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16 de dezembro de 2014
Literatura: uma salvação.

Literatura: uma salvação.




Ainda hoje, os questionamentos são os mesmos entre autores, leitores e críticos literários. Pra que serve a literatura? Ela há de engrandecer quem escreve? Ela contribui no desenvolvimento intelectual e pessoal de quem lê? Por quais motivos devemos discriminar uma obra a partir dos elementos que estão presentes em si? Nada disso possui uma resposta correta ou verdadeira. O que há de comum em tudo isso é a paixão pelas letras e pela imaginação.

Assim inicio esse texto, pois querendo falar de Sérgio Vaz, após a leitura de seu livro Literatura, pão e poesia, o primeiro que me chegou às mãos, confesso que o olhei meio enviesado. Queria saber o que que esse poeta teria de tão bom que vem chamando a atenção de editores, críticos e leitores de maneira demasiada. Falam por aí que sua poesia é marginal, por ser ela da periferia, por estar ‘despreocupada’ com uma escrita mais formal, o que contribui para um melhor ‘relacionamento’ com pessoas que não possuem, ainda, a mania de ler.

Talvez o pensamento positivo que ande sendo reverberado sobre o Vaz seja porque, além de ter escrito alguns livros que evidenciam sua preocupação com a linguagem literária, estando ela mais perto da coloquialidade, ele tem conferido à Zona Sul de São Paulo, há mais de uma década, um dos maiores saraus da ctidade, o tão conhecido Cooperifa, que faça chuva ou faça sol sempre ocorre no bar do Zé Batidão. Talvez o poeta tenha “ido longe demais” porque a sua escrita, em uma primeira leitura, pode ser considerada detentora de uma pitada de ‘autoajuda’ (apesar de não ser essa a melhor palavra para definir o que percebo em sua escrita), mas com quilos de uma poesia que é notavelmente profunda.

A verdadeira arte não embala os adormecidos. Desperta-os

Enquanto lia Literatura, pão e poesia, me perguntava por que os textos que ali se inseriam eram tão distintos entre si e, ao mesmo tempo, tão parecidos, com uma delicadeza de quem percebe os movimentos do viver das coisas que estão ao nosso alcance ou não. É fato que é isso que o poeta faz, observar mais atentamente a realidade, mas, perante essa nova poesia contemporânea, parece que muito disso anda esquecido e que estamos apenas a deleitarmo-nos num abstracionismo que não nos remete a quase nada.

O que Sérgio Vaz produz é uma literatura de acesso. E espero que essa alcunha não seja sentida de maneira negativa, uma vez que o que desejo é elevar sua poesia. Ele escreve como quem fala, contando uma história quase rimada, como se tivesse a sua frente uma plateia que clama por histórias. Tem em si o poder da oralidade, parece ter entendido muito bem o que se fazia na Antiga Grécia. Talvez isso seja reflexo, também, da sua movimentação frente às dificuldades enquanto tentava vender o seu primeiro livro, tentando chamar a atenção do público recitando textos em locais diversos para tentar viver da literatura, como já contou em inúmeras entrevistas. Talvez ele tenha consigo a importância que um poeta tem junto à comunidade, contribuindo para que ela possa se conhecer melhor, se sentir melhor mesmo com tantas agruras da realidade. O que parece, no meu ponto de vista, ter sido deixado de lado por vários novos expoentes da literatura brasileira, estamos mais “umbigóides”, menos coletivos, ao contrário de Sérgio Vaz. Muito se fala quando as câmeras estão voltadas para nós, desejamos inúmeras vezes o bem maior, e empurramos a culpa para o governo, que deveria fazer isso ou aquilo, ou afirmamos contundentemente que a leitura poderia contribuir para que a sociedade fosse mais engajada, enquanto nós não nos engajamos. Vaz não espera, ele age, pois para ele, ao contrário do que Sartre acreditava, “o inferno somos nós”. É o artista o maior responsável pela difusão da literatura ou da leitura.

O artista é a última linha da sociedade, quando ele desiste é porque não resta mais nada.

E o que resta do livro de Vaz? Resta a sinestesia dos gêneros em seu livro, pois ainda não decidi se o que li foi poesia, crônica ou contos. Além disso, as críticas que ele constrói, evidenciando a falta de leitura, a diferença social através da literatura entre as pessoas me convenceu de que, cada vez mais, sabemos menos do que somos capaz. Talvez daí surja o nome do livro de Vaz, Literatura, pão e poesia.

Conheço poeta que não lê, jornalista que não gosta de notícia, médicos sem remédio, 
professores que não estudam justamente porque acham que se formaram, 
como se sabedoria se medisse por grau ou degrau.

Sérgio Vaz tem a facilidade de conseguir se aprofundar em alguns temas e isso me deixou de sobreaviso, como ocorre nos “Contos celulares”. A amizade, presente no conto nº 1 é discorrido num diálogo tão pontual, que pode enganar pela sua ‘superficialidade’, mas que aponta para um amor quase descomunal entre dois amigos que queriam ‘apenas’ se falar. Evidenciar esses momentos, que podem ser tidos como clichês ou banais, de maneira a nos fazer mais humanos, faz de Sérgio um observador nato, não só porque vislumbra a realidade com olhos de poeta, mas por entender que em tudo, literalmente tudo, há poesia. Não existem possibilidades, só certeza.

O que sobra de Vaz? Poderia dizer que as inúmeras ‘frases de efeitos’ e ótimas histórias que acabam se tornando um ensino de vida, como se fossem um anúncio do que poderá acontecer conosco, e talvez isso afaste os mais puristas, pois podem acreditar que isso não poesia, mas uma maneira de se autoajudar. Porém, não seria a escrita uma maneira de nos salvarmos?

Por fim, em meio a tantos ‘causos’ e narrativas que desrespeitam as regras, os aforismos, se é que posso assim chamar, do poeta são como balas perdidas durante a leitura. Elas se desprendem entre as histórias de uma maneira que acabamos por nos sentir incomodados, é aquele momento em que nos mexemos de um lado para o outro, sem saber como agir ou sem saber o que pensar, pois nada mais poético do que utilizar-se do real e de nós mesmos para nos fazer sentir menos infernais e mais humanos:

Ninguém é obrigado a ajudar o próximo,
nem a ficar de braços cruzados.




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27 de setembro de 2014
Íris, uma despedida

Íris, uma despedida



“Tudo começou de um jeito muito divertido”

É assim que a irmã mais nova de Íris começa a contar a história da doença que acabou por levar sua irmã. “Foi quando Íris acordou com os olhos vesgos” que tudo começou, que foi possível aprender um pouco mais sobre a morte e como ela pode nos proporcionar, talvez, um amadurecimento adiantado, digamos.

Íris, uma despedida, de Gudrun Mebs e Beatriz Martín Vidal, é um livro que foi feito para as crianças, mas eu não quero acreditar nisso. A maneira como Gudrun conta a história envolve o leitor com seu linguajar que facilita a compreensão de uma criança, seja ela lendo sozinha a história ou tendo seus pais para contá-la. A história de Íris, apesar de ser uma história sobre a morte, ocasionada por um câncer instalado na cabeça da irmã mais velha, é uma narrativa que consegue ter um tom de humor que não machuca, mas ajuda a entender os caminhos que uma criança faz, perante a sua inocência, para compreender de que maneira alguma coisa pode levar-nos desse mundo.

A gente tem mesmo de tudo na cabeça. A mamãe sempre brincava comigo: “Você só tem asneira na cabeça!”. Mas eu vivo bem assim. O papai explicou que um tumor é outra coisa, uma coisa muito ruim, e que as pessoas morrem disso.

A irmã de Íris, a qual não ficamos a saber o nome, durante o início da doença da irmã, fica acompanhada da senhora Miller, que faz bolos muito gostosos e que sempre a diverte. Porém, com o avançar da doença e com a presença constante de seus pais no hospital para ajudar a cuidar de Íris, é necessário que a avó surja como uma pessoa que pode dar um aparato sentimental à criança.

Hoje a vovó também veio. Ela mora numa cidade chamada Dresden. Agora a vovó tem que cuidar de mim, porque a senhora Miller nem sempre tem tempo. Eu acho que posso me cuidar sozinha, mas o papai diz que prefere assim, e a vovó é mesmo um amor.

Aos poucos, a inocência, óbvio, da criança, que ainda está entendendo como o mundo funciona, a faz acreditar que Íris logo estará de volta em casa, pois não sabe o que é um câncer. Tudo a leva a crer que retirar o câncer de Íris é algo tremendamente fácil e sem dor:

Eles abrem a cabeça da Íris e puxam o tumor pra fora. Isso é moleza! Então ele vai embora.

A gente tem um câncer na câncer na cabeça e fica doente, então operam e tiram todo o câncer e a gente fica bem de saúde de novo. É simples. Ou não é?

Após essas dúvidas, tenta recorrer ao dicionário, que esconde sob o travesseiro, para depois questionar o pai o que seria algumas palavras que explicam a doença, mas que ela não é capaz de compreender. Mas o real fará a sua parte, chocando a criança, que é apenas um ano e dois meses mais nova que a irmã hospitalizada, deixando-a sem palavras, quando vê Íris diferente, sem cabelos, em uma roupa verde e com um furo na cabeça:




A Íris estava tão diferente. Tão estranha. Então ela olhou pra mim e sorriu, e também foi estranho o jeito como ela sorriu assim de cabeça careca. Eu não conseguia falar e só ficava olhando pra ela. Então o papai me colocou no colo e fez um carinho na Íris e disse: “Como se sente hoje, meu anjo?”, e a Íris disse: “Bem”, e eu falei de repente: “Mas e o cabelo?”.

Talvez algum leitor mais esperançoso queira que o final não seja o esperado, tendo em vista que o câncer, uma doença quase sem cura, sem possibilidades de fazer que as pessoas continuem estabilizadas, avança terminalmente. Esse avanço também pode ser percebido com as ilustrações que preenchem o livro com os traços de Beatriz Vidal, que soube de maneira, falta-me o adjetivo, compreender a obra e plasmá-la em desenhos. O avanço do câncer é representado como se flores, galhos e folhas nascessem na cabeça de Íris lindamente e que, com o decorrer do avanço da doença, vão murchando, secando, assim como a vida da menina mais velha.

Como afirmei no início do texto eu não quero acreditar que esse livro foi feito para crianças, pois é impossível não trazer a representação do que a obra intenta para o nosso cotidiano. Fazia certo tempo que algo não me arrebatava com tanta força. Talvez pela candura da irmã mais nova e sua inocência em contraposição à crueldade da doença, que muitos de nós conhecemos, talvez pela morte iminente de uma das personagens, que como um anúncio premeditado nos abala desde o início do livro, como se estivéssemos em um carro a trezentos quilômetros por hora em uma rua sem saída.

A vovó não tinha percebido que eu já estava acordada, e ela só olhava na direção da janela, mas parecia que ela não estava vendo nada. Eu achei esquisito e falei: “Bom dia, vovó!”. Então ela se virou para mim e disse: “A Íris morreu nesta noite”. Ela começou a chorar e saiu do quarto. Eu fiquei deitada e senti muito frio. Eu não tinha entendido bem.

E quando releio esta passagem, ainda sinto arrepios.


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8 de setembro de 2014
Sem importância coletiva (I)

Sem importância coletiva (I)



Talvez não ter importância seja o melhor a se fazer ou o melhor a se ser. Talvez a coletividade vise isso, a falta de importância de nós mesmos. Deveríamos começar a nos acostumar a viver na Zona em que vivem os personagens de Daniela Lima, autora de Sem importância coletiva, editado pela e-galaxia. Deveríamos ser apenas um “biorôbo”, sem nos emocionar ou sem nos lembrar como é sentir o nosso próprio corpo.

Fazer perguntas sobre a Zona é não mais sentir, é começar a fazer parte de um modelo quisto pelo Governo, pois só é possível ser herói n’A cidade modelo, pois “A cidade modelo é reflexo de tudo aquilo que o governo queria que representasse o sistema”. Além dela não há nada, “Não há vida”.

Acabando de ler o ‘desconforto literato’, nome que invento agora para poder falar sobre o livro de Daniela Lima, fiquei a pensar, sem sentir o corpo, momentaneamente desligado, tentando fazer relações a outras diversas narrativas e outros diversos pensamentos que tenho comigo acabei me perdendo. E, apesar que digam que é bom se perder, não gosto de estar perdido, não gosto de não sentir por qual caminho devo enveredar.

Esse desconforto há certo tempo não me incomodava. Sem importância coletiva mexe com temas que me são caros e que acredito terem mudado minha maneira de entender o mundo, a partir de leituras de livros como 1984. Não sei o livro foi baseado em distopias, como a de Orwell ou Zamiátin, mas a verdade é que sofro ao ler livros assim.

Ainda assim, em meio a narrativa de como vive a cidade modelo, de como está instaurada a Zona e os homens, serão mesmo homens?, na cidade modelo, a escritora, ao mesmo tempo, está inserida nele como alguém que também não possui alguma importância coletiva. Assim como a repórter chegará o momento em que ela não sentirá nada e se transformará em um monstro “capaz de dar corpo ao que antes era vazio”. Porém, o vazio de antes talvez seja o preenchimento que vivemos agora, e eu não sei.

Esse texto deveria ser para tentar esclarecer essa obra, mas acredito que ainda estou tentando me descontaminar da leitura deste livro. Espero que a contaminação da escritora sem importância coletiva não tenha ainda viralizado e chegado aos leitores ou críticos de sua obra. O que sei apenas é que ler o livro de Daniela Lima é estar perdido, e sentir, ainda, a necessidade de o reler e talvez o reler e o reler, como se fôssemos o visitante que vai até a Zona e que, talvez, não possa mais ir embora. Talvez fiquemos presos à leitura de Sem importância coletiva e assim fiquemos, por alguns anos, até que sejamos enterrados vivos. Afinal, viver é simples, como a leitura de um livro.





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24 de agosto de 2014
Jogo sem labirinto

Jogo sem labirinto



Julio Cortázar é um dos nomes mais conhecidos da chamada Literatura latino-americana. Há cinquenta anos, publicava, pela editora Sudamericana, de Buenos Aires, uma obra considerada vanguardista. A estrutura de Rayuela, nome original da obra de Cortázar, mais conhecida no Brasil como O jogo da amarelinha, é conhecida até mesmo por quem nunca leu ou lerá o livro.


Construir um livro com a possibilidade de haver duas formas de leituras não é fácil. A problemática que envolve esse tipo de leitura é uma só: as duas leituras podem se transformar em interpretações quase infinitas. Daí a dificuldade em se conseguir chegar a um consenso quanto à interpretação na leitura d’O jogo da amarelinha; e de se acreditar que o romance pode se transformar em um ‘romance de ensaio’, pois as narrativas se desenvolvem na forma de ensaio, com interrupções, saltos e indecisões.


Dispor um livro em 56 e/ou 155 capítulos ao mesmo tempo não é algo que faça um leitor se apaixonar. Ainda mais quando se sabe que Oliveira, personagem principal, realiza uma busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é. A dificuldade da leitura e em definir a obra parta, talvez, da própria incoerência da busca de Oliveira.

           

Encontrar algo definido é o difícil nessa obra tão arredia, tanto para Oliveira como para Maga, por quem é apaixonado. O que se percebe neles é que há um caminho sendo traçado, criando uma irrealidade, que aqui toma outros significados, mas no sentido da vida real, que sempre parece ser burlado pelos diálogos criados entre Oliveira e seus amigos, excluindo sempre a pobre Maga, no Clube da Serpente.


Entre todos os personagens que permeiam o livro, Maga é a única que aparenta ser inocente. Sua ignorância é mostrada pela falta de conhecimento que possui não somente no campo das artes, mas quanto aos assuntos do cotidiano. Ela se preenche apenas pela presença de seu filho, Rocamadour, que morre, na metade da leitura do que seria o primeiro livro construído por Cortázar. Tal cena é demonstrada absurdamente pelos que se encontram presentes em seu apartamento. Percebem quão difícil será contar a morte de Rocamadour a Maga e ficam a divagar, fogem da vida real e criam uma nova realidade, uma irrealidade, de como tudo terá de ser construído a partir daquela morte. E daí se dará a mudança de espaço na obra. Oliveira, que residia em Paris, retornará para a Argentina e lá outra trama amorosa se iniciará.

           

Mas a morte não importa. O importante é perceber como Cortázar quer quebrar a nossa visão costumeira que temos sobre a vida real e a nossa realidade, assim como faz em um dos seus contos mais conhecidos: A auto estrada do sul, que mostra de que maneira a narrativa foge dos padrões pré-estabelecidos, e como funciona o ser humano. O escritor argentino tenta moldar a nossa realidade a partir de hipóteses criadas por diálogos filosóficos, principalmente, mostrando que existe muito mais ao nosso redor do que a criação de uma irrealidade. Faz que o leitor se instale nas histórias dos personagens, utilizando-se de situações que nos rodeiam, para que participe da história e se ponha no lugar das personagens, trazendo o aprendizado dos mesmos para si. Como exemplo, temos os vários nicaraguenses, que após a leitura do livro, resolveram participar da Revolução Sandinista, na Nicarágua, nas décadas de 60 e 70 – a qual o próprio escritor apoiava.


A disposição dos 155 capítulos, presentes em O jogo da amarelinha, não cria, de forma alguma, no meu entender, um labirinto; apesar da busca sem objetivo de Oliveira. Cria – diante de capítulos curtos, de diálogos, por vezes enfadonhos, de um romance que pode ser tido como um grande ‘romance de ensaio’  um leitor que não tem o direito de se perder, de erguer labirintos, pois há o texto. A escritura está presente e é ela quem mostra os caminhos para as interpretações possíveis, que sim, hão de ter um fim, mesmo que esse seja o início de uma nova história, que tenha os mesmos personagens e que tragam novos desesperos para quem o lê.



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23 de agosto de 2014
Jucas e Chicos no mundo

Jucas e Chicos no mundo



Daniel Defoe, no prefácio de sua obra Moll Flanders, antecipa:

"Através da imensa variedade deste livro, apegamo-nos estritamente a uma ideia básica: não incluir, em nenhuma parte, alguma ação perversa que não dê origem a consequências infelizes; não pôr em cena um autêntico vilão sem que acabe mal ou seja levado a se arrepender; não mencionar qualquer ato criminoso sem condená-lo na própria narrativa. e nenhuma ação virtuosa e justa que deixe de receber o seu louvor"

Talvez, apesar das distinções existentes entre a obra de Defoe e de Wilhelm Busch, seja possível aproximar a ideia pertinente em ambos os casos, não deixar que um ato criminoso passe sem trazer consequências a quem o realizou. Talvez seja esse o princípio para se construir uma história a qual objetiva evidenciar uma moral existente.

E a moral do livro aqui em questão talvez não nos tivesse chegado se não fosse o nosso querido poeta parnasiano. Nunca havia passado em minha mente que Olavo Bilac poderia ser tão desenvolto em traduções. Na realidade, eu nunca havia lido nenhuma obra traduzida pelo príncipe dos poetas, até que chega em minha casa um livro colorido, que chama atenção, intitulado Juca e Chico, que mais tarde venho a saber que originalmente é conhecido como Max und Moritz, escrito por Wilhelm Busch, autor nascido no que hoje é a Alemanha. E em meio há tantos despautérios que vimos observando, ultimamente, este livro surge como uma possibilidade de ensinamento às crianças.

A história, obviamente, vai tratar de dois personagens, que ficamos a saber, logo na primeira travessura, como são suas personalidades. Malévolas, poderíamos resumir, mas ao mesmo tempo é uma personalidade que existe em milhões de crianças, e, até mesmo, adultos. São sete as histórias contadas em rimas que não deixam nada a desejar, fazendo jus ao nosso querido Bilac. A obra, muito bem traduzida, tem uma moral ao final, que dirá bastante sobre a importância deste livro voltado para as crianças.


Juca e Chico são apresentados pelo narrador da seguinte maneira:

Põem toda a gente maluca,
Não querem ouvir conselhos
Estes travessos fedelhos!

E o que se segue não é nada agradável, tendo em vista o politicamente correto, que anda vigorando em nossa sociedade.  No início, das duas primeiras histórias, até cheguei a pensar que uma mãe lendo as primeiras páginas desistiria de comprar o livro para ler para os seus filhos, porém, como diz Rodrigo Lacerda, crítico responsável pelo prefácio do livro, “nunca aconteceu de eu ler esse livro para uma criança, menino ou menina, e ela não se interessar pelo fresco das rimas, pelo humor da história, pela agilidade da narrativa, e, sim, também pela moral”; portanto, é quase um ultimatum, deixando claro que não podemos desistir da leitura.

As travessuras que são contadas, no total em sete, desde a morte de três galinhas e um galo, através de grãos de pão, perpassando por explosões e roubos, até a transformação dos dois meninos em algo inacreditável, faz termos em mente aquele velho provérbio cristão: “aqui se faz, aqui se paga”. Ficando um pouco evidente que a história possui influências cristãs. A própria moral do livro contribui para esse pensamento, quando os personagens falam sobre o que ocorre no final.


Assim, podemos voltar ao texto inicial de Defoe, quando acabar por recomendar a narrativa que ele cria:

"... O livro é recomendado: como obra em que cada uma das partes pode ensinar algo, e de que se podem extrair algumas justas e piedosas conclusões, por meio das quais o leitor se instruirá, se desejar aproveitar-se delas."

Tendo eu uma tendência a separar obras que possam servir para a formação de meus filhos, aproveitarei, com certeza, o que encontro em Juca e Chico, pois ela é nada mais do que uma dessas histórias que é preciso conhecer e ter na ponta da língua para quando os nossos Jucas e Chicos nos pedirem para contar uma aventura intergaláctica ou qualquer coisa que remonte a um futuro ainda distante. E, ao final da noite, quando as travessuras se acabarem, e eles fecharem os olhos, poderemos ter “a paz afinal/ Mais nada. Ponto final!”.





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28 de julho de 2014
Noturno do Chile, de Roberto Bolaño

Noturno do Chile, de Roberto Bolaño



Fazia certo tempo que eu não ficava a refletir sobre algum livro que eu acabara de ler. Talvez tenha sido toda a névoa presente no livro, apesar da ‘claridade’ monologal com a que o narrador deixa evidente toda a história. Talvez eu esteja sendo um pouco infeliz ao afirmar que há claridade na fala de Sebastián, que sob um estado febril, quase em convalescença, tenta contar sua vida. Não sei se ele estava a querer rever o que havia feito de bom na vida, ou se apenas quis constatar os seus erros. O que sei é que pela primeira vez li Roberto Bolaño e algo me inquietou.

“a vida é uma sucessão de equívocos que nos conduzem à verdade final, a única verdade”

O livro Noturno do Chile é o primeiro livro a ser publicado no Brasil, de Roberto Bolanõ. O livro, que poderia ser uma peça de teatro ou um pequeno romance, parece se tratar de memórias que Sebástian, um padre que ensinou marxismo a Pinochet e seus generais, quer relembrar tudo o que vivei antes de sua morte. O padre, que narra toda a história, é o responsável por nos mostrar um pouco do Chile nas épocas em que Salvador Allende esteve no poder e quando do Golpe de Estado de Pinochet.

Em toda a narrativa só existem dois parágrafos, um enorme de 120 páginas e uma única frase ao final, separada de todo o resto, onde fica nítido o estado febril em que se encontra o narrador. As cinquenta primeiras páginas, que trazem seu encontro com o crítico fictício Farewell nos dá um panorama da literatura do Chile e de alguns outros países. Conhece, na casa do crítico os poetas, que realmente existiram, Salvador Reyes e Pablo Neruda.

Essa primeira parte do livro, modorrenta e com apenas alguns vislumbres literários como na maneira de narrar , quanto à escrita, foram me deixando inquieto, sem saber se deveria ou não continuar a leitura. Contudo, aos poucos, quando vamos tomando conhecimento um pouco mais da personalidade de Sebástian, parece que estamos ao seu lado, querendo ouvi-lo, desejando saber o que lhe ocorrera quando jovem. A quantos enterros de poetas, como o de Neruda, haveria ele ido, ou de que maneira ele passou pela Ditadura de Pinochet.


Até que, de repente, nos damos conta de que estamos o observado através dos “Dois espelhos, em molduras de madeira folheadas a ouro”, enquanto ele espera inquieto e trêmulo a chegada de seus alunos. Os culpados dessa empreitada seria os senhores Oidó e Oidem, que antes haviam sido responsáveis pela ida do padre até a Europa para estudar a importância de se fazer a restauração das imagens pintadas nas igrejas do Chile. Assim ele entra em mundo que não lhe pertencia, uma vez que estava sempre ao lado de escritores e críticos literários, lendo e escrevendo suas resenhas para publicação.

Com certa apreensão, acaba se preparando, em uma semana, para encontrar o Estado-Maior e lhe ensinar sobre Marx, Engels e Marta Harnecker, esta que acaba sendo delatada pelo padre ao dar os seus ensinamentos sobre o marxismo. Para os senhores Oidó e Oidem, Sebástian era a pessoal ideal para poder ministrar tais aulas e fazer com que o General conhecesse os seus inimigos, que não eram pessoas cultas e muito menos informadas sobre o mundo, como afirmou Pinochet.

Porém, apesar de estar no centro do maior círculo político de sua época, a participação de Sebástian parece ser ínfima com os ensinamentos que havia passado e não nos parece que esse seja também o foco do delírio das memórias do padre. Na realidade, não acredito que ele tenha alguma preocupação, uma vez que delira e que apenas conta o que vai lembrando. Os anos se passam rapidamente, e o estilo da escrita de Bolaño é positiva neste quesito, uma vez que não nos damos conta e a narrativa flui de maneira agradável e sem mais dissabores, pois estes estão apenas nas palavras de Sebástian.

Palavras essas que futuramente vão se encontrar com María Canales, outra escritora que recebia em sua casa diversos artistas e que em seu sótão escondia as vítimas torturadas por seu marido que eram a favor da ditadura de Pinochet.

Este último episódio passa, ao menos pra mim, como algo sem mais importância, porém parece que algo ficara para Sebástian, pois o seu reencontro com María, tempos depois, enquanto esta se encontrava na penúria e abandonada pelo marido, que havia sido preso nos Estados Unidos, é algo que tenta mostrar algo mais profundo da alma de Sebástian como padre, como ser humano. Mas diria que não passa de uma sensação velada, como se Sebástian tivesse culpa dela ter permanecido daquela maneira, como se ele houvesse contribuído, de alguma forma, para que María Canales estivesse como está, e agora tenta aconselhá-la para que siga sua vida e recomece do zero com seus filhos.

A partir deste ponto, as frases começam a se embaralhar e o delírio de Sebástian fica presente no final do livro, perguntando por seu amigo Farewell que morre, e que estava antes se esquecendo das coisas e tornando-se um pouco delirante. Assim como o crítico amigo, o padre vai chegando ao seu fim, perguntando-se ele agora é o “jovem envelhecido”, como chamava ele a Farewell.

Assim finda o livro, e a minha inquietação é sobre toda a história, sobre qual sua importância, por quais razões Roberto teria escrito esse texto. O seu estilo narrativo realmente é de surpreender o leitor, principalmente nos momentos em que dá às vezes aos personagens para que falem em diálogo com Sebástian. Mas ainda assim a história parece não me convencer. O padre parece não ser tão profundo como deseja ser, parecendo um homem normal, com perguntas quase que existencialistas. Uma personalidade no mínimo superficial ou perdida, não sei bem. Mas talvez seja isso o que vem agradando aos críticos e aos leitores. Uma amostra de até quem deveria saber um pouco mais da vida não sabe nada, que também se perde entre os delírios sóbrios, enquanto dá aulas ou enquanto visita igrejas europeias. Sebástian é todos os homens perdidos, todos aqueles que acham ter encontrado um ideal para viver, um motivo, mas que na verdade estiveram sempre a desvairar à luz do dia.




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14 de julho de 2014
Não esqueci de como voltar

Não esqueci de como voltar



A verdade é que tenho lido, ultimamente, muita literatura contemporânea. Às vezes, sinto inveja de mim mesmo quando lia apenas os clássicos universais. Aos poucos, fui observando que se fazia necessário acompanhar a produção nacional, nada fácil de se conseguir. Porém, novas veredas foram se abrindo, novos romances, novos autores foram surgindo e acabei por me ‘perder’ entre a literatura contemporânea nacional e de outros países.

Não é nada fácil acompanhar os lançamentos das grandes editoras e não tem sido fácil, também, acompanhar os autores editados pelas pequenas editoras. Os escritores são muitos e a dificuldade para ler devido ao tempo é enorme. Por isso tenho que estar sempre atento ao próximo livro que irei ler.

Entre as escolhas que faço, há sempre dois autores que me fazem parar qualquer obra que eu esteja tentando ler. Valter Hugo Mãe, talvez o meu escritor predileto, hoje em dia, e segundo o chileno Alejando Zambra, que com uma escrita ‘maliciosa’ enraizou-me em seus vasos feitos para Bonsai, são os autores que realmente chamam a minha atenção. O primeiro por cuidar de temas que me interessam profundamente e que deveriam interessar a todos. O segundo por ter inventado uma nova forma de escrita que prende, com um tom intimista que não transborda e nem deixa a desejar.

É difícil, em meu ponto de vista, não querer terminar um romance do autor chileno. Tendo em vista que os seus dois primeiros romances publicados pela Cosac Naify – Bonsai, 2012, e A vida privada das árvores, 2013 – são livros curtos, parece-me que Zambra vai, aos poucos, desdobrando a sua escrita, chegando agora a pouco mais de 150 páginas para nos contar uma nova maneira de voltar para casa, para os sentirmos bem.

Formas de voltar para casa é uma obra pode ser tida como um livro de memórias ou uma narrativa dramática. A infância perdida, relembrada a partir da história recontada por Claudia ao narrador e autor do livro, nos leva a um Chile que se escondia sobre a ditadura de Pinochet. Assunto que, aparentemente, ainda é difícil estar presente entre obras atuais, principalmente no Brasil, onde a população parece ter esquecido que esse regime existiu.

A obra do autor chileno nos conduz a um lugar esquecido entre os dedos gastos pelo cigarro da mãe do narrador, que se esconde do marido para fumar, e que pela falta do filho fica a repetir, sempre que se encontram, o quão bom seria se ele não tivesse ido embora.

Saí de casa há quinze anos e mesmo assim ainda sinto uma espécie de ponta estranha ao entrar neste cômodo que era meu e agora é uma espécie de despensa. No fundo há uma estante cheia de DVDS e os álbuns de fotos encurralados contra meus livros, os livros que publiquei. Acho bonito que estejam aqui, junto às lembranças familiares.

O narrador, ao qual o leitor não deve acreditar que é o próprio Zambra, pois de certa forma tudo é ilusório, conta parte da história da sua vida. Sozinho, ainda separado de Eme, relembra a história de Raúl e de Roberto. Homens estes que estão ligados à história de Claudia, na verdade é o mesmo homem, e que Claudia só contará a Aladino, como chamava o autor do livro anos depois, quando se reencontram, e quando Rául e Roberto estão mortos na mesma cama.

A volta de Claudia representa no decorrer da narrativa uma volta ao passado, a mesma que Aladino busca enquanto escreve o livro, este mesmo livro que Zambra intitula como Formas de voltar para casa. Essa volta ou busca pelo passado dói aos dois. Porém, parece que Aladino está menos preocupado com tudo isto, pois já tem consigo como irá terminar. Claudia, por outro lado, com uma mente inquieta, deixa o narrador na sombra, enquanto dorme, tranquilamente, no quarto antigo de Aladino na casa de seus pais.

Essa relação busca, mesmo que levemente ou profundamente, mostrar aspectos políticos que ocorreram no Chile. De forma que em certos momentos, nos diálogos, fica visível a importância que o autor, Zambra ou Aladino, dá-dão a este tema:

Não posso evitar perguntar a meu pai se naqueles anos ele era ou não pinochetista. Eu perguntei isso centenas de vezes, desde a adolescência, é quase uma pergunta retórica, mas ele nunca admitiu – por que não admitir, penso, por que negar durante tantos anos, por que continuar negando?
Meu pai guarda um silêncio áspero e profundo. Finalmente diz que não, que não era pinochetista, que aprendeu desde menino que ninguém ia salvá-los.
Nos salvar de quê?
Nos salvar. Nos dar de comer.
Mas o senhor tinha o que comer. Nós tínhamos o que comer.
Não se trata disso, diz.

Talvez não se trate disso que o autor tem em mente. Não falar da ditadura, mesmo quando relembrando o passado, ainda seja complicado para quem a viveu e pode a entender. Talvez Raúl e Robert, que eram a mesma pessoa, poderia ter tido uma melhor aparição no primeiro capítulo do livro, chamado Personagens secundários, mas talvez o que importe mesmo é a infância que ocorria enquanto os adultos viviam uma história muito diferente da deles. Aladino e Claudia parecem estar perdidos num tempo em que sua geração ainda não se acostumou a viver em paz.

Diminuir, porém, o livro a apenas aspectos políticos não é o mais interessante. Observar a maneira como a construção da história se desenvolve é instigante e nos devora, de uma maneira que nos faz esquecer como voltar para casa, para a memória. Ao mesmo tempo, leva-nos a rememorar o que acontecia em nossa época de infância, enquanto brincávamos e o mundo se automutilava. Talvez seja mais interessante observar a ausência de presente nesses personagens, os quais parecem necessitar do passado para viver, como a mãe de Aladino. Parece que tudo, atualmente, está tranquilo, mas as crianças crescem e brincam enquanto os países se fazem em pedaços.




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30 de junho de 2014
Quando a qualidade vira quantidade

Quando a qualidade vira quantidade




É difícil ver nas livrarias um novo autor, principalmente os que são publicados por pequenas editoras, que tenha por trás da publicação de seu livro um verdadeiro poder de marketing, mas eles existem. Sabe-se que sem a publicidade, hoje em dia, muitos autores ainda estariam esquecidos e nunca teríamos tido notícias deles. As pequenas editoras sabem disso e por isso não compram corridas contra as grandes editoras. Daí, um questionamento poderá surgir entre muitos leitores e críticos: Até que ponto a qualidade do livro, da escrita é levada em consideração?

A qualidade literária parece que vem sendo um problema para os novos autores e não falo isso com pretensão de afirmar como se deveria escrever, mas que realizando comparações de leituras feitas por mim, percebo que não há preocupação com a linguagem e com o que se faz nas estruturas narrativas que surgem em nossa literatura. Os nomes que despontam no cenário literário brasileiro, muitas vezes, deixam a desejar. Parece que a análise de um livro, atualmente, é feita a partir da badalação que é feita em torno da obra, o que acaba por iludir até os mais perspicazes. Estamos todos à mercê.

O que contribui ainda mais para que isso continue a se desenvolver é, por exemplo, pois não é apenas uma, a questão dos prêmios literários, que corroboram, muitas vezes, com livros que estão presentes, quase que constantemente, na alta mídia. Sejamos sinceros, quem aparece quer ser visto, neste caso, quer ser lido. E, ao contrário do que dizem, prêmios valem muito. Dizer que apenas os medíocres buscam vencer um concurso literário é algo ultrapassado e um argumento pífio. Pois um autor premiado chama a atenção das grandes editoras e, principalmente, do público. Coloque-se um selo na capa do último livro vencedor de qualquer grande prêmio literário e veremos que, possivelmente, sua venda irá disparar.

Talvez alguém questione apontando que isso não é verdade. E assinarei embaixo. Não é sempre que isso ocorre, principalmente se o autor estiver sendo publicado por uma pequena editora. Mas sejamos sinceros e capazes de admitir que um autor que chega numa final de um Prêmio Telecom, por exemplo, tem consigo a certeza de que seu livro venderá mais algumas dezenas e que seu bolso, aleluia, irá sentir o gosto do dinheiro um pouquinho a mais. Não que o escritor seja louco por dinheiro, para muitos escrever é uma profissão, daí a felicidade ao ganhar um prêmio literário, de preferência aqueles que ao final dão um cheque.

Questiono-me, assim, sobre o que realmente importa em uma nova publicação. Seria a quantidade ao invés da qualidade? Importa saber quantos prêmios determinado autor venceu ou saber quantos milhares foi investido para que o seu livro vire um best seller?

Em ambas as hipóteses, acabo por achar que o bom senso fica de lado e deixamos o mercado do capital ganhar essa corrida. Os leitores ficam submetidos a esse sistema e acostumados a ele. Assim, ler autores que são publicados por pequenas editoras ou que se autopublicam vira um problema no Brasil. Para alguns, eles não são quase nada, pois não têm investimento e muito menos ganharam prêmio algum, com certeza eles não escrevem bem, por quais motivos deveríamos comprar sua obra? 

No final das contas, parece que a culpa é da pequena editora, ainda desconhecida, que, apesar dos trabalhos hercúleos que realiza, é menosprezada. 




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23 de junho de 2014
A desumanização, de Valter Hugo Mãe

A desumanização, de Valter Hugo Mãe




Os grandes escritores são aqueles que cunham uma linguagem própria e que conseguem manter sua identidade por praticamente toda a sua obra. Pois bem, “A desumanização”, de Valter Hugo Mãe, é um desses livros que vêm para solidificar a escrita de um autor português que repete, em seus textos, a maneira de escrever e os temas que lhe são caros.

Apesar de Valter Hugo Mãe, em suas entrevistas, afirmar que suas obras, sua escrita, a cada livro, possui uma nova linguagem, uma nova “maneira de ser”, é possível observar que a fluidez das palavras, o som delas é algo constante em todas essas linguagens inventadas para a construção de suas narrativas.

Parece que, a todo instante, o autor está preocupado em dar novas “formas” ou novos significados não somente às palavras, mas às maneiras de se perceber o que existe a nossa volta. Isso se dá, muitas vezes, através das observações feitas em torno de Halla, a criança que se desumaniza: “Ela achava que deus era o corpo deitado da Islândia”. Tentar poetizar deus no país onde a personagem nasceu é uma maneira de universalizar, talvez, a crença no infinito partindo de algo finito e, principalmente, terreno. Valter tenta poetizar o que talvez seja impossível e ao mesmo tempo uma das coisas mais poéticas de toda a existência humana: a vida.



A vida que não é mais da criança, pois a mãe lhe culpa pela morte da irmã gêmea, mas tem no pai a poesia na palma da mão, que não se perde, mas sempre esquecida em recortes de papéis jogados nos abismos das almas, essas que não se salvam frente à imensidão e da força do frio da Islândia. Parece que Halla vive como seu país, num estado catártico em que não é possível conceber sua própria alegria, como se a mortidão do cenário existente estivesse presente em si desde o momento da perda da irmã. É como se o calor concebido a dois não pudesse mais existir, mesmo que com o Einar, seu amante, pudesse se deitar à cama, mesmo sem ter idade ainda para tal. Assim, Halla, quando quer fugir de si, imagina que “Os mortos podem ser só um instrumento da morte. Como se existissem para aumentar o reino terrível que habitam”, pois as pessoas já não mais existem, e por isso ela deseja deixar o Einar e correr para o abismo, como se a fuga fosse necessária ao invés de viver, pois no mundo da Islândia, apesar das pessoas tentarem se amar, elas não existem assim como no resto do mundo, pois as pessoas “estão a acabar. Foram embora para dentro da memória. Foram-se ressentidas. Agora são apenas uma recordação, como serão também uma possibilidade.”, já que “Esse tempo é outro. Serve [apenas] para matar”.

Leia Entrevista feita com o autor AQUI


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16 de junho de 2014
Mas o que é ser independente?

Mas o que é ser independente?



A pergunta pode ser cabulosa. Quando fiz essa pergunta a mim mesmo, há algum tempo, eu não entendia nada de mercado editorial, não sabia como se editava um livro, quais eram as etapas que o compunham. Também não sabia que era possível um autor desconhecido conseguir ser publicado por qualquer editora, seja ela grande ou pequena, eu nem sabia o que era uma editora. Porém, a bola azul gira, e quem tem boca vai a Roma, não é assim?

Aos poucos, fui entendendo como se dava o processo para a publicação de um livro. Foi em conversas com desconhecidos, através da internet, e de cursos que me “profissionalizaram” a ser editor, que entendi como se dá todo o desenvolvimento da criação de um livro a partir do momento em que se recebe um original para ser aprovado ou não.

Esses processos são os mais importantes e que, muitas vezes, o autor desconhece, acredita que é simplesmente enviar o original, seja ele impresso ou em arquivo do word, que a editora irá publicá-lo. Tola loucura. Seja ele um Homero ou um Chacal, a verdade é que todo autor passa por críticas e sua obra sempre leva alguma bofetada, ou várias, antes de sair da prensa. Até lá são muitos os processos.

Desde o momento de análise, passando pela revisão e pela preparação do projeto gráfico do livro, até o momento da venda – um momento muitíssimo importante – são muitas as agruras e venturas de editar um livro. Eu, novo no pedaço, que o diga. E o que mais me chama a atenção, hoje em dia, é uma pergunta que me jogaram assim "no meio dos peitos": O que é ser independente?

Parei e pensei durante uns dias e não sei se achei bem a resposta. Alguns amigos editores acreditam que ser independente é não nos entregarmos ao comércio livreiro, que nos assaltam a mão armada - a violência está em todo lugar - com percentagens enormes, diminuindo, ao meu entender, todo o trabalho realizado em prol de lucro. Esse ponto por si talvez já bastasse. Mas há ainda a questão de publicar quem a editora desejar sem se importar muito com a reverberação que o livro terá, uma vez que o editor independente quer apenas ter o autor  compondo seu catálogo ou apenas ajudar a um escritor amigo a ter o seu livro de poemas ou contos publicado. Ele não quer uma carreira de escritor, é apenas um desejo de três, entendeu?

Porém, apesar disso, acredito que uma editora independente não deve e nem pode deixar de lado a questão da venda. Sim, da venda! A venda, não, não venha apontar o dedo pra mim sem antes ler o resto do texto, é o momento crucial e mais importante de todo esse processo para as pequenas casas editoriais, ou como uma jornalista preferiu chamar “editoras fundo de quintais”; somos quase uma banda de pagode, então, e olhe que com certeza nos daríamos bem se participássemos do mercado.

Mas, realmente, vender o livro é o mais importante? Sim! Para uma editora independente vender o livro é mais importante, pois só assim ela se mantém e é possível publicar novos escritores. E continue a ler o texto pra não ter uma ideia errada do que estou escrevendo e de mim e achar que estou a concordar com a questão do lucro. Não é isso.

Tudo isso não quer dizer, em hipótese alguma, que o conteúdo dos livros que são publicados por essas pequeninas casas editoriais é irrelevante. Pensar assim é pensar pequeno e desconhecer o mínimo que seja de comércio. A editora independente tem uma vontade de poder ser livre e fazer o que bem entender, porém como todo santo cidadão ela tem suas contas para pagar e o editor precisa se manter, ou vocês acham que ele vive de páginas e capas duras, onde a saúde está fundamentada em uma dieta rica em fonemas?

Brasileiro que é brasileiro sabe que vivemos na terra do imposto. E apesar dos livros serem isentos em alguns pontos, o comércio livresco mata a pauladas, como se utilizassem aqueles mosquetes elétricos para matar moscas ou pernilongos. Ter uma editora independente, hoje em dia, não é nada fácil, é quase um suicídio! Contudo, é algo que vem acontecendo, ao longo dos últimos anos, no Brasil. Talvez nessa última meia década com muito mais força, ou como nunca aconteceu antes na “terra do samba e do futebol”, não sei, ainda não parei para ler toda a história da editoração de nosso país. Mas é certo que são muitas as editoras pequenas que nascem, não crescem e morrem atrofiadas pela falta de incentivo de todas as partes, não apenas do governo, mas pela concorrência desleal que as grandes livrarias e a própria mídia exerce com o marketing pesado ao qual as "fundo de quintal" não possuem. Mas não esqueçamos dos leitores, eles são o ponto crucial nesse sistema, pois se a venda é mais importante é tão importante ter o leitor. E não deixemos de fora, também, os próprios autores publicados, que querem ver os seus livros publicados, querem ver seus livros serem lidos, participando de prêmios, que todos o comprem para em breve poder publicar um outro livro por uma outra editora independente desejar publicá-lo, enquanto ele, autor estreante, não dá a mínima para outras obras que estão no prelo e em breve ficaram a disposição para venda. Mas isso já é outro assunto e deixo isso para um outro texto.



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14 de abril de 2014
Editora Substânsia - Uma nova editora, uma nova percepção

Editora Substânsia - Uma nova editora, uma nova percepção



Um novo projeto surgiu. Desde o início, o que eu desejava era apenas guardar memórias com minhas resenhas, mas agora, depois de quase 2 anos de atividade com o Blog Literatura Br, consegui, com ajuda de dois amigos, colocar mais um sonho em ação. Aos que procuram publicar o seu livro, surge uma nova editora: Editora Substânsia. A editora pretende trazer novas percepções para o cenário editorial brasileiro, contribuindo efetivamente para o desenvolvimento das artes. Assim, residindo em Fortaleza - Ceará, uma nova vereda na Literatura foi aberta. Sejam todos bem vindos a participar deste novo projeto. Abaixo segue o release da editora:

Não é possível escrever sem plasmar no papel as impressões que existem em cada um de nós. A ânsia, que se forma em nosso íntimo, é algo que move os escritores a criar mundos e contar histórias, que não se perdem, se transformam. É com esse pensamento que surge a Editora Substânsia, como uma vereda no meio do sertão que nos leva ao poço.

Editora Substânsia foi criada com o intuito de publicar livros de autores contemporâneos, nos mais variados gêneros, e perspectivar novas condições de diálogo entre os criadores brasileiros das mais variadas artes; abrindo novas possibilidades no mercado editorial brasileiro. A exemplo de outras editoras independentes, o que nos move é a paixão pela literatura, o prazer de editar livros e criar elos que fortifiquem a intelectualidade dos novos escritores, reconhecendo a contribuição dos que buscam firmar conteúdos de qualidade, abertos para o debate colaborativo.

Idealizada por Nathan Matos, em parceria com Madjer de Souza Pontes e Talles Azigon, a Editora Substânsia pretende contribuir para a ampliação de um cenário literário, ainda escasso, no Ceará. A independência na edição surge não como uma única possibilidade, mas como uma linha editorial a ser seguida.

A ideia de montar uma editora não surgiu do nada, foi um processo lento e demorado, discutido e pensado desde que tivemos a concepção de que necessitávamos contribuir para a difusão de novos escritores seja nas mídias virtuais, seja com a publicação física dos textos que nos chegaram e continuam chegando!

Os editores já atuavam no campo literário, seja escrevendo ou participando e inventando eventos para divulgar a Literatura, incentivar escritores, poetas, ensaístas, contistas, enfim... todos aqueles que de uma forma ou de outra estiveram interessados na concepção do diálogo para a produção literária.

Os três editores, em constantes conversas – em mesas de café ou de bar – pensaram e resolveram se unir para publicar os seus próprios livros, porém, a ideia ganhou energia suficiente, depois de um longo processo de amadurecimento, e decidimos fundar a Editora Substânsia para publicar outros novos autores que, sem dúvida, compartilham do mesmo sonho que dividimos.

Foi da ânsia de fazer e de trabalhar com o que mais gostamos que fundamos a Substânsia.

Esperamos que possa dividir esse Sonho conosco! 

Um abraço,

Os editores

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7 de abril de 2014
O nosso dia de viver

O nosso dia de viver



Acredito piamente que a imaginação é quem deve comandar o escritor. Contudo, ela não deve estar só. A literatura, na minha percepção, deve e não deve servir para alguma coisa. Ela pode apenas ser objeto de fruição, mas se esse objeto puder contribuir, também, para que possamos refletir um pouco mais sobre o que acontece conosco, interiormente e externamente, acredito que é algo que se deva ter em consideração.

Há quem diga que a literatura não deve servir para nada, e há quem afirme que deve. Não pretendo discernir sobre essa questão, porém, nenhum dos dois lados está errado. Contudo, a literatura é muito mais ampla do que limitações como essas. Uma obra que se propõe a nos fazer sentir, através da catarse, algo que acontece diariamente e que ao mesmo tempo possui sua beleza para que haja fruição deve ser colocada em outro patamar.

E essa catarse, a qual comento, é sempre difícil encontrar, senti-la. Fazer que o leitor se sinta refletido no texto literário e que ele possa sentir na pele, o que está no significado das palavras e na criação das imagens é sempre algo que nos faz voltar o olhar para quem as cria e as subverte para que a emoção flua da maneira mais pura possível.

Digo isto porque “O dia de viver”, de Maik Wanderson, jovem escritor, que publicou seu livro pela Editora Penalux, fez que eu sentisse algo que não podia sentir já a algum tempo, principalmente em um livro de contos.

Formado por quinze contos, “O dia de viver” é uma obra que mexe com o consciente humano e nos faz colocar em lugares distantes, mas parecidos e, talvez, diretamente relacionados ao interior do sertão brasileiro. Entretanto, os temas que surgem nesses contos evidenciam o que pode ser constatado em todo o território nacional. Suas misérias, suas dores e desalentos são constatados, muitas vezes, nas almas ainda pouco vividas e em outras tão mal tratadas, como as que se personificam, em vários contos, na figura da mãe, que sozinha tem de dar comida aos filhos, cuidar da casa e trabalhar.

Essas dores que surgem parecem querer apontar apenas para um horizonte possível, como se o dia de viver fosse o último dia em que estamos prontos para enfrentar a morte, como se a pressentíssemos e mandássemos os filhos para longe, para que não seja possível que eles nos vejam morrer, ou como se fosse a única solução para a dúvida existencial que possuímos.

O livro de Maik Wanderson tem enfoque na morte, mas não é ela apenas a protagonista dos ambientes em que os preconceitos e as dores surgem. A dor está presente quase que em todos os contos, não digo todos devido às várias interpretações que poderão surgir quando lidas as histórias que ali se encontram. O autor vê na infância a possibilidade de representar uma dor de existir, uma dor que surge ao tentar se conhecer humano, entre as idiossincrasias dos pais. Da mãe que quebra os objetos, que representam a felicidade momentânea, como a representada em A visita até Na hora do anjo, onde algo é presenciado por todos sobre uma mesa, deixando o leitor espantado e com certa sensação que não consigo definir, se de estranhamento ou de desassossego, como pontua Denise Noronha, responsável pelo posfácio do livro.

Assim, o que consigo retirar da obra “O dia de viver” é que as histórias que ali estão não são de emoções curtas, como bem coloca Eça de Queirós em suas correspondências, quando diz que o conto é o gênero responsável por tais emoções. A sensibilidade exercida e apreendida pelo leitor, a cada conto lido, é sem sombra de dúvidas como se um trator nos estivesse a atravessar. Um peso, que vem do conhecimento social que nos rodeia, é colocado sobre nós, pois traz consigo uma carga de realidade imensa, que talvez para alguns não seja possível conceber, tendo que a cada nova leitura se sinta obrigado a fechar o livro para poder refletir sobre o que leu, para entender um pouco mais sobre a sociedade em que vivemos.


O livro de Maik Wanderson é uma obra em que põe o ser humano em questão. Que levanta as causas do que nos leva à morte. É essa realidade, formada por nós, que possibilita a nossa alma se desencontrar. É como se não soubéssemos quando será o nosso dia de viver. Daí acharmos que a morte é a solução para nossas dores.
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