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2 de dezembro de 2014
Revista de estudos saramaguianos

Revista de estudos saramaguianos





O que é a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS

É notável que desde o final dos anos 1980 a produção acadêmica em torno da obra de José Saramago, até então quase inexistente, tem se avolumado numa proporção sem limite calculável. Entretanto, uma rápida busca nos arquivos de universidades, em revistas acadêmicas, em eventos organizados, nos coloca sempre diante de uma quantidade surpreende de estudos e abordagens diversos.

A REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS quer, assim ser um espaço em torno desse interesse em manter vivo o legado construído pela literatura saramaguiana; trata-se de uma revista acadêmica, com tiragem semestral, gratuita e eletrônica cuja proposta é a publicação de ensaios, documentos e recensões críticas que tenham como escopo a obra de José Saramago. Seu objetivo é o de fortalecer os estudos, intercambiar pesquisas e dar a conhecer as diversas possibilidades de leituras em torno da obra do escritor português.

A primeira edição teve uma tiragem impressa pela Editora Patuá apresentada em dois volumes distintos: um em língua portuguesa e outro em língua espanhola, as duas línguas em que circularão os textos publicados na revista.

A parceria editorial é dada entre investigadores da obra de José Saramago de Brasil, representado pelo professor Pedro Fernandes (mentor da ideia), Argentina, pelo professor Miguel Koleff e Portugal, pela Fundação José Saramago.


De onde vem a ideia de sua criação

A ideia não nasceu ao acaso e nem se construiu sozinha. Ela é esforço de uma coletividade. A proposta que começou a ser costurada pelo professor Pedro Fernandes na noite de vigília quando lhe veio, de fato, a consciência da partida Saramago naquele 18 de junho de 2010 e lembra ser este também um produto do “que assumiu de si para com os livros do escritor português que estavam à sua frente naquela ocasião”; “a profissão de fé”, segundo ele próprio chama foi “baseada tarefa de todo crítico, que é a de dar a conhecer, pela via mais simples, o esforço de outros homens cujo desejo é sempre o de dizer sobre eles e o mundo onde estão”.

Ele e Miguel Koleff, editores da ideia, compreendem e desenvolvem no texto de apresentação da primeira edição para a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS que “a tarefa de todo estudioso da literatura é irmanar-se com a obra não para catar louros de glória, mas para continuar a exercer as revisões sempre necessárias, hoje mais que sempre, de um extenso, ardoroso e mais complexo itinerário, o de humanização – esse que vimos construindo entre erros e acertos desde quando assumimos a consciência sobre o mundo e demos por inaugurado o império da razão”. 

Pedro Fernandes é pesquisador da obra de José Saramago desde o curso de Licenciatura em Letras, quando conheceu o trabalho do escritor português através da leitura de O evangelho segundo Jesus Cristo. Tem quase oito anos que se dedica a investigação da literatura saramaguiana. Autor da ideia confessou-a ao professor Miguel Koleff, também há muito um leitor e dedicado estudioso da obra de Saramago, com organização de trabalhos de ampla significação para a fortuna crítica do escritor como o Diccionario de Personajes Saramguianos e a coleção Apuntes Saramaguianos a partir de um grupo de pesquisa dedicado à obra do Prêmio Nobel. Juntos, a ideia foi levada ao encontro de Pilar del Río, quem, desde que tomou contato mais concreto com a proposta, em novembro de 2013, se manteve atenta ao andamento da edição ora publicada e abriu, como presidenta da Fundação José Saramago,  todo apoio com tudo que estivesse ao seu alcance.

Dados sobre a primeira edição

A REVISTA teve uma primeira apresentação no âmbito de abertura pelas celebrações do Dia do Desassossego, data pensada pela Fundação José Saramago, que este ano integra a lembrança pelo 92º aniversário do escritor. A edição reúne ensaios de pesquisadores de Brasil, Portugal e Argentina. Cada autor, à sua maneira, abre-se para algum elemento da obra literária saramaguiana, de modo a elucidar o itinerário multifacetado como é o da literatura de Saramago. Aí estão textos de Ana Paula Arnaut, Carlos Reis, Teresa Cristina Cerdeira, Conceição Flores,
Fabiana Takahashi, Salma Ferraz, Miguel Koleff, Maria Victoria Ferrara,
Pedro Fernandes e Lílian Lopondo.

Boa parte dos nomes que escrevem para esta primeira edição integra como corpo científico para a REVISTA composto ainda por professores e pesquisadores de várias instituições brasileiras, portuguesas e estrangeiras (conforme se pode ler no próximo item). Esta edição, portanto, apresenta-se com nomes de convidados, a demarcarem um ponto de partida. A edição por vir deverá manter essa estrutura até que o periódico ganhe a projeção para a recepção voluntária de ensaios e recensões críticas. 

Os dois volumes reúnem ainda imagens de José Saramago do período de escrita de Claraboia, fac-similar de páginas de Claraboia e de materiais para a escrita de O ano da morte de Ricardo Reis. O volume em língua portuguesa, além desses arquivos, recebe um conjunto inédito de telas da exposição “O feminino na escrita de José Saramago”, produzida pela artista plástica Lena Gal a partir da obra de Saramago e do livro de Pedro Fernandes, Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago.

Informações

Twitter: @saramaguianos

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28 de abril de 2014
Escritores defuntos e seus restos

Escritores defuntos e seus restos




Menos de uma semana após a morte de Gabriel García Márquez, a notícia: o escritor deixou um romance inédito. Leitores entraram em polvorosa, bem como o mercado editorial. Mas não tão rápido: no desdobramento, os detalhes. Jornalistas dizendo que já sabiam. Amigos dizendo que não foi apenas este romance, mas outros vários textos. A família “decidindo” se vai permitir a publicação ou não. No meio de tudo isso, o detalhe mais importante: todos os textos deixados pelo autor estão inacabados. O quão inacabados, o quão perto de um fim, de uma conclusão, não se sabe.

Ainda.

A história da literatura mundial está repleta de casos de escritores que, após baterem as botas, deixaram vários textos sem final pelo caminho. Escritores como Albert Camus, John Steinbeck, Jack London, Edgar Allan Poe e tantos outros, já tiveram livros não terminados retirados do limbo e levados ao alcance do público. Quando isso ocorre, geralmente abre-se uma discussão em torno da validade da publicação de tais obras – ou mesmo se poderiam ser consideradas como tal, uma vez que ficaram inconclusas.

Não custa lembrar que o caso mais notório envolvendo um nome de peso, antes deste, foi quando da morte de José Saramago. Poucas semanas após seu falecimento, surgiu na mídia a história de que ele teria deixado “algumas páginas de um novo romance” e “muitas cartas e outros textos”, que em seu devido tempo provavelmente se tornarão livros. Sobre isso, a própria viúva, Pilar del Rio, saiu-se com um “vamos ver”, quando questionada sobre a possibilidade dessas cartas e outros textos serem publicados. Sem contar com Claraboia, romance da juventude que havia sido publicado uma única vez em vida, quando o autor ainda era um jovem adulto. Posteriormente, o autor revisou a obra e disse que só seria publicado mediante a vontade de sua esposa, que para a felicidade dos leitores, autorizou e acabou saindo um ano depois.

Em seguida, foi divulgado que Saramago tinha por hábito não começar a escrever um novo romance até decidir-se pelo título. Daí a demora em começar a escrever o romance posterior a Caim. De qualquer forma, soube-se que o livro se chamaria (ou se chamará, já que será editado, em Portugal, ainda este ano) Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas.

Não resta dúvida de que este romance Saramago iria publicar ao concluir. Mas será que ele gostaria de ver, impressas em livro, as trinta e poucas páginas que deixou deste que ia em andamento quando a Impiedosa o pegou? Não temos como exercer futurologia, mas eu me arrisco a dizer que sim, até pela natureza ligeiramente vaidosa do autor – que gostava de parecer humilde socialmente, mas a língua o traía, de vez em quando. Vamos ver se as cartas e outros textos sairão. E qual o valor disso, uma vez que, novamente, entramos na questão: se era pra ser editado, por que ele não o fez em vida?

O caso mais notório dentre todos talvez seja o de Franz Kafka. Depois de uma curta vida de saúde muito frágil, Kafka deixou seu melhor amigo, Max Brod, com todos os seus manuscritos, publicados e inéditos, e o seguinte pedido, quase uma ordem: “Queridíssimo Max. Meu último pedido: Tudo que eu deixo para trás... na forma de diários, manuscritos, cartas (minhas e dos outros para mim), rascunhos e o que mais houver, deve ser queimado sem ser lido”. Aí fica aquela pergunta cretina, mas válida: se era pra ser queimado de uma vez por todas, por que ele mesmo não o fez? Ao que se sabe, Kafka morreu de inanição. A tuberculose o pegou de tal forma, que em dado momento, ele não conseguia mais se alimentar, e como não existia ainda a alimentação por sonda, ele acabou por morrer, de fome, em consequência da doença. Em outras palavras: ele teve tempo de fazê-lo, ele pôde fazê-lo. Possivelmente, em algum nível do seu inconsciente, ele tinha dúvidas sobre seu real desejo.

Aliás, neste momento, esta pergunta também vale para o que Gabriel García Márquez deixou. Se não queria ver publicado, porque ele mesmo não destruiu? Até eu, que não sou ninguém, jogo textos fora. Por que ele não o faria?

A resposta, pra mim, não pode ser outra: porque ele sabia do seu valor, lógico. Sabe-se que Gabo parou de escrever por volta do final de 2006, quando reuniu uns amigos para um jantar e anunciou, durante a refeição, que a partir dali não escreveria mais uma única linha. Portanto, nesta época, estes textos inacabados já existiam e ele ainda tinha o domínio sobre si mesmo, antes de entrar nessa espiral descendente por conta da senilidade. Este romance, Em agosto nos vemos, começou a ser escrito em 1999. Gabo chegou a ler o primeiro capítulo em público, inclusive.

Por que não jogou fora, se não conseguia terminá-lo nem tinha a intenção de fazê-lo? Não preciso me repetir, creio. Sendo assim, publique-se! Ou não?

Logo que a notícia de manuscritos inéditos de José Saramago veio a público, começaram a perguntar à viúva, Pilar del Rio, quando seriam lançados. Ela dava respostas evasivas, ou não respondia, e quatro anos depois, ainda paira certo mistério.

Se esse tipo de atitude não é para valorizar o produto – e a escolha da palavra aqui é tristemente intencional – então, é porque eu não nasci ontem e esse mundo me tornou maledicente demais. Mas eu duvido que não seja uma forma de valorizar, de querer fazer um leilão com os despojos do morto.

Os livros de José Saramago acabam de mudar de editora em Portugal. A Fundação Saramago disse que “seis casas editorias” procuraram os herdeiros para negociar a obra do autor, depois que foi anunciado que Saramago sairia do Editorial Caminho, onde esteve por trinta anos. Também afirmaram que a própria Fundação cogitou publicá-lo. Mas no final, decidiram-se pela editora Porto. Ótimo. Mas que ninguém ache que não houve cifras, e altas. Ótimo de novo, o autor merece! Então, qual o problema?

Nenhum. A narrativa acima apenas serve para ilustrar a questão da valorização do autor num mercado cada vez mais competitivo e atento às mídias modernas. A necessidade de criar notícia e impacto parece cada dia mais premente.

E como não querer gerar curiosidade e ânsia em seus leitores? Afinal, não são estes que comemoram quando se descobre algo inédito no baú de algum escritor defunto, e não são estes que comprarão seus restos?

Ora, isso tudo é tão-somente uma jogada de marketing, e sobre isso não me restam dúvidas.

Naturalmente, isso não é novidade no mundo das letras. Encarnação, livro que José de Alencar escrevia quando morreu, em 1877, só foi publicado em 1893, depois de terminado por seu filho. O que se passou nesse período, e os verdadeiros motivos do filho neste ínterim, jamais saberemos ao certo.

Da mesma forma, pouco sabemos sobre os meandros por onde correm as águas no tocante ao interesse das editoras, das questões familiares, equilibrado com o interesse real do público. Mas que esse tipo de notícia é também uma oportunidade pra fazer da questão um espetáculo, sem dúvida.

Daí, outra pergunta emerge: vale a pena chafurdar o espólio dos escritores? Vale a pena trazer à lume uma obra esboçada, não revisada, não concluída?

Pelo aspecto financeiro, certamente, do contrário as famílias sequer se interessariam. Pelo aspecto da curiosidade dos leitores, também. Algumas vezes, para que aquela obra específica seja comparada com o todo maior da obra, também faz valer a pena este ressuscitar.

O problema é esse travo que fica na boca, essa sensação de que tem alguma coisa por trás. Seria vaidade da família? Uma atitude caça-níquel? Ou algo que sim, tem enorme valor e merece ser levado para as livrarias, comercializado para ser lido, discutido, estudado?

Pelo sim, pelo não, talvez o que nos reste seja mesmo analisar caso a caso. Ou então resignar-nos com a amarga sensação de que estamos sendo feitos de idiotas.




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26 de fevereiro de 2014
Claraboia: romance de juventude de José Saramago

Claraboia: romance de juventude de José Saramago



Em 1947 o jovem José Saramago publica o seu primeiro romance inicialmente chamado A viúva, que por motivos editoriais mudou o título para Terra do Pecado. Interessante é que a publicação de seu primeiro romance sairia sem direitos autorais. Munido pela felicidade de ser um autor publicado, Saramago aceita as condições. A felicidade é tanta que entre os anos 1947-1953 o jovem escritor compõe outros romances, muitos desses ficaram inacabados. O romance que comento foi entregue pelas mãos de um amigo a uma editora. A resposta a essa publicação Saramago obteve quase trinta anos depois, já romancista consagrado e respeitado. Porém o autor decidiu que o romance rejeitado nos anos cinquenta permaneceria inédito enquanto ele vivesse, e que somente os donos de seu espólio decidirão se o livro deveria ser publicado ou não. Assim quis o autor assim aconteceu, em 2011 a herdeira de seu espólio Pillar Del Rio autorizou a publicação de Claraboia que inicialmente foi publicada no formato digital, depois a publicação em formato físico.

Depois de Terra do Pecado Saramago publicaria peças de teatro; poemas; crônicas e contos. O gênero romance voltaria a ser trabalhado no livro Manual de Pintura e caligrafia (1977), ainda assim esse romance apresenta características de ensaio e autobiografia. Em 1980 Saramago publica Levantado do Chão, e com a publicação deste romance alcançaria o respeito de inúmeros críticos literários. Seu nome aparecia mundialmente após a publicação de Memorial do Convento (1982). O autor inicia a década de 90 com uma polêmica o livro Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) teve o seu nome retirado pelo governo português de um concurso literário europeu. Após este incidente o autor muda-se de Portugal para as ilhas Canárias, especificamente na ilha de Lanzarote, onde permaneceu até a sua morte em 2010. Em 1995 publica o Ensaio sobre a Cegueira, esse livro mudaria a sua própria maneira de compor romances, em 1997 publica Todos os Nomes e em 1998 conquista o Prêmio Nobel de Literatura.

Quando Saramago formulou o romance Claraboia ele não tinha todo esse reconhecimento literário ainda. Para ele se tornar um autor respeitado foi necessário anos de trabalho e estudo dedicados à literatura. Em 1953, Saramago era mais um jovem escritor em formação sem fama e reconhecimento internacionais. O escritor português com a publicação de Terra do Pecado havia conseguido alguns elogios. Seu livro passou despercebido para muitos leitores portugueses. A não publicação de Claraboia causou em Saramago um silêncio literário de quase vinte anos. E como já comentado, o autor só voltaria a explorar o romance quase trinta anos depois. O original desse livro foi assinado sob o pseudônimo “Honorato”, o livro é dedicado à memória de seu avô materno Jerônimo Hilário, figura essencial para a formação do autor português. A simplicidade e sabedoria de seu avô ecoariam por toda a sua vida, em especial em seus romances. Não é por acaso que a maioria dos heróis na literatura saramaguiana são pessoas do povo. Isso não é diferente no romance Clarabóia. Nessa obra alguns aspectos que tornariam Saramago um escritor respeitado estão lá, dentre esses a sabedoria popular. Quer um exemplo? Leia abaixo o seguinte trecho em que o personagem, que passa por problemas em seu casamento, fala:

Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. Para nunca mais! Talvez para nunca mais!... Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste, hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.

Impossível não se lembrar da sabedoria de Baltasar Sete-luas (Memorial do Convento), de Cipriano (A Caverna), de Maria de Magdala(O Evangelho segundo Jesus Cristo), de Eva (Caim). Todos esses personagens emergem da classe não-dominate e são eles os mais sábios em seus romances. A sabedoria do povo é sempre a mais aplaudida na obra saramaguiana. O autor sempre dizia que caso alguém estivesse com preguiça de ler seus livros, bastava ler a epígrafe para saber da estória do livro. Em Claraboia acontece o mesmo, eis a epígrafe:

Em todas as almas, como em todas as casas,
Além da fachada, há um interior escondido.
- Raul Brandão.

O interior dos personagens é invadido pela claraboia que se estende no teto do sobrado. É um romance sobre o cotidiano da vida aprofundado pelo interior de seus personagens. Os moradores do prédio são: Silvestre e Mariana; Abel; Adriana, Isaura, Cândida e Amélia; Lídia e Paulino; Carmem, Emílio e Henrique. Os problemas da vida apresentados por estes personagens não fogem ao cotidiano da vida: prostituição; casamento desgastado; problemas financeiros; assedio no trabalho. O ambiente da narrativa é o ano de 1952 na primavera lusitana. O prédio em que moram os personagens localiza-se em uma rua de um bairro simples de Lisboa.


Assim como os livros seguintes, os personagens de Claraboia são essencialmente humanos. Essa característica humanista será o ponto de partida para a obra futura O Evangelho Segundo Jesus Cristo.  Uma palavra permeia muito os diálogos filosóficos do andante Abel e do sapateiro Silvestre: Esperança. Eis um trecho de um desses diálogos:

Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.

Assim como os futuros personagens criados por Saramago, os personagens deste romance são essencialmente humanos e sensíveis a complexa maldade. Os conflitos humanos estão entre as temáticas debatidas por estes personagens. Assim como o autor, esses personagens sentem a necessidade de modificar o mundo. Mas assim como seu primeiro romance, Terra do Pecado, este Claraboia apresenta muitos sinais de influência de Eça de Queirós e do romance realista do século XIX como a crítica social e as descrições físicas e psicológicas de personagens. Porem, Saramago não abusa das descrições, as faz de maneira superficial.

Ao leitor acostumado ao estilo anárquico de Saramago estruturar as suas narrativas, encontrará um livro diferenciado pela correta pontuação e pelos parágrafos bem ordenados. Porém o mesmo narrador em terceira pessoa onisciente, que comenta a tudo que vê está presente na obra, comentando e esclarecendo os fatos que narra. Mais que um achado histórico para os estudiosos e amantes da produção literária de José Saramago, este livro merece ser lido não somente por ter sido escrito por um autor que futuramente seria um Nobel, a obra é essencial por conter um bom enredo e bons personagens.

É válido lembrar que na época em que o escritor pleiteou a publicação deste livro, o país estava vivenciando a ditadura de Salazar, e nesse período o governo ditatorial pregava a ordem e os bons costumes. O enredo de Claraboia com suas temáticas cotidianas: casamentos mal-sucedidos e problemas financeiros. Não era bem essa a imagem que um ditador quer passar de seu país. Talvez tenha sido esse o motivo do engavetamento deste livro.

É um livro que nos revela um autor jovem em fase de formação. Porém o livro desassossega o leitor, pois durante e depois da leitura do livro, ficamos a querer invadir cada vez mais o universo literário de José Saramago.

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17 de dezembro de 2013
Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares que “Não tem o direito de escrever tão bem”

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares que “Não tem o direito de escrever tão bem”






Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, Ernst atendeu.

Foi no dia 29 de maio que Ernst pensou em suicidar-se. Foi também nesse dia que Mylia resolveu sair de casa ainda de noite. No mesmo dia, Kaas foi assassinado, Busbeck usou os serviços de uma prostituta e Hinnerk foi morto.

Kaas é filho biológico de Ernst e Mylia que se conheceram no Hospício Georg Rosenberg. Antes disso, com dezoito anos, Mylia tinha sido levada ao médico pelos pais. O médico é Theodor Busbeck. Theodor desenvolve um estudo sobre o mal e o horror ao longo da história.

No capítulo IV, a que Gonçalo M. Tavares deu o nome de Theodor, Hanna, Mylia, no sub-capítulo 2, Mylia encontra-se pela primeira vez com o médico.

Com dezoito anos Mylia sabia já como humilhar os homens. Conhecia o intervalo existente entre a sedução e a repulsa e sabia manipular esse espaço: reduzindo-o, ampliando-o, fingindo que ele não existe para logo a seguir o exibir de modo ostensivo. Só se humilha quem se aproxima, sabia já por instinto Mylia, e preparava-se assim para exercer essa habilidade perversa  de puxar primeiro para depois empurrar – sobre aquele médico que avançava, logo nos primeiros segundos após a saída dos seus pais, para algo que Mylia receava e desejava: um interrogatório.
─ Sou esquizofrénica ─ disse ela, sem deixar que o médico Theodor Busbeck abrisse a boca. ─ Li nos livros. Sei bem o que sou. Sou esquizofrénica, louca. Vejo coisas que não existem e sou perigosa. Quer-me curar?

Menos de dois anos após este primeiro encontro, e com grande espanto de ambas as famílias, Theodor Busbeck e Mylia casavam-se.

Ao oitavo ano de casamento, porém, Theodor Busbeck decide internar Mylia «no piso dois do Hospício Georg Rosenberg, o mais conceituado da cidade». Foi lá que Mylia conheceu Ernst Spengler e foi lá que engravidou deste. Ainda casada, coube a Theodor Busbeck decidir o futuro de um filho que não era seu. Busbeck decide divorciar-se e perfilhar o bebé.

Narrativa densa sobre a condição humana e o poder do acaso, Jerusalém dirige o leitor por uma cidade de múltiplos nomes  talvez a razão para o autor não lhe chamar nome nenhum  onde não há vilões sem coração nem vítimas sem mácula.

A principal preocupação de Jerusalém não é apresentar pessoas, mas antes dissecar-lhes os sentimentos, as aparências, as reações, abrindo deste modo uma janela através da qual podem ser observadas e compreendidas. 

29 de maio. Hanna é a prostituta. Hinnerk conhece Busbeck quando este se encontrava com a prostituta, momentos antes de usar os seus serviços. Por isso, Hinnerk afasta-se. Dirige-se para a igreja. Por essa altura, já Kaas, o filho de Mylia e Ernst que Busbeck perfilhou, está morto numa ruela da cidade. Hinnerk encontrou Mylia e Ernst perto da igreja. Hinnerk Obst trazia uma pistola e isso excitava-o. Mylia está caída e Ernst pede-lhe ajuda porque sozinho não a consegue levantar. Hinnerk sentia-se agradado.

Aquela sensação de estar a ajudar alguém, por pouco significativa que fosse essa ajuda, parecia ter modificado algo no seu organismo: um desvio da excitação. Agradava-lhe aquela disposição para ser útil e agradava-lhe os olhares simples daquele casal.

Entretanto, começam os três a brincar com a arma. Quando Mylia a tem na mão, aponta-a à cabeça de Hinnerk. «E se eu disparar? ─ pergunta Mylia àquele homem que estranhamente a começa a atrair e a excitar. Dispare ─ diz Hinnerk, divertido ─ , dispare!»

A história está quase no fim. A frase seguinte é já em novo capítulo, breve e penúltimo de um enredo trágico e violento que está a terminar: «Mylia tem quarenta e oito anos e está fechada na cela de um hospital-prisão. Tem ainda alguns anos de pena para cumprir […]».

Após a prolepse, a ação regressa ao fatídico dia 29 de maio, no momento em que Mylia se dirige para a igreja. Alguém se encontra no seu interior.

A história termina assim:

O som de uma chave na fechadura, alguém abre ligeiramente a porta, muito pouco: ela vê uns olhos a espreitar na sua direção, com medo, cautelosos. Mylia sente que não suporta mais, sente-se a desmaiar, a mão direita tensa segura a arma. De dentro da igreja os olhos não a largam, mas ainda não abriram a porta. Mylia tem de falar para quem está do outro lado da porta da igreja. Ganha forças. Procura dentro do corpo a voz mais firme:
─ Matei um homem ─ diz Mylia. ─ Deixam-me entrar?

Publicado pela primeira vez em 2004, Jerusalém recebeu os mais importantes prémios em língua portuguesa: Prémio Ler/Millenium BCP 2004, Prémio José Saramago 2005 e Prémio Portugal Telecom de Literatura 2007.

José Saramago, aquando da entrega do prémio que leva o seu nome, disse a respeito da obra e do autor: «Jerusalém é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!»

29 de maio. Uma pergunta deve ser feita: quem matou o jovem Kaas?

29 de maio. Outra pergunta deverá ser feita: quem matou Hinnerk Obst?


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28 de novembro de 2013
O Caderno de José Saramago

O Caderno de José Saramago


Sempre que ligo o noticiário da televisão, ou abro a página do jornal, em determinadas notícias me pergunto o que Saramago diria. O autor não é conhecido apenas pelo seu estilo único na ficção, que o levou a receber o Nobel de Literatura, ele possui uma faceta crítica e racional que encanta e, muitas vezes, polemiza. Essa faceta polêmica e crítica de Saramago foi dissecada quando o autor português criou um blog em 2008. Ele o desativou um ano depois, e nesses comentários escritos na “página infinita da internet” podem ser lidas no livro O Caderno (2009, Companhia das Letras).
           
O blog surgiu como uma das múltiplas funções das desenvolvidas pela Fundação José Saramago. A idéia se apresentou a Saramago quando sua mulher, Pilar, disse que ele tinha um espaço reservado no blog da Fundação para as suas idéias e textos. Bom, é melhor deixar Saramago comentar:

“Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros.”

Os textos do blog foram escritos quase que diariamente. Ao ler tais entradas no blog temos a impressão de estarmos tendo um diálogo frente a frente com o até então o único Nobel de literatura em língua portuguesa.

Em sua primeira postagem no blog, o autor declara o seu amor à cidade de Lisboa no texto Palavras para uma cidade. A opinião ácida sobre a religião é também explorada em Perdão para Darwin? Nesse texto, o Nobel comenta um pedido de desculpa póstumo elaborado pela Igreja Anglicana ao autor de A Origem das Espécies. É interessante este trecho, pois nos mostra a mesma maneira irônico-discursivo com que argumenta seus romances:

   

“Mesmo que Darwin estivesse vivo e disposto a mostrar-se benevolente, dizendo “Sim, perdoo”, a generosa palavra não poderia apagar um só insulto, uma só calúnia, um só desprezo dos muitos que lhe caíram em cima. O único que daqui tiraria benefício seria a Igreja Anglicana, que veria aumentado, sem despesas, o seu capital de boa consciência. Ainda assim, agradeça-se-lhe o arrependimento, mesmo tardio, que talvez estimule o papa Bento XVI, agora embarcado numa manobra diplomática em relação ao laicismo, a pedir perdão a Galileu Galilei e a Giordano Bruno, em particular a este, cristãmente torturado, com muita caridade, até à própria fogueira onde foi queimado.Este pedido de perdão da Igreja Anglicana não vai agradar nada aos criacionistas norte-americanos.”

Na entrada Deus como problema, o autor português argumenta que se a religião mata em nome de deus, logo o problema não é somente as pessoas que compõem o grupo religioso, mas também do deus que elas adoram e que proporciona tantas matanças em geral. E você, caro leitor, pare e reflita um pouco. Quantas pessoas já morreram em guerras ditas Santas? Quantas pessoas já se foram nas inquisições? Quantas almas se foram em nome de Alá? Quantas?
           
Nem só de religião Saramago abordava em seu blog. Ele também transmitia reflexões sobre a vida e o ser humano, em entradas como Biografias; 106 anos; Rosa Parks e Quê? Aliás, este último merece ser transcrito na íntegra:

Quê?
As perguntas: “Quem és?” ou “”Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja.

O autor, em seu blog, comentava também sobre a situação da política mundial. Mas o que nos gera mais atenção mesmo são as entradas sobre a literatura. Saramago elogia, em um dos textos, o livro Budapeste, de Chico Buarque:

“O mais desassosegador, porém, é a sensação de vertigem contínua que se apoderará do leitor, que em cada momento saberá onde estava, mas que em cada momento não sabe onde está. Sem parecer pretendê-lo, cada página do romance expressa uma interpelação “filosófica” e uma provocação “ontológica”: que é, afinal, a realidade? o que e quem sou eu, afinal, nisso que me ensinaram a chamar realidade? Um livro existe, deixará de existir, existirá outra vez. Uma pessoa escreveu, outra assinou, se o livro desapareceu, também desapareceram ambas? E se desapareceram, desapareceram de todo, ou em parte? Se alguém sobreviveu, sobreviveu neste, ou noutro universo? Quem serei eu, se tendo sobrevivido, não sou já quem era? Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.”

Mais à frente, Saramago falará sobre Fernando Pessoa e seus heterônimos, sobre sua amizade com Jorge amado, sobre Borges e sua escrita. E por fim comentará a serie de lançamento de seu livro A Viagem do Elefante e revelará um segredo por trás de Todos os Nomes e o Nobel de Literatura:


“Enquanto dedicava o livro para Espmark recordei o que ele nos contou, a Pilar e a mim, sobre os bastidores do prémio que me foi atribuído. O “Ensaio sobre a Cegueira”, já então traduzido ao sueco, havia causado boa impressão nos académicos, tão boa que ficou praticamente decidido entre eles que o Nobel desse ano, 1998, seria para mim. Acontece, porém, que no ano anterior tinha publicado outro livro, “Todos os Nomes”, o que, obviamente, em princípio, não deveria constituir obstáculo à decisão tomada, a não ser uma pergunta nascida dos escrúpulos dos meus juízes: “E se este novo livro é mau?” Da resposta a dar encarregou-se Kjell Espmark, em quem os colegas depositaram a responsabilidade de proceder à leitura do livro no seu idioma original. Espmark, que tem certa familiaridade com a nossa língua, cumpriu disciplinadamente a missão. Com o auxílio de um dicionário, em pleno mês de Agosto, quando mais apeteceria ir navegar entre as ilhas que enxameiam o mar sueco, leu, palavra a palavra. a história do funcionário Sr. José e da mulher a quem ele amou sem nunca a ter visto. Passei o exame, afinal o livrinho não ficava nada atrás do “Ensaio sobre a Cegueira”. Uf.”

Nessa experiência blogueira, notamos a sinceridade nas palavras de Saramago, o tom lógico e racional de suas palavras e a ironia e o tom oral tão presente em suas obras. Lendo ele comentar sobre assuntos do dia a dia podemos notar no escritor a alma de cidadão do mundo que cada um de nós também é. E toda vez que eu vejo o noticiário da televisão ou abro o jornal para ler, fico a me indagar: O que Saramago diria se estivesse vivo?


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