como as havia antigamente em Algés e ainda hoje há no Gerês e em Sintra, por exemplo.»


João vai fazer pesca submarina. Trouxe espingarda, barbatanas, faca, escafandro e garrafa de ar comprimido. Guida passa-lhe um óleo para o aquecer. Percorre o corpo do homem em diferentes velocidades, ao sabor de palavras e pensamentos. «A mão, adivinhava-se, tinha-se tornado pensativa.»

Entretanto, apareceu por ali o garoto que não se espantou «grandemente de ver uma senhora de calças e a fumar». Aproximou-se com cuidado. Não parara ali para incomodar.

O garoto parara ali, sim, mas por uma razão muito dele: porque trazia um recado importante. Esperto como era, lá resolveu que o melhor que tinha a fazer era pôr-se de largo e só se apresentar quando tudo estivesse em ordem. Calma, portanto.
Se bem o pensou melhor o fez. E quando veio ao pé dos viajantes estendia uma amostra de renda na palma da mão. Era o recado.
«Renda de Peniche. Manda a minha irmã…»
«Mas isso nem está acabado, pequeno.»
«Não demora. A minha irmã vai comprar linha e faz o que for preciso. Renda para lençóis, renda para almofadas… para tudo o que a senhora quiser. A minha irmã já trabalhou para fora.»
«Deixa, não vale a pena.»
«Compre lá, senhora.»


Depois de alguma insistência, o rapaz consegue algum dinheiro e regressa a casa para que a irmã acabe o trabalho. Durante a tarde, ainda há tempo para que um velho habitante da aldeia persiga um perdigoto, jovem pássaro, frágil, mas que o arrasta até um precipício. O velho evita a queda e ainda consegue apanhar a pequena ave. Já tinha petisco.

Guida paga ao velho para que o pássaro não seja morto. O velho acede ao pedido.

Quando decidem abandonar o local, o garoto ainda não tinha regressado com a renda. O casal não se preocupa. A preocupação está em casa de Ernestina que tenta terminar com rapidez o trabalho. Na taberna, para onde foi o velhote do perdigoto, fala-se do mero apanhado por João e do futuro.

«Se visses o mero que os diabos apanharam.»
«À linha?»
«Querias. Um mero daqueles apanhados à linha. Foi mas foi à espingarda. Por baixo de água.»
O outro abanou a cabeça. Pretendia dizer com isso: «Ah, para aí sim.»
«Agora», tornou-lhe o velho, «é moda pescar com essas artes.»

O taberneiro está mais interessado no futuro e na clientela. Sonha com eletricidade, telefonias «por causa dos relatos da bola», telefone. O velho não liga os benefícios à vinda de gente.

«Esses banhistas quando vêm para aqui é para estarem à vontade. Interessa-lhes lá o telefone ou a eletricidade ou todas essas coisas que eles têm em casa. Querem é sossego, entendes? Sossego e bons ares.»

Entretanto, o casal começa a descer. Em breve passará pela aldeia. Irão parar? Antes, porém, soltam o perdigoto. Liberdade para o passarinho. Se a vida fosse tão linear como as vontades tão claras quanto alienadas de Guida, não se encontrariam letreiros a informar que «hoje há passarinhos.» A fome não desapareceria, mas a informação da sua existência seria ofuscada pela consciência endinheirada que, repleta de uma urbanidade distraída, observa a pobreza com o mesmo nojo com que se observa a estupidez.

O dia e a história terminam de forma inesperada. O velho regressou ao pinhal e voltou a apanhar o perdigoto.

«Filho da mãe», disse Guida.
O companheiro lançou uma risada seca:
«Para que saiba. Por sete e quinhentos não é possível manter o mundo quieto.»

Nos últimos parágrafos do texto aparecem, para além do velho e do casal, o garoto da renda, sua irmã, sua mãe, o taberneiro que ansiava por grandes quantidades de banhistas, vizinhos e outras pessoas que apareceram.

Entraram de rompante na aldeia. A meio da rua saltou-lhes o garoto dessa tarde, a acenar com o embrulho da renda. Nem afrouxaram. Da janela, a Ernestina, e da porta, a mãe, ambas viram o pequeno espalmar-se por inteiro contra a parede para não ficar esmagado. De toda a parte correu gente a ampará-lo:
«Tu magoaste-te, menino?»
Mãe, irmã, vizinhas e tendeiro, não houve quem não ficasse atordoado, como se o automóvel, ao passar, lhes tivesse aberto o chão debaixo dos pés.
«Selvagens», murmurou o taberneiro, virando-se para o belo carro vermelho que ia longe, na estrada. «Selvagens», berrou logo a seguir, com toda a raiva que cabia dentro dele.
[…]
Dentro da casa, encostada ao rolo de bilros, Ernestina apertava a renda nos dedos. Chorava em silêncio.
No automóvel, a caminho de  Lisboa:
«Que faz você amanhã
«Não sei. E você?»



Leia Mais
Copyright © 2012 LiteraturaBr All Right Reserved
Designed by Bravo WebDesign | CBTblogger