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14 de janeiro de 2013

Bonsai, uma paz solitária




Mente quem diz que não compra um livro pela capa. A capa de um livro, para os leitores mais fanáticos por design, tem chamado cada vez mais a atenção. Bonsai, de Zambra, chama a atenção. Isso poderia bastar. Poderia ser motivo para ser comprado e para ser deixado de lado, apenas por possuir uma bela capa. Mas não, a linguagem simples e ‘engalhística’ do autor chileno nos faz pregar os olhos nas frases curtas, rápidas e arredias até o final do romance.

O livro é despretensioso. O texto formatado nas páginas lembra os originais que teriam sido enviados à editora, com marcação de uma diagramação ainda por terminar. Iniciamos a leitura com curiosidade por ver aquelas letrinhas minúsculas e parágrafos tão curtos. De pronto, o narrador nos conta que existe Julio e que existe Emilia. Que esta vai morrer e que ele não.

Ambos os personagens, “que não são exatamente personagens, embora talvez fosse conveniente pensá-los como personagens”, não se conheciam até o momento em que se encontram na casa de amigos para estudar. Porém, o estudo é o catalisador para que algo entre os dois possa existir.

As frases de Zambra nos envolvem como as curvas de um galho, nos fazem pensar que estamos indo em certa direção, quando, na realidade, estamos sendo enganados, estamos sendo envolvidos pela escrita. Não uma escrita circular, mas ramificada. É como se a existência de Emilia e Julio mantivessem os “galhos” do livro, as histórias que vão surgindo, vivos. Os personagens e histórias que vão aparecendo, aos poucos, não são o cerne da questão, diz o narrador, mas ao mesmo tempo ele se dispende em alguns parágrafos para contar a história e delinear cada personagem que aparece. Há exemplo disso quando o narrador nos diz, de diferentes maneiras, que isso ou aquilo não é importante e começa a relatar sobre o que não deveria ser relatado. Como quando fala de Anita ou quando fala da morte de Emilia ou ainda quando fala do fim do romance (da obra e da relação amorosa).

E essa talvez seja a tensão que nos deixa imóveis, com os olhos atentos ao que vai acontecer a cada página lida. Dessa tensão nasce a relação dos estudantes que se inicia com uma mentira. Essa mentira não é algo tão escandaloso, não envolve outras pessoas, não é algo tão estarrecedor. Mas a mentira contada por ambos, talvez por vergonha, talvez por pedantismo, sabe-se lá por qual motivo, é sobre um livro. Para ser mais específico é sobre ter lido Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust:

A primeira mentira que Julio contou a Emilia foi que tinha lido Marcel Proust. Não costumava mentir sobre suas leituras, mas naquela noite, quando os dois sabiam que alguma coisa estava começando entre eles, e que essa coisa, durasse o quanto durasse, ia ser importante, naquela noite Julio impostou a voz e fingiu intimidade, e disse que sim, que tinha lido Proust, aos dezessete anos, num verão, em Quinteiro.  


E pela ênfase dada pelo narrador, pode-se chegar a pensar que esse é o ponto de partida para o entendimento sobre as relações casuais que são narradas em Bonsai, que a mentira que iniciou a relação de Julio e Emilia é o pilar fundamental para o entendimento da paixão dos dois e da obra. Não quero acreditar que seja isso, talvez por acreditar que o ponto de partida para Zambra é outro.

Talvez seja mais interessante imaginar de que maneira ambos os personagens conseguiam ler antes de transar. Sempre. Eles liam bastante antes de irem para a cama.  Julio certa noite inicia a leitura de um poema em voz alta para Emilia e isso os excita, os deixa animados para repetirem a dose. A leitura então começa a fazer parte do ritual sexual daquele casal. Ela e ele sempre conseguiam isolar uma parte que fosse de cada conto, de cada texto, que pudesse “aquecê-los”, mesmo que nada de erótico existisse naquele texto, naquele conto.

Nem sempre é fácil encontrar nos textos algum motivo, mínimo que seja, para trepar, mas no fim sempre conseguem isolar um parágrafo ou um verso que, caprichosamente estendido ou pervertido, funciona, aquece-os. (Gostavam desta expressão, “aquecer-se”, por isso a registro. Gostavam quase tanto como de aquecer-se de fato.)



Numa dessas leituras a dois, sobre a cama ou em qualquer outro lugar que o leitor possa imaginar, Emilia e Julio leram Tantalia, conto de Macedonio Fernández, “que os afetou profundamente”. Na história havia um casal e uma plantinha, e que se a plantinha morresse a paixão entre ambos também morreria. Ficam sabendo que esse casal tenta se livrar da plantinha entre tantas outras iguais. Essa história os impactou, e veio o silêncio.

Mas foi com Proust que tudo se arruinou, ou aparentemente sinalizou o fim do relacionamento dos dois personagens, que não se sabiam personagens, mas que poderiam sê-los. Foi lendo Proust, No caminho de Swan, que puderam entender que :

Não é porque se sabe de uma coisa que se pode impedi-la.


Parece que ambos sabiam, desde ‘Tantalia’, o que ia acontecer. E Proust os arrebatou com essa frase em seu livro na página 374. Talvez isso tenha sido impactante por tê-los feito entender que uma hora esse momento chegaria. Que aquele silêncio no início, transformado em mentira, viria à tona em algum momento para fazê-los entender que sem uma plantinha viva a paixão acaba. A leitura que os aquecia, que os animava nas noites de sexo, tinha sido o catalisador para sua animosidade e para seu declínio. A gota d’água para o fim do relacionamento.

E do término do relacionamento parece que se inicia o nascimento de novos ramos ou da criação de novas histórias. Dividido em cinco partes, Bonsai consegue ficar rígido e em harmonia com o todo. Apesar das ramificações feitas pelo narrador, que ora nos conta sobre Julio, André, Anita, Maria, Gazmuri, Emilia, faz o texto permanecer de pé, já que tudo está ligado, ou melhor, entrelaçado.

Emilia morre. Julio, desempregado, finge escrever um livro, o livro que seria de Gazmuri, e que no final vai se chamar Bonsai. Ambos se distanciam da realidade. Emilia, não se sabe por qual motivo morre e Julio sem motivo algum escreve.

O narrador segue contando como poderia acontecer certas ações ou como elas realmente aconteceram até chegarmos em ‘Dois desenhos’, que é o último capítulo e que se inicia assim: “O final desta história deveria nos animar, mas não nos anima”.

Não se sabe ao certo o que acontece, mas há fuga da realidade. Julio, após conseguir um emprego e ter conhecimento da morte de Julia, percorre a cidade dentro de um táxi e isso basta, que siga até onde o dinheiro puder pagar, mas há algo a mais.

O romance desde o início trata de uma solidão, é nisso que desejo acreditar. E nos deixamos enganar, pelas histórias, pelo caminho dos galhos, que tudo talvez não passasse de uma relação entre um casal que teve os seus caminhos separados, mas só sabemos ao final ou quando voltarmos ao início.

Ao finalizar o livro, se voltarmos ao primeiro parágrafo, nos daremos conta de que:

No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia.


Essa solidão, de sentir-se só, acredito, foi o que Zambra quis demonstrar. Obviamente não posso afirmar isso. Mas se olhássemos para um bonsai, poderíamos entender talvez, além da sua paz de espírito, como alguns poderiam taxar, a sua solidão. A solidão de uma árvore contida num jarro. Independente. Só. Desligada do mundo. A terra em que o bonsai cria raízes não está em harmonia com a Natureza. Há a cisão entre o bonsai e a Natureza. E talvez seja essa a representatividade que Bonsai nos queira passar, e que a premissa bonsai inclui uma retenção do tamanho, como se ele não pudesse extrapolar certos limites.

Em todo o caso, na história de Emilio e Julia há mais omissões que mentiras, e menos omissões que verdades, dessas verdades que são chamadas de absolutas e que costumam ser incômodas.



A linguagem simples e enganadora do narrador nos ludibria. Nos deixa levar pelo tom irônico da despreocupação que a voz narradora tem em contar as histórias. Quando na verdade toda a história é uma demonstração de como o mundo se sente só. De como as relações que são estabelecidas entre as pessoas podem ser como um bonsai. De como a paixão que pudemos obter em harmonia pode ser o nosso bonsai, o nosso ‘elemento vivo’ e nós os vasos. Talvez seja essa comunhão que deva ser encontrada, mas que sempre é dificultada por sentirmo-nos sós. Por estarmos sós, mesmo que acompanhados. Talvez seja a solidão mental que nos mata, que nos envolve e faz com que queiramos sair do vaso e daí já não seremos mais um bonsai, seremos apenas solidão.


Um bonsai é uma réplica artística de uma árvore em miniatura. Consta de dois elementos: a árvore viva e o recipiente. Os dois elementos têm de estar em harmonia e a seleção do vaso apropriado para uma árvore é, por si só, quase uma forma de arte. (...) Um bonsai nunca é chamado de árvore bonsai. A palavra já inclui o elemento vivo. Uma vez fora do vaso, a árvore deixa de ser um bonsai.




Fonte: ZAMBRA, Alejandro. Bonsai. CosacNaify, 2012.

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