Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares que “Não tem o direito de escrever tão bem”
Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta,
preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas,
três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze,
Ernst atendeu.
Foi no
dia 29 de maio que Ernst pensou em suicidar-se. Foi também nesse dia que Mylia
resolveu sair de casa ainda de noite. No mesmo dia, Kaas foi assassinado,
Busbeck usou os serviços de uma prostituta e Hinnerk foi morto.
Kaas é
filho biológico de Ernst e Mylia que se conheceram no Hospício Georg Rosenberg.
Antes disso, com dezoito anos, Mylia tinha sido levada ao médico pelos pais. O
médico é Theodor Busbeck. Theodor desenvolve um estudo sobre o mal e o horror
ao longo da história.
No capítulo IV, a que Gonçalo M.
Tavares deu o nome de Theodor,
Hanna, Mylia, no sub-capítulo 2, Mylia encontra-se pela primeira vez com o
médico.
Com dezoito anos Mylia sabia
já como humilhar os homens. Conhecia o intervalo existente entre a sedução e a
repulsa e sabia manipular esse espaço: reduzindo-o, ampliando-o, fingindo que
ele não existe para logo a seguir o exibir de modo ostensivo. Só se humilha
quem se aproxima, sabia já por instinto Mylia, e preparava-se assim para
exercer essa habilidade perversa – de puxar primeiro para depois empurrar – sobre aquele médico que avançava,
logo nos primeiros segundos após a saída dos seus pais, para algo que Mylia
receava e desejava: um interrogatório.
─ Sou esquizofrénica ─ disse
ela, sem deixar que o médico Theodor Busbeck abrisse a boca. ─ Li nos livros.
Sei bem o que sou. Sou esquizofrénica, louca. Vejo coisas que não existem e sou
perigosa. Quer-me curar?
Menos de dois anos após este primeiro
encontro, e com grande espanto de ambas as famílias, Theodor Busbeck e Mylia
casavam-se.
Ao oitavo ano de casamento, porém,
Theodor Busbeck decide internar Mylia «no piso dois do Hospício Georg
Rosenberg, o mais conceituado da cidade». Foi lá que Mylia conheceu Ernst
Spengler e foi lá que engravidou deste. Ainda casada, coube a Theodor Busbeck
decidir o futuro de um filho que não era seu. Busbeck decide divorciar-se e
perfilhar o bebé.
Narrativa densa sobre a condição
humana e o poder do acaso, Jerusalém dirige o leitor por uma cidade de
múltiplos nomes – talvez a razão para o autor não lhe
chamar nome nenhum – onde não há vilões sem coração nem
vítimas sem mácula.
A principal preocupação de Jerusalém não é apresentar pessoas, mas antes
dissecar-lhes os sentimentos, as aparências, as reações, abrindo deste modo uma
janela através da qual podem ser observadas e compreendidas.
29 de maio. Hanna é a prostituta.
Hinnerk conhece Busbeck quando este se encontrava com a prostituta, momentos
antes de usar os seus serviços. Por isso, Hinnerk afasta-se. Dirige-se para a
igreja. Por essa altura, já Kaas, o filho de Mylia e Ernst que Busbeck
perfilhou, está morto numa ruela da cidade. Hinnerk encontrou Mylia e Ernst
perto da igreja. Hinnerk Obst trazia uma pistola e isso excitava-o. Mylia está
caída e Ernst pede-lhe ajuda porque sozinho não a consegue levantar. Hinnerk
sentia-se agradado.
Aquela sensação de estar a
ajudar alguém, por pouco significativa que fosse essa ajuda, parecia ter
modificado algo no seu organismo: um desvio da excitação. Agradava-lhe aquela
disposição para ser útil e agradava-lhe os olhares simples daquele casal.
Entretanto, começam os três a brincar
com a arma. Quando Mylia a tem na mão, aponta-a à cabeça de Hinnerk. «E se eu
disparar? ─ pergunta Mylia àquele
homem que estranhamente a começa a atrair e a excitar. Dispare ─ diz Hinnerk,
divertido ─ , dispare!»
A história está quase no fim. A frase
seguinte é já em novo capítulo, breve e penúltimo de um enredo trágico e
violento que está a terminar: «Mylia tem quarenta e oito anos e está fechada na
cela de um hospital-prisão. Tem ainda alguns anos de pena para cumprir […]».
Após a prolepse, a ação regressa ao
fatídico dia 29 de maio, no momento em que Mylia se dirige para a igreja.
Alguém se encontra no seu interior.
A história termina assim:
O som de uma chave na
fechadura, alguém abre ligeiramente a porta, muito pouco: ela vê uns olhos a
espreitar na sua direção, com medo, cautelosos. Mylia sente que não suporta
mais, sente-se a desmaiar, a mão direita tensa segura a arma. De dentro da igreja
os olhos não a largam, mas ainda não abriram a porta. Mylia tem de falar para
quem está do outro lado da porta da igreja. Ganha forças. Procura dentro do
corpo a voz mais firme:
─ Matei um homem ─ diz Mylia.
─ Deixam-me entrar?
Publicado pela primeira vez em 2004, Jerusalém recebeu os mais importantes prémios em
língua portuguesa: Prémio Ler/Millenium BCP 2004, Prémio José Saramago 2005 e
Prémio Portugal Telecom de Literatura 2007.
José Saramago, aquando da entrega do
prémio que leva o seu nome, disse a respeito da obra e do autor: «Jerusalém é um grande livro, que pertence à
grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever
tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!»
29 de maio. Uma pergunta deve ser
feita: quem matou o jovem Kaas?
29 de maio. Outra pergunta deverá ser
feita: quem matou Hinnerk Obst?


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