O Caderno de José Saramago
Sempre que ligo o noticiário da televisão, ou abro a página
do jornal, em determinadas notícias me pergunto o que Saramago diria. O autor
não é conhecido apenas pelo seu estilo único na ficção, que o levou a receber o
Nobel de Literatura, ele possui uma faceta crítica e racional que encanta e,
muitas vezes, polemiza. Essa faceta polêmica e crítica de Saramago foi
dissecada quando o autor português criou um blog em 2008. Ele o desativou um
ano depois, e nesses comentários escritos na “página infinita da internet”
podem ser lidas no livro O Caderno (2009, Companhia das
Letras).
“Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog que
devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões
sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais
disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o
faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim
mesmo havia imposto nos outros.”
Os textos do blog foram escritos quase que diariamente. Ao
ler tais entradas no blog temos a impressão de estarmos tendo um diálogo frente
a frente com o até então o único Nobel de literatura em língua portuguesa.
Em sua primeira postagem no blog, o autor declara o seu
amor à cidade de Lisboa no texto Palavras para uma cidade. A
opinião ácida sobre a religião é também explorada em Perdão para
Darwin? Nesse texto, o Nobel comenta um pedido de desculpa póstumo
elaborado pela Igreja Anglicana ao autor de A Origem das Espécies.
É interessante este trecho, pois nos mostra a mesma maneira irônico-discursivo
com que argumenta seus romances:
“Mesmo que Darwin estivesse vivo e disposto a mostrar-se
benevolente, dizendo “Sim, perdoo”, a generosa palavra não poderia apagar um só
insulto, uma só calúnia, um só desprezo dos muitos que lhe caíram em cima. O
único que daqui tiraria benefício seria a Igreja Anglicana, que veria
aumentado, sem despesas, o seu capital de boa consciência. Ainda assim,
agradeça-se-lhe o arrependimento, mesmo tardio, que talvez estimule o papa
Bento XVI, agora embarcado numa manobra diplomática em relação ao laicismo, a pedir
perdão a Galileu Galilei e a Giordano Bruno, em particular a este, cristãmente
torturado, com muita caridade, até à própria fogueira onde foi queimado.Este
pedido de perdão da Igreja Anglicana não vai agradar nada aos criacionistas
norte-americanos.”
Na entrada Deus como problema, o autor
português argumenta que se a religião mata em nome de deus, logo o problema não
é somente as pessoas que compõem o grupo religioso, mas também do deus que elas
adoram e que proporciona tantas matanças em geral. E você, caro leitor, pare e
reflita um pouco. Quantas pessoas já morreram em guerras ditas Santas? Quantas
pessoas já se foram nas inquisições? Quantas almas se foram em nome de Alá?
Quantas?
Quê?
O autor, em seu blog, comentava
também sobre a situação da política mundial. Mas o que nos gera mais atenção
mesmo são as entradas sobre a literatura. Saramago elogia, em um dos textos, o
livro Budapeste, de Chico Buarque:
“O mais desassosegador, porém, é
a sensação de vertigem contínua que se apoderará do leitor, que em cada momento
saberá onde estava, mas que em cada momento não sabe onde está. Sem parecer pretendê-lo,
cada página do romance expressa uma interpelação “filosófica” e uma provocação
“ontológica”: que é, afinal, a realidade? o que e quem sou eu, afinal, nisso
que me ensinaram a chamar realidade? Um livro existe, deixará de existir,
existirá outra vez. Uma pessoa escreveu, outra assinou, se o livro desapareceu,
também desapareceram ambas? E se desapareceram, desapareceram de todo, ou em
parte? Se alguém sobreviveu, sobreviveu neste, ou noutro universo? Quem serei
eu, se tendo sobrevivido, não sou já quem era? Chico Buarque ousou muito,
escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado
onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da
construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo
novo aconteceu no Brasil com este livro.”
“Enquanto dedicava o livro para
Espmark recordei o que ele nos contou, a Pilar e a mim, sobre os bastidores do
prémio que me foi atribuído. O “Ensaio sobre a Cegueira”, já então traduzido ao
sueco, havia causado boa impressão nos académicos, tão boa que ficou
praticamente decidido entre eles que o Nobel desse ano, 1998, seria para mim.
Acontece, porém, que no ano anterior tinha publicado outro livro, “Todos os
Nomes”, o que, obviamente, em princípio, não deveria constituir obstáculo à
decisão tomada, a não ser uma pergunta nascida dos escrúpulos dos meus juízes:
“E se este novo livro é mau?” Da resposta a dar encarregou-se Kjell Espmark, em
quem os colegas depositaram a responsabilidade de proceder à leitura do livro
no seu idioma original. Espmark, que tem certa familiaridade com a nossa
língua, cumpriu disciplinadamente a missão. Com o auxílio de um dicionário, em
pleno mês de Agosto, quando mais apeteceria ir navegar entre as ilhas que
enxameiam o mar sueco, leu, palavra a palavra. a história do funcionário Sr.
José e da mulher a quem ele amou sem nunca a ter visto. Passei o exame, afinal
o livrinho não ficava nada atrás do “Ensaio sobre a Cegueira”. Uf.”



Muito bom, excelente texto. Gostei particularmente do "o que vier a talhe de foice", não conhecia essa, vou adotar para mim.
ResponderEliminarParabéns, ótima escolha, mesmo não sendo brasileiro, Saramago é um dos gênios da nossa língua, seria muito bom ver mais postagens iguais à essa sobre ele.
"O que diria Saramago se estivesse vivo?" Em primeiro lugar há que se pensar no que nos parece óbvio: se o "blogueiro" faz a pergunta e reflete sobre palavras saramaguianas, isso o faz vivo. Em seguida, penso em palavras encontradas, por vezes, nos CADERNOS DE LANZAROTE e aqui está uma sentença atemporal: "UM DIREITO QUE RESPEITE, UMA JUSTIÇA QUE CUMPRA".
ResponderEliminarSaramago é infinitamente admirável. Não só pelo brilhante escritor que foi, mas sobretudo por sua personalidade crítica, sua coragem em dizer o que pensava. Sempre discorrendo acerca de um determinado tema com a mesma "autoridade" e competência com que escrevia seus livros! "O homem que nunca quis fazer na vida algo que envergonhasse a criança que havia sido." E conseguiu! Sua própria trajetória de vida: o menino de Azinhaga, neto de analfabetos, que transformou-se no único escritor de língua portuguesa a receber um Prêmio Nobel de Literatura, já foi, para mim sua maior obra!
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