Sem importância coletiva (I)
Talvez
não ter importância seja o melhor a se fazer ou o melhor a se ser. Talvez a
coletividade vise isso, a falta de importância de nós mesmos. Deveríamos começar
a nos acostumar a viver na Zona em que vivem os personagens de Daniela Lima,
autora de Sem importância coletiva,
editado pela e-galaxia. Deveríamos ser apenas um “biorôbo”, sem nos emocionar
ou sem nos lembrar como é sentir o nosso próprio corpo.
Fazer
perguntas sobre a Zona é não mais sentir, é começar a fazer parte de um modelo
quisto pelo Governo, pois só é possível ser herói n’A cidade modelo, pois “A
cidade modelo é reflexo de tudo aquilo que o governo queria que representasse o
sistema”. Além dela não há nada, “Não há vida”.
Acabando
de ler o ‘desconforto literato’, nome que invento agora para poder falar sobre
o livro de Daniela Lima, fiquei a pensar, sem sentir o corpo, momentaneamente
desligado, tentando fazer relações a outras diversas narrativas e outros
diversos pensamentos que tenho comigo acabei me perdendo. E, apesar que digam
que é bom se perder, não gosto de estar perdido, não gosto de não sentir por
qual caminho devo enveredar.
Esse
desconforto há certo tempo não me incomodava. Sem importância coletiva mexe com temas que me são caros e que
acredito terem mudado minha maneira de entender o mundo, a partir de leituras
de livros como 1984. Não sei o livro
foi baseado em distopias, como a de Orwell ou Zamiátin, mas a verdade é que
sofro ao ler livros assim.
Ainda
assim, em meio a narrativa de como vive a cidade modelo, de como está
instaurada a Zona e os homens, serão mesmo homens?, na cidade modelo, a
escritora, ao mesmo tempo, está inserida nele como alguém que também não possui
alguma importância coletiva. Assim como a repórter chegará o momento em que ela
não sentirá nada e se transformará em um monstro “capaz de dar corpo ao que
antes era vazio”. Porém, o vazio de antes talvez seja o preenchimento que
vivemos agora, e eu não sei.
Esse
texto deveria ser para tentar esclarecer essa obra, mas acredito que ainda
estou tentando me descontaminar da leitura deste livro. Espero que a
contaminação da escritora sem importância coletiva não tenha ainda viralizado e
chegado aos leitores ou críticos de sua obra. O que sei apenas é que ler o
livro de Daniela Lima é estar perdido, e sentir, ainda, a necessidade de o
reler e talvez o reler e o reler, como se fôssemos o visitante que vai até a
Zona e que, talvez, não possa mais ir embora. Talvez fiquemos presos à leitura
de Sem importância coletiva e assim
fiquemos, por alguns anos, até que sejamos enterrados vivos. Afinal, viver é
simples, como a leitura de um livro.

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