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2 de dezembro de 2014
Revista de estudos saramaguianos

Revista de estudos saramaguianos





O que é a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS

É notável que desde o final dos anos 1980 a produção acadêmica em torno da obra de José Saramago, até então quase inexistente, tem se avolumado numa proporção sem limite calculável. Entretanto, uma rápida busca nos arquivos de universidades, em revistas acadêmicas, em eventos organizados, nos coloca sempre diante de uma quantidade surpreende de estudos e abordagens diversos.

A REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS quer, assim ser um espaço em torno desse interesse em manter vivo o legado construído pela literatura saramaguiana; trata-se de uma revista acadêmica, com tiragem semestral, gratuita e eletrônica cuja proposta é a publicação de ensaios, documentos e recensões críticas que tenham como escopo a obra de José Saramago. Seu objetivo é o de fortalecer os estudos, intercambiar pesquisas e dar a conhecer as diversas possibilidades de leituras em torno da obra do escritor português.

A primeira edição teve uma tiragem impressa pela Editora Patuá apresentada em dois volumes distintos: um em língua portuguesa e outro em língua espanhola, as duas línguas em que circularão os textos publicados na revista.

A parceria editorial é dada entre investigadores da obra de José Saramago de Brasil, representado pelo professor Pedro Fernandes (mentor da ideia), Argentina, pelo professor Miguel Koleff e Portugal, pela Fundação José Saramago.


De onde vem a ideia de sua criação

A ideia não nasceu ao acaso e nem se construiu sozinha. Ela é esforço de uma coletividade. A proposta que começou a ser costurada pelo professor Pedro Fernandes na noite de vigília quando lhe veio, de fato, a consciência da partida Saramago naquele 18 de junho de 2010 e lembra ser este também um produto do “que assumiu de si para com os livros do escritor português que estavam à sua frente naquela ocasião”; “a profissão de fé”, segundo ele próprio chama foi “baseada tarefa de todo crítico, que é a de dar a conhecer, pela via mais simples, o esforço de outros homens cujo desejo é sempre o de dizer sobre eles e o mundo onde estão”.

Ele e Miguel Koleff, editores da ideia, compreendem e desenvolvem no texto de apresentação da primeira edição para a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS que “a tarefa de todo estudioso da literatura é irmanar-se com a obra não para catar louros de glória, mas para continuar a exercer as revisões sempre necessárias, hoje mais que sempre, de um extenso, ardoroso e mais complexo itinerário, o de humanização – esse que vimos construindo entre erros e acertos desde quando assumimos a consciência sobre o mundo e demos por inaugurado o império da razão”. 

Pedro Fernandes é pesquisador da obra de José Saramago desde o curso de Licenciatura em Letras, quando conheceu o trabalho do escritor português através da leitura de O evangelho segundo Jesus Cristo. Tem quase oito anos que se dedica a investigação da literatura saramaguiana. Autor da ideia confessou-a ao professor Miguel Koleff, também há muito um leitor e dedicado estudioso da obra de Saramago, com organização de trabalhos de ampla significação para a fortuna crítica do escritor como o Diccionario de Personajes Saramguianos e a coleção Apuntes Saramaguianos a partir de um grupo de pesquisa dedicado à obra do Prêmio Nobel. Juntos, a ideia foi levada ao encontro de Pilar del Río, quem, desde que tomou contato mais concreto com a proposta, em novembro de 2013, se manteve atenta ao andamento da edição ora publicada e abriu, como presidenta da Fundação José Saramago,  todo apoio com tudo que estivesse ao seu alcance.

Dados sobre a primeira edição

A REVISTA teve uma primeira apresentação no âmbito de abertura pelas celebrações do Dia do Desassossego, data pensada pela Fundação José Saramago, que este ano integra a lembrança pelo 92º aniversário do escritor. A edição reúne ensaios de pesquisadores de Brasil, Portugal e Argentina. Cada autor, à sua maneira, abre-se para algum elemento da obra literária saramaguiana, de modo a elucidar o itinerário multifacetado como é o da literatura de Saramago. Aí estão textos de Ana Paula Arnaut, Carlos Reis, Teresa Cristina Cerdeira, Conceição Flores,
Fabiana Takahashi, Salma Ferraz, Miguel Koleff, Maria Victoria Ferrara,
Pedro Fernandes e Lílian Lopondo.

Boa parte dos nomes que escrevem para esta primeira edição integra como corpo científico para a REVISTA composto ainda por professores e pesquisadores de várias instituições brasileiras, portuguesas e estrangeiras (conforme se pode ler no próximo item). Esta edição, portanto, apresenta-se com nomes de convidados, a demarcarem um ponto de partida. A edição por vir deverá manter essa estrutura até que o periódico ganhe a projeção para a recepção voluntária de ensaios e recensões críticas. 

Os dois volumes reúnem ainda imagens de José Saramago do período de escrita de Claraboia, fac-similar de páginas de Claraboia e de materiais para a escrita de O ano da morte de Ricardo Reis. O volume em língua portuguesa, além desses arquivos, recebe um conjunto inédito de telas da exposição “O feminino na escrita de José Saramago”, produzida pela artista plástica Lena Gal a partir da obra de Saramago e do livro de Pedro Fernandes, Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago.

Informações

Twitter: @saramaguianos

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26 de fevereiro de 2014
Claraboia: romance de juventude de José Saramago

Claraboia: romance de juventude de José Saramago



Em 1947 o jovem José Saramago publica o seu primeiro romance inicialmente chamado A viúva, que por motivos editoriais mudou o título para Terra do Pecado. Interessante é que a publicação de seu primeiro romance sairia sem direitos autorais. Munido pela felicidade de ser um autor publicado, Saramago aceita as condições. A felicidade é tanta que entre os anos 1947-1953 o jovem escritor compõe outros romances, muitos desses ficaram inacabados. O romance que comento foi entregue pelas mãos de um amigo a uma editora. A resposta a essa publicação Saramago obteve quase trinta anos depois, já romancista consagrado e respeitado. Porém o autor decidiu que o romance rejeitado nos anos cinquenta permaneceria inédito enquanto ele vivesse, e que somente os donos de seu espólio decidirão se o livro deveria ser publicado ou não. Assim quis o autor assim aconteceu, em 2011 a herdeira de seu espólio Pillar Del Rio autorizou a publicação de Claraboia que inicialmente foi publicada no formato digital, depois a publicação em formato físico.

Depois de Terra do Pecado Saramago publicaria peças de teatro; poemas; crônicas e contos. O gênero romance voltaria a ser trabalhado no livro Manual de Pintura e caligrafia (1977), ainda assim esse romance apresenta características de ensaio e autobiografia. Em 1980 Saramago publica Levantado do Chão, e com a publicação deste romance alcançaria o respeito de inúmeros críticos literários. Seu nome aparecia mundialmente após a publicação de Memorial do Convento (1982). O autor inicia a década de 90 com uma polêmica o livro Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) teve o seu nome retirado pelo governo português de um concurso literário europeu. Após este incidente o autor muda-se de Portugal para as ilhas Canárias, especificamente na ilha de Lanzarote, onde permaneceu até a sua morte em 2010. Em 1995 publica o Ensaio sobre a Cegueira, esse livro mudaria a sua própria maneira de compor romances, em 1997 publica Todos os Nomes e em 1998 conquista o Prêmio Nobel de Literatura.

Quando Saramago formulou o romance Claraboia ele não tinha todo esse reconhecimento literário ainda. Para ele se tornar um autor respeitado foi necessário anos de trabalho e estudo dedicados à literatura. Em 1953, Saramago era mais um jovem escritor em formação sem fama e reconhecimento internacionais. O escritor português com a publicação de Terra do Pecado havia conseguido alguns elogios. Seu livro passou despercebido para muitos leitores portugueses. A não publicação de Claraboia causou em Saramago um silêncio literário de quase vinte anos. E como já comentado, o autor só voltaria a explorar o romance quase trinta anos depois. O original desse livro foi assinado sob o pseudônimo “Honorato”, o livro é dedicado à memória de seu avô materno Jerônimo Hilário, figura essencial para a formação do autor português. A simplicidade e sabedoria de seu avô ecoariam por toda a sua vida, em especial em seus romances. Não é por acaso que a maioria dos heróis na literatura saramaguiana são pessoas do povo. Isso não é diferente no romance Clarabóia. Nessa obra alguns aspectos que tornariam Saramago um escritor respeitado estão lá, dentre esses a sabedoria popular. Quer um exemplo? Leia abaixo o seguinte trecho em que o personagem, que passa por problemas em seu casamento, fala:

Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. Para nunca mais! Talvez para nunca mais!... Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste, hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.

Impossível não se lembrar da sabedoria de Baltasar Sete-luas (Memorial do Convento), de Cipriano (A Caverna), de Maria de Magdala(O Evangelho segundo Jesus Cristo), de Eva (Caim). Todos esses personagens emergem da classe não-dominate e são eles os mais sábios em seus romances. A sabedoria do povo é sempre a mais aplaudida na obra saramaguiana. O autor sempre dizia que caso alguém estivesse com preguiça de ler seus livros, bastava ler a epígrafe para saber da estória do livro. Em Claraboia acontece o mesmo, eis a epígrafe:

Em todas as almas, como em todas as casas,
Além da fachada, há um interior escondido.
- Raul Brandão.

O interior dos personagens é invadido pela claraboia que se estende no teto do sobrado. É um romance sobre o cotidiano da vida aprofundado pelo interior de seus personagens. Os moradores do prédio são: Silvestre e Mariana; Abel; Adriana, Isaura, Cândida e Amélia; Lídia e Paulino; Carmem, Emílio e Henrique. Os problemas da vida apresentados por estes personagens não fogem ao cotidiano da vida: prostituição; casamento desgastado; problemas financeiros; assedio no trabalho. O ambiente da narrativa é o ano de 1952 na primavera lusitana. O prédio em que moram os personagens localiza-se em uma rua de um bairro simples de Lisboa.


Assim como os livros seguintes, os personagens de Claraboia são essencialmente humanos. Essa característica humanista será o ponto de partida para a obra futura O Evangelho Segundo Jesus Cristo.  Uma palavra permeia muito os diálogos filosóficos do andante Abel e do sapateiro Silvestre: Esperança. Eis um trecho de um desses diálogos:

Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.

Assim como os futuros personagens criados por Saramago, os personagens deste romance são essencialmente humanos e sensíveis a complexa maldade. Os conflitos humanos estão entre as temáticas debatidas por estes personagens. Assim como o autor, esses personagens sentem a necessidade de modificar o mundo. Mas assim como seu primeiro romance, Terra do Pecado, este Claraboia apresenta muitos sinais de influência de Eça de Queirós e do romance realista do século XIX como a crítica social e as descrições físicas e psicológicas de personagens. Porem, Saramago não abusa das descrições, as faz de maneira superficial.

Ao leitor acostumado ao estilo anárquico de Saramago estruturar as suas narrativas, encontrará um livro diferenciado pela correta pontuação e pelos parágrafos bem ordenados. Porém o mesmo narrador em terceira pessoa onisciente, que comenta a tudo que vê está presente na obra, comentando e esclarecendo os fatos que narra. Mais que um achado histórico para os estudiosos e amantes da produção literária de José Saramago, este livro merece ser lido não somente por ter sido escrito por um autor que futuramente seria um Nobel, a obra é essencial por conter um bom enredo e bons personagens.

É válido lembrar que na época em que o escritor pleiteou a publicação deste livro, o país estava vivenciando a ditadura de Salazar, e nesse período o governo ditatorial pregava a ordem e os bons costumes. O enredo de Claraboia com suas temáticas cotidianas: casamentos mal-sucedidos e problemas financeiros. Não era bem essa a imagem que um ditador quer passar de seu país. Talvez tenha sido esse o motivo do engavetamento deste livro.

É um livro que nos revela um autor jovem em fase de formação. Porém o livro desassossega o leitor, pois durante e depois da leitura do livro, ficamos a querer invadir cada vez mais o universo literário de José Saramago.

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28 de novembro de 2013
O Caderno de José Saramago

O Caderno de José Saramago


Sempre que ligo o noticiário da televisão, ou abro a página do jornal, em determinadas notícias me pergunto o que Saramago diria. O autor não é conhecido apenas pelo seu estilo único na ficção, que o levou a receber o Nobel de Literatura, ele possui uma faceta crítica e racional que encanta e, muitas vezes, polemiza. Essa faceta polêmica e crítica de Saramago foi dissecada quando o autor português criou um blog em 2008. Ele o desativou um ano depois, e nesses comentários escritos na “página infinita da internet” podem ser lidas no livro O Caderno (2009, Companhia das Letras).
           
O blog surgiu como uma das múltiplas funções das desenvolvidas pela Fundação José Saramago. A idéia se apresentou a Saramago quando sua mulher, Pilar, disse que ele tinha um espaço reservado no blog da Fundação para as suas idéias e textos. Bom, é melhor deixar Saramago comentar:

“Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros.”

Os textos do blog foram escritos quase que diariamente. Ao ler tais entradas no blog temos a impressão de estarmos tendo um diálogo frente a frente com o até então o único Nobel de literatura em língua portuguesa.

Em sua primeira postagem no blog, o autor declara o seu amor à cidade de Lisboa no texto Palavras para uma cidade. A opinião ácida sobre a religião é também explorada em Perdão para Darwin? Nesse texto, o Nobel comenta um pedido de desculpa póstumo elaborado pela Igreja Anglicana ao autor de A Origem das Espécies. É interessante este trecho, pois nos mostra a mesma maneira irônico-discursivo com que argumenta seus romances:

   

“Mesmo que Darwin estivesse vivo e disposto a mostrar-se benevolente, dizendo “Sim, perdoo”, a generosa palavra não poderia apagar um só insulto, uma só calúnia, um só desprezo dos muitos que lhe caíram em cima. O único que daqui tiraria benefício seria a Igreja Anglicana, que veria aumentado, sem despesas, o seu capital de boa consciência. Ainda assim, agradeça-se-lhe o arrependimento, mesmo tardio, que talvez estimule o papa Bento XVI, agora embarcado numa manobra diplomática em relação ao laicismo, a pedir perdão a Galileu Galilei e a Giordano Bruno, em particular a este, cristãmente torturado, com muita caridade, até à própria fogueira onde foi queimado.Este pedido de perdão da Igreja Anglicana não vai agradar nada aos criacionistas norte-americanos.”

Na entrada Deus como problema, o autor português argumenta que se a religião mata em nome de deus, logo o problema não é somente as pessoas que compõem o grupo religioso, mas também do deus que elas adoram e que proporciona tantas matanças em geral. E você, caro leitor, pare e reflita um pouco. Quantas pessoas já morreram em guerras ditas Santas? Quantas pessoas já se foram nas inquisições? Quantas almas se foram em nome de Alá? Quantas?
           
Nem só de religião Saramago abordava em seu blog. Ele também transmitia reflexões sobre a vida e o ser humano, em entradas como Biografias; 106 anos; Rosa Parks e Quê? Aliás, este último merece ser transcrito na íntegra:

Quê?
As perguntas: “Quem és?” ou “”Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja.

O autor, em seu blog, comentava também sobre a situação da política mundial. Mas o que nos gera mais atenção mesmo são as entradas sobre a literatura. Saramago elogia, em um dos textos, o livro Budapeste, de Chico Buarque:

“O mais desassosegador, porém, é a sensação de vertigem contínua que se apoderará do leitor, que em cada momento saberá onde estava, mas que em cada momento não sabe onde está. Sem parecer pretendê-lo, cada página do romance expressa uma interpelação “filosófica” e uma provocação “ontológica”: que é, afinal, a realidade? o que e quem sou eu, afinal, nisso que me ensinaram a chamar realidade? Um livro existe, deixará de existir, existirá outra vez. Uma pessoa escreveu, outra assinou, se o livro desapareceu, também desapareceram ambas? E se desapareceram, desapareceram de todo, ou em parte? Se alguém sobreviveu, sobreviveu neste, ou noutro universo? Quem serei eu, se tendo sobrevivido, não sou já quem era? Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.”

Mais à frente, Saramago falará sobre Fernando Pessoa e seus heterônimos, sobre sua amizade com Jorge amado, sobre Borges e sua escrita. E por fim comentará a serie de lançamento de seu livro A Viagem do Elefante e revelará um segredo por trás de Todos os Nomes e o Nobel de Literatura:


“Enquanto dedicava o livro para Espmark recordei o que ele nos contou, a Pilar e a mim, sobre os bastidores do prémio que me foi atribuído. O “Ensaio sobre a Cegueira”, já então traduzido ao sueco, havia causado boa impressão nos académicos, tão boa que ficou praticamente decidido entre eles que o Nobel desse ano, 1998, seria para mim. Acontece, porém, que no ano anterior tinha publicado outro livro, “Todos os Nomes”, o que, obviamente, em princípio, não deveria constituir obstáculo à decisão tomada, a não ser uma pergunta nascida dos escrúpulos dos meus juízes: “E se este novo livro é mau?” Da resposta a dar encarregou-se Kjell Espmark, em quem os colegas depositaram a responsabilidade de proceder à leitura do livro no seu idioma original. Espmark, que tem certa familiaridade com a nossa língua, cumpriu disciplinadamente a missão. Com o auxílio de um dicionário, em pleno mês de Agosto, quando mais apeteceria ir navegar entre as ilhas que enxameiam o mar sueco, leu, palavra a palavra. a história do funcionário Sr. José e da mulher a quem ele amou sem nunca a ter visto. Passei o exame, afinal o livrinho não ficava nada atrás do “Ensaio sobre a Cegueira”. Uf.”

Nessa experiência blogueira, notamos a sinceridade nas palavras de Saramago, o tom lógico e racional de suas palavras e a ironia e o tom oral tão presente em suas obras. Lendo ele comentar sobre assuntos do dia a dia podemos notar no escritor a alma de cidadão do mundo que cada um de nós também é. E toda vez que eu vejo o noticiário da televisão ou abro o jornal para ler, fico a me indagar: O que Saramago diria se estivesse vivo?


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