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7 de janeiro de 2013

Um copo de cólera


por Rebeca Xavier


Cólera.
Cólera...
A palavra dança, melhor, perambula pela língua – como houvesse mais de uma língua na minha boca e todas estivessem perdidas-hipnotizadas pela pronúncia da palavra que passeia, digo, perambula por elas.
Cólera... a palavra, em si, fervilha em mim sentimentos controversos, que se batem em velocidade indescritível soltando pequenos gritos de luz, condensando-se incontivelmente num bloco único, mínimo e turbulento – que então é-me ofertado puro....
... sem gelo.

Ouvi, certa vez, uma amiga dizer-se ainda não preparada para uma dose tão densa de cólera. Hoje, depois de ter lido, confesso, de um gole seco e inesquecível, o Um copo de cólera do brasileiro Raduan Nassar, eu me questiono se um dia alguém estará preparado para essa leitura. O que R.N. nos apresenta com essa novela vai tão além da expectativa que dificulta um pouco o trabalho de qualquer pessoa que tenha a pretensão de o adjetivar. Inicia-se com duas pequenas epígrafes que chamam a atenção pela força de suas expressões: “Ninguém dirige aquele que Deus extravia” e “Hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil rebento do anarquismo” e segue em sentimentos densos – ou forçosamente compactados – por cinco capítulos de poucas páginas: A chegada, Na cama, O levantar, O banho e O café da manhã.

Das epígrafes ao fim do quinto capítulo, o que R.N. nos dá pode ser dito como uma convivência de cargas sexuais e ideológicas opostas, atrativas, portanto. O narrador, em primeira pessoa, cria deliberadamente uma tensão ideológica-sexual-amorosa e, posicionando-se como macho dominador, rumina durante esse primeiro momento o seu próprio prazer e, através dele, o prazer de sua fêmea – não há palavra mais apropriada neste momento. A tensão criada torna-se quase sufocadora, ao mesmo tempo fluida, ao ser condensada inteiramente em um único período gramatical, como se fosse um gole – ou um escarro.

E quando cheguei à tarde na minha casa [...], ela já me aguardava andando pelo gramado [...] e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?” [...] e foi só mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já jantou?” [...] fui sem pressa pra cozinha [...] e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate [...] sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca [...] eu só sei que quando acabei de comer o tomate [...] sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto. (p. 9-11)

Todo o tempo, o narrador se apresenta como “o macho” cuja chegada é aclamada em uma das epígrafes. Apenas n’O banho e no último capítulo ele mostra a fragilidade – também anunciada – num comportamento quase edipiano, quando se permite banhar após levantar-se para o café. E, mesmo nesse momento de entrega aos cuidados da fêmea-mulher-mãe, ainda há a tensão deliberada, a ordem acatada.

[...] eu disse “me lave a cabeça, eu tenho pressa disso”, e então, me tirando do foco da ducha, suas mãos logo penetraram pelos meus cabelos, friccionando com firmeza os dedos, riscando meu couro com as unhas, me raspando a nuca dum jeito que me deixava maluco na medula, mas eu não dizia nada [...] eu só sei que me entregava inteiramente em suas mãos para que fosse completo o uso que ela fizesse do meu corpo. (p. 22-24)
  



Mas, só no sexto capítulo (o mais longo, com 55 páginas) que o copo se quebra e a cólera é espalhada por todos os lados, molhando as rachaduras mal cuidadas desse relacionamento. Cólera em seu sentido mais bestial. É nesse momento que “aquele que Deus extravia” se apresenta com força de fera, jorrando ira por todos os lados.

Um buraco de alguns palmos feito por “malditas saúvas filhas-da-puta” (p. 31) na cerca viva do jardim é a desculpa que liberta o verbo não dito. E o verbo não dito são saúvas em cercas-vivas bem podadas. Aos poucos se evidencia que as saúvas na cerca-viva não são o problema, mas o descontrole protelado ou o falso controle que alimenta a macheza do narrador.

[...] e de balde já na mão deito uma dose dupla de veneno em cada olheiro, c’uma gana que só eu é que sei o que é [...], puto com essas formigas tão ordeiras, puto com sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda [...], daí propiciei a elas a mais gorda bebedeira [...] (p. 31-32)
  
Puto” com o que havia acontecido, retorna e vê sua fêmea “[...] recostada no pára-lama do carro, a claridade do dia lhe devolvendo com rapidez a desenvoltura de femeazinha emancipada” (p. 32) e O esporro – título desse sexto capítulo – é literal,  liberta-se com a força de um esporro guardado e ritmicamente induzido até a exaustão. E, na exaustão, após a despedida, o ritmo reinicia-se no sétimo capítulo, A chegada – com o controle re-adquirido e o retorno na fêmea-amante-mãe que “mal continha o ímpeto de” se “abrir inteira e prematura para receber de volta aquele enorme feto” (p. 85).

R.N., que também em sua carreira teve um esporro literário e logo depois o sono, escreveu essa novela em 15 dias, em 1978, o que fomenta ainda mais a intensidade que propagandeio aqui. No entanto, duas semanas foram o período apenas do parto – para mudarmos a ótica de masculina para feminina, como ele mesmo faz ao final do livro –, a gestação foi mais longa.

Disse que escrevi a narrativa em quinze dias, mas esses quinze dias foram só o tempo de descarga. É que a novela deveria estar em estado de latência na cabeça, e sabe-se lá quanto tempo levou se carregando, ou se nutrindo - de coisas amenas, está claro - e se organizando em certos níveis, até que aflorasse à consciência. (Raduan Nassar em entrevista)

O que me resta, enfim, é a angustiante questão: Um copo apenas é muito? ou é como uma dose de uísque, sem gelo, puro, descendo pela garganta como se limpasse o ralo do juízo, eliminando as impurezas da consciência... como fosse uma purificação? ou, como diria a fêmea-amante-mãe, durante O café da manhã, “eu não tive o bastante, mas tive o suficiente”...?



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3 comentários:

  1. Anónimo12:08 p.m.

    Eu gostei! :D Nuca li nada do Raduan Nassar, mas me deu vontade de conhecer mais sobre ele!

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  2. Thiago Fonseca8:19 a.m.

    tá lindo, Rebeca!

    Fiquei muito intrigado com a parte do "o verbo não dito são saúvas em cercas-vivas bem podadas. Aos poucos se evidencia que as saúvas na cerca-viva não são o problema, mas o descontrole protelado ou o falso controle que alimenta a macheza do narrador."

    O narrador diz que fica “puto com essas formigas tão ordeiras, puto com sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda”. E aí fiquei intrigado com a relação que você fez entre o verbo não dito e as saúvas. Qual a ordem, eficiência e organização do não dito que desordena e desorganiza a eficiência do discurso do macho? Se as saúvas não são o problema (concordo), elas problematizam.

    Quando você diz que o problema é o “descontrole protelado ou falso controle que alimenta a macheza do narrador”, acho que dava pra gente explorar melhor o que seria esse “descontrole protelado” na figura do macho dominador que rumina seu próprio prazer, resguarda silêncio quando questionado e, após insistência da mulher, responde-a com outra interrogativa.

    Do macho que, sem dizer uma palavra, entra junto com sua mulher num quarto de penumbra, mas, ordenando, tem pressa de se entregar inteiramente às mãos da mulher no banho para que fosse completo o uso que ela fizesse do seu corpo. São tantas tensões, intenções e vacilos, né?

    Enfim, um bom texto é assim. Deixa a gente matutando. E é um bom texto o livro. E o seu também, claro.

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  3. Ora,ora..realmente essa moça não é só mais um rostinho bonito :) Parabéns pela bem redigida crônica. Realmente desperta a vontade de ler o livro

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