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28 de julho de 2014
Noturno do Chile, de Roberto Bolaño

Noturno do Chile, de Roberto Bolaño



Fazia certo tempo que eu não ficava a refletir sobre algum livro que eu acabara de ler. Talvez tenha sido toda a névoa presente no livro, apesar da ‘claridade’ monologal com a que o narrador deixa evidente toda a história. Talvez eu esteja sendo um pouco infeliz ao afirmar que há claridade na fala de Sebastián, que sob um estado febril, quase em convalescença, tenta contar sua vida. Não sei se ele estava a querer rever o que havia feito de bom na vida, ou se apenas quis constatar os seus erros. O que sei é que pela primeira vez li Roberto Bolaño e algo me inquietou.

“a vida é uma sucessão de equívocos que nos conduzem à verdade final, a única verdade”

O livro Noturno do Chile é o primeiro livro a ser publicado no Brasil, de Roberto Bolanõ. O livro, que poderia ser uma peça de teatro ou um pequeno romance, parece se tratar de memórias que Sebástian, um padre que ensinou marxismo a Pinochet e seus generais, quer relembrar tudo o que vivei antes de sua morte. O padre, que narra toda a história, é o responsável por nos mostrar um pouco do Chile nas épocas em que Salvador Allende esteve no poder e quando do Golpe de Estado de Pinochet.

Em toda a narrativa só existem dois parágrafos, um enorme de 120 páginas e uma única frase ao final, separada de todo o resto, onde fica nítido o estado febril em que se encontra o narrador. As cinquenta primeiras páginas, que trazem seu encontro com o crítico fictício Farewell nos dá um panorama da literatura do Chile e de alguns outros países. Conhece, na casa do crítico os poetas, que realmente existiram, Salvador Reyes e Pablo Neruda.

Essa primeira parte do livro, modorrenta e com apenas alguns vislumbres literários como na maneira de narrar , quanto à escrita, foram me deixando inquieto, sem saber se deveria ou não continuar a leitura. Contudo, aos poucos, quando vamos tomando conhecimento um pouco mais da personalidade de Sebástian, parece que estamos ao seu lado, querendo ouvi-lo, desejando saber o que lhe ocorrera quando jovem. A quantos enterros de poetas, como o de Neruda, haveria ele ido, ou de que maneira ele passou pela Ditadura de Pinochet.


Até que, de repente, nos damos conta de que estamos o observado através dos “Dois espelhos, em molduras de madeira folheadas a ouro”, enquanto ele espera inquieto e trêmulo a chegada de seus alunos. Os culpados dessa empreitada seria os senhores Oidó e Oidem, que antes haviam sido responsáveis pela ida do padre até a Europa para estudar a importância de se fazer a restauração das imagens pintadas nas igrejas do Chile. Assim ele entra em mundo que não lhe pertencia, uma vez que estava sempre ao lado de escritores e críticos literários, lendo e escrevendo suas resenhas para publicação.

Com certa apreensão, acaba se preparando, em uma semana, para encontrar o Estado-Maior e lhe ensinar sobre Marx, Engels e Marta Harnecker, esta que acaba sendo delatada pelo padre ao dar os seus ensinamentos sobre o marxismo. Para os senhores Oidó e Oidem, Sebástian era a pessoal ideal para poder ministrar tais aulas e fazer com que o General conhecesse os seus inimigos, que não eram pessoas cultas e muito menos informadas sobre o mundo, como afirmou Pinochet.

Porém, apesar de estar no centro do maior círculo político de sua época, a participação de Sebástian parece ser ínfima com os ensinamentos que havia passado e não nos parece que esse seja também o foco do delírio das memórias do padre. Na realidade, não acredito que ele tenha alguma preocupação, uma vez que delira e que apenas conta o que vai lembrando. Os anos se passam rapidamente, e o estilo da escrita de Bolaño é positiva neste quesito, uma vez que não nos damos conta e a narrativa flui de maneira agradável e sem mais dissabores, pois estes estão apenas nas palavras de Sebástian.

Palavras essas que futuramente vão se encontrar com María Canales, outra escritora que recebia em sua casa diversos artistas e que em seu sótão escondia as vítimas torturadas por seu marido que eram a favor da ditadura de Pinochet.

Este último episódio passa, ao menos pra mim, como algo sem mais importância, porém parece que algo ficara para Sebástian, pois o seu reencontro com María, tempos depois, enquanto esta se encontrava na penúria e abandonada pelo marido, que havia sido preso nos Estados Unidos, é algo que tenta mostrar algo mais profundo da alma de Sebástian como padre, como ser humano. Mas diria que não passa de uma sensação velada, como se Sebástian tivesse culpa dela ter permanecido daquela maneira, como se ele houvesse contribuído, de alguma forma, para que María Canales estivesse como está, e agora tenta aconselhá-la para que siga sua vida e recomece do zero com seus filhos.

A partir deste ponto, as frases começam a se embaralhar e o delírio de Sebástian fica presente no final do livro, perguntando por seu amigo Farewell que morre, e que estava antes se esquecendo das coisas e tornando-se um pouco delirante. Assim como o crítico amigo, o padre vai chegando ao seu fim, perguntando-se ele agora é o “jovem envelhecido”, como chamava ele a Farewell.

Assim finda o livro, e a minha inquietação é sobre toda a história, sobre qual sua importância, por quais razões Roberto teria escrito esse texto. O seu estilo narrativo realmente é de surpreender o leitor, principalmente nos momentos em que dá às vezes aos personagens para que falem em diálogo com Sebástian. Mas ainda assim a história parece não me convencer. O padre parece não ser tão profundo como deseja ser, parecendo um homem normal, com perguntas quase que existencialistas. Uma personalidade no mínimo superficial ou perdida, não sei bem. Mas talvez seja isso o que vem agradando aos críticos e aos leitores. Uma amostra de até quem deveria saber um pouco mais da vida não sabe nada, que também se perde entre os delírios sóbrios, enquanto dá aulas ou enquanto visita igrejas europeias. Sebástian é todos os homens perdidos, todos aqueles que acham ter encontrado um ideal para viver, um motivo, mas que na verdade estiveram sempre a desvairar à luz do dia.




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28 de novembro de 2013
O Caderno de José Saramago

O Caderno de José Saramago


Sempre que ligo o noticiário da televisão, ou abro a página do jornal, em determinadas notícias me pergunto o que Saramago diria. O autor não é conhecido apenas pelo seu estilo único na ficção, que o levou a receber o Nobel de Literatura, ele possui uma faceta crítica e racional que encanta e, muitas vezes, polemiza. Essa faceta polêmica e crítica de Saramago foi dissecada quando o autor português criou um blog em 2008. Ele o desativou um ano depois, e nesses comentários escritos na “página infinita da internet” podem ser lidas no livro O Caderno (2009, Companhia das Letras).
           
O blog surgiu como uma das múltiplas funções das desenvolvidas pela Fundação José Saramago. A idéia se apresentou a Saramago quando sua mulher, Pilar, disse que ele tinha um espaço reservado no blog da Fundação para as suas idéias e textos. Bom, é melhor deixar Saramago comentar:

“Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros.”

Os textos do blog foram escritos quase que diariamente. Ao ler tais entradas no blog temos a impressão de estarmos tendo um diálogo frente a frente com o até então o único Nobel de literatura em língua portuguesa.

Em sua primeira postagem no blog, o autor declara o seu amor à cidade de Lisboa no texto Palavras para uma cidade. A opinião ácida sobre a religião é também explorada em Perdão para Darwin? Nesse texto, o Nobel comenta um pedido de desculpa póstumo elaborado pela Igreja Anglicana ao autor de A Origem das Espécies. É interessante este trecho, pois nos mostra a mesma maneira irônico-discursivo com que argumenta seus romances:

   

“Mesmo que Darwin estivesse vivo e disposto a mostrar-se benevolente, dizendo “Sim, perdoo”, a generosa palavra não poderia apagar um só insulto, uma só calúnia, um só desprezo dos muitos que lhe caíram em cima. O único que daqui tiraria benefício seria a Igreja Anglicana, que veria aumentado, sem despesas, o seu capital de boa consciência. Ainda assim, agradeça-se-lhe o arrependimento, mesmo tardio, que talvez estimule o papa Bento XVI, agora embarcado numa manobra diplomática em relação ao laicismo, a pedir perdão a Galileu Galilei e a Giordano Bruno, em particular a este, cristãmente torturado, com muita caridade, até à própria fogueira onde foi queimado.Este pedido de perdão da Igreja Anglicana não vai agradar nada aos criacionistas norte-americanos.”

Na entrada Deus como problema, o autor português argumenta que se a religião mata em nome de deus, logo o problema não é somente as pessoas que compõem o grupo religioso, mas também do deus que elas adoram e que proporciona tantas matanças em geral. E você, caro leitor, pare e reflita um pouco. Quantas pessoas já morreram em guerras ditas Santas? Quantas pessoas já se foram nas inquisições? Quantas almas se foram em nome de Alá? Quantas?
           
Nem só de religião Saramago abordava em seu blog. Ele também transmitia reflexões sobre a vida e o ser humano, em entradas como Biografias; 106 anos; Rosa Parks e Quê? Aliás, este último merece ser transcrito na íntegra:

Quê?
As perguntas: “Quem és?” ou “”Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja.

O autor, em seu blog, comentava também sobre a situação da política mundial. Mas o que nos gera mais atenção mesmo são as entradas sobre a literatura. Saramago elogia, em um dos textos, o livro Budapeste, de Chico Buarque:

“O mais desassosegador, porém, é a sensação de vertigem contínua que se apoderará do leitor, que em cada momento saberá onde estava, mas que em cada momento não sabe onde está. Sem parecer pretendê-lo, cada página do romance expressa uma interpelação “filosófica” e uma provocação “ontológica”: que é, afinal, a realidade? o que e quem sou eu, afinal, nisso que me ensinaram a chamar realidade? Um livro existe, deixará de existir, existirá outra vez. Uma pessoa escreveu, outra assinou, se o livro desapareceu, também desapareceram ambas? E se desapareceram, desapareceram de todo, ou em parte? Se alguém sobreviveu, sobreviveu neste, ou noutro universo? Quem serei eu, se tendo sobrevivido, não sou já quem era? Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.”

Mais à frente, Saramago falará sobre Fernando Pessoa e seus heterônimos, sobre sua amizade com Jorge amado, sobre Borges e sua escrita. E por fim comentará a serie de lançamento de seu livro A Viagem do Elefante e revelará um segredo por trás de Todos os Nomes e o Nobel de Literatura:


“Enquanto dedicava o livro para Espmark recordei o que ele nos contou, a Pilar e a mim, sobre os bastidores do prémio que me foi atribuído. O “Ensaio sobre a Cegueira”, já então traduzido ao sueco, havia causado boa impressão nos académicos, tão boa que ficou praticamente decidido entre eles que o Nobel desse ano, 1998, seria para mim. Acontece, porém, que no ano anterior tinha publicado outro livro, “Todos os Nomes”, o que, obviamente, em princípio, não deveria constituir obstáculo à decisão tomada, a não ser uma pergunta nascida dos escrúpulos dos meus juízes: “E se este novo livro é mau?” Da resposta a dar encarregou-se Kjell Espmark, em quem os colegas depositaram a responsabilidade de proceder à leitura do livro no seu idioma original. Espmark, que tem certa familiaridade com a nossa língua, cumpriu disciplinadamente a missão. Com o auxílio de um dicionário, em pleno mês de Agosto, quando mais apeteceria ir navegar entre as ilhas que enxameiam o mar sueco, leu, palavra a palavra. a história do funcionário Sr. José e da mulher a quem ele amou sem nunca a ter visto. Passei o exame, afinal o livrinho não ficava nada atrás do “Ensaio sobre a Cegueira”. Uf.”

Nessa experiência blogueira, notamos a sinceridade nas palavras de Saramago, o tom lógico e racional de suas palavras e a ironia e o tom oral tão presente em suas obras. Lendo ele comentar sobre assuntos do dia a dia podemos notar no escritor a alma de cidadão do mundo que cada um de nós também é. E toda vez que eu vejo o noticiário da televisão ou abro o jornal para ler, fico a me indagar: O que Saramago diria se estivesse vivo?


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4 de novembro de 2013
A dor da perda e o olhar bem humorado diante das trivialidades da vida

A dor da perda e o olhar bem humorado diante das trivialidades da vida




Quando a esposa de Otto morreu, as roupas ainda estavam pingando no varal. Essa imagem está lá, no livro, e de cara, numa ideia concretizada em algo pictórico, já antevemos a escrita de Vanessa Barbara, que faz um jogo onde entram o humor, frases poéticas e ideias que se unem a outras, fazendo-nos ter a certeza: através de uma escrita onde as palavras vão sendo sobrepostas, numa construção que só mais tarde leva a algum lugar, como num romance detetivesco, a escritora vai cativando o leitor não apenas para ler a página seguinte, mas igualmente, para se permitir ser transportado para um lugar quase bucólico, que na verdade, são dois: o lugar físico, através das descrições da vizinhança onde residem Otto e sua falecida esposa Ada, além de todo o grupo de personagens que os circundavam, e o lugar do Outro, que é também feito da dor da perda, mas também abre espaço para a leveza, as vicissitudes de uma existência comezinha, e para as complicações inesperadas que a vida traz.

Noites de Alface (Alfaguara, 168 páginas), é aparentemente um romance fragmentário. Cada capítulo leva o nome de um (ou mais de um) dos personagens, que convivem na mesma vizinhança. No capítulo em questão aquele (ou aqueles) personagens, naturalmente, terão protagonismo, embora não deixem de interagir com os demais. Assim, conhecemos um farmacêutico viciado em ler bulas de remédios e nos efeitos colaterais de cada medicamento, uma senhora esotérica e viajandona, um japonês ex-combatente de guerra que tem certeza que a duração da Segunda Guerra foi muito maior do que na realidade, uma datilógrafa que vive ligada e seus cachorros, um carteiro que faz suas entregas a esmo, e uma antropóloga casada com um marido que vive viajando (literalmente) e obcecada por esquimós. E o melhor: apesar de todas essas, digamos, peculiaridades, conseguimos crer que aquelas pessoas existem. De alguma forma, ali está aquela tia amalucada que cada um de nós temos ou tivemos, aquela prima que parece viver numa realidade paralela, aquela amiga solteirona que se joga no trabalho e na vida alheia como forma de preencher suas lacunas. É tudo vida real.

Toda essa gama de personagens, de uma forma ou de outra, acaba por tirar o sossego de Otto, que desde a morte de sua Ada, não quer sair de casa, nem lidar com a luz do dia. Sua vida esvaziou-se e, pra ele, é assim que tem que ser até o último dia. Não fosse a intervenção dos vizinhos, que vão, aos poucos, transformando seus dias, apesar de sua ranzinzice. 

E o título? Evidentemente, explicar o título é tirar do leitor o deleite de senti-lo fazer sentido durante a leitura. E é uma experiência que o leitor precisa ter. Um momento simples e caracterizado pelo bom humor que retrata justamente a beleza e a ternura de uma vida compartilhada. Um achado.

Com a proeza de uma escritora acostumada a refletir sobre aquilo que torna a vida esse gigantesco amálgama (Vanessa Barbara é cronista da Folha e do The New York Times, além de escrever uma crônica mensal no blog da editora Companhia das Letras e de ter um site onde publica crônicas sobre assuntos variados), Vanessa entrelaça as diversas tessituras por ela criadas, tornando cada parte um todo, e dando ao leitor, ao chegar à última linha, a convicção de que, em menos de duzentas páginas, cabem todo um universo.



Textos da autora -





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30 de agosto de 2013
O Doce Veneno da Serpente

O Doce Veneno da Serpente

O jornalista Ricardo Kotscho, no livro Tempo de Reportagem, de Audálio Dantas, promove um desagravo: credita a invenção do novo jornalismo à imprensa brasileira, durante a década de 40, através do nome de Joel Silveira. O próprio Audálio Dantas, praticante da modalidade, aponta publicações como a revista Realidade, endosso da prática corrente desse tipo de jornalismo atribuído à influência de autores americanos do porte Norman Mailer, Truman Capote e Gay Talese.

A polêmica está instalada. Se a paternidade não pode ser reclamada e os registros alterados, resta o consolo que aos pais adotivos não faltou competência para criá-lo, educá-lo e mantê-lo como gênero. As obras produzidas por seus cultores norte-americanos representam marcos nessa espécie de narrativa. Norman Mailer, entre seus inúmeros livros, podemos destacar Miami e o cerco de Chicago sobre a prévia e a campanha que levaria Richard Nixon ao poder; Truman Capote com sua obra-prima A Sangue Frio, traduzida no Brasil por Ivan Lessa, trata sobre um brutal assassinato no Kansas; e, Gay Talese com Aos Olhos da Multidão, publicado nos anos setenta, pela editora Cultura e Expressão e reeditado pela Companhia das Letras, acrescido de outras matérias, com o título Fama e Anonimato, reúne as principais matérias do autor do célebre perfil do cantor americano Frank Sinatra.

No Brasil, o “inventor” do gênero foi Joel Silveira, sergipano radicado no Rio de Janeiro, que cobriu como repórter a Segunda Guerra Mundial. A experiência refletida no livro O Brasil na 2ª Guerra Mundial, mostra o cotidiano no front. No livro, publicado pela Ediouro, pode ser encontrado duas peças narrativas exemplares Eu vi morrer o Sargento Wolff , morto em uma patrulha na Itália e O pracinha Carlos Scliar, artista plástico gaúcho, que mantinha um caderno de desenhos onde registrava o dia a dia da campanha.

O repórter gabava-se por ter conhecido três presidentes da república: Getúlio Vargas, João Goulart (Jango) e Jânio Quadros. Os flagrantes dessas personalidades podem ser vistos através dos artigos reunidos no livro Tempo de Contar  (Record) e mais recentemente em A Feijoada que Derrubou  o Governo (Cia das Letras). Esteve com intelectuais, frequentemente na companhia de Graciliano Ramos, personagem que lhe rendeu histórias engraçadíssimas, entre elas a criação de um Golfo para o país ganhar importância geo-política e a da malograda tentativa literária da víbora – epíteto que o jornalista deve a Assis Chateubriand – frustrada pelo autor de São Bernardo. O registro pode ser lido em Na Fogueira: memórias ou em parte no Milésima Segunda Noite (Cia das Letras), em que os retratados não sofrem retoques. Há um curioso relato sobre o poeta João Cabral de Melo Neto.

Joel Silveira foi objeto de um documentário realizado por Geneton Moraes Neto. A gravação de Garrafas ao Mar: A Víbora manda Lembranças, deu-se, em parte, no apartamento do jornalista em Copacabana onde residia. Com a saúde fragilizada, mas com as idéias no lugar, Joel Silveira falou sobre a sua carreira, discorreu sobre assuntos polêmicos e se a acidez era sua moeda corrente quando era um jovem repórter, percebe-se que ela fora substituída por uma melancólica serenidade. Um pessimista, Joel afirmava que o Brasil era uma farsa e dava por encerrada suas ilusões democráticas. Em entrevista a Istoé Independente pode ser constatada a sua visão a respeito do país:

“O Brasil é uma farsa. É uma farsa democrática porque não é uma democracia. Não é democrático que um presidente edite todos os dias uma medida provisória. Se temos uma Constituição, obedeça. Mas como os artigos constitucionais não lhe servem, então tome medida provisória! O Lula com dois anos de governo já editou mais de 200 medidas provisórias, como fazia o Fernando Henrique Cardoso. A democracia racial é outra farsa. Quantos generais negros você conhece? Quantos negros há no Congresso? Quantos presidentes de empresas são negros? A economia também é uma farsa. Por muito tempo nos orgulhávamos de ser a oitava economia do mundo. Uma economia que só beneficia uma minoria, talvez 30 mil pessoas numa população de 180 milhões. A concentração de renda no Brasil chega a ser obscena. Nada mais cruel e sovina do que o empresariado brasileiro, o banqueiro brasileiro. De benefício ao trabalhador só dão o mínimo que a lei obriga. A elite brasileira é essencialmente míope. É como aquela frase de Luiz XIV: “Depois de mim, o dilúvio.” Não há solução enquanto não se resolver esse problema da divisão da renda, o que eu acho dificílimo porque a elite não abre mão de jeito nenhum. O povo brasileiro é passivo, não reage.”

Considerado por muitos jornalistas um mestre, morreu com 89 anos, em 2007.  Geneton Moraes Neto retoma a palavra para descrever a saída do corpo:

“E o agente veio. Acabo de sair da casa de Joel Silveira. Não quis ver a saída do corpo. A Santa Casa de Misericórdia avisou que o agente chegaria às duas horas. Pensei comigo: "Com a pontualidade brasileira, ele vai chegar lá para as quatro da tarde".
Engano. Nem uma hora e cinquenta e nove minutos nem duas horas e um : eram duas em ponto quando o agente apertou a campainha, no apartamento de Joel Silveira, no sexto andar de um prédio da rua Francisco Sá, em Copacabana.
O
agente encenava, sem suspeitar, o poema de Lawrence Ferlinghetti.
Era como se dissesse: tudo pode atrasar no Brasil, mas a morte, quando vem, chega exatamente na hora, sem tolerância. Nem um segundo de atraso.
Desci do sexto andar. Lá embaixo, tive o gesto inútil de observar a placa da Kombi branca da Santa Casa de Misericórdia: LFR 1236. A Kombi trazia, nas laterais, o nome da Santa Casa e o telefone: 0800 257 007.
Joel tinha inveja de um personagem de Vitor Hugo que, minutos antes de ser guilhotinado, dizia, resignado, que estava pronto para a execução, mas "gostaria de ver o resto". Ou seja: o personagem gostaria de descrever a própria morte.
Que palavras Joel usaria?
Quanto a nós, discípulos e aprendizes, já não há o que fazer, além de anotar a placa da Kombi : LFR 1236, três letras e quatro números amargamente inúteis.”


Em meu último encontro com Joel Silveira, que sofria de uma estranha paralisia que o impedia de andar, devido ao inchaço nas pernas, ele me confidenciou:

“A unanimidade nunca esteve ao meu lado. Pratiquei outro tipo de jornalismo, daquele que vai atrás das notícias e de fatos que, potencialmente, poderiam se tornar notícias. Não ficava enfurnado na redação, apurando por telefone. E nunca me ausentei daquilo que escrevi. Isenção é uma bobagem, nunca fui, não era e não serei uma máquina para cuspir a notícia pronta, sem interferências. Talvez fosse o tipo de jornalismo da época. Talvez isso tenha me rendido um bocado de inimigos”

Encerrava com voz gutural a peroração, palavra de que tanto gostava.  Outra era acendrado. E pontificava:

“Por que o medo das palavras?”



A discussão se embrenhava aos meandros modernistas. Os impropérios desferidos desancavam o principal mentor do Movimento paulista de 22. Se estivesse vivo, depois das inúmeras homenagens, talvez mudasse de idéia quanto a sua unanimidade ou apenas com olhar debochado, corrigisse o rumo da conversa para algo mais proveitoso. 

por Mariel Reis
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5 de março de 2013
De inéditos e ineditismos

De inéditos e ineditismos



por Pedro Fernandes de O. Neto*

Passados dois anos da publicação de Claraboia, findei nesta semana a leitura do romance perdido de José Saramago. Perdido foi a expressão utilizada durante a campanha de publicidade da obra. O escritor compôs esse texto ainda nos idos de 1950, depois de uma decepção literária anos antes com Terra do pecado, e o datiloscrito ficou escondido pelas mãos dos editores aos quais Saramago submeteu a obra, até quando do recebimento do Prêmio Nobel em 1998. Depois disso, manifestando interesse em editá-lo, o autor foi categórico: o livro só viria a lume depois de sua morte e se os responsáveis por seu espólio assim quisessem. Se o romance hoje está ao alcance do grande público é, sim, graças a Pilar del Río, viúva e presidenta da fundação que leva o nome do romancista.

Bom, mas não será este um texto para apreciação crítica do romance em questão; isso é já assunto para outra ocasião. O caso aqui citado é para introduzir um comentário acerca de um modismo mercadológico que tem tido seu boom nos últimos anos. Os da nova geração de leitores já terão se acostumado com essa moda que é a de remexer arquivos esquecidos pelo tempo a fim de achar entre os papeis – e são muitos – deixados pelo escritor um texto qualquer que dê brecha para uma publicação inédita e de preferência surpreendente, cheia de revelações a ponto de até mudar determinados conceitos acerca dos já fossilizados.

No caso de Saramago há uma diferença dos demais porque houve uma manifestação ainda em vida por parte do escritor em não querer ver o livro esquecido feito de estandarte capital ou mesmo ser capaz de receber a vaia da crítica ou o seu silêncio, como foi em relação à Terra do pecado. Mas, ao dizer que depois da sua morte fizessem o que quisessem com o achado já abria margens para acreditar que a sua publicação não seria de todo mau grado do escritor. Quero me referir a outros casos em que o autor já morto – e em alguns que a obra já se encontra em domínio público – que uma decisão do tipo, isto é, tornar público aquilo que ele escondeu por toda uma vida ou mesmo disse não querer vê-lo publicado, deixa-se ser integralmente levada por uma equipe editorial que tem, antes do interesse artístico e estético, os claros interesses de lucro sobre o produto; e aqui, incluo na mesma lista os parentes ou os estudiosos da obra de um escritor.

E para todos os lados se multiplicam casos; e para grande maioria deles há exageros. Há brechas na lei de direitos autorais, por exemplo, que dá muita permissividade aos herdeiros para tomar determinadas decisões, como a de publicação de originais. Digo isso porque, sabendo que escritor sempre escreve mais do que publica, sei também que ele tem seus critérios críticos e capacidade de seleção que não estão ao alcance, em boa parte das vezes, dos herdeiros. Para uma situação do tipo, parece sensato que a decisão do autor deveria ser um direito irrevogável; seja o herdeiro quem seja, a decisão do autor é um direito literário e, sobretudo, moral e de respeito à sua memória. Para aquelas situações que não envolvem o nome de herdeiros, nem de instituições designadas pelo autor, talvez fosse justo a existência, no âmbito da justiça, de fóruns especializados que pudessem avaliar, por exemplo, a decisão de publicação. Em todo caso não se deve acreditar que o simples fato de o autor não ter dado fim àquilo que não foi publicado seja sempre uma interpretação direta de que deve ser feito público; nem que deixado a um herdeiro responsável este tenha todo direito de exploração do material.

E, por fim, cumpre ainda pensar em casos mais extravagantes, como os de intervenção dos herdeiros sobre os textos, seja pela reescritura do manuscrito, pela supressão de parágrafos, pela escrita de conclusões aos textos. Todas essas situações infringem diretamente sobre a escrita e não se constituem em trabalhos inéditos como vão sendo propalados pela mídia. Pode ser que a intenção ou tema estejam ali preservados, mas as intervenções, por si só, descaracterizam a originalidade do texto e fazem dele o texto de outro autor. Estou aqui pensando naquela personagem de Jorge Luis Borges no conto “Pierre Menard, o autor de Dom Quixote” que se debruça na fatídica ideia de reescritura do romance de Cervantes e, mesmo que sejam repetidas os pontos e as vírgulas, tudo à sua imagem do texto original, já no fim não será o Dom Quixote de Cervantes, mas o de Pierre Menard. Fato é que, se isso fosse levado a sério não teríamos a imagem que temos, por exemplo, hoje, de Kafka. Já no caso de Saramago, a própria Pilar já deu negativas à mídia de qualquer inédito do escritor, restando apenas as poucas páginas para o último romance em que ele trabalhava no ano em que morreu; no caso de Claraboia, o texto já estava pronto, havia sido encaminhado para edição e as únicas alterações feitas foram as de adequação ortográfica; entre 1950 e 2011, nós, os usuários da língua portuguesa, já passamos por duas reformas.

Mas para que os casos de absurdos sejam freados, uma vez estarmos no auge da moda dos inéditos, muita coisa há que ser revista. O direito de posse não deve ser confundido com o direito de publicação e difusão dos escritos – ainda mais quando se envolve capital sobre. Afinal, propriedade intelectual não se transmite por herança e muitos dos casos em que envolvem dinheiro podem ser enquadrados como apropriação e uso claro de exploração indevida. Que estes escritos estejam acessíveis aos estudiosos e leitores da obra do escritor, é válido, agora que sejam tornados produtos de venda sem o consentimento do autor ainda em vida ou simplesmente pelo interesse financeiro de herdeiros, não; o ideal é que, em última ocasião, seja dado a um fórum de especialistas a decisão. Um trabalho artístico, seja de que natureza for, não pode estar atrelado simplesmente às leis de mercado; como criação intelectual têm em sua natureza outros valores e estes precisam ser preservados.

*Aluno do Doutorado em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É autor de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago (2012, Appris, 280p.) e editor do blog Letras in.verso e re.verso e do caderno-revista de poesia 7faces.



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31 de janeiro de 2013
O visconde partido ao meio, de Italo Calvino

O visconde partido ao meio, de Italo Calvino




O visconde, ou melhor, o livro de Calvino surgiu aos meus olhos, assim, meio que partido ao meio, no quesito preço. Não suportei, comprei e o li de uma leitura só. A história faz rir, como queria o autor, mas também faz voltar o pensamento para o que somos enquanto humanos e no que podemos nos transformar, tornando-nos tão baixos e sombrios.

O título Visconde partido ao meio pode dizer muito, ou não. Pode-se, a partir dele, pensar que existe um visconde, que é ou foi ou está partido ao meio. Pode fazer questionar se é somente sobre isso que o livro vai falar: um visconde partido ao meio ou se é mais um daqueles títulos que enganam.

As dúvidas logo se dissipam quando iniciamos a leitura do prefácio. Italo Calvino diz que escreveu o livro porque “queria sobretudo escrever uma história divertida para divertir a mim mesmo, e possivelmente para divertir os outros”.

O autor italiano acreditava que o divertimento era uma coisa séria, por isso mantinha consigo a preocupação de que a escrita enquanto técnica não pode esquecer os significados que ela própria pode emanar.

O importante numa coisa do gênero é fazer uma história que funcione justamente como técnica narrativa, enquanto captura do leitor. Ao mesmo tempo, também estou sempre muito atento aos significados: tomo cuidado para que uma história não acabe por ser interpretada de modo contrário ao que penso; assim, também os significados são muito importantes, mas numa narrativa como esta o aspecto de funcionalidade narrativa e, digamos, de diversão é muito importante.

Nota-se também que possuía certa preocupação com os caminhos que o leitor poderia tomar através dos significados incutidos na obra. As interpretações são sempre muitas, mas Calvino assume que tinha todo o cuidado para que sua obra não fosse interpretada de modo contrário ao que ele pensava. Tema esse que é debatido por vários autores e críticos literários: o de que o autor não tem poder sobre sua obra, a partir do momento em que ela existe em si e através da leitura.

Ainda no pequeno prefácio, Calvino deixa claro que divertir não é apenas narrar cenas engraçadas, dá a entender que tudo tem que ser arquitetado, como se a obra precisasse de uma entonação, como aquelas que deveriam ser usadas, talvez, à época de Homero, para se contar  histórias. E Calvino, diga-se de passagem, fazia isso muito bem.

Creio que divertir seja uma função social, corresponde à minha moral; penso sempre no leitor que deve absorver todas estas páginas, é preciso que ele se divirta, é preciso que ele tenha também uma gratificação; esta é a minha moral: alguém comprou o livro, despendeu dinheiro, investe parte de seu tempo nele, deve divertir-se. (...) Penso que o divertimento seja uma coisa séria.

A seriedade com a qual ele tratou o livro não o fez perder em nada o bom humor. Consegue entreter o leitor e ao mesmo tempo nos coloca no cerne da história, na pele do visconde, que está ou foi ou é partido ao meio.

Narra-se, então, a breve história de Medardo di Terralba; sim, era esse o nome do Visconde que se partiu ou irá partir-se. Ele está indo para a guerra, que acontece entre cristãos e mouros, e o Visconde, por sua posição, deve estar presente. Porém, por nunca ter estado em guerra alguma, encaminhou-se para ela ao lado de seu escudeiro Curzio, que aos poucos vai contando alguns detalhes sobre as guerras, para que seu senhor entenda um pouco mais sobre tudo.

Logo no segundo capítulo, ficamos sabendo como se deu a partição do visconde. Medardo, quando à frente de sua tropa, sendo essa formada por umas poucas fileiras de cristãos combalidos, após o início da batalha, vê que existem dois árabes que estavam a comandar um canhão. Ele então acreditando que com sua espada em punho amedrontaria os dois inimigos, se predispôs a combatê-los de frente, mas quando menos esperou levou um canhonaço no meio de si.

Entusiasta e inexperiente, não sabia que só podemos nos aproximar de canhões lateralmente ou do lado da culatra. Saltou na frente da boca de fogo, de espada em punho, e imaginava assustar os dois astrônomos. Ao contrário, mandaram-lhe um canhonaço em pleno peito. Medardo di Terralba saltou pelos ares

Vê-se a inocência que possuía o visconde quanto às armas e o modo de batalhar. Daí, o que se segue não é mais a história do visconde, mas dos viscondes. A parte direita de Medardo, ainda viva, foi recolhida por alguns soldados, que sempre recolhiam os restos dos corpos  após a batalha. Quando os médicos o viram, partido ao meio e vivo, ficaram abismados, mas tentaram mantê-lo vivo, mesmo sem possuir habilidades para tal. Apesar disso, Medardo sai com vida e volta para casa.

Durante todo o livro, quem narra a história de Medardo di Terralba é o seu sobrinho bastardo; que recolhido no castelo vê tudo o que se passa com seu tio. O sobrinho, de quem não se sabe o nome, tinha entre sete ou oito anos quando o visconde voltara. É ele quem vai ser responsável por desvendar o mistério que há por vir.

A volta de Medardo traz muitas aflições para os seus conhecidos e familiares. Seu pai, que vivia dentro de uma gaiola gigante, rodeada de pássaros, e a ama Sebastiana, que será levada para a aldeia dos leprosos, mesmo sem ser ela uma leprosa, porque assim o quis o visconde, eram os que mais esperavam a volta daquele homem partido ao meio. Aiolfo, feliz com sua chegada, envia um passarinho até o quarto do visconde, que se mantinha trancando o tempo todo desde que voltara. Porém, no dia seguinte, na gaiola do rei, um passarinho morto aparece partido ao meio. Com isso, o pai do visconde falece na mesma noite. E não será somente isso que ele irá partir ao meio. O visconde parte ao meio tudo o que lhe aparece pela frente: peras, rãs e até cogumelos venenosos, que dá de presente para o seu sobrinho, tentando assim o seu primeiro assassinato premeditado.

Por essas e por outras ações, como matar vários agricultores e caçadores por terem infligido a lei, através de uma forca que poderia matar ao mesmo tempo mais de vinte pessoas, ficamos sabendo que Medardo mudara e que o pior de si resolvera, digamos, aflorar. O visconde estava literalmente mau, só havia lhe restado a parte ruim de si próprio.

Não acreditamos que o visconde tenha entrado em um estado de depressão, mas que o mesmo não conseguia mais se ver na condição de humano, de não ser mais uno, já que tudo para ele deveria ser partido, tendo em si mesmo um ‘quase ser’. Ele era realmente mesquinho, não porque quisesse ser, mas por ter sobrado apenas isso nele. A maldade estava impregnada dessa forma em seu âmago. E é nessa conjuntura que Medardo faz o que bem entende com seu povo. Qualquer ato que não o agrade pode ser motivo para resultar em morte.  São tantas, que só chegam a diminuir quando ele se ‘apaixona’ por Pamela. Na realidade, o que deseja o visconde é apenas a vontade de possuir um objeto para si, pois o que deseja com a moça é fazer dela o que bem entender.

O visconde disse consigo mesmo: ‘Acontece que entre os meus sentimentos intensos não tenho nada que corresponda àquilo que os inteiros chamam de amor. E se para eles um sentimento tão idiota possui tanta importância, o que para mim poderá corresponder a isso, certamente será magnífico e terrível’. E decidiu apaixonar-se por Pamela. (...) Mas os pensamentos que ele formulara friamente não devem nos induzir a enganos. Ao ver Pamela, Medardo sentira um vago movimento do sangue, e havia recorrido àqueles argumentos com uma espécie de pressa assustada.

Pamela, ao saber que Medardo a quer, pede, em vão, ajuda aos seus pais. Porém, o visconde já os havia convencido e, como era de praxe, aterrorizado para que a filha que tanto amavam se tornasse sua mulher. A doce e ingênua Pamela foge e vai morar na floresta. E esse é o momento em que vai se dar a representação da figura partida ao meio do visconde. Onde tudo irá descambar para a dualidade, muito bem representada por Italo Calvino. A parte boa, o seu lado esquerdo, que irá ficar sendo conhecido como ‘O Bom’ surge, para raiva e desatino do ‘Mesquinho’, como acaba ficando conhecido a parte direita de Medardo.

por Maurilio

A parte esquerda aparece nos arredores e começa a fazer o bem para toda a população. Muitos ficam a achar que ele está doente da cabeça e que deve estar sofrendo com ataques de dupla personalidade. Ninguém, até o momento, havia percebido que a parte ‘oposta’, a parte boa, do outro visconde, do que era companheiro da morte, havia aparecido. O primeiro a identificar isso fora o sobrinho, que ao tentar ajudar a parte boa, que havia sido mordido por uma aranha vermelha, acaba por ajudar a parte ruim, que estava a pescar ali perto. Ficando, assim, sem entender o que havia se passado. Como poderia ter se livrado do veneno da aranha tão rápido?

O Doutor Trelawney, que nunca havia movido um dedo sequer para ajudar quem quer que fosse, toma forma no romance e se apresenta como um verdadeiro descobridor de causos. Ele se interessa pelo caso da aranha, pois a metade boa do visconde o teria ido visitar instantes antes da chegada do sobrinho, que lhe contou o que havia acontecido. O doutor entende que ambas as partes estavam vivas e que desconheciam o paradeiro de sua outra metade. Resolve, com isso, lançar-se aos estudos da anatomia humana, coisa que nunca havia feito desde que ficara perdido por aquelas terras.

À vista disso, depois que ficam sabendo que ambas as partes estão vivas, o que veremos são as ações sendo feitas e desfeitas pelos viscondes. Enquanto um resolve ajudar no arado, na colheita, aos doentes, o outro se põe a desfazer tudo. Sendo impossível a convivência dos dois no mesmo território. Outro problema que surge é a paixão dos dois por Pamela. Sendo impossível conviver perto um do outro, é marcado um duelo para que apenas uma parte sobreviva: a boa ou a ruim.

Italo Calvino soube bem montar a dualidade que aparece em sua obra. Entendendo que os humanos não são apenas bons ou ruins, leva ambas as partes até as suas ruínas. A luta, que ocorre no último capítulo do livro, é ao mesmo tempo hilária e séria. Hilária porque ao vermos duas partes de um só ser combatendo, cada qual tendo que se apoiar em alguma coisa para conseguir remeter a espada contra o outro é, no mínimo, algo engraçado, e séria, porque a luta entre os dois nos mostra um homem que combate a si mesmo.

O leproso soprou o chifre: era o sinal; o céu vibrou feito uma membrana repuxada, os esquilos nas tocas afundaram as garras no húmus, as pegas sem tirar a cabeça de sob as asas arrancaram uma pena da axila provocando dores, e a boca da minhoca mordeu o próprio rabo, e a víbora se picou com seus colmilhos, e a vespa rompeu o ferrão na pedra, e cada coisa se voltava contra si mesma, a geada das poças se congelava, os líquens se petrificavam e as pedras viravam líquen, a folha seca se fazia terra, e a goma espessa e dura matava as árvores sem piedade. Assim, o homem se arrojava contra si mesmo, com ambas as mãos armadas de uma espada.

Tal natureza improvável de existir, como essa figura que chega a ser medonha, que é o Visconde, quando entrando em divergência consigo próprio faz a natureza entrar em desequilíbrio, daí o relato do que acontecia com bichos e plantas, no momento da luta. Tal desarmonização da natureza se dá, acreditamos, para mostrar que fazer o homem lutar contra si, olhar para dentro de si e tentar desvendar os seus próprios mistérios é algo que desarmoniza, não só a si próprio, como o que está a sua volta. É, talvez, a representação nítida da dualidade, o embate entre as duas forças, que Calvino quer deixar claro.

Ao final da luta ambos morrem. Todos os têm por mortos. O único que pula de alegria, que sorri, ao final do duelo, é o Doutor Trelawney, que solicita que levem os corpos para o castelo, pois ele tem algo a fazer. Irá por em prática as suas habilidades, que eram desconhecidas de todos, para unir novamente o Visconde partido ao meio:

Depois de meia hora levamos de maca para o castelo um único ferido. O Mesquinho e o Bom estavam vendados estreitamente juntos; o doutor tivera o cuidado de combinar todas as vísceras e artérias de ambas as partes, e depois com um quilômetro de curativos os unira tão intimamente que parecia, mais que um ferido, um antigo morto embalsamado.

Feito isso, teremos o visconde por inteiro, mas sem deixar de ser “nem mau nem bom”, mas sim “uma mistura de maldade e bondade, isto é, aparentemente igual ao que era antes de se partir ao meio”. O Visconde então vive, não estava de todo morto, mas ele não deixa de ser, consequentemente, como todo ser humano, bom e mal. Toda a narrativa parece se encaminhar para que entendêssemos o quanto é necessário que algo nos faça conhecer a nós mesmos tão profundamente. E esse conhecer a si próprio poderia ficar esquecido na obra de Italo Calvino. Apesar de parecer uma história simples ou divertida, como o autor queria, algo fica dito nas últimas frases do livro, pelo sobrinho do visconde, que ao longo do romance vem sempre sendo esquecido, apesar de ser ele quem conta a história.

Ao contrário, em meio a tantos fervores de integridade, eu me sentia cada vez mais triste e carente. Às vezes a gente se imagina incompleto e é apenas jovem.


O autor, que nos deixa preocupados a todo instante com as revelias do Mesquinho e com as dúvidas do Bom, acaba por fazer com que esqueçamos o sobrinho, que desde o início é marcado como o abandonado, o que não tem pai nem mãe, ou qualquer pessoa a quem possa chamar de família. Preocupamo-nos tanto com o visconde que está partido ao meio que deixamos de lado o sobrinho, inteiro, mas que possui o espírito partido, pela falta de atenção, pela falta de carinho. Logo ele, que é a voz que comanda toda essa história mirabolante.

Calvino nos surpreende, porque tudo é muito bem arquitetado. Deixar o sobrinho de lado fazia, talvez, parte do plano da narrativa. Não dar atenção para o sobrinho é fundamental para que Medardo di Terralba seja o foco, é deixar visível que a nossa incompreensão sobre nós mesmos inicia cedo, que preocupamo-nos sempre em saber se agimos da forma correta ou errada, se estamos sendo bons ou maus. O que importa somos nós mesmos. Apesar de nos imaginarmos incompletos, algumas vezes, como o sobrinho, não nos descobrimos na pele dele, porque nos pomos no lugar de Medardo, queremos ser Merdardos, queremos ser totalmente bons ou totalmente ruins. Mas não há ser humano que seja apenas bom ou apenas ruim. Alguns poderão indagar: Mas e os loucos, os psicopatas, os assassinos, não são pessoas ruins? Respondemos que não sabemos, serão eles somente mesquinhos? Será que eles não possuem nada de bom em si? Será que o padre, a freira, o médico, o inocente, também não possui nada de ruim? Não são eles humanos? Aparentemente, o que deve nos importar, após a leitura do romance, é conseguir achar o meio-termo, mesmo sabendo que é quase impossível, porque temos que entender: somos bons e ruins, às vezes mais isso do que aquilo e vice-versa.

                     
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7 de janeiro de 2013
Um copo de cólera

Um copo de cólera


por Rebeca Xavier


Cólera.
Cólera...
A palavra dança, melhor, perambula pela língua – como houvesse mais de uma língua na minha boca e todas estivessem perdidas-hipnotizadas pela pronúncia da palavra que passeia, digo, perambula por elas.
Cólera... a palavra, em si, fervilha em mim sentimentos controversos, que se batem em velocidade indescritível soltando pequenos gritos de luz, condensando-se incontivelmente num bloco único, mínimo e turbulento – que então é-me ofertado puro....
... sem gelo.

Ouvi, certa vez, uma amiga dizer-se ainda não preparada para uma dose tão densa de cólera. Hoje, depois de ter lido, confesso, de um gole seco e inesquecível, o Um copo de cólera do brasileiro Raduan Nassar, eu me questiono se um dia alguém estará preparado para essa leitura. O que R.N. nos apresenta com essa novela vai tão além da expectativa que dificulta um pouco o trabalho de qualquer pessoa que tenha a pretensão de o adjetivar. Inicia-se com duas pequenas epígrafes que chamam a atenção pela força de suas expressões: “Ninguém dirige aquele que Deus extravia” e “Hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil rebento do anarquismo” e segue em sentimentos densos – ou forçosamente compactados – por cinco capítulos de poucas páginas: A chegada, Na cama, O levantar, O banho e O café da manhã.

Das epígrafes ao fim do quinto capítulo, o que R.N. nos dá pode ser dito como uma convivência de cargas sexuais e ideológicas opostas, atrativas, portanto. O narrador, em primeira pessoa, cria deliberadamente uma tensão ideológica-sexual-amorosa e, posicionando-se como macho dominador, rumina durante esse primeiro momento o seu próprio prazer e, através dele, o prazer de sua fêmea – não há palavra mais apropriada neste momento. A tensão criada torna-se quase sufocadora, ao mesmo tempo fluida, ao ser condensada inteiramente em um único período gramatical, como se fosse um gole – ou um escarro.

E quando cheguei à tarde na minha casa [...], ela já me aguardava andando pelo gramado [...] e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?” [...] e foi só mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já jantou?” [...] fui sem pressa pra cozinha [...] e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate [...] sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca [...] eu só sei que quando acabei de comer o tomate [...] sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto. (p. 9-11)

Todo o tempo, o narrador se apresenta como “o macho” cuja chegada é aclamada em uma das epígrafes. Apenas n’O banho e no último capítulo ele mostra a fragilidade – também anunciada – num comportamento quase edipiano, quando se permite banhar após levantar-se para o café. E, mesmo nesse momento de entrega aos cuidados da fêmea-mulher-mãe, ainda há a tensão deliberada, a ordem acatada.

[...] eu disse “me lave a cabeça, eu tenho pressa disso”, e então, me tirando do foco da ducha, suas mãos logo penetraram pelos meus cabelos, friccionando com firmeza os dedos, riscando meu couro com as unhas, me raspando a nuca dum jeito que me deixava maluco na medula, mas eu não dizia nada [...] eu só sei que me entregava inteiramente em suas mãos para que fosse completo o uso que ela fizesse do meu corpo. (p. 22-24)
  



Mas, só no sexto capítulo (o mais longo, com 55 páginas) que o copo se quebra e a cólera é espalhada por todos os lados, molhando as rachaduras mal cuidadas desse relacionamento. Cólera em seu sentido mais bestial. É nesse momento que “aquele que Deus extravia” se apresenta com força de fera, jorrando ira por todos os lados.

Um buraco de alguns palmos feito por “malditas saúvas filhas-da-puta” (p. 31) na cerca viva do jardim é a desculpa que liberta o verbo não dito. E o verbo não dito são saúvas em cercas-vivas bem podadas. Aos poucos se evidencia que as saúvas na cerca-viva não são o problema, mas o descontrole protelado ou o falso controle que alimenta a macheza do narrador.

[...] e de balde já na mão deito uma dose dupla de veneno em cada olheiro, c’uma gana que só eu é que sei o que é [...], puto com essas formigas tão ordeiras, puto com sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda [...], daí propiciei a elas a mais gorda bebedeira [...] (p. 31-32)
  
Puto” com o que havia acontecido, retorna e vê sua fêmea “[...] recostada no pára-lama do carro, a claridade do dia lhe devolvendo com rapidez a desenvoltura de femeazinha emancipada” (p. 32) e O esporro – título desse sexto capítulo – é literal,  liberta-se com a força de um esporro guardado e ritmicamente induzido até a exaustão. E, na exaustão, após a despedida, o ritmo reinicia-se no sétimo capítulo, A chegada – com o controle re-adquirido e o retorno na fêmea-amante-mãe que “mal continha o ímpeto de” se “abrir inteira e prematura para receber de volta aquele enorme feto” (p. 85).

R.N., que também em sua carreira teve um esporro literário e logo depois o sono, escreveu essa novela em 15 dias, em 1978, o que fomenta ainda mais a intensidade que propagandeio aqui. No entanto, duas semanas foram o período apenas do parto – para mudarmos a ótica de masculina para feminina, como ele mesmo faz ao final do livro –, a gestação foi mais longa.

Disse que escrevi a narrativa em quinze dias, mas esses quinze dias foram só o tempo de descarga. É que a novela deveria estar em estado de latência na cabeça, e sabe-se lá quanto tempo levou se carregando, ou se nutrindo - de coisas amenas, está claro - e se organizando em certos níveis, até que aflorasse à consciência. (Raduan Nassar em entrevista)

O que me resta, enfim, é a angustiante questão: Um copo apenas é muito? ou é como uma dose de uísque, sem gelo, puro, descendo pela garganta como se limpasse o ralo do juízo, eliminando as impurezas da consciência... como fosse uma purificação? ou, como diria a fêmea-amante-mãe, durante O café da manhã, “eu não tive o bastante, mas tive o suficiente”...?



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